quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O Próximo

Há que se levar em conta a nossa proximidade. Então será que é você a quem devo amar como a mim mesma, num gesto praticamente cristão? Se for assim, Próximo, tenho que te amar do jeito torto – com altos bipolares e baixos ciclotímicos que conheces bem – de uma forma que demorei a compreender que era o melhor de mim. E se eu te amar da maneira louca como amo a mim, Próximo, é porque te ofereço o que há de mais intenso correndo nas minhas veias. Um sangue latino, que não hesita em se aquecer, é bem verdade. Mas bombeado por um coração apátrida, que não paga imposto para se doar. 
Por um lado lamento, Próximo, que venhas logo depois de tantas histórias interrompidas abruptamente, na sequência das minhas decisões anteriores de partida. Lamento, Próximo, que eu não tenha como te oferecer promessas amenas, reticências ou vírgulas, mas apenas a continuidade de uma história em direção a um ponto, torcendo para que um de nós possa contá-la com saudosismo agridoce: “Eu fui o Próximo”.
Quero ter certeza que o seu Próximo beijo seja meu. Sempre meu Próximo, num ciclo de eterno retorno capaz de aquietar minha sede pelo novo. Caberás na minha ansiedade pelo que virá, e por isso também caberás nas minhas expectativas. O Próximo passa a ser o próprio novo quando cura o vício da saudade de coisas não vividas que me acostumei a ter. És tu, então, a quem devo amar como a mim mesma? Num amor que não precisa se curar com o Próximo, porque este provoca a sensação de véspera do encontro quando se reinventa para reinaugurar o amor tão meu...
Quero ter certeza que meu beijo seguinte seja do Próximo. Que haverá Próximo para soprar o joelho ralado dos tombos que o antecederam, que haverá Próximo para soprar em meu ouvido que ficará por perto por muito tempo, quando a presença do Próximo, por si só, trouxer consigo a cicatrização das feridas. Tu, que vieste antes de poder ser e agora já é. Tu, que estás perto a todo tempo. Que venhas também depois, para repelir toda distância. Espero o Próximo, para um reencontro estelar, aguardado, anunciado em algum mandamento que nunca precisou exaltar as boas intenções para ser cumprido.
Obedeço: Te quero Próximo. Te quero, Próximo. Que sejas o meu Próximo até que se acabe a sensação de que, aos poucos, a memória vai trair tudo que veio antes de ti por ti. Até que sobres apenas tu. Concentrando, ao ser, o que já foi e o que ainda será. O antigo, o atual. E sempre o Próximo.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Desde antes

Meu bem, desde quando eu sou de alguém?  Bicho solto, cão sem dono. Meu bem, desde quando eu sou tua? De onde e quando brotou essa vontade insana de subir a tua rua?

Terá sido o útero homônimo? Um laço materno que traça o destino, como o Cazuza anunciou. Terá sido o equívoco registral, que nos lançou ao mundo sem acento, menos graves do que deveríamos? Terá sido a tonicidade que a vida imprimiu em nós depois das certidões teimarem em nos querer átonos?
Será que foram os dentes separados na frente ou os risos indisfarçáveis ao ver o outro sorrir? Foi a guitarra imaginária que faz solo na música tema da minha falta de lucidez, ou teu excesso de disposição em ficar do meu lado no choro incontido dos meus lampejos de sanidade diante da vida? Pela displicência da camiseta decotada ainda vestida ou pela roupa suja? Será que foi um tropeço nas coincidências ou a retomada do equilíbrio, meu bem? 
Maktub? Terão os nossos destinos sido escritos como paralelas que se cruzam ou que em certa altura se transpõem para um desejado "sempre" na mesma linha e sem trem nenhum? A força bruta e instintiva de uma sala escura ou a sutileza de uma sala de vidro?
Direito ou uma vida amorosa que de um jeito ou de outro sempre esteve na nossa esquerda? Será que foi quando nos distraímos que a sorte veio pra ficar? Será que fomos prático e romântica até colidir e alternar os papéis por uma vida mais leve?
Será que todo mundo sabe e finalmente a gente percebe? Será que a gente sempre percebeu e deixou o tempo agir ou será que o tempo age sem que a gente se dê conta? Terão sido as manchas de nascença no corpo ou as pegadas manchadas na alma? Desde quando nasci para tomar emprestadas de ti as forças e te oferecer meus excessos e a segurança?
No fim, a gente também se pergunta. Acredito que foi desde antes. Não sou grande o bastante pra ter determinado o início, por isso creio quase sempre que grandezas desse gênero me antecedem. Eu e você: Foi desde antes. Não sei o que nem por que, mas foi desde antes. Tão enorme que já era antes de ser. E ao ser como é, respondem-se todas as perguntas. 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Viveiro

Quando eu era pequena, nos fundos da nossa casa meu pai construiu um viveiro bem grande e encheu de canarinhos do reino. Recebíamos amigos e visitas que pareciam entendidas de passarinhos para admirar nosso viveiro e, especialmente, nossos bichos. Não lembro por quanto tempo manteve-se o hábito. Quando eu tinha onze e nos mudamos, já não havia mais nenhum cantador na nossa casa, motivo pelo qual a lembrança me remete à doçura da infância. O viveiro ficava ao lado do pé de limão e duas das faces eram o muro alto e uma parede, as outras três eram tela, tramada bem fininha com fios de arame. Nosso viveiro confinava com o terreno do vizinho dos fundos. Chegava-se lá passando por um trecho de grama e, caso me esforce, eu consigo sentir o cheiro do lugar até hoje.
Canários do reino são passarinhos exóticos que, não fossem os criadores, já estariam extintos. É por isso que, ao que me consta, é possível criá-los legalmente em cativeiro, hoje em dia, mas não sei se na época também era assim. Não sei se eles viveriam bem, ou mesmo sobreviveriam se fossem devolvidos à natureza. Eu sei que é da natureza dos pássaros voar livremente por aí, mas os canários do reino que conheci até hoje gostam de gêneros aleatórios: Alpiste, vitaminas, ovos, couve, água. Tudo isso o meu pai sempre repôs com fartura.
Alpiste tem um odor muito característico, que estou sentindo agora, daqui de onde escrevo, já que meu pai retomou o hábito de criar uns canários do reino há poucos meses, trazendo três gaiolas para dentro do apartamento. Que foram prontamente exiladas pela minha mãe na área de serviço. Não dá para sentenciar que eu concordo com ou discordo disso, embora dê certa razão à minha mãe em censurar a sujeira que os bichos fazem.
No fim das contas, como este é um hábito que alegra o meu pai, e como é o mais próximo de animais de estimação que me permito ter depois de experiências traumáticas com três tartarugas, um collie e um vira-latas, eu me alegro também, mesmo sendo acordada com canários do reino virando o canto no domingo de manhã. Viraram membros da família, com apelidinhos e redobrada atenção.
Outro dia meu pai levou seus canarinhos para passear na Lagoa, onde tem muito verde e natureza, para espairecerem da selva de pedra. Se é que o centro de uma cidade do interior pode ser considerado selva de pedra. Que seja. Num descuido matinal na troca do bebedouro, meu pai deixou o branquinho fugir. O canário do reino branco. O predileto. O que canta melhor. O preferido do meu pai fugiu. Teria se perdido? Renegado os cuidados que lhe são despendidos? Teria o branquinho querido a vastidão da natureza? Não sei.
Mas logo meu pai viu o branquinho no topo de um pinheiro e esperou toda a tarde para que ele retornasse, com a gaiola aberta em cima do carro. Assoviou. Toda a tarde. Chamou. Toda a tarde. Fez ritual de reconciliação. Toda a tarde. Esperou. Toda a atarde. E como que por milagre, com o céu inteiro, com todas as árvores, bateu saudade do apartamento 224 e o canário do reino branquinho voltou para território em que foi possível recapturá-lo.
Esta é uma história que poderia ter muitas morais. O discurso sobre a liberdade é a mais intuitiva delas, mas eu não estou aqui para ser intuitiva. Eu só estou aqui para dizer que acho que meu pai não esperaria toda a tarde por nenhum outro canário do reino que já criou nesta vida, mesmo considerando os mais especiais que moraram no viveiro da antiga casa. E que, às vezes, as coisas pelas quais esperamos são correspondidas, e acontecem, e nos enchem de alegria, e por isso terá valido a pena esperar.
Quero ser viveiro de portas abertas, para onde o que é raro sempre pode voltar.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Licença poética

Escrevi um dos primeiros textos do blog - atualmente o primeiro, porque apaguei os que o antecederam - com catorze anos. Começo dizendo que na noite anterior havia chorado feito criancinha. E agora me foge a ideia de que ser adulto é segurar o choro. Aos catorze, torci o pulso. Depois daquilo desperdicei muitas chances de dar o braço todo a torcer. Naquele texto digo que gostaria de ser durona por dentro tanto quanto por fora, hoje em dia essa é uma das coisas de que eu mais tenho medo.
O texto se chama "Crise!". E tantas coisas melhores e piores me ensinaram o que era, de fato, uma crise - de tristeza ou euforia - depois dele. É um texto de dois parágrafos em que falo de mim na terceira pessoa, como se um pseudônimo amenizasse meu egoísmo. Como se meu orgulho fosse menos reprovável. Como se não desse conta de admitir que tinha vergonha de mudar de ideia assim, com minha própria assinatura. É curioso como fica claro que eu nunca tive disposição para consertar os erros amenos: Há nele um erro trocando "nomear" por "nominar", próclise sucedendo vírgula e vírgulas fora de lugar... Que nunca corrigi, porque foi assim que, à época, as ideias me vieram.
Na vida e na escrita, eu venho me concedendo a licença poética de uma adolescência mal resolvida.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Os únicos


Sai a luz, ainda é dia, ele se estira no sofá. Como se já não estivesse ali há dias. Como se fosse só o que faltava. Como se o sofá fosse um reduto pra sua solidão que grita, mesmo na minha companhia. Sem luz tudo faz mais barulho. Sai a luz, a televisão desliga sozinha e fica só a nossa distância imperando em todos os cômodos. Nossa falta de assunto e minha pouca habilidade de agradá-lo com as minhas pautas. Como se no escuro do dia nossa falta de proximidade brilhasse tanto que cegasse. Com energia elétrica, somos dois separados pela tecnologia, pelas obrigações, pelas distrações. No escuro, somos os únicos culpados por não haver aproximação.
Vou fazer o almoço. Feijão, arroz e ovo frito. Não é o prato preferido, mas o microondas não funciona pra descongelar a carne e, como de costume, deixei as coisas pra última hora. Espero haver tempo pra sermos mais cúmplices na última hora. Aguardo a palavra que derreterá a geleira de um homem estirado no sofá, mão na cabeça, inatingível porque absorto pelos próprios problemas. Vasculho a geladeira e sinto falta de cenouras... Eu que nem gosto de cenouras. E me ocorre que talvez Gessinger tivesse razão quando compôs que toda vez que falta luz o invisível nos salta aos olhos.
Minhas mãos estão atadas pelos fios elétricos que agora não conduzem nada e é como se estivesse algemada ao topo de uma torre de alta tensão, perigosa, em que tudo fizesse de mim um tanto medrosa: A queda, o choque, a distância. Impossível ajudá-lo daqui.
Entram pela janela raios tímidos da luz de um sol que não dará conta de aquecer o chuveiro, quando depois de tudo um banho frio me esperar. Precisamos despertar do transe, precisamos de uma insistência sem fé nenhuma, mas a força não volta. Esperamos que qualquer suicídio nunca rime com coragem, esperamos que à luz ou no escuro não fiquemos expostos, dilacerados como estamos pela vida, cada um ao seu modo.
Volta a luz, todos os eletrodomésticos religam e fazem seus barulhos, a experiência não se apaga. Retomamos a rotina de distrações iluminadas, mas ficaremos indelevelmente marcados pelo dia em que, sem luz e sem tato pra qualquer reaproximação, nos damos conta da fragilidade cotidiana de um amor que não supre a distância contida na mesma sala de estar.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O melhor de mim

Ônibus é matéria infinda do que escrever. Já falei, mas preciso repetir.
Sento sempre do meio do ônibus pra trás. Quando estou lírica, como hoje, prefiro um banco perto de uma janela que abre, pro vento bagunçar o cabelo e organizar as ideias. Acontece muita coisa num ônibus. Tem sempre muita gente diferente num ônibus. Preciso falar assim pausado pra processar bem todas as informações que me ocorrem.
Hoje uma velha me tirou do sério. Sou muito doce com idosos. Se eu digo velha, não é assim que eu chamaria uma avó ou qualquer idosa que fizesse valer a minha cordialidade e merecesse todo o meu apreço. Se eu digo velha, não é, tampouco, porque não a respeito, é só porque não são usuais os termos "idosa caduca" ou "idosa coroca". Eu digo velha porque a velha embarcou reclamando do atraso, bastante rabugenta, e veio o corredor inteiro torcendo o nariz de amargura. Não tinha banco duplo vazio, ela precisaria sentar com alguém e aquilo, como a vida, de modo geral, azedava-lhe infinitamente. Aquela velha devia amar muito a própria solidão.
Mas o caso nem é esse. Meu umbigo acharia ela só mais uma idosa que endureceu ao envelhecer, se o que aconteceu não tivesse acontecido: A velha me desprezou. Parou no corredor, do meu lado, por uns vinte segundos, olhou no fundo dos meus olhos, recebeu um sorriso, torceu o nariz e ficou procurando outro banco, bem no fundo do ônibus, em que pudesse se sentar. Em algum lugar que não fosse comigo. Rejeitar parceiros de banco de ônibus é recorrente, quando se pode escolher, mas a mim isso acontece sempre de maneira aleatória e certeira, não com a crueldade daquela velha. Não depois de olhar fixo por tanto tempo.
A velha sentou atrás de mim e desandou a falar alemão com a moça que lhe acompanhava como se eu não fosse entender. Eu de fato não entendi, uma vez que não falo alemão, mas a situação toda foi suficiente pra eu ter certeza de que reclamava da minha jovialidade, dos meus cabelos escorridos sobre os ombros, da minha frivolidade imaginada, talvez do castanho escuro dos meus olhos. Velhas como aquela fingem não se importar com o mar de possibilidades que se encerra na juventude, mas na verdade o detestam.
Incrédula, não olhei pra trás. Não vi quem foi o infeliz que tomou a companhia da velha como se fosse melhor que eu. Não quero a mágoa amarga de ter sido preterida, porque talvez seja exatamente essa mágoa que me tornaria igual aquela senhora. O que a velha não sabe é que ser rejeitada por quem vale pouco faz valorizar quem vale muito. E que amanhã, pra vingá-la como se deve, dou a quem sentar comigo o maior sorriso, a mais sincera atenção... O melhor de mim.

domingo, 24 de novembro de 2013

Bebem-nos pelo caminho


No prefácio da edição que li de Cartas a Milena, Torrieri Guimarães rememora uma citação de Franz Kafka que diz: "Escrever cartas significa desnudar-se diante dos fantasmas, que esperam isso avidamente. Os beijos por escrito não chegam ao seu destino, bebem-nos pelo caminho os fantasmas." Guimarães segue dizendo que nos resta pedir a esses fantasmas de sonhos que devolvam as carícias e os beijos roubados, ou inspirem aos leitores o verdadeiro sentido dessa imensa paixão, oculto nas entrelinhas.

Eu não te escrevo a carta de amor que desejo. Não porque seria um devaneio deletério comigo mesma, nem porque não mereces. De fato, a essa altura não mereces, mas gostar de alguém e escrever uma carta de amor nada tem a ver com meritocracia. Não porque não reconheça alguma imensidão nesse projeto de paixão, nem propriamente porque não posso, nem porque tenho medo de ser mal interpretada, nem porque a escreveria às vésperas do verão e tenho medo de que seja confundida com uma carta de amor de verão... No fim das contas, meus amores são sempre veroninos.
Não te escrevo uma carta de amor porque ela seria cheia de juras pretensamente eternas, infinitas na dureza da caligrafia, referências poéticas de Quintana e paráfrases de músicas bregas do Fábio Jr., e essas referências se estragariam por mais tempo do que durássemos. Porque ela seria cheia de declarações superlativas da minha vontade de estar perto, mesmo de longe, de ver crescer o que nos antecedeu, de acompanhar o passo, de me alimentar das incoerências e inconstâncias e insatisfações que nasceram conosco e das que produzimos em nós depois de nos encontrarmos, de não ter que te deixar pra trás, de emprestar vivacidade e inspiração, de te aquecer sob a tradição surrada da tua infância, inventando novos planos pra essa recente vida adulta.
Se escrevesse uma carta de amor, e isto agora não me parece possível, anunciaria a disposição em reorganizar a vida pra caber a todo tempo nas palavras-ônibus que vais largando entre uma linha e outra. Eu não diria que não quero te repartir, mesmo amando livre. Não citaria mais Simone pra não confundir minha condição anacrônica com a modernidade que almejo, pra não me confundir com teu passado e com teu futuro. Não diria que sou o avesso do que preferes, embora acredite nisso. Não diria que o que alguém prefere diz muito mais sobre si do que sobre o que se deixa de preferir.
Eu pediria que fosse meu o beijo de despedida. Pediria a lembrança esporádica que socorre a solidão, vista da janela do ônibus, do carro, do trem, do avião. Imploraria pra ser o meio de transporte, na obrigação de fim entre o improvável e o que quer que fosse capaz de fazer darmos certo. Entretanto, qualquer súplica não faz sentido, se está sempre prestes a ser dementada.
Então escrevo, mas não uma carta. Não muito pessoalmente, não com todos os predicados que te identificariam, não de maneira direcionada a respeito. Uma carta se perderia na distância, os fantasmas não devolveriam minhas carícias desperdiçadas e os meus sonhos, agora vivos por escrito... Os beijos que eu desejasse e dedicasse nas últimas linhas esperariam ser os primeiros do reencontro. Ainda que não houvesse reencontro. Mas os fantasmas não perdoam. Os fantasmas bêbados do que também me inebria lembram que a condição platônica é nossa característica mais genuína. E que a metafísica é linda nos livros, mas dolorida e insuficiente na vida real. É pela materialidade da experiência que estampamos beijos por escrito no final das cartas.
Não te escrevo uma carta de amor pelo pudor de ficar nua diante dos fantasmas com essas unhas roídas, as olheiras escuras e o hematoma da coxa esquerda. Não te escrevo porque a avidez dos fantasmas contrasta com a paciência que me obrigo a ter nos teus silêncios. Não escrevo porque se te cortasse da vida, como corto agora... E se sangrasse, como sangro... Se meu choro de alívio fosse água com sal pra te estancar de mim... A carta seria, depois da cura, uma cicatriz. E cicatrizes permanecem.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Ambidestra

A coisa mais inteligente que já vi alguém fazer foi não se deixar rotular. A recíproca é verdadeira.
Na retórica, disseram-me um dia, a melhor estratégia é enquadrar o argumento opositor em um molde qualquer: Relativismo, egocentrismo, existencialismo, neoliberalismo, budismo, estoicismo, hedonismo. Funciona. E funciona porque engessa o raciocínio e porque praticamente toda designação "ística" já foi combatida em algum momento cíclico da filosofia e do discurso. É como se o rótulo só trouxesse o revés aos ombros de quem o invoca.
Sabedora da técnica mais elementar da retórica, não legitimo um extremo só. E não compreendo a motivação da necessidade voluntária de abraçar um gênero, uma nomenclatura. Ou compreendo e, por isso mesmo, sigo reiterando que é no que não se identifica e no que não se deixa designar que as melhores sínteses acontecem. Que sejam livres os radicais, mas... Que eu possa continuar achando livremente que tudo que não aproveita a hibridez e o contraponto, mais dia menos dia, embota.
Que eu não seja isso ou aquilo, que eu me encontre sempre em trânsito entre isso e aquilo para jamais endeusar causas que, por fecundarem em pretensão ideologicamente puritana, nascem falidas. Que eu guarde distância segura do lixo de quaisquer designações e me dê o luxo de aproveitar o melhor delas. Que eu esteja um dia gelo, noutro água, noutro vapor, depois volte a estar gelo, que eu vire esfinge, não me importa. Antes de tudo, interessa-me mais a catálise ou o freezer. 
Ninguém me diz o que eu sou e, em certa medida, eu mesma não me digo, para assegurar o paradoxo. Então simplesmente não sei, não me sei, até que um gênero me caiba já terei mudado três vezes, e não há vergonha alguma nisso. Eu só estou. Quero os altos e os baixos para experimentar o valor do equilíbrio. Quero ser ambidestra para discutir até com os centristas, trabalhando e lucrando sem ganhar ou perder a razão. Quero lutar em nome de uma só causa: A chance de mudar de ideia. Quero herói e vilão de cada trama disputando pelo posto de quem é mais patético, por não serem o que há de mais peculiar e admirável, que é ser humano.
Tenho um dedo apontado para mim e desvio dele: A partir de então, limitado é quem me rotula.

domingo, 17 de novembro de 2013

.redecorteR


Como sempre, aguardo o apetrecho homérico, talvez mágico, que subverterá o tempo. Estou deitada e deslizo a mão sobre o lado vazio da cama, o mais perto da janela. A textura do cobertor alinhado me recorda a fruta. Cada dedo desliza devagar na direção de mim até que o braço não alcance mais a proximidade, desde a lonjura. Sinto com a ponta dos dedos e as unhas arredondadas, crescidas bem pouco para fora da carne, a maciez do gesto. Já fiz coisa igual duas centenas de vezes. É sem dúvidas a atitude mais genuína que poderia tomar, é sem dúvidas o lugar vazio mais cheio - de espaço - que poderia haver para ser tocado nesse quarto três por quatro.
Tomo um gole de água. Levanto da cama em marcha à ré até a cozinha e não esbarro em nada, como se fosse personagem de folclore. Fecho e abro a geladeira, tomo a garrafa gelada nas mãos, sem coragem de abrir, a bem de que o gosto me acompanhe. Faço barulho com o que sobrou de um pêssego, cada milímetro da minha boca se molda ao caroço, depois à carne da fruta, que acabou de entrar em contato com o entremeio dos meus dentes distribuídos mais à frente do que a estética entende conveniente. Meu queixo escorre a pressa líquida de comer o pêssego. Derramo a ânsia de um instinto misturado e primitivo de saciedade e satisfação. Sou voraz para tomá-lo à boca como o sou para descascá-lo, enquanto a saliva, ainda não corrompida, denuncia o quanto ele me apetece.
Alcanço o pêssego mais bonito e, não sendo flagrada, encosto-o à bochecha esquerda e fricciono levemente, como se do contrário ele fosse se derreter ou a cena toda fosse ter menos beleza. Olho a superfície afável e o degradê corado do pêssego, que fazem lembrar qualquer coisa entre a descrição detalhada da miríade de pelos finos e claros de uma nuca sob o sol e a pele-cobertura de uma dureza que não sabe ser madura, só inesperada, e não tardará para ser descoberta.
A sacola de pêssegos entreaberta na pia da cozinha se confunde com a minha própria vida. Quero corrompê-la, meus dedos desejam atravessá-la como se a um portal temporal e cósmico. Sou acometida pelo pavor absoluto do desejo de anteceder o próximo ato. Mas só me sei se for de frente para trás. Nunca posso me prever.
De repente estou sentada no sofá, com vontade de pêssego, sem me lembrar da importância do instante que virá, para aproveitá-lo ao máximo. Insuspeitando o impulso que me moverá para o que desejo e ainda nem sei o quanto desejo. Cruzo os braços no fim do filme como quem espera impaciente pela chance de confessar a fome multifacetada de todos os dias outra vez.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Fantasiosa


Hoje é domingo. Assisti um filme da tv aberta porque ele rimava com a minha frivolidade fantasiosa e criativa de domingo: As crônicas de Nárnia. Estranhei muito não poder pausar a programação. Por muitos anos só tivemos a tv aberta e os comerciais cronometrados me serviram bem, mas aos poucos, nos últimos tempos, acostumei a pausar os filmes, assistir repetidas vezes os meus diálogos favoritos e controlar o ritmo das cenas - Aslam do mundo que inventei pra mim, deusa-leoa da minha cinemania. Só que nos filmes da tv aberta, você não tem controle. Pisca os olhos e perde um tempo precioso que não volta. Igualzinho na vida real.
No fim da tarde, fui dar uma volta e passei por um cachorro. O cachorro não latiu pra mim, como fazem quase todos. E me incomoda que o cachorro não lata, já passo a pensar que ele não me acha exceção, não me percebe direito. Talvez seja só um grandessíssimo problema com o seu instinto farejador, mas passo a fantasiar que, porque não provoco nada nele naquele instante, o cachorro não deve me provocar nada em instante nenhum. Se o cachorro latisse, tudo virava festa. Talvez até me mordesse as canelas, mas quem se importa? Se o cachorro latisse, tudo virava agito. E eu adoro agito. Às vezes parece que os cachorros sabem desse pequeno-grande poder.
Não é estranho? É. Sou eu sendo. Gosto de cachorro que ladra e me desperta da vida, como se fosse brecar o tempo, fonoguiar o próximo passo, estagnar as voltas do relógio, desarmar o tic-tac que o mundo faz, com seu latido. Só que aquele cachorro em especial, aquele cachorro de hoje, parecia conformado com a lógica do tempo e só me assistiu passar.
Como o tempo aceita estampar sua lógica em um trombadinha, que continua sempre a correr da polícia, como o tempo se reafirma em cada dose de Johnnie Walker, que nos aconselha a continuar sempre andando. Como um espectador da tv aberta que desvia sua atenção e perde parte do espetáculo, mas pode reverter a situação caso se detenha no final do enredo.
Hoje é domingo e não tem coesão manifesta ou parágrafo finalizador lógico de raciocínio nesse texto. O tempo segue, o cachorro e eu também. Logo a gente se encontra e ele late pra mim, e eu sinto medo, ou faceirice, ou devaneio e lato de volta. O tempo corre se eu e o cachorro corrermos (atrás ou fugindo) um do outro... O tempo corre se ele latir ou não. Mas é melhor que, desconformado com a vida e desejando atenção, ele lata. Só pra mim.

sábado, 9 de novembro de 2013

Catedráticas

Nunca entrei na Catedral de Rio do Sul. Há quase um ano, com a frequência dos dias úteis, dobro uma esquina depois do Terminal Rodoviário e nesta esquina se encerra uma expectativa cotidiana. Tomo fôlego duas vezes e descubro se o sinal está aberto ou fechado para mim, e se terei ou não de esperar para cruzar a avenida.
Se não espero, chego adiantada na calçada contígua ao muro de pedra, que me provoca os mesmos pensamentos com suas fugas pretas desbotadas entre uma pedra e outra. Sim, se estou agitada eu só reparo no muro. Não sou católica das praticantes. Ignoro as escadarias. Especificamente ali, apressada, não sou mulher de joelhos para promessas ou perdões. Quase sempre eu sinto cheiro de vela queimando e isso me faz pensar no significado de súplicas, milagres e gratidão. Uma igreja inspira muita gente a ser melhor, penso. Camufla muito moralismo barato também. E em última análise eu refilosofo para dentro sobre religião, e uma expressão como ópio das massas me ocorre.
Se o sinal está fechado para mim e espero para atravessar, fito tímida e de cabeça erguida a arquitetura alva que simboliza a instituição de tanta influência. O relógio impreciso que badala tantos pecados inventados e depois confessados, bençãos concedidas, acordos de cavalheiros para a salvação da própria maldade e a glória de uma vida que promete ser eterna para os que creem nela. O sino ecoa pela cidade como uma bússola que aponta o norte da conduta dos fiéis, em uma demonstração de imponência nada pontual.
Dizem que quando entramos em igrejas pela primeira vez e fazemos então um pedido, ele se realiza. Catedráticas e, talvez por isso, poderosas. Procedi ao ritual uma única vez, quando era mais jovem e mais temerosa, em uma pequena igreja de interior, vazia e sem muita cerimônia. Não lembro qual foi meu pedido, e assim também não sei se ele se realizou. Provavelmente era um pedido de longo prazo e um tanto ponderado, pela força que eu reconhecia que profecias como essa poderiam ter, na época em que o fiz.
Hoje em dia sou mais relutante, mais cética com muita coisa. Mas a dúvida que circunda essa crendice me inspira, por isso dou crédito a ela. Então todas as muitas igrejas em que ainda não entrei preservam a possibilidade de realização dos meus desejos. Ao seu modo, renovam minhas esperanças nos sonhos. Curiosamente, mesmo que não entre nelas.
A Catedral de Rio do Sul simboliza muita coisa para muita gente, desde o poder de uma instituição ao atrativo turístico. Para mim, aquela Catedral de portas abertas guarda em si, entre tantas, uma expectativa em especial, que não se encerra. Reservo para quando entrar ali meu melhor pedido. Seja ele qual for, quando me vier. Aguardo a revelação que ainda nem reconheço e o momento sublime em que conferirei àquele lugar a chance do poder realizador de meu anseio mais profundo.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Pedra

Hoje vesti um short rosa pink, uma camisa listrada e um blazer preto, com um sapato de salto médio cheio de tiras em cima, confortável na medida do possível. Botei meus óculos escuros pretos e novos e fui andando altiva pela rua. Usar óculos escuros é um grande momento de glória feminino. É como se o uso dos óculos precisasse acontecer para escurecer a vista porque os holofotes claríssimos estão voltadíssimos para nós. Para as feias os óculos são ótimos e para as bonitas também, pelo mesmo motivo: Os óculos não deixam que o rosto todo se revele, há sempre uma aura de mistério. E eu, que estava agora em condição de paridade com as feias e as bonitas, era inabalável. Até chutar uma pedra, tropeçar numa pedra.
Uma pedrinha de nada, uma pedrinha perdida, uma pedrinha diminutiva e moleque, uma pedrinha juventude transviada da calçada em que eu seguia, uma pedrinha matreira. Uma pedrinha na minha esquerda. Com meia dúzia de ideologias válidas e outra meia dúzia de crenças falidas que às vezes se anulavam. Eram elas: Ser pedra. Existir em órbita no seu eixo de pedra. Edificar. Ser pedra. Incomodar. Ser pedra. Vencer o jogo disputando com a tesoura que corta minhas expectativas. Ser pedra. Perder o jogo para o papel no qual me escrevo. Ser pedra. Cruzar caminhos. Ser pedra.
O meu caminho era muito, muito, muito maior do que aquela pedra. Realista e autodefensora, eu era capaz - não sem certo pesar - de ignorar qualquer meio que aquela pedra tivesse de me provar o contrário. Não caio. A pedra me aparece no caminho e ainda é um projeto mal acabado do que podia ter sido.
Depois do tropeço não faz diferença que a pedra seja ardósia ou preciosa. Chuto a pedra. A pedra me chuta no universo paralelo que eu dispenso conhecer. Numa dimensão que conhece a altura, mas não mede a queda. Numa dimensão que conhece o quanto é larga, mas desperdiça coloquialmente sua sorte. Numa dimensão que conhece e experimenta a profundidade de mim e mesmo assim a subestima.
Tropeço e quase xingo a pedra, quase me declaro para a pedra, quase levo a pedra no bolso para uma recordação. E assim a pedra quase me ganha, mas depois me perde. Porque o meu dedo começa a doer por causa da pedra. A pedra estatiza meu sentimento como se ignorasse que meu estado é, por natureza, leve, e por isso de independência diante de pedras. De independência diante das pesadas substâncias, das sólidas substâncias, das pedras substâncias. Das perdas substanciais. A pedra é meu desejo de que a antimatéria seja composta pela reação de igual intensidade dessa ignorância diante de sua existência.
Pedra é um erro de gênero, número, grau. Não cabe em nenhuma das minhas contas e ângulos, não cabe nas minhas frases de amor, motivo pelo qual preciso enfiá-la num texto sobre o árduo cotidiano. Mas a pedra continua ali, e é meu tropeço que traz em si essa certeza. A pedra é o próprio tropeço e com ele se confunde quando quase me faz cair.
Vou andando faceira e inabalável. Tropeço na pedra. A pedra quase me ganha, mas depois me perde. Equilibro outra vez, alinho a gola da camisa listrada e ajeito o short rosa pink. Ergo e acomodo os óculos. E não espero nem deixo, pela saúde dos meus joelhos, mãos, minha carne, meus ossos... E não espero nem deixo, pela integridade dos meus óculos novos que fazem enxergar a vida tão confiante... Não espero nem deixo que pedra nenhuma me desvie de mim.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Policlichê

Não é o poliamor como eu o concebo, eu saberia se fosse. Esse é apenas mais um policlichê. E sua pretensa alternatividade subterfugia a carência desmedida e agressiva que sentimos todos. À margem, alguns de nós viram estas carências-arestas para dentro, e suportam. As arestas de vocês, policlichês, são ofendículos. Falo assim, a toda uma categoria, pois sou erudita no tema do quanto o caos desorganizado pode ser ofensivo e um tanto ridículo.
Nessa brincadeira passam todos, politicamente incorretos, à conclusão de que o amor é livre e não faz cobranças. À conclusão de que finalmente haverá em amores multifacetados contemporâneos a subserviência de não interferirem e não impossibilitarem um ao outro. À dedução ilógica de que o amor se prestará às conveniências, invirtudes e desverdades. À falha cognitiva de pensar que o amor, por ser plural, aceitaria menos que o máximo. Esquecendo-se de que ele é amor antes de tudo, e poli só lhe prefixa por um lapso subversivo, um desvio ortográfico.
Aceno a cabeça incrédula com a ignorância na interpretação. É claro que o amor é livre, mas o clichê não. Tsc tsc, na-na-ni-na-não. O clichê aprisiona, é cotidiano puro, escorre líquido, medo exponenciado, ojeriza densa, banho que não purifica. O clichê se aquece com o cobertor surrado enquanto a possibilidade de qualquer amor entra em hipotermia. O clichê não merece nem o mínimo, mas se contenta com ele. O clichê é limitado, vai até o momento em que o estalo acorda o sonâmbulo.
Estalo os dedos, aponto o indicador, com um sorriso contrafeito sentencio cínica: - Policlichê, doçura, só poliama quem está acordado. Mas ele retorna ao sono, pseudotranse, dormir de pé e seguir rumos aleatórios parece sua especialidade. O coletivo múltiplo do clichê é detentor da fórmula que faz as coisas darem errado, é a surda e prostituta prova de que o cano sempre esteve rachado, testemunha de que o único conserto possível é inutilizá-lo.
Senta aqui. Ouve bem. Travestir a canalhice em colorido hedonismo é piada laranja, vermelha e verde. Não é poliamor. Estamos hepaticamente verdes, mesmo curados, porque a culpa não amadurece o policlichê, tampouco o digere, apenas o romantiza. Amadurecer seria incumbência do amor que, quase sempre, não aceita fazer a trajetória mais curta, a trajetória da rotina. O poliamor bem direcionado é a exceção. O atalho tomado mata-o antes mesmo de nascer.
Teria mais tempo de ser fantástica se não tivesse motivos tão claros para me perder. Se eu não estivesse agora, nesse exato instante, em apressada fuga. De um policlichê.

domingo, 3 de novembro de 2013

O pior texto


O pior texto é aquele que não se escreve. O texto que não se escreve fica incrustado na memória e volta como fantasma em qualquer fragilidade. O encadeamento lógico de ideias que não cabem em domínio público é o inferno particular do escritor, já que nenhum diário merece o rascunho de uma obra que não será acabada. 
O pior texto é aquele que não se escreve, eu já disse, mas vou repetir. Sua força emana da força que não tivemos para compartilhar nem mesmo com o papel os nossos pensamentos, e é exatamente por isso que se torna tão assustadora a sua volta à memória. O texto não escrito que vai, volta confirmando a terceira de Newton. É como se nossa negação diante dele não nos redimisse da fraqueza afirmativa de nossas próprias construções mentais e relativizações sintáticas. Não é possível transferir a culpa de si para o texto não escrito. Escrevê-lo a eternizaria, mas não escrevê-lo atordoa.

Feromônica

Fui mais feliz quando não sufoquei, quando lancei mão do instinto possessivo e deixei que o pronome fosse ao meu lado se quisesse, inteiro e próprio, sem amarras. Fui mais feliz quando não fui assombrada pela possibilidade da perda, já que não se perde o que nunca se teve, e eu desejaria que nunca me tivessem tido de verdade. Fui mais feliz quando ignorei as grades de um sentimento, de um relacionamento, de um pensamento. Quando fui toda minha, quando estive livre para ir e vir, tanto, que já não cobrava as vindas dos outros. Quando as vindas me vinham, vinham vidas inteiras, em breves frações todas minhas. Fui mais feliz quando lembrei para sempre das cenas do filme mesmo sem guardar os bilhetes do cinema. Sem esperar que eles subvertessem na história que eu contaria aos netos e ao mesmo tempo convertendo-os na história de desapego que eu desejaria que lessem em mim. Fui mais feliz quando dei importância às coisas certas sem ignorar as coisas que tinham importância por sua própria natureza.
Fui mais feliz quando o amor nascia do que quando durava, do jeito que durava. A paixão sempre comportou melhor minha concepção de efemeridade diante da vida, a paixão sempre correspondeu melhor às expectativas que aprendi a não ter para surpreender o outro, para ser imprevisível como sempre desejei que fossem para mim. Fui mais feliz quando a corda firme que segurava leve era extensão dos meus braços, quando depois dela havia um partner habilidoso que girava só, girava ao meu redor, enrolava-se todo por desejar estar perto e desvencilhava-se com facilidade sem ferir minhas mãos. Tinha consciência da possibilidade de sua partida e soltava a corda sempre que precisasse, sempre que o braço doesse, sempre que não aguentasse a hipótese remota de prendê-lo e consequentemente de estar presa, engessada no nó de um passo de dança desajeitado. Eu queria era ser o exercício constante, a ginástica artística, festival de sucessivos movimentos graciosos, ciranda dos meus excessos.
Fui mais feliz quando minha felicidade esteve além da ideologia fixa, quer do amor tradicional, quer do amor moderninho. Porque fui feliz quando admirei um Cazuza exagerado e jogado aos pés de quem quer que seja e quando me identifiquei com uma Simone de muitos corações. Mas principalmente quando transitei no limiar, quando não precisei conceder ou pedir alvarás de soltura porque estar solta era uma questão de perspectiva, a perspectiva que eu mesma sempre me concederia. E que também queria que os outros concedessem a si mesmos. Já fui feliz porque tive reconciliações depois dos ciúmes que sempre foram desnecessários, e já fui feliz porque não sofri com o desejo da reciprocidade de uma fidelidade irrestrita em que não se pode olhar para os lados. Fui feliz porque confiei que meu jeito, torto como fosse, encantaria. Porque confiei que minha personalidade, em permanente construção como fosse, atrairia. Fui mais feliz quando me acreditei feromônica. Encaminhando-me a todo tempo para aprendizados que me acompanhassem. Para ideias que me permitissem, para pessoas que se permitissem. E que só voltassem para transbordar a completude que minha própria companhia trazia para mim. Fui mais feliz quando não estar presa me pareceu afrodisíaco.
Conjugo no passado uma felicidade que me parece futura, que nasce do desprendimento, do encanto transcendental, da identificação, da leveza, da atração e sobretudo da liberdade.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Dois corações

Ganhei um colar de corações da minha madrinha e ele tem um fecho engraçado. Os corações, que são o pingente, também são o fecho do colar. Um coração maciço, fininho, e outro vazado, só contorno, que têm aparentemente o mesmo tamanho, unem-se. Transpassam-se. Um coração passa por dentro do outro, e depois o coração maciço fica fazendo pêndulo no meu decote, um pouco distante do que é só contorno, que fica perto do meu pescoço amparando também o cordão dourado que passa dentro dele. 
Minha analogia primeira, dessas que me habituei a fazer, inclinaria à análise de dois corações que se pertencem, de uma pessoa e outra, cada qual em uma ponta do cordão, sentenciadas a só fazer sentido juntas. Suportando distâncias, cordões remanescentes, as finezas e aberturas uma da outra. Muito poético mas, na prática, acho que as relações entre corações, principalmente as que envolvem ao menos um coração que eu mesma carrego, não podem se valer de tal lógica.
Então passei a pensar diferente, em uma reflexão que pode parecer absurda, mas é um tanto mais adaptada à minha visão do amor (que não pretende ser menos absurda do que é). Atentemos ao fato de que tenho dois corações na história... Talvez ambos sejam meus. Talvez só um seja, e a partir daqui a história se divide em outras duas pequenas histórias, dois finais que pretendem terminar felizes.
Se apenas um coração desses do colar for o meu, outro precisa ocupar a outra ponta, e o que ocupa a outra ponta é o que está teoricamente vazio, à procura. Porque combino mais com o coração cheio de algum composto inerente aos compostos da bijuteria-semi-joia, que não se sabe muito bem o que é, mas que parece ouro aos meus olhos. Uma camada bem fininha e por isso aparentemente frágil, de material maciço, folheado a esse valor que costumamos atribuir ao que sentimos.
Sou mais parecida com o coração que, para existir, ter função ou mesmo ser amado - seja lá a medida que emprestemos à metáfora - requer algumas concessões da outra parte. E em troca brilha, caleidoscópico. Brilha na altura do peito, brincando faceiro com o precipitar dos meus movimentos, entre um passo e outro, entre um virar de tronco para espreitar a vida e outro. Se sou o coração maciço, nem por isso o outro me será menos valioso. Somos da mesma matéria, afinal. Entretanto, a outra ponta jamais será réplica exata de mim e jamais será posse minha, na qual eu mando e desmando. Ela não serve para me repetir, ela me emoldura e, à sua medida, aceita me suportar. Nossa composição não é elementar, já fazíamos sentido muito antes, só de dividir a volta que o cordão dá ao pescoço - que é o mundo para o colar em questão.
O caso é que juntos temos muito mais graça, o coração-contorno e eu. Somos tão bem pensados que - juntos! - o lugar-comum de um coração, que é no peito, parece uma ideia genial. É assim que estar junto de alguém deve ser. Uma repetição, porque até o mundo da moda e o da política são cíclicos, quem dirá o mundo do amor, mas uma repetição que tenha em si uma audácia gritante, que não lhe permita ser confundida com qualquer outra repetição.
Talvez, contudo, os dois corações sejam meus. Por não querer frustrá-los, leitores, apresentei de antemão esta possibilidade um pouco mais egocêntrica, e deixei para explorá-la no final. Se admito conter ambos os corações é porque reconheço a força das contradições do que sinto. Porque desse modo eu poderia reservar para mim um coração permissivo, que aceitasse ser invadido, transpassado sem muitas delongas, e também um outro coração que invade. Um que foge, outro que aceita, como diria Caio Fernando em outra ocasião. O que foge desejaria alçar voo, já o que aceita, resiliente, conteria o que foge pela graça de ter estado perto.
Se os dois corações fossem meus uma volta do coração preenchido sobre a haste coracionada do que é vazado seria muito necessária, do contrário escorregariam cada qual para seu destino, como em um cabo de guerra dourado em que só a queda alivia a dúvida de qual dos dois vence.
Se esses dois corações forem meus, e é bem provável que o sejam, buscam equilibrar-se no peito para fazer justiça com meu direito de ser feliz sem reservas, equilibrando a solidão e a companhia exatamente como Têmis, a deusa cega equilibrando a balança e a espada. Se esses dois corações forem meus, um implora sossego enquanto torce, em vão, continuar sendo útil ou manter-se inteiro, mesmo cheio de espaço. O outro aceita ser de alguém que o tome nas mãos para com elas enxergar, como acontece com meu colar.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Tacógrafo

Tenho consciência de tudo que vi naqueles que passaram pela minha vida. Suas virtudes e falhas... Sei o que me encantou e o que me repeliu. Essa consciência é fruto de um olhar apurado, de um olhar tacógrafo, que foi sendo marcado por muitos altos e muitos baixos. O gráfico ziguezagueia para frente com muita intensidade e sua marca é incorruptível. Sua marca me denuncia. Nada o engana. Nenhum reflexo tangenciado o trai.
É esse olhar que identifica a inconsistência de erros infantis, é esse olhar que seleciona o alvo e descarta repetições. Treinado, como em uma produção em série. Astuto, como em uma lapidação de diamantes. Um olhar de pássaro que conhece precipícios e o céu, que aprendeu a ser fênix quando descobriu que a morte é inevitável. É necessário voltar sempre inteira da queda, as asas abertas aproveitando o vento, o azul. Aproveitando ao máximo o cúmulo das liberdades: O voo em ascensão, a nuvem.
Esse olhar é um pretenso raio-x, modesto em sua complexidade, que só tem poder porque pressente a necessidade de determinadas presas. Porque há presas que anseiam, que precisam ser engolidas já pelo olhar de pássaro. Um conforto quase maternal, mas modesto, porque o olhar de pássaro não teria sentido sem o objeto de sua mirada. É uma correlação harmoniosa, não há colidência entre o olhar e o que se olha, apenas o choque invisível das disparidades e o abraço uníssono entre as semelhanças.
É um olhar de ressaca. Sim, de ressaca. Mas muito mais tangível que o de Capitu, muito menos requintado que o de Machado. Como um olhar de maquiagem borrada na manhã que sucede a festa, a ressaca desse olhar é a de ter experimentado sensações que deixaram ébria, tonta, alucinada e o que rima com alucinada. Apaixonada, desesperada, mimada, entediada. Sensações que estão sempre passando, em um processo que aos poucos se completa e se renova. É esse olhar de ondas salgadas que estão sempre na iminência de quebrar nas bordas do mar e de ondas de água doce que se recolhem para hidratar minhas expectativas, fazendo os instrumentos desse mesmo olhar brilharem outra vez.
Esse olhar que é ressaca, pássaro, tacógrafo e consciência é um pouco de tudo que já vi, do que não quero mais, e muito daquilo que espero anti-intuitivamente que ainda me façam enxergar.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Pra não dizer que não falei dessa metamorfose ambulante

Não matarás. A menos que encontres um estuprador em conjunção carnal com tua filha. A menos que alguém te aponte um revólver numa briga. A menos que também se considere a morte que é não se deixar salvar pela mudança de opinião. Honrarás pai e mãe. A menos que sejam contra teu casamento. A menos que não te reconheçam como filho. A menos que tenhas doze anos e te cortem a mesada. Santificarás o sábado ou o domingo. A menos que a grana esteja curta. A menos que no sábado recebas convites irrecusavelmente profanos. A menos que domingo seja dia de futebol com os amigos. Amarás a Deus sobre todas as coisas, não dirás o nome dele em vão, e não terás outros deuses além dele. A menos que tua fé seja outra. A menos que o nome do teu deus seja Buda, Jeová, o Sol ou o Maradona. A menos que teu ceticismo tenha te feito ateu. Não cobiçarás as coisas alheias. A menos que isso te motive a ser melhor e adquirir as tuas. A menos que o vizinho tenha usado o mesmo adubo que tu e as plantas dele tenham crescido mais. Não terás ídolos. A menos que se depare com alguém muito digno de tua admiração e a gratidão se converta em idolatria. A menos que alguém tenha te criado com esmero e a duras penas. A menos que Paul McCartney faça turnê no Brasil. Não prestarás falso testemunho contra o teu próximo. A menos que esse próximo seja acusador do teu pai, teu irmão, teu filho. A menos que te deem recompensa. A menos que o testemunho não te pareça falso. A menos que tua falsidade seja patológica. Não furtarás. A menos que tua barriga doa de fome. A menos que apostes com os amigos. A menos que fiques com uma caneta no meio de tuas coisas sem querer. Não cobiçarás a mulher do próximo. A menos que a cobiça seja recíproca. A menos que alguém te ensine que a fidelidade nem sempre comporta todos os sentidos. A menos que sejam todos poligâmicos. A menos que aos poucos a mulher do próximo pareça absurdamente mais próxima de ti do que dele.
Toda máxima é demasiado perigosa. Qual o liame que ao mesmo tempo distancia o errado do que nos parece certo em cada ocasião? Em termos práticos, o que legitima nossas defesas? De que substância é feita a legalidade das normas morais que te impões todos os dias? Até onde vai a cogência do que te ensinaram que era certo? O mandamento faz lei ou mera punição? Por qual motivo eu acreditaria em uma lei que só faz me punir, se tenho escolha?
O homicida não precisa ignorar a norma, ela nasceu nula para ele até ser compelido às consequências. O homicida, em geral, não desconhece a norma, mas sua motivação lhe parece maior que ela. O homicida do estuprador da filha não precisa conhecer os mandamentos, o código penal ou os direitos humanos para se julgar legitimado. E ninguém nunca saberá de antemão a medida dos extremos aos quais será submetido. Ninguém sabe precisar unanimemente o que é "extremo". Quantos bilhões de juízos variáveis devem ser considerados para ponderar a moral média sobre todas as coisas?
Compreendo que de olho por olho o mundo acabaria cego, compreendo o exercício pacifista - necessário! - que devemos todos praticar, mas hoje acordei estranhamente casuísta e combativa. Achando o livre arbítrio uma estampa xadrez em que as regras morais gerais, paralelas, colidem com as situações específicas. Acordei admirando a coragem da antítese. O quanto é radical o poder avaliador, quase educativo, que exercemos sobre nós mesmos. Somos nossos próprios juízes. Ou melhor, nossos árbitros. É nossa vontade que nos confere a possibilidade de mediar e avaliar o que é melhor para nós.
Ninguém sabe ao certo a distância que o árbitro de si mesmo precisa conservar para que não seja parcial, para que não seja corrompido em seu julgamento. Eu posso até ser pecadora, mas acordei sem tolerar a forma pronta. Moralmente, não me cabe a ditadura do senso comum. Ao me investigar, fazer digladiar minhas próprias opiniões controversas, refletir o que é posto como norma e o que é sinônimo de justiça, ao ser tribunal exclusivo ao julgar os reflexos dos mandamentos, que às vezes flexiono, eu me torno purgada das penas que cominam para mim. Ao não solidificar minha jurisprudência em tantos aspectos e não sumulá-la nunca, eu me permito novas sínteses. 
Estou em constante processo de beatificação e sou advogada do diabo de minha própria santidade.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Cobra de laboratório

Isso não é um jogo. Mas se for eu vou perder porque queimei a largada. Antecedo o fluxo nesse desequilíbrio bambo sobre a corda. Ninguém escapa ao peso de viver assim. Trapezista sem impulso, sou de cabeça para baixo, imito o ébrio que alterna os pés no chão, sempre um pouco cambaleante, e também as mãos errantes, tateando o momento de amortecer a queda. 
De repente meu corpo é uma ponte, embaixo dela vive um mendigo. Escondido. Que não exerce seu ofício. Que não pede menos que as esmolas que lhe dão. Meu coração é cobra de laboratório: ou está sendo testado ou (reaça!) muito bem conservado. Alimenta-se e é ungido pelo veneno que serve para produzir o antídoto. É perito em tentar ser uróboro. É possível que intua que nunca chegará a lugar nenhum, mas insiste em rastejar, a boca semiaberta. O silêncio ofídico de sua saliva corrompe meu juízo e minha razão. O sangue que bombeia das e para as veias me sobe à cabeça. Meu corpo é o punhado de membros toscamente instrumentalizado para botar meu coração para correr.
Hoje usei salto alto. Nem se percebe que o que eu quero é olhar por cima do muro sem esforço, o queixo erguido, espreitando a grama do vizinho, e guardar o pé em meia ponta para atravessar portais cósmicos invocados pelo atrito. Eu nunca soube caber em minha pequeneza, embora goste tanto dela. Meus olhos brilham no escuro imaginando a saída desse labirinto de altas paredes. Muitas de mim seriam necessárias para dissipar a urgência que eu sinto, muitos novos ares seriam necessários para me renovar enquanto suspiro misturando o tédio com as possibilidades que invento. Lembrar dos meus sapatos de salto me faz lembrar, também, que outro dia quis tatuar uma âncora ao lado do calcanhar de Aquiles. Para pesar sob o chão, prender-me ao solo. Logo eu, que só pensava em tatuar as costelas, na altura do peito. 
Para a dona de um coração cobra de laboratório, que espera sempre o próximo teste, calcanhar de Aquiles, que espera sempre a próxima lança, é inconcebível que o corpo ancore, a menos que seja em alto mar. Sendo. Mas eu ainda sei recolher os dados depois da sorte já lançada de Caio Fernando: Não sei, deixo rolar. Vou olhar os caminhos, o que tiver mais coração, eu sigo. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Arteira

Arte. O que eu queria fazer se ninguém pudesse me ver é arte, está respondida ousadamente a questão. Arte, porque dirigir em alta velocidade, movimentar circularmente os quadris e cozinhar algo muito gostoso é arte, porque tudo que eu gosto é ilegal, é imoral e engorda e/ou é arte.
Beber uma taça de vinho é arte, beber uma taça de vinho certo tempo depois de um porre de vinho e ainda ficar com os vincos da boca seca tintamente manchados é arte. A arte é assim, pode ser inaugural, por excelência, ou pode deixar marcas sólidas que lembrem pela cor, a textura, a sensação, o cheiro. É o que vai se reinaugurando de diferentes formas a partir da primeira experiência sem jamais se repetir. A arte é a musa arteira, sedutora e incomparável do artista. A arte não aceita ser rasa ou superficial. 
É uma puta hipocrisia dizer, por exemplo, que a arte imita a vida ou vice-versa. As duas não pretendem se confundir. Misturá-las não combina, misturá-las dá ressaca. A arte é produzida para o idealismo, para ser melhor, mais visceral, mais lírica, menos inesperada que a vida. A arte não se permite ter reflexos espelhados, a menos que eles não lhe sejam fiéis e sim um pouco distorcidos. Jamais iguais. 
Monalisa é arte. Vênus de Milo é arte. 14-Bis é arte. Tanta coisa é carregada pelo estigma. É mais acertado e anti-intuitivo estampar aqui o que não é arte. Eu tenho, por exemplo, um pelo encravado embaixo do braço esquerdo nesse exato momento, e não ouso pensar que ele seja arte. Por que falar em pelo encravado no meio de um texto sobre arte choca tanto o leitor? Porque a realidade absoluta desse pelo jamais seria traduzida em uma música, uma pintura, uma escultura ou um texto (a menos que ele fosse tão ruim e despretensioso quanto este). Mas este texto, sim, por mais fraco que seja, por menor a argúcia que contenha, é arte a partir do momento em que alguém assim o considerar.
A arte não nasce pronta, é preciso que alguém a assimile e a considere. Mas depois disso ela não anseia mais por ouvintes. Não demanda espectadores, apenas eterniza-se. A arte não é um pelo encravado que, mais tardar daqui a dois dias, depois de alguns problemas ou impasses, estará curado. A arte sugere o punho na porta, igualzinho a vida, e depois se reinventa, exigente, e passa ela mesma a exigir a visita. A arte não se presta a combater a beligerância da vida porque compreende que isso é perda de tempo. A arte só tumultua os sentidos e depois assina esse rascunho.
Ninguém assume a autoria de um pelo encravado, nem mesmo o produz ou o pendura na sala de estar, ninguém se vangloria dele ou se emociona com ele, isso é a vida. Valorizar a vida real em detrimento da irreverência da arte é uma inversão de valores. A vida é uma ferroada enquanto a picada do inseto arte não dói. Suave, mesmo letal e arrebatadora. O veneno da arte se mistura a absolutamente todos os fluidos do corpo e não se dissipa por inteiro nem com soro fisiológico em abundância. Só a arte fica, só a arte merece ser crônica. A mordida do bicho arte arrepia a nuca e não deixa hematoma. A arte é tão sutilmente marcante que não precisa que a vida lhe flagre.
Os amantes se vão e a arte fica no que foi ilegal, imoral ou engordou. No tanque vazio do veículo com o motor recém brecado depois da viagem a duzentos por hora, nos lençóis amassados, na cozinha bagunçada. Arte é descobrir a hepatite e se enxergar cada vez mais verde. A arte é o que não se deixa de lado a partir do momento em que a conhecemos, a arte nos torna iniciados nela, pretende tornar-nos incapazes de ignorá-la, substituí-la, menosprezá-la. Eu vou responder de uma vez por todas, sem tom de segredo. Se ninguém pudesse me ver eu queria fazer arte. Ou talvez só sê-la.

domingo, 20 de outubro de 2013

Que me faz sereia


É praticamente inacreditável que você me habite e que se manifeste mesmo quando tudo está na mais perfeita harmonia. Quando acabo de me satisfazer com algo. Quando, bendita, eu estava prestes a conseguir me deixar em paz. Querido, é inverossímil que você more aqui, nesse corpo franzino com algumas estrias nas coxas, manchado de patologias da derme, nesse templo secreto que eu uso como instrumento para falhar em tantos setores.
É isso mesmo, benzinho, chego a duvidar que te mereça, imagine o tamanho da contradição. Nem sei se consigo falar sobre você assim, fantasiando o quanto todo mundo pode apontar o dedo e dizer que não sou digna da segunda parte de você. Invento um lance qualquer com aquele seu irmão para me distrair, esperando que ele seja imortal, chama, infinito enquanto dure e todas as outras pieguices dos poetas, mas no fim só você persiste. Você é mesmo o único que eu sei de cor. O único que não me abandona. O único que, tenho certeza, volta aos meus braços no fim da noite, no meio da tarde, no começo do dia. O único.
É por isso que te venero. Afinal, não tenho escolha se você sempre submerge nos mares mais calmos e até nos mais revoltos, e me arrasta contigo para a água, nadando sempre, muito, perdendo o fôlego de tanto procurar tesouros perdidos no fundo do oceano. Se eu sou uma mulher quase inteira, você é a cauda de peixe e o timbre de voz que me fazem sereia. Ignorar você seria estabilizar, talvez até cultivar uma sensação honesta de satisfação, mas a gente sabe que isso não é para mim. Não fui projetada para o conformismo e a culpa é toda sua, que vive me sugerindo a chance de encontrar algo melhor na próxima esquina, se não parar de tentar, de nadar, de nadar, de nadar...
Você só é. Está sempre sendo nesse ritmo que me complica. O eco dos meus quereres.

Essa podia ser uma carta para alguém, de amor, para o amor, sobre o amor (aquele irmão que me distrai). Acho que essa é mesmo uma carta de amor. Mas no envelope, campo do destinatário, logo abaixo do "PARA", escrevi: Esse desejo por mais, mais, mais, mais (...)

sábado, 19 de outubro de 2013

Só à vista

À primeira vista era um cartão de banco azul, simples, acho que as cores faziam degradê. Não sei se era crédito ou débito, nunca precisei ouvir a pergunta. E ele quebrava o cartão o mais simetricamente possível, pra destruir as chances com certa ordem, enquanto o tempo passava. É, era um cara quebrando um cartão de banco azul enquanto eu assistia com o canto do olho. Enquanto eu era a destinatária indireta do gesto. Ou melhor, eu era o próprio cartão. Cheia de tons de azul, dígitos funcionais, um chip dourado que me tornava útil, beijos com nomes escritos em alto relevo, tão útil em tantas ocasiões, e agora estava sendo quebrada. 
À segunda vista, ele brincava de quebra-cabeça com os pedaços produzidos. Não é estranho? Ele ajeitava todos os pedaços que não pretendeu tornar disformes (mas tornou mesmo assim, no momento da ruptura) e formava a representação de um cartão completo em cima da mesinha de cor clara. Aquilo era inócuo porque aquele cartão quebrado jamais tornaria a retribuir em igualdade de condições a expectativa futura daquele homem. Porque aquele cartão, por menos rancoroso que fosse, por (morta) natureza, não guardava mais a fortuna ou a miséria de quem só fazia lhe quebrar.
À terceira, só à vista. Nem crédito, porque minha confiança na bandeira e nas reservas já se esvaía, nem débito, porque eu jamais o obrigaria a uma quitação póstuma de nossas contas recíprocas, dívidas contraídas de boa vontade. Não importava que ele guardasse os pedacinhos, emoldurasse, usasse superbonder ou durex. A lição já era mais minha do que nunca, depois de quebrar, mesmo que a fatura chegasse dias depois.
A quarta à vista, mas só na madrugada da sexta-feira eu consegui processar a operação: As chances de um relacionamento não acabam na quebra, acabam quando você não se enxerga mais no cartão quebrado. Quando você passa a desejar assinar-se desautorizadamente, sem tarjas de segurança. Porque liberdade (e, por consequência, felicidade) é não caber em um tamanho padronizado retangular azul degradê. É ser ampla demais pro formato compacto de um cartão. Quem dirá pros fragmentos desconexos de um cartão de banco azul e simples. Desapego é quando você não aceita ser, por si e pra ninguém, menos que um inteiro.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Coisa que você não é

Depois da Oktoberfest, minha maior ressaca não era a de chopp, era a de abordagens-padrão por caras-padrão. Amigo, pode fiufiuzar que eu não ligo, desde que você reboque as paredes como se elas fossem arte moderna e cimente as lajes com um pouco mais de personalidade. A sua pedreiragem bem executada vai me encantar muito mais do que esse clichê regurgitado.
Eu não me importo que você se sinta a Xuxa, trocadilhe o meu nome e me mande sentar lá, desde que depois sente junto comigo e divague um pouco sobre a vida, peça um café enquanto assiste meu monólogo personalíssimo ou coma um pão de queijo silencioso na minha companhia. É tudo só pra eu não querer permanecer de pé e muito entediada. 
Eu não to pedindo muito, amor! Não precisa inaugurar uma nova e enfadonha categoria de romantismo, não precisa me mandar esperar abrir a porta do carro pra eu sair dele, por exemplo. Suplico justamente pra que não me faça esperar se o próximo capítulo vai ser tão batido quanto o primeiro. A mocinha aqui, mais sem sal que possa ser, fica até com o mordomo se ele tiver atitudes mais inspiradoras que o galã da piada pronta.
Não é amor pra toda vida. E daí? Eu não quero estar certa em uma concepção em que querer que as paixões me sejam eternas enquanto autênticas e originais enquanto durem seja errado. E elas podem durar horas ou meses, não importa. As histórias sempre se repetem em algo e não é possível manter o ineditismo o tempo todo. Eu sei, campeão! Mas não custa tanto assim insistir em procurar algo que ninguém nunca me disse. Sobrou sempre tanto por dizer de cada homem que passou pela minha vida.
O fato é que se o seu padrão pedreiro não muda, meu interesse segue na contramão - feminino, por isso mesmo sempre insatisfeito - e eu sigo desejando um cara que, mesmo sem bandeirinhas e o povo a aplaudir, me pegue pelo braço e diga: "Geremias, eu sou homem, coisa que você não é" e em vez de cinco tiros de Winchester .22 à queima roupa, a mim tire o fôlego com um beijo exclusivo, reinventado só pra minha apreciação, como boa parte dos arranjos de palavra que se seguirão. Quem sabe aí, num futuro imprevisivelmente próximo, ele me faça até queimar dentro das roupas. Vale tudo pelo que é inusitadamente bom.
Um texto de recomendações é sempre clichê e, por isso mesmo, perceba, eu sou humana, bem falível e, de certo modo, agradável, mesmo tão exigente. Esse amontoado de declarações pretende te indicar que você parta do comum, que ainda é só o que oferece e merece, em direção ao extraordinário. Eu prometo corresponder. Eu juro merecer.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Dalila de mim

Uma atitude significativa: Um lampejo de memória que não me trai mais porque me descompromisso dele. A memória deve ser dedicada às coisas certas, já que não há traição possível quando não se espera fidelidade. A memória só trai quem se permite rememorar, quem se compromete a reprisar um filme ruim no final do domingo. Então eu me descompromisso de alma e coração. Aos muitos o corpo, mapa explícito de hábitos repetidos, também desacostumará.
As marcas dos outros, a vida e a inspiração que me pediram emprestado e não me devolveram. O tempo dedicado. Qualquer esforço vão. A música que, preciso compreender, não é nossa, mas minha, e pode significar coisas novas. A sensação de ter, ganhar, perder, estar, qualquer que seja, é una, é ímpar. A solidão ensina que só se é a dois sendo um de cada vez. É minha, só minha, incompartilhavelmente minha a capacidade de comoção, paz, euforia, satisfação. Portanto permanece aqui.
Corto os cabelos, um palmo e meio, e agora sou Dalila de mim mesma - roubo minhas próprias forças e me beneficio delas. Cada mecha que não perdi por conta própria até aqui deve servir de alerta para que eu permita o crescimento alheio. Cada cicatriz que facas estrangeiras me fizeram serve para que eu desafie e desaponte meus gumes. Para que não firam o outro, para que eu (só) corte de mim as minhas dores e fraquezas. Para que eu tenha tempo de reconstruir meus fragmentos.
Que os cortes que deixei por aí doam gradativamente menos, muito menos do que os que me deixaram, e que eu seja esquecida com a agilidade de quem muito quer e tudo tem. Não quero jamais ser atendida nos desejos que fabrico dolorida da perda, colorida de cinza. Eu quero acreditar num carma operante, que identifique e reconheça que o que vale é a minha intenção em dias como hoje, quando só o que faço é querer para mim e para os outros uma reconstrução superlativa das próprias forças, das pontas duplas e de fé em si mesmo.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Poderosamente: A força que o discurso tem

Eu devia ter cabalísticos sete anos quando olhei pro céu e imaginei que o movimento das nuvens demonstrasse, na verdade, não uma corrente de vento ou qualquer coisa que o valha, mas a rotação da Terra. Naquele momento aquela me parecia uma ideia iluminada e que me elevaria ao patamar de Newton, Darwin e o povo todo das ciências naturais, grande parte que eu ainda nem conhecia. Não era verdade, talvez vocês já saibam, mas o poder que aquele discurso recém-criado exercia em mim surpreendia. Os discursos tem sempre esse poder.
Não  lembro, por exemplo, de quem me ensinou a dançar em par, mas em todas as danças em par da minha vida aquela mesma voz indecifrada ecoará dizendo dois pra lá e dois pra cá com uma força que desconheço de onde vem. Porque o discurso sempre tem poder exatamente como acreditamos nele, e acreditei peremptoriamente que aquele era o melhor jeito do mundo de dançar quando o aprendi, talvez por isso ainda não tenha aprendido jeito que me pareça mais apropriado, motivo pelo qual ele continua valendo.
Eu devia ter uns decisivos vinte anos quando um cara me disse que podia curar a própria carência com qualquer garota e aquilo não me parecia muito verdadeiro, aplicado às regras da minha vida, mas talvez porque ele acreditasse naquele discurso o próprio discurso operasse milagres e desastres na vida dele. E nos distanciasse. Os discursos têm também essas variações de poder: Eles podem tanto que aproximam ou distanciam pessoas.
Há aqueles que criamos em imaginados momentos de inspiração, como minha teoria infantil sobre as nuvens, e aqueles que são repetidos por séculos na tradição, como dançar dois em dois, ou no livros - que, aliás, também são discursos. Não importa que os discursos que formulamos sejam mais frágeis, mais cheios de arestas e possivelmente valham menos do que aqueles que já foram confirmados e abaulados por todo empirismo ou toda ciência. O que se mantém incólume é a força que operam independentemente dessa classificação. 
Não importa se somos os chatos que repetem os discursos inventados para arrebanhar interlocutores para o nosso lado da mesa ou se permanecemos na quietude de quem acredita desacreditando, mas segue firme os próprios ditames. Funciona para a política, para teorizar sobre o amor, para distanciar e unir pessoas, para tudo. O discurso pode, inclusive, mudar e se contrapor com o passar dos anos, mas a força que operou enquanto vigente não pode ser combatida.
O discurso versará sobre economia mundial, sustentabilidade, axiologia das normas, coisas bobas como nuvens, danças ou carências, porque não é a matéria que move as ideias, mas o modo como moldamos essa matéria em algum ponto do corpo que é responsável por armazenar o molde na forma de um discurso em que acreditamos. Se Kafka tinha mesmo razão quando disse que de certo ponto em diante não há retorno possível e a esse ponto é que é urgente chegar, arrisco que a premência do ponto referido se consubstancia no instante da escolha dos discursos que, eleitos, passam a guiar nossas vidas poderosamente através das convicções.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Tatuagem

A mulher assinava a folha de papel com a mão esquerda, descuidada. Nenhuma aliança, apenas um nome indigesto com caligrafia grosseira. Um nome sobre a mão, tatuagem difícil de disfarçar e de se desfazer. Incrédula, eu me perguntava quantas coisas Mayckon já havia ajudado e impedido aquela mulher de executar.
Quanta assinatura, comida, peça costurada, quanta cama desarrumada, portas fechadas com violência, cigarros fumados, escovações de dentes e cabelos Mayckon presenciou mesmo que sua figura não estivesse materializada ao lado daquela mulher, inibindo-a ou concedendo-lhe força preênsil. Não estando ao lado dela, ele ainda assim, imagino, conduzia-a pela mão.
O que leva alguém a tatuar um nome, se é que aquele era o nome de um amante? Que traço da personalidade dele o eternizou naquela mulher? Não imagino um Mayckon fino no trato, não imagino um Mayckon parecido com ela. Invento um Mayckon exigente. Eu o traduzo pelas poucas letras grafadas com desleixo, naquela tatuagem mal feita mas indiscutivelmente feita. Mayckon passou a representar, na minha nada generosa representação, o estigma do amor bandido, dificultoso, guiado pela aproximação carnal e uma subordinação(?) tão silenciosa que se converte em agradavelmente silenciosa, apesar de gritante.
Sei disso tudo só de olhar aquela mulher assinar o próprio nome. Ali, sem aliança, sem o sobrenome dele, parecendo tão independente. Sei disso por todos os meus próprios conceitos antecipados. Sei disso porque sei que depois de um pecado original que fica, todos os outros parecerão um tanto falsificados, derivados, sem autenticidade, fáceis de se desfazer. 
Depois de um tempo, acredito, deixou de ser uma questão de destatuar Mayckon. Suas marcas eram indeléveis. Sei disso porque já tatuei em mim alguém, mesmo sem tinta, porque já identifiquei um mestre hors concours dos meus desejos, diante do qual todas as comparações são desnecessárias, quase obsoletas. Não porque o Mayckon da minha vida fosse o melhor homem do mundo, mas porque me tatuei de motivos para dizer sim a ele.
Aquela tatuagem demonstrava o desprendimento que seria necessário a todos os homens que pretendessem amar aquela mulher depois de Mayckon, depois de uma ruptura, depois de todas as marcas que ele deixou nas mãos, nos padrões, na bagagem emocional e intensa daquela mulher. Por tudo em que Mayckon foi impecável e por tudo em que deixou a desejar... Seria necessário a outro homem muito discernimento, segurança, muitas virtudes e consciência da capacidade de superá-lo.
Uma mulher que já foi muito amada, ou já amou muito, como aquela, não se contenta com marcas menores ou mais fracas do que a que Mayckon deixou, para o bem ou para o mal. Sei disso quando sinto a mão teleguiada para falar de amor e pensar em prazer. Sei disso porque depois de experimentar um pecado capital muitos outros se tornaram para mim interioranos, distritais, suburbanos. Muito mais do que uma tatuagem na mão possa parecer.

domingo, 6 de outubro de 2013

Charme desbotado

"Dudaaaaaaa! Ô Duda, vem cá brincar, vai ser legal, a gente vai brincar de esconde-esconde!" Uma voz pueril e insistente me desperta de um sono túrbido, bradando alto da altura do térreo. Imagino que fosse um pequeno convidando uma pequena, ambos meus vizinhos, pra uma animada manhã de domingo daquelas em que só as crianças e os beatos em potencial conservam disposição.
Levantei o corpo como se ele tivesse o triplo do peso e me equilibrei sonolenta sobre as pernas. Rompi as fitinhas do braço esquerdo com a tesoura, tendo em conta que não precisava de passaporte especial pra avançar pela cozinha. Sozinha em casa, a primeira das paredes me dá bom dia e me brinda com o espelho considerável que me mostra uma boca ainda vermelha. Não a boca vermelha que escreve marcas no pescoço sem, contudo, emprestar a saliva, mas uma boca vermelha indefesa e inofensiva.
Parece-me que a boca escarlate não foi projetada para as atividades domésticas, porque não se adapta bem à xícara de café recém saída do microondas e não condiz com o estado de espírito matinal (embora embranqueça os dentes). Pela manhã a boca vermelha de sobras de batom não é sinal de perigo e nem de defesa, não impede nada e não se confunde com o gosto de vodka. Pela manhã, não sou eu que a escolho, mas ela que escolhe permanecer. Já não encanta mais, converte-se em um traço tímido de manifesta resistência ao abandono.
Duda, querida, é cedo ainda pra te explicar essas coisas, mas às vezes o charme da gente desbota. Às vezes nossos encantos perdem a razão de ser. Não sei por que aquele pequeno desejava tanto a sua companhia e não sei as razões da sua negativa, do seu brincar de esconder tão antecipado. Eu nem sei se seria mesmo legal brincar com ele, como ele dizia. Talvez você já tenha brincado outras vezes e ele tenha te encontrado cedo demais, antes de contar até dez, antevendo teus segredos, talvez tenha te ferido sem querer. E nisso nós somos tão parecidas, Duda! Os convites são sempre os mesmos, só os verbos é que mudam.
Torço por ti com a minha boca vermelha desbotada enquanto volto pra cama. Pra que valha a pena algum dos convites que você receber pra brincar ao longo dessa vida... Valha tão, tão, tão a pena que você não tenha medo, resistências, nem motivos íntimos pra não aceitar os próximos. Que você não perca cedo demais a ingenuidade de acreditar nos teus pequenos e saiba a medida exata entre esconder-se e rubro-revelar-se.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Riminha à toa

Tropeço sempre no mesmo degrau. Como quem repete as roupas a partir da terceira semana da estação. Há um tempo de abstinência em que cometo novos deslizes. Mas logo depois, tropeço sempre, voltando às minhas raízes. Claudicante, não nego a rima, não é à toa. Eu me repito por mais que doa. Volto à velha sensação de perna manca. Mais dois centímetros, um tanto de discernimento... Mas logo a vida me atravanca. Fosse um pouco mais de espera e elucidação, um pouco menos de esmero e abrir porta de geladeira... O mundo não me seria nem bom nem mau. Se eu fosse um pouco mais genial. Mas não, avanço matreira. Vem-me essa sequência de disritmia... E aí, adivinha? Melancolia, dor de viver, perturbação e calmaria. Isso tudo até podia virar poesia. Não dou a prosa a torcer. Teimosa, não quebro a linha. Veja só, são tantas vezes que nem meço, só tropeço de novo. Não é lá muito legal. É constatação tola e eu, sempre inovadora, não deixo a mim de ser brutal. Riso sem graça, aceno contido, a esperança é reaça: Não me liberta. Mas também não me provoca. E me conserva sempre o não todo dito. A negativa é velada, o fim calada é o que peço. O recomeço, um retrocesso. Outra escada. Mas sempre o mesmo degrau.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Matéria infinda

Saio quase sem tempo e entro apressada. Olho pros lados um pouco distraída e um pouco temerária como de costume e vou sentando, bem à frente, à direita, pois não há centros sentáveis por ali. No fim das contas, é o lado menos ensolarado e isso é ótimo, porque saí só com meus óculos de grau dessa vez. Acomodo a bolsa que é pequena demais no colo furtivamente, e desejo que o dia saiba ser porque é dele que espero algo. Não do novo mês, aparentemente tão desejado por tanta gente (quem dera nos reinventássemos, na prática, uma vez por ano, como pensamos nos reinventar no início de cada mês!), nem dessa semana que mal começou. Eu quero um dia bom, todo meu, eu-me-amo-não-posso-mais-viver-sem-mim como na música do Ultraje. 
E pra facilitar as coisas pro destino, sento perto da janela, com os cabelos ainda molhados, o rosto se recuperando dos traumas da última semana, a pele amarelada de uma hepatite recém descoberta e não encoberta por maquiagem, o perfume que é quase uma estreia e transita entre frutas doces e incenso, percebo agora. Mais dois anéis, um em cada mão, e um sapato de salto que faz um pouco de barulho. Não é um dia bom pra impressionar pessoas, mas não tarda pra que eu tenha companhia. 
Sessenta e seis anos bem vívidos na raiz dos cabelos, em olhos fundos, em manchas nas mãos e vincos ao redor dos olhos. Se foram bem vividos, não posso dizer, apesar de que me faz bem delirar imaginando. Em uma viagem relativamente curta a senhora me conta sobre os filhos - que não teve -, sobre a religião - que eu não pratico -, sobre as notícias sensacionalistas da tv pela manhã - que não acompanhei -, sobre sua aversão à ideia de adotar crianças - que não compartilho -, sobre seu preconceito com "homemsexuais" - que, mais do que não compartilhar, gargalho só de lembrar -, e sobre mais uma porção de "atribulações" sui generis facilmente classificáveis pelo Ministério da Saúde na ala das patologias comportamentais sérias, comuns e incuráveis. 
É de ficar boquiaberto do quanto a sinceridade daquela mulher me comoveu. Eu poderia rechaçar seus dogmas, desacreditar dos milagres que não vivenciei, denunciá-la aos patrulheiros dos direitos humanos, zombar de sua anacrônica vida à moda antiga. Entretanto, não ali. É que eu não tinha armas contra sua franqueza. Não naquela oportunidade tão específica e assustadora de ouvir aquela mulher com o interesse que não me dedicaram muitas das pessoas que eu já classifiquei como parecidas e interessantes. No fim, talvez eu pudesse emprestar a ela as condições pro dia feliz em que a moça do banco ao lado era simpática e só fazia assentir. Às vezes tudo que a gente faz é menosprezar as oportunidades. 
É óbvio que o mundo não gira por causa de mulheres como eu, que ignoram algumas convicções pra não brigar com idosas de ideias que cheiram naftalina. Mas pode ser que o mundo gire por pessoas como ela, que não se importam se agradam ou não e, mesmo sabidamente imperfeitas, transparecem com seus vincos, seus óculos antigos, suas manias e mazelas insolúveis, suas saionas comportadas (ou acima do meio das coxas?) e suas opiniões... Livres, ainda que de dentro de suas próprias grades. Por aí, vagando até acertar a companhia. 
Guardei aquela pessoa na memória pra muito além de um texto no final do dia. Com o passar das horas, tornei cada vez mais preservada nossa irremediável afinidade, como faço com todas as pessoas a quem quero muito bem. 
Andar de ônibus é matéria infinda do que escrever. Viver também.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Precisão

"[...] à precisão do alvo corresponde um estremecimento do nome; o próprio desejo não pode produzir senão um impróprio do enunciado: Deste fracasso da linguagem, só resta um vestígio: a palavra "adorável" (a boa tradução de adorável seria o ipse latino: é ele, é ele mesmo em pessoa)." (Roland Barthes)

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Da Vila Nova a Biarritz

Eu me aproximo com o indicador e o dedo do meio unidos em riste. Avanço mais cheia de mim do que estaria se fosse o segundo que antecede a prestação de uma continência. O gesto, teso, precisa ser preciso. Eu não quero deixar dúvidas da minha condição hierárquica naquela situação, porque essa pequena peculiaridade mostra o quanto sou insana, o quanto não meço as consequências, o quanto sou singular e ousada na minha monarquia particular sobre mim mesma. Ditatorial e ofensiva - e os dedos que escolhi para unir já não negam - quero chegar ao ponto certo, na hora certa.
Podia ser uma cena erótica... Sou só eu desarmando o microondas um segundo antes dele começar a apitar. Como se fosse um perigo esperar o tempo que eu mesma planejei. Como se fosse uma bomba, um problema. Por muitos anos achei que ninguém mais tivesse o hábito de desligar o microondas antes do prazo quando, em um texto aleatório pela internet da vida, descobri que esse era praticamente o estigma de uma geração. A geração microondas. Que quer o controle de tudo, até do tempo. A geração desligo-o-microondas-antes-porque-não-sei-esperar-por-nada. Não sei se fico inconformada com a banalização desse hábito que sempre me pareceu tão meu ou feliz por repartir minha impaciência e meu desconforto com mais alguéns.
Quer queira quer não, agora sou parte da grande legião de apertadores de botão de microondas antes do prazo fatal e aos poucos vou me acostumando. Nos apertões seguintes o gesto passa de peculiar a familiar. No fim das contas, essa familiaridade é um consolo. É como se minha loucura fosse banal e menor que a aflição que eu tenho com o escândalo eletrodoméstico que ecoa pela cozinha. Uma coisa tão simples e corriqueira, mas tão assustadora. No fim do fim das contas (já que já finalizamos elas uma vez, com um consolo) é até bem compreensível que outras pessoas se sintam assim. E bom. Compreensível e bom.
Lembrei de um texto do Caio Fernando Abreu em que ele demonstra com muita clareza, entre outras coisas, que o que sentia por conta do amor era "único & indivisível e [...] exatamente igual à dor coletiva, da Rocinha a Biarritz". Embora ter as minhas sensações rebaixadas à vala comum parecesse péssimo, como julguei no princípio, talvez isso seja bom, percebo agora. Talvez a dor e as paranoias, espelhadas em outras pessoas, tornem-se mais claras e suportáveis. Talvez descobrir que a gente sente o mesmo pavor que o outro - diante do amor, da insatisfação crônica que acomete numa quarta à noite ou de um microondas - seja uma descoberta capaz de nos tranquilizar e nos tornar mais leves. Talvez se repetir em outro peito nos conceda a isenção necessária para lidar com nossos próprios problemas.
É quando percebo que não preciso ser inédita o tempo todo, embora minhas agonias pareçam bem minhas. E que desejar um sofrimento inédito é tolice da minha parte, já que mais cedo ou mais tarde outras pessoas apertarão o botão de cancelamento do microondas um segundo antes daquele segundo em que o pratinho deveria parar de girar e que elas não serão melhores, ou mais sofridas, ou mais insanas do que ninguém por isso. Não preciso ser mártir de meus hábitos ultrapassados nem partidária de um ideal de exclusividade comportamental. Porque melhor que ser heroína de uma resistência falida é ver que, na maioria das vezes, repetir-se nos outros é superpoder e santo remédio.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Clichê barato (e necessário)

Eu não acredito em macumba e mau olhado (ou mal olhado? e afinal, quem, além de mim, se importa com a língua portuguesa ao fazer uma revelação dessas?). Bom, o que quero dizer é que nunca acreditei que essas coisas realmente funcionem, caso sejam feitas. Sempre fui de achar que quem não se importa com os efeitos de macumbas e olhares ruins (assim é melhor?) é meio que isento das repercussões práticas de alguém se importando em lhe direcionar o mal com uma "simpatia" escabrosa e macabra.
Contudo, eu acredito que algumas coisas nos encontrem. Uma palavra que nunca ouvimos, aprendemos, e de repente está estampada em todos os jornais e no próximo capítulo do livro. Uma pessoa que não vemos há meses, um dia a gente lembra dela e no outro ela puft!, aparece cheia de saudades. 
Não é estranho? Ser tão cética para macumbas e mau olhado e tão crente que o destino me proporciona as coisas certas nos momentos certos, às vezes. É como se fossemos grandes ímãs, através de um pensamento ou outro. Ou isso é tudo uma grande bobagem, não tenho bem certeza. Pode ser que as coincidências que nos encontram são apenas um reflexo de nossa recente atenção voltada para elas. O que eu tenho certeza é que jamais emprestarei minha atenção ou dedicarei meus esforços vocais para proferir qualquer coisa como "isso aí de ruim, que me aconteceu, só pode ser mau olhado!". Acho uma demonstração desnecessária de fragilidade diante do mundo.
Lembrei de escrever sobre isso porque ontem comecei a ler Juliete nunca mais, do Gabito Nunes, e hoje cheguei - e parei - no capítulo em que Santiago é convidado para escrever horóscopo para um jornal. Eu não acredito em horóscopo de jornal, mesmo acreditando nas características astrológicas do meu signo a ponto de me confessar uma leonina ortodoxa e sair identificando outros leoninos em conversas aleatórias por aí. Eu não acredito em horóscopo de jornal, mas é a primeira seção que eu corro para ler depois das manchetes interessantes, quando um jornal me cai às mãos.
Eu ainda não descobri se Santiago, o protagonista de Gabito, manja de astrologia ou se isso faria alguma diferença prática. O caso é que não acredito em horóscopo de jornal mas sei que, talvez, a astrologia que determinou as características do meu signo, na qual acredito, seja a mesma que pauta as orientações para "um dia bom para viagens" enquanto a rua de um pisciano está alagada e ele só consegue confirmar a previsão caso interprete o próprio signo de maneira literal ou vá voando. 
Eu sei que por várias vezes eu chegarei à seção de esporte pensando que as previsões astrológicas do jornal são tão úteis quanto passar o dia procrastinando na internet, mas isso não me tira a expectativa de bons: olhares, coincidências, presságios. Dá até pra falar nessa "positividade", da qual eu sou meio avessa, que alguns segmentos proclamam. Eu não sou paz e amor vinte e quatro horas no dia, mas meu saldo sempre dá crédito às coisas boas. A verdade é que a gente sempre anseia por bálsamo aos dias. Deseja sempre pessoas otimistamente interessantes, mesmo que sejam difíceis. Gente "pra frente", sabe? Como diriam os nossos avós. E deseja também ocasiões oportunas, mesmo que sejam escassas, em que os ventos parecem favorecer nossas velas.
Eu não acredito em macumba mas sou supersticiosa, sim, à minha maneira. Minha tradição é quase sempre acreditar que o futuro me reserva uma sorte inquebrantável, e que isso não me isenta de ir tricotando os meus talentos. Quem não pode com a mandinga não segura o patuá? Bom, eu seguro alguns e acredito que isso me faz poder com outros. Minha crendice é insistir que a esperança não pode se debilitar nem com a pior das doses de realismo - por mais que ele seja necessário - porque é ela que nos possibilita e nos blinda diante do pior que possa acontecer.
Mirem mal outras direções. Descosturem a boca dos sapos em que, por ventura, puseram meus nomes. Eu não acredito em macumba e mau olhado, não vai adiantar. O que me impulsiona é o que deixo me atingir. A força que me move é minha fé: no que eu quiser.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Sobre o dia em que, dando um autógrafo, na verdade eu o recebi

Hoje eu dei um autógrafo. Sim, também custei a acreditar. Um autógrafo de verdade. O primeiro da vida, claro. Já pode desfranzir as sobrancelhas, vou começar a explicar. Saindo do banco, eu esperava na extrema esquerda da faixa de pedestres, cabeça de lado, pescoço pra cima, pra poder ser a primeira a atravessar quando o sinal abrisse, uma mania estranha que adquiri semana passada. Meio minuto depois eu dava um autógrafo. Sim, um autógrafo. Do outro lado da rua, ali, um autógrafo! Uma doçura de menina me parou e, sem mais nem menos, sem me conhecer pessoalmente, sem eu ser famosa, sem nada em troca: Elogiou e pediu um autógrafo e uma foto, por causa do umcentretantos.
Assinei meu nome um pouco trêmulo na capa do caderno de faculdade. Não porque a fama estivesse próxima, não só porque estava de pé sem lugar pra me apoiar, nem porque esperasse por aquilo um dia. Justamente porque não esperava. Já recebi tanto ódio gratuito na vida, tanto olhar de reprovação sem mais nem porquê. Já assisti tanta covardia desnecessária com sentimentos genuínos. Já hesitei tanto. E agora eu estava ali recebendo carinho, admiração e reconhecimento - espontâneos! - de uma menina que me lia sem eu conhecê-la.
Não me perguntem se eu penso que mereço ser lida ou idolatrada por alguém, se é que só os fãs pedem autógrafo. Acho mesmo que não, ainda que essa confissão pareça não vir de uma leonina ortodoxa - que sou. Nesse momento não é a idolatria que me interessa, é exatamente o desapego. Pedir um autógrafo a alguém é um ato da mais absoluta generosidade. É compadecer da mesma arte do assinante sem precisar tê-lo visto uma vez sequer. É oferecer a pureza da admiração deixando claro que as atitudes ruins do admirado não são capazes de conspurcar essa admiração. A caneta eterniza o que já se produziu de bom. Porque pedir um autógrafo é potencializar as virtudes de quem autografa. Por três minutos esqueci que me empresto, tantas vezes comum, nessas palavras extremas, fáceis e fracas, repetidas, tantas vezes afogada em melancolia.
E então eu me pus a pensar que merecíamos todos distribuir autógrafos por aí, do outro lado da rua, pelo prazer de se sentir partilhado à distância. Pela euforia de descobrir que mesmo com gente amargando demais, há quem se adoce da mesma matéria. Eu me pus a pensar que merecemos todos pedido como este, tão honestamente despreocupado, como o daquela menina. 
Quantos autógrafos sou capaz de pedir? Por quantas pessoas sou capaz de abdicar de meu orgulho e meu receio, para a simplicidade de um recadinho de poucas linhas e uma assinatura, pela bondade de alegrá-las para o resto do mês, mesmo sem saber? Por quantas pessoas eu pago o preço que, nem que seja só às vezes, elas valem? É só uma tradição, eu sei, não pensem que eu acho que ganhei o nobel de literatura. Mas mudou tanto o meu dia que sou capaz de filosofar que ser reconhecido por uma pessoa - em tempos em que a órbita do umbigo é tão importante - é o bastante.
Por isso, amigos: eu pediria autógrafo de todos vocês. Pelos momentos recorrentes ou esporádicos em que nos identificamos sentindo exatamente a mesma coisa. Pelos monólogos rotineiros. E aos poucos desconhecidos, que me leem do outro lado da rua: jamais estaremos distantes enquanto as palavras forem capazes de nos aproximar. É piegas porque vem de uma pessoa comovida... Sabe, eu nem preciso conhecê-los pra saber que vocês estão todos assinados a caneta em mim e nas nossas coincidências.
Menina do autógrafo, pensando assim, do jeito que você e eu merecemos, eu te pediria autógrafo também. Pra você experimentar a singeleza de um gesto tão gratificante quanto o seu. Pra você perceber que muitas vezes basta um cutucão no ombro do outro lado da rua que o dia da gente muda. Ou, talvez, eu pediria a você um autógrafo porque... se estamos vivos, se nos dispomos a ser autênticos, se temos preparo e iluminação pra deixar pra trás a mesquinheza de narciso, também estamos aptos a sermos ídolos. Daqueles que só se preocupam em ser, para os outros, tudo de bom que dar um autógrafo pode trazer.

domingo, 15 de setembro de 2013

Descompensada

A solidão descompensa. É perder a intenção de andar ao lado e perder a direção do amor. Chorar e violentamente não saber parar a despeito de todas as tragédias, da morte, de todas as coisas piores para as quais as lágrimas deveriam permanecer sempre guardadas. Em dias assim, meu choro é uma agressão contra a minha maturidade. É uma contradição - de ter pena de si mesmo detestando sentir pena. Não sei explicar, não sei explicá-lo. Só vai e esvai. Eu me despejo, covarde, ao lembrar do que não foi dito em prol de uma tentativa imediata. Lembrar de todas as marcas de ponta de faca depois de todos os murros, insistências descabidas. E então hesitar.
Eu vou secando ao ver a vida andar e sorrir de novo. Abrir-se de novo, e pretender de novo. E então recaio. Recaio na sensação de perder as chances e não querer para si as oportunidades que restaram. Mesmo que sejam melhores, mesmo que sejam escolhas mais óbvias. Mesmo que pareça novo. Não, não. Mais apropriado: Recaio na sensação de não querer para si o peso de precisar de alguém para dividir a insanidade que é oferecer resistência ao mundo, e ainda assim essa mesma falta pesar em mim.
Eu me sinto ancorada no porto de uma ilha desabitada e sinto que estou me perdendo sempre um pouco mais nessa inércia. Eu vou ficando para trás. Minhas dívidas não correspondem aos créditos de alguém. Minha capacidade de oscilar transborda qualquer início. Minha solidão, calada, é tanta... que não cabe na companhia de ninguém.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Au revoir

Quando me cai um cílio e eu me dou conta, estendo logo o indicador pra quem estiver ao alcance. Gosto da brincadeira. Funciona assim: segura o cílio caído, pressiona contra o indicador do outro, fecha os olhos, faz um pedido e acredita que ele vai se realizar. É preciso pensar no pedido que a gente quer que se realize com concentração detida. Fechar os olhos é a prova de nossa confiança no pedido eleito - cílio que fica com quem não fecha os olhos e deseja fundo não é cílio que se preze. 
Funciona. Ou não funciona, mas eu gosto de pensar que sim, pelas vezes que venço a brincadeira. Meus cílios, caídos, têm uma certa predisposição a ficar comigo. Mas eu não tenho truques e, como boa parte de nós sabe, para algumas coisas nessa vida não há escapatória. Por isso, perdendo o cílio para o outro, resta se resignar por ter emprestado de si, contribuindo com o destino do outro, caso o outro também tenha acreditado na brincadeira pelo tempo suficiente de emprestar o indicador e se concentrado o bastante para ganhar.
Se acontece de o outro ganhar, e consequentemente a gente perder, acontece também do outro sair com o cílio da gente por aí e fazer dele o que bem quiser. É raro que o outro o trate como deve. Logo aquele cílio! Tão nosso! Que por uma desventura caiu... Mas não importa muito, já que o cílio não é mais nosso no instante em que escolhe deixar de ser ou no instante em que, por um gesto desajeitado, coçamos o olho e já foi, tchau cílio! au revoir! ...para nunca mais. Indiretamente, escolhemos perdê-lo para o mundo. O cílio ganhou vida própria. Dai pra frente, poeira no cílio perdido, que agora faz parte da vida, do mundo e também do outros, é refresco...
O cílio é o instrumento, a técnica. Não basta o pedido para que a brincadeira se realize e não basta também o outro. É necessário um conjunto harmônico e desajeitado, os indicadores colados. É necessário que alguém ganhe o cílio, a esperança renovada de seus velhos pedidos, e é necessário que o outro fique com seu pedido, imaginando se ele vale a tentativa, até a hora de brincar outra vez.
Essa história não é bem sobre um cílio que cai, embora diga verdade sobre coisas que se perdem. Essa história é sobre cílios que se perdem para renovar esperanças, no instante exato de perdê-las. Sobre cílios que alternam sua razão de ser e sabem se adaptar às novas circunstâncias sem pensar que a vida lhes foi má pelo fato de terem caído. Afinal o que importa não é o cílio, é o pedido da gente. E é a sorte. Sorte que ora a gente tem, ora não tem. E é essa brincadeira que, com sorte, nos ensina a dar sentido sempre novo aos cílios, às perdas e aos dias.