sexta-feira, 21 de junho de 2013

Protesto: Que seja símbolo de um raio (mais) vívido

Essa história começa às seis horas da última quinta-feira sobrevivida em imensa parte sob a chuva. O dia de despedida do outono de 2013 começou bem cedo, quando levantei da cama pra ir ao estágio. Cansada demais pra reagir bem ao clima, passei frio durante todo o dia por não saber adivinhar as temperaturas da tarde e da noite logo pela manhã. Cansada demais pra usar maquiagem, desajeitada demais pra deixar os cabelos soltos e fatigada o suficiente pra não pensar de modo detido em como o dia realmente seria.
No fim das contas, hoje eu fui contanimada. Contaminada pela animação. Hoje eu fui pra rua. Pra maior arquibancada do Brasil de Marcelo Falcão no comercial da Fiat. Isso mesmo, hoje eu fui pra rua, mesmo sem a cara pintada, máscara, nariz de palhaço ou uma aparência digna de cobertura televisiva. Hoje eu fui pra rua e fui, entre tudo, porque me chamaram. Porque centenas de pessoas cheias de vontade de mudar me convocaram, aos brados, pra protestar com elas pacifica e apartidariamente. E cada um legitimava o ato com a crença em suas reivindicações pessoais em prol do coletivo. O bacana era mostrar a cara. "Desalienar". Éramos netos, filhos e pais da revolução política. Cabia a nós. Só nós poderíamos. Ou essa era a ideia que se alastrava pelos corredores. Ou as duas coisas.
Alguns de nós estávamos lá especificamente por oposição à Proposta de Emenda Constitucional n. 37, outros pela impunidade dos mensaleiros, outros por reflexos de sucessivos governos de direita ou esquerda que não nos levaram muito avante. Alguns de nós estávamos lá pela educação, a saúde, o transporte e a segurança de modo geral. Outros, por não aguentar mais os escândalos noticiados. E também os encobertos. Em matéria de motivos "pessoais em prol do coletivo", a lista seguiria quase infinitamente. Há quem advogue ter estado lá por tudo isso.
Acontece que hoje eu errei a letra do hino nacional, entre um acesso de tosse e outro, nos versos clássicos de sonho intenso e amor eterno. A situação e o alvoroço contribuíam, mas... Eu não errava assim desde a quarta série da escola primária... Foi feio e estranho. Mas eu não podia me constranger. Caso as dezenas de errantes simultâneos não bastassem (e não bastam) para justificar o (também meu) equívoco (já que ao que parece não sou infalível), meu álibi é que andávamos todos um tanto errantes por ali.
Porque parece que realmente acordamos do sono eterno em berço esplêndido. Motivados, cheios de energia e disposição. A manifestação era, por óbvio, uma consequência de nossa indignação progressiva com as injustiças, mas posta em prática de uma forma um tanto tímida, desajeitada, quase tardia, verdadeiramente errante, como meus versos do hino nacional.
Marchamos sem um norte comum muito objetivo - o que explica boa parte ter se calado em pronunciamentos (através do megafone que nos precedia) mencionando o termo "fascismo" com absurda impropriedade, ou mesmo a demonização da mídia pura e simplesmente. Em todo caso, era o manifesto de  nossa "rebeldia politizada", então. Fosse como fosse.
E era (ou deveria ser) uma rebeldia fundada, grosso modo, no fato de que as coisas podiam estar muito melhores, e este era (ou deveria bastar que fosse) o carro-chefe, a linha mestra, o fio que nos tecia unidos em verde, amarelo, azul e branco e uma vontade multicolorida de transformar nossa casa, nossa cidade, o país inteiro, positivamente. O que parece vago... O que parece um sonho intenso (sem confusões com o amor ou a eternidade dessa vez). E na verdade é. 
E na verdade é! Porque protestar - nos moldes da manifestação de hoje - deveria ser significado não só da impetuosidade da juventude que aprende finalmente a reclamar conjuntamente e em altas vozes sobre os abusos, mas deveria também ser significado de um compromisso ético. Porque não se muda o país  reclamando, sem votar consciente, sem ter uma proposta específica de melhoria, sem abdicar das nossas próprias e pequenas corrupções diárias. Assim, o protesto deve (ou deveria, ou deverá, quem dera!) ser o símbolo de um raio (mais) vívido, que aclare o caminho do túnel a se percorrer se visamos a sociedade justa, livre, igualitária e fraterna.
Hoje eu fui pra rua. E eu me orgulho disso. Entoamos refrões mais ou menos abrangentes. Choveu. Remamos juntos e ao limite da exaustão, por entendermos que o navio precisa andar em rumo certo, mesmo que não soubéssemos guiar um timão. 
Essa é a história de um dia que começou às seis da manhã e foi cenário pra um passo importante que, a meu sentir, nem de longe finaliza o que se convencionou chamar de "luta".
Eu me despeço citando Dino Cantelli: Pelo o que se vê, o Gigante acordou mesmo. Mas no escuro, assustado e tropeçando nas coisas. Agora é torcer para que encontre o interruptor.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A negligência da espera

Detesto pessoas irresponsáveis. E negligencio todos os meus prazos, sem exceção. Já negligenciei, com frequência, todas as minhas urgências, das fisiológicas às mais requintadas e metafísicas. O que, a bem da verdade, é bem detestável da minha parte. A esse respeito, eu não me compreendo.
Talvez eu passe a noite produzindo um trabalho semestral - que, claro, deixei pra última hora. Vai ser um dos melhores. Do contrário, terminaria amanhã de manhã. Mas quem se importa? Em alguns anos não me lembrarei do que estou escrevendo, sintetizando e produzindo na noite de hoje. Meses, quem sabe? Semanas? Dias... (em que tudo muda)
O tempo passa. Tudo passa. Deve haver uma tradução do ditado para qualquer idioma. Uma verdade universal, porque o tempo é sempre importante. Ele não tem distâncias, cor, geografia.
Se começa a chover, o clima importa também. Tenho frio. Talvez eu ponha o pijama e me renda às cobertas e ao sono depois dessa pausa estratégica. E dramática. É uma pausa que converge para as duas coisas.
Talvez porque o celular tenha tocado (só) pra me avisar que o dia foi corrido. Dia corrido é sempre um eufemismo para quero desculpas antecipadas pela culpa que penso não ter, já que o meu dia foi corrido. Um dia corrido é uma redundância prolixa (porque ecoa através dos pensamentos) que reduz a si mesma, dada a brevidade do anúncio e o pouco caso, aos trapos.
Esperar não faz o tempo correr. Esperar desacelera. E eu? Eu vivo esperando.
Os prazos acabarem, os tempos passarem, as pausas dramáticas se extinguirem, os irresponsáveis compreenderem que meu ódio é solidariedade, as frases de efeito perderem o sentido. A negligência da espera se converter em trezentos e sessenta e cinco parcelas anuais de dias corridos que não impeçam. E alguém que me sinta (bem) à la Closer : Entre tudo e tantos, pela integralidade do que dói em mim.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Incompreensível


Cheguei em casa, amarrei os cabelos que já tinham um arco de bolinhas e lacinho, vesti uma blusa de lã cor de rosa por cima do vestido e fui fazer sanduíches de vestido preto, meia cinco oitavos, blusa de lã cor de rosa, arquinho e cabelo amarrado. Talvez eu estivesse de pantufas, não lembro bem. Era uma cena poética de tão patética. Eu costumo ter dó de poucas pessoas, mas naquele momento eu tive dó de mim. Por nada.
Às vezes eu sofro sem motivo. Acho mesmo que tenho vocação. Isso vem me acontecendo com frequência. É bem verdade que eu detesto o estereótipo de chorona. E nunca ele me coube tão bem. Ontem eu desembarquei do carro e chorei apoiada em uma das colunas do terminal, e por mais que me esforce, não sei dizer porquê. Eu tinha em mim todas as dores do mundo naquela partida. Não tardou pra que o carro arrancasse, levando-o pra cada vez mais longe. De um jeito que, uma vez mais, eu não sabia aceitar.
Queria tanto saber agradecer o que eu tenho de bom. Quero tanto me satisfazer de verdade com isso, sem fantasiar que os (pequenos?) problemas que tenho são culpa de coisas mal resolvidas na minha história, que nunca poderão sarar, porque estão em um tempo que não volta.
Saber seguir, como eu já soube um dia. Saber apostar como eu já soube um dia. Queria tanto saber deixar pra trás com mais facilidade. Queria tanto ser mais leve. Queria tanto viver avante. Mas todas as pequenas decepções e alegrias ainda moram em mim de alguma forma. E como pesam! E como me atravancam!
Acho que deixei de ter o riso franco e fácil, na véspera de quando a inquietude se instalou em mim. E chorar não resolve nada, eu sei. E formular hipóteses, solitária, não altera a trajetória dos destinos. E são poucas, nesse mundo, as pessoas altruístas o suficiente pra deixar suas vidas de lado por cinco minutos pela dedicação de cessar um choro. O que, na verdade, é bem compreensível.
Quero me dar sossego e não esperar que algo extraordinário aconteça pra que eu volte a ser bem feliz.  Porque talvez nada de mais extraordinário vá acontecer. Porque talvez o que há de mais extraordinário se revele em pequenos gestos que não sei reconhecer e significam muito. E quero reconhecer, mas não sei como.
Quero compreender que não devo ser derrubada à toa, que algumas pessoas podem valer minhas apostas, e que outras precisam de uma paz que talvez eu não ofereça mais. De uma paz que não me dou e que me cansei, muito cedo, de procurar. E choro de cabelo amarrado, arco de bolinhas, meia cinco oitavos, vestido preto. Embaixo das cobertas. Eu choro nua das minhas grandezas, choro despida de qualquer qualidade. Choro, criança sem rumo, as mãos fechadas em punho pra que ninguém mais se atreva a entrelaçar os dedos. O meu choro deságua vão, destemperado, incompreensível. Eu não sei o que me acontece enquanto entristeço em distância segura de um caminho mais cheio de luz.