sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Pra não dizer que não falei dessa metamorfose ambulante

Não matarás. A menos que encontres um estuprador em conjunção carnal com tua filha. A menos que alguém te aponte um revólver numa briga. A menos que também se considere a morte que é não se deixar salvar pela mudança de opinião. Honrarás pai e mãe. A menos que sejam contra teu casamento. A menos que não te reconheçam como filho. A menos que tenhas doze anos e te cortem a mesada. Santificarás o sábado ou o domingo. A menos que a grana esteja curta. A menos que no sábado recebas convites irrecusavelmente profanos. A menos que domingo seja dia de futebol com os amigos. Amarás a Deus sobre todas as coisas, não dirás o nome dele em vão, e não terás outros deuses além dele. A menos que tua fé seja outra. A menos que o nome do teu deus seja Buda, Jeová, o Sol ou o Maradona. A menos que teu ceticismo tenha te feito ateu. Não cobiçarás as coisas alheias. A menos que isso te motive a ser melhor e adquirir as tuas. A menos que o vizinho tenha usado o mesmo adubo que tu e as plantas dele tenham crescido mais. Não terás ídolos. A menos que se depare com alguém muito digno de tua admiração e a gratidão se converta em idolatria. A menos que alguém tenha te criado com esmero e a duras penas. A menos que Paul McCartney faça turnê no Brasil. Não prestarás falso testemunho contra o teu próximo. A menos que esse próximo seja acusador do teu pai, teu irmão, teu filho. A menos que te deem recompensa. A menos que o testemunho não te pareça falso. A menos que tua falsidade seja patológica. Não furtarás. A menos que tua barriga doa de fome. A menos que apostes com os amigos. A menos que fiques com uma caneta no meio de tuas coisas sem querer. Não cobiçarás a mulher do próximo. A menos que a cobiça seja recíproca. A menos que alguém te ensine que a fidelidade nem sempre comporta todos os sentidos. A menos que sejam todos poligâmicos. A menos que aos poucos a mulher do próximo pareça absurdamente mais próxima de ti do que dele.
Toda máxima é demasiado perigosa. Qual o liame que ao mesmo tempo distancia o errado do que nos parece certo em cada ocasião? Em termos práticos, o que legitima nossas defesas? De que substância é feita a legalidade das normas morais que te impões todos os dias? Até onde vai a cogência do que te ensinaram que era certo? O mandamento faz lei ou mera punição? Por qual motivo eu acreditaria em uma lei que só faz me punir, se tenho escolha?
O homicida não precisa ignorar a norma, ela nasceu nula para ele até ser compelido às consequências. O homicida, em geral, não desconhece a norma, mas sua motivação lhe parece maior que ela. O homicida do estuprador da filha não precisa conhecer os mandamentos, o código penal ou os direitos humanos para se julgar legitimado. E ninguém nunca saberá de antemão a medida dos extremos aos quais será submetido. Ninguém sabe precisar unanimemente o que é "extremo". Quantos bilhões de juízos variáveis devem ser considerados para ponderar a moral média sobre todas as coisas?
Compreendo que de olho por olho o mundo acabaria cego, compreendo o exercício pacifista - necessário! - que devemos todos praticar, mas hoje acordei estranhamente casuísta e combativa. Achando o livre arbítrio uma estampa xadrez em que as regras morais gerais, paralelas, colidem com as situações específicas. Acordei admirando a coragem da antítese. O quanto é radical o poder avaliador, quase educativo, que exercemos sobre nós mesmos. Somos nossos próprios juízes. Ou melhor, nossos árbitros. É nossa vontade que nos confere a possibilidade de mediar e avaliar o que é melhor para nós.
Ninguém sabe ao certo a distância que o árbitro de si mesmo precisa conservar para que não seja parcial, para que não seja corrompido em seu julgamento. Eu posso até ser pecadora, mas acordei sem tolerar a forma pronta. Moralmente, não me cabe a ditadura do senso comum. Ao me investigar, fazer digladiar minhas próprias opiniões controversas, refletir o que é posto como norma e o que é sinônimo de justiça, ao ser tribunal exclusivo ao julgar os reflexos dos mandamentos, que às vezes flexiono, eu me torno purgada das penas que cominam para mim. Ao não solidificar minha jurisprudência em tantos aspectos e não sumulá-la nunca, eu me permito novas sínteses. 
Estou em constante processo de beatificação e sou advogada do diabo de minha própria santidade.

Um comentário:

Jaqueline Nienkotter disse...

O 'Oh yeaah' do dia vai para: Miss C! - sempre do alto de sua desenvoltura para descrever o indescritível!