segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Da série "os melhores diálogos que não tive"

- Deus é um cara gozador, adora brincadeira!
Tô pagando até os pecados que não cometi...
... e o arrependimento? Não, não mata.
Anota no teu caderninho.

(...)

- O fato é que a ausência de seus beijos doces e de conversas secretas me fazem, sim, falta. Parecem, com o perdão da palavra, um substrato de minha ação.

E, acho que esqueci de dizer: você detém a liberdade que ambiciono.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Sob o sol da manhã

Bela como a luz da lua! Estrela do oriente nesses mares do sul (...) será magia, miragem, milagre. Será mistério! Prateando horizontes... Brilham rios, fontes. Numa cascata de luz. No espelho dessas águas, vejo a face luminosa do amor. As ondas vão e vem, e vão e são como o tempo... Luz do divinal querer. Seria uma sereia? Ou seria só delírio tropical, fantasia? Ou será, um sonho de criança sob o sol da manhã...

Que seja doce!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Greatest unhits


Retribuição de cuidado. Proteção. Amizade sincera. Abraço que conforta. Sutileza que comove. Uma vontade incondicional de estar perto. Adoração. E, por sorte, por uma língua vasta que permite várias denominações para uma coisa só, em dados momentos podemos escolher como chamaremos as coisas. Temos um arsenal de possibilidades. E eu escolho deixar as sensações que não me merecem para trás. Escolho não perder tempo com o que me faz mal. Escolho esquecer o que não foi, não é, não volta. Escolho nosso futuro. Escolho me permitir. Escolho cuidar porque sou cuidada. Escolho agradecer o bem que tu me fazes. Escolho deixar que seja, finalmente, amor.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

"Talvez a gente não se encontre mais..."

E para não dizer que ele tinha os olhos marejados quando disse aquilo: Não tinha. Entretanto talvez fosse bom para o ego lírico exagerar no sentimentalismo. Aumentemos as proporções da aventura... Chorava compulsivamente, desnorteado, quando disse que talvez nunca mais nos víssemos. Fez questão. Não precisava dizer e disse. Ergueu a cabeça, meio triste meio cheio de culpa, e sentenciou que ia embora. Usou o talvez e eu achei mesmo que aquela palavra hodiernamente obsoleta antecederia um adeus breve e imensamente pesaroso. Lembrei Caio Fernando: "Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem". Era óbvio que era o princípio de uma partida. Mas uma partida que começa com um talvez não pode ser ruim... Ou pode? Assenti. Era natural sorrir. Aliás, era tudo que eu sabia fazer, já que não podia dizer. Que fazer quando se toma nota sobre perder o conhecido instante do ânimo agitado quando os olhos se cruzam? Aquela pele meio pálida de quem não dorme porque pensa demais e os dentes amarelados me mastigavam. Os olhos me investigavam - por um Deus que permite meus devaneios... Como aqueles olhos me investigavam! E a audição completava o trabalho refinada e indevidamente austera, ouvindo coisas que eu pensava nem ter dito. Era um olhar terno que não me reprovava porque, creio, por detrás das nossas "composturas" cada um queria tanto quanto. E ali, trôpega com as palavras, eu quereria ter a audácia que se exige para um pedido tão sincero. Seria para que ele permanecesse ali parado pelos últimos cinco minutos, com sua costumeira expressão de pressa controlada, para que eu pudesse fingir que não o observava pela última vez. E se depois disso eu pudesse dizer em agradecimento ao acato daquela súplica uma só frase, seria ela: "Obrigada por jamais ter permitido que eu lhe entendesse."

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Três lados

Escutei alguém abrir os portões.
Encontrei, no coração, multidões...
Meu desejo e meu destino brigaram como irmãos!
E amanhã semeará outros grãos...
Você estava longe, então por que voltou?
Seus olhos de verão... que não vão entender.
Cada um terá razões ou arpões
Dediquei-me às suas contradições, fissões, confusões!
Meu desejo, seu bom senso: raivosos feito cães.
(...) Somos dois contra a parede
E tudo tem três lados...
E a noite arremessará outros dados!
Os deuses vendem quando dão,
Melhor saber.
Seus olhos de verão...
Que não vão nem lembrar.
E quanto a mim, te quero sim!
Vem dizer que você não sabe...
E quanto a mim, não é o fim.
Nem há razão pra que um dia acabe...


Skank

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Os dias de ávido empenho

Ao som de Belle and Sebastian - I don't love anyone.

O ontem me encontrou no corredor, mas não fez mais que acenar com a cabeça e pronunciar um encontro vocálico. Depois que anoiteceu, era de se esperar. Anteontem está em outra fase, virou gente grande. Nunca mais vi, não mais posso querer. Ainda deve mexer nos cabelos com a mesma frequência. Ainda deve dizer a palavra verdade com dificuldade. Ainda deve ser doce. Antes de anteontem não demonstra nada, não me chora e não me sorri, não me mostra os dentes, não me dá sinal de vida. Um erro grotesco sentou-se algumas carteiras longe de mim. Eu não sabia se aquilo ia ser meu depois de amanhã ou meu nunca. Não havia nada de realmente encantador como nas histórias precedentes e eu temia que aquela busca acabasse assim, em erros como aquele. O hoje, preso a uma sala com as paredes desenhadas de imaginação, parecia o melhor, mas era perigoso pois nada sabia a respeito dos outros erros, dos outros dias. Então pressenti que, sem muita demora, de fato não duraria.
A consciência eu encontrei na saída, tinha um arco de balões coloridos pouco acima da cabeça. Chamativa. Levava um cartaz colado na barriga, onde se lia: Você não ama nenhum deles. Atordoada eu não consenti nem discordei, fechei os olhos, girei o corpo e passei quase colada à porta para não esbarrar naquela frase. E eu, que só sei gostar do que ainda não foi, sinto saudade de tudo e gosto daquele lugar.
Quando meu amanhã chegar - e eu suponho que é exatamente ali que nos encontraremos - aquele arco de balões coloridos será céu para um abraço. Finalmente estarei em paz. Não é mais do que a minha consciência merece, por deixar que eu teste o meu coração com ávido empenho, pouca sinceridade e um sem fim de esperança, todos os dias antes de amanhã chegar...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Pressa, paciência. Amor, contingência.

Chegou-me um garoto apressado no balcão do trabalho, na última sexta-feira. Precisava de tempo para chegar ao destino depois da parada obrigatória no setor das certidões, um dos meus. Faltavam cinco minutos para o fim do expediente e a minha imensa pressa para que aquela tarde acabasse logo era a vontade dele que o relógio desacelerasse e houvesse tempo para tudo. "Devagar aí, senhor Tempo. É minha única tarde de folga", a testa dele estampava. "Pressa, pressa, pressa", minhas mãos denunciavam.
No sábado, pensando a esse respeito e a outros, achei mesmo que o embate entre a pressa e a paciência sempre fora um dos mais cruéis, ao menos para mim. E para tudo que quase todos tivessem paciência, eu concluí que seria afoita. Por escolha própria, sempre que houve e houvesse possibilidade assumi e assumiria o revés da urgência para gozar dos benefícios do imediato. E cada vez mais, a pressa tomaria conta dos meus desejos. Tudo. Muito. Sempre para ontem e sem culpa. Pensei como o longo prazo toma espaço demais das coisas de agora, e o agora exige apenas o que o curto prazo proporciona, ao passo que não se importa com atitudes paulatinas, planejadas e com outras tantas, tantas... abdicadas.
No domingo subverti o tempo e, por razão de certa pressa - que a esta altura já me é tão familiar - esqueci o relógio. Melhor que pensar e esquecer, apenas não pensar. Eu não queria pensar na vantagem da calma, porque não me parecia provável que houvesse benefício em, estática, esperar que as coisas acontecessem ou realizá-las a passos lentos, feito plano, como objetivo. Fazia sentido, imenso sentido, glorioso sentido não querer mais do que o que fosse intensamente efêmero - ou efemeramente intenso? pouco importava... - do que o instante.
Não sei se os que andam por aí afora com suas calmas vidas, suas atitudes bem pensadas e sua paciência terão tempo para tudo e é por isso que, megalomaníaca, assumi desde a sexta-feira o compromisso de fazer parte do outro time. A paciência lá está. Eu a vejo do outro lado da mesa. Contígua à vontade de que o tempo desacelere. Lá, longe, onde estão os prudentes, os remediáveis, os afetos à segurança e os apegados ao amor necessário. No campo firme e exclusivo da necessidade.
E eu aqui. Num terreno meio Sartre e Beauvoir, despreocupada, você entende? Achando que é preciso dar espaço às oportunidades apressadamente, para não deixar que nenhuma delas escape. Com tendência à ligeireza, à precipitação, a devorar o tempo, ao infinito enquanto dure. Entregue aos braços das delícias que a pressa pode trazer consigo.
Você leu tudo até aqui.

Pressa ou paciência?
Eu só queria dizer: Amor, contingência...

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Teus olhos

Teus olhos abrem para mim todos os encantos...
Teus olhos abrem para mim, teus olhos abrem para mim
Todos os encantos bons...
Tudo que se quer vai lá
Eu vi na terra
Você chegando assim...
Assim, de um jeito tão sereno
(ai, ai, meu-deus-do-céu)
Eu vivo sem pensar... Se sou só
Acho que eu não vou mais
Agora tudo tanto faz, meu bem
Eu vi você passar levando meu encanto
Caminho sem saber de mim!
Eu vivo sem pensar... Se sou só
Ou sou mar.
Mas eu conto com você...
Pois, enquanto eu não me resolver
Eu vou lá, eu vou lá
Mas enquanto eu não me resolver...
Eu vou lá, eu vou lá...


Marcelo Camelo! Com Ivete, vale?

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

desOrgulho de urgências

Quando eu sinto orgulho de todas as minhas urgências em detrimento de todas as sinceridades, procuro Caio Fernando. Ele é sincero por mim...


(...) estou sendo muito honesto ao te contar essas coisas, poderia facilmente escondê-las: sei que me arrisco a te chocar, te ferir, te agredir. Mas eu nunca quis ser gostado por aquilo que não sou ou aparento ser. Não vejo saída, Hildinha, sinto que cada vez mais tudo se fecha. Também não adianta pedir ajuda a ninguém, ninguém pode dar. Talvez isso passe, não sei quando, talvez seja só uma fase, das mais dificeis que atravessei, mas até passar estarei me desgastando, me consumindo. Tenho chegado a extremos que não me julgava capaz. E como isso dói.
(...) mas descobri finalmente como tudo isso quer dizer pouco: o bom no escrever é o momento da criação, da vibração, da comunicação com o incognoscível que nos dita as coisas a serem escritas — o resto é lixo.
(...) que sou só um ser humano procurando um jeito de viver. E que talvez esse jeito seja escrever, sei lá. Meu livro está quase pronto, deverá ser lançado em breve. Queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que eu escrevi.
Não sei mais o que te escrever, estou muito confuso, muito distraído. Pressinto muito próximo o fim de alguma coisa que não sei especificar qual seja. Mas não se preocupe muito comigo, não vale a pena. Acho que sou bastante forte para sair de todas as situações em que entrei, embora tenha sido suficientemente fraco para entrar. Não faço planos, não sei o que vai acontecer amanhã. É só, Hildinha. Um beijo enorme do seu,

Caio Fernando Abreu.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Falando de amor

Eu podia ser seu espinho. Ser a pedra no seu caminho... Seu ciúme doentio. Eu podia ser sua tara... A ferida que nunca sara. Te humilhar, te dar na cara... Eu podia ter o segredo pra te transformar num brinquedo... E te deixar morrendo de medo. Eu podia ser seu escravo... Pra você deixar de quatro. Me fazer de gato e sapato... Eu podia ser um mistério... E viver cercado de estórias. Só te olhar do jeito mais sério... Eu podia ser a ternura. Sem desejo, beijo, nem sexo... Ser somente a história mais pura...
Mas eu tô falando de amor!
Eu tô falando de amor!
E não da sua doença...
Eu tô falando de amor!
E não do que você pensa...

Leoni




Sabia que um dia eu teria uma resposta - que não deixasse dúvidas - para todos os conselhos medíocres que já me deram!

domingo, 6 de fevereiro de 2011

"Nunca será de ninguém..."

"(...) mas o quero de mil formas diferentes, o que é estranho. Por perto, sempre perto, continuando livre. Não sei se é possível, mas como nunca quis o possível... Penso que tenho asas e ajo por impulso. No segundo seguinte estou pensando em voar pra qualquer canto que ele esteja, qualquer um onde ele me queira... Qualquer um. E a cada dez pensamentos meus, ele está em quatro. Sugere um, passeia por outros três, me dá duas folgas e volta repetindo o ciclo a-v-a-s-s-a-l-a-d-o-r-a-m-e-n-t-e. Por propósito, desacostumei nomenclaturas achando provável querê-las da próxima vez que o ver chegar e me girar no ar. E desisto tornar convencional o que é extraordinário, e insisto não querer definir, absolutamente. Não sei se o amo... Tenho um coração. Juro ter um coração. Que só sente e não tem nome para o que ainda quer viver. Mas vive e o vê em tudo. E ele fica ali, parado. E não diz nada, e é dado início ao desespero de não tê-lo na distância que eu gostaria. E eu quero ser dele ainda que não seja. E eu, em juízo, sussurro que não. E todo o resto do tempo eu imploro para um sim que não tem tamanho..." (C, 6/2)


"Quando ela chora, não sei se é dos olhos para fora
Não sei do que ri.
Eu não sei se ela agora está fora de si
Ou se é o estilo de uma grande dama (...)
Quando ela mente...
Não sei se ela deveras sente o que mente para mim
Serei eu, meramente, mais um personagem efêmero da sua trama!? (...)
Talvez nem me queira bem, porém...
Faz um bem que ninguém me faz."

C. Buarque

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Memória - Carlos Drummond de Andrade. OU "Das coisas findas..."

Percorri o corredor arrastando os chinelos na velocidade de um assobio. Não deveria ter procurado vestígios. Eu era capaz de ouvir seis cordas sendo dedilhadas em um eco muito mais alto do que eu jamais houvera ouvido. Guns N' Roses. Patience. Maldades da minha consciência sagaz, ele diria.
Um prato me encarava tão catatônico quanto eu mesma estivera e, coberta por uma farofa mal feita, a fatia doce esperava ansiosa. Falta de fome. A cabeça estivera tão bem acomodada com o punho e o garfo houvera analisado o prato com tanta minúcia que parecera falta de amor-próprio mastigar e engolir aquela comida.
E em meio ao assobio, alguém dizia quase como canto que o maior dos erros houvera sido nunca ter confessado nenhuma falta, por menor que fosse. Assobio. "É isso que o egoísmo faz com as pessoas." Outro assobio. "Dá pra insistir, dá pra continuar." É claro, é claro que sempre dá. "Dá pra camuflar, dá pra fingir esquecimento?" É claro - eu diria, soberba - ...é claro que dá pra forjar que não sente falta. Assobio. Honestamente, eu sinto falta da falta que a falta não me fazia...



You and I'll just use a little patience...