quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Cobra de laboratório

Isso não é um jogo. Mas se for eu vou perder porque queimei a largada. Antecedo o fluxo nesse desequilíbrio bambo sobre a corda. Ninguém escapa ao peso de viver assim. Trapezista sem impulso, sou de cabeça para baixo, imito o ébrio que alterna os pés no chão, sempre um pouco cambaleante, e também as mãos errantes, tateando o momento de amortecer a queda. 
De repente meu corpo é uma ponte, embaixo dela vive um mendigo. Escondido. Que não exerce seu ofício. Que não pede menos que as esmolas que lhe dão. Meu coração é cobra de laboratório: ou está sendo testado ou (reaça!) muito bem conservado. Alimenta-se e é ungido pelo veneno que serve para produzir o antídoto. É perito em tentar ser uróboro. É possível que intua que nunca chegará a lugar nenhum, mas insiste em rastejar, a boca semiaberta. O silêncio ofídico de sua saliva corrompe meu juízo e minha razão. O sangue que bombeia das e para as veias me sobe à cabeça. Meu corpo é o punhado de membros toscamente instrumentalizado para botar meu coração para correr.
Hoje usei salto alto. Nem se percebe que o que eu quero é olhar por cima do muro sem esforço, o queixo erguido, espreitando a grama do vizinho, e guardar o pé em meia ponta para atravessar portais cósmicos invocados pelo atrito. Eu nunca soube caber em minha pequeneza, embora goste tanto dela. Meus olhos brilham no escuro imaginando a saída desse labirinto de altas paredes. Muitas de mim seriam necessárias para dissipar a urgência que eu sinto, muitos novos ares seriam necessários para me renovar enquanto suspiro misturando o tédio com as possibilidades que invento. Lembrar dos meus sapatos de salto me faz lembrar, também, que outro dia quis tatuar uma âncora ao lado do calcanhar de Aquiles. Para pesar sob o chão, prender-me ao solo. Logo eu, que só pensava em tatuar as costelas, na altura do peito. 
Para a dona de um coração cobra de laboratório, que espera sempre o próximo teste, calcanhar de Aquiles, que espera sempre a próxima lança, é inconcebível que o corpo ancore, a menos que seja em alto mar. Sendo. Mas eu ainda sei recolher os dados depois da sorte já lançada de Caio Fernando: Não sei, deixo rolar. Vou olhar os caminhos, o que tiver mais coração, eu sigo. 

5 comentários:

Anônimo disse...

Você é a única pessoa no mundo que entende seus textos. Ou então, nem você os entende e só que se passar por intelctual.

Kleine Schwarz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Kleine Schwarz disse...

Abominável anônimo das cavernas! Gentinha da plebe... quem tiver ouvidos que ouça!

Sou C! disse...

Kleine, doçura... Lembremos dos versinhos de um escritor chamado Carlos Moreira, que dizem assim:

"(...) que fique muito mal explicado
Não faço força para ser entendido
Quem faz sentido é soldado."

;)

Obrigada pela fidelidade de sua leitura. Ótimo restinho de semana. Beijos!

Joana Göde disse...

Sempre uma boa escritora..., e, escreve para quem sabe ler as entrelinhas. ;)