quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Viveiro

Quando eu era pequena, nos fundos da nossa casa meu pai construiu um viveiro bem grande e encheu de canarinhos do reino. Recebíamos amigos e visitas que pareciam entendidas de passarinhos para admirar nosso viveiro e, especialmente, nossos bichos. Não lembro por quanto tempo manteve-se o hábito. Quando eu tinha onze e nos mudamos, já não havia mais nenhum cantador na nossa casa, motivo pelo qual a lembrança me remete à doçura da infância. O viveiro ficava ao lado do pé de limão e duas das faces eram o muro alto e uma parede, as outras três eram tela, tramada bem fininha com fios de arame. Nosso viveiro confinava com o terreno do vizinho dos fundos. Chegava-se lá passando por um trecho de grama e, caso me esforce, eu consigo sentir o cheiro do lugar até hoje.
Canários do reino são passarinhos exóticos que, não fossem os criadores, já estariam extintos. É por isso que, ao que me consta, é possível criá-los legalmente em cativeiro, hoje em dia, mas não sei se na época também era assim. Não sei se eles viveriam bem, ou mesmo sobreviveriam se fossem devolvidos à natureza. Eu sei que é da natureza dos pássaros voar livremente por aí, mas os canários do reino que conheci até hoje gostam de gêneros aleatórios: Alpiste, vitaminas, ovos, couve, água. Tudo isso o meu pai sempre repôs com fartura.
Alpiste tem um odor muito característico, que estou sentindo agora, daqui de onde escrevo, já que meu pai retomou o hábito de criar uns canários do reino há poucos meses, trazendo três gaiolas para dentro do apartamento. Que foram prontamente exiladas pela minha mãe na área de serviço. Não dá para sentenciar que eu concordo com ou discordo disso, embora dê certa razão à minha mãe em censurar a sujeira que os bichos fazem.
No fim das contas, como este é um hábito que alegra o meu pai, e como é o mais próximo de animais de estimação que me permito ter depois de experiências traumáticas com três tartarugas, um collie e um vira-latas, eu me alegro também, mesmo sendo acordada com canários do reino virando o canto no domingo de manhã. Viraram membros da família, com apelidinhos e redobrada atenção.
Outro dia meu pai levou seus canarinhos para passear na Lagoa, onde tem muito verde e natureza, para espairecerem da selva de pedra. Se é que o centro de uma cidade do interior pode ser considerado selva de pedra. Que seja. Num descuido matinal na troca do bebedouro, meu pai deixou o branquinho fugir. O canário do reino branco. O predileto. O que canta melhor. O preferido do meu pai fugiu. Teria se perdido? Renegado os cuidados que lhe são despendidos? Teria o branquinho querido a vastidão da natureza? Não sei.
Mas logo meu pai viu o branquinho no topo de um pinheiro e esperou toda a tarde para que ele retornasse, com a gaiola aberta em cima do carro. Assoviou. Toda a tarde. Chamou. Toda a tarde. Fez ritual de reconciliação. Toda a tarde. Esperou. Toda a atarde. E como que por milagre, com o céu inteiro, com todas as árvores, bateu saudade do apartamento 224 e o canário do reino branquinho voltou para território em que foi possível recapturá-lo.
Esta é uma história que poderia ter muitas morais. O discurso sobre a liberdade é a mais intuitiva delas, mas eu não estou aqui para ser intuitiva. Eu só estou aqui para dizer que acho que meu pai não esperaria toda a tarde por nenhum outro canário do reino que já criou nesta vida, mesmo considerando os mais especiais que moraram no viveiro da antiga casa. E que, às vezes, as coisas pelas quais esperamos são correspondidas, e acontecem, e nos enchem de alegria, e por isso terá valido a pena esperar.
Quero ser viveiro de portas abertas, para onde o que é raro sempre pode voltar.

2 comentários:

Nivaldo disse...

Você tem o dom!!!!

;)

Conversando sobre Educação disse...

Eu, eu mesma auxiliei no processo de letramento desta menininha. E mais tarde formalmente fui sua alfabetizadora. Hoje ela prefere escrever em prosa, que de tão bem feita parece verso. Amo ler seus textos, absolutamente todos eles.
Tenho muito orgulho de ti!