sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Ponte de tédio

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.

Adriana Calcanhotto

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Uma mentira inteira

"[...]
- E eu, como você acha que eu fiquei? 
- Foda-se você, você escreveu aquelas coisas porque quis. Eu não, eu não tive opção. E tive todas as minhas fragilidades, os meus segredos, as minhas fantasias publicadas e colocadas à venda, criticadas por coleguinhas. Descritas porcamente, inclusive, e levianamente, com floreios de linguagem. Você me tornou uma vadia pública, uma vadia insana. Não vou nunca te perdoar, nunca. Minha vida se tornou uma meia-mentira por causa de você.
- "Uma meia-mentira?"
- Uma mentira completa, você prefere?
- Não, não prefiro nada. Não tenho nada com isso, se você vive uma mentira.
[...]"

FERNANDA YOUNG, in: Aritmética. Ediouro, 2004, p.49.

O que tu ouves e o que tu lês?

E de repente, a inquirição e suas duas metades esquecidas surgiam, as mais fundamentais de todas. Não que se deva perguntar isso a todos os recém-conhecidos, não. Só aos aspirantes a amigos e aos aspirantes a amores. O que uma pessoa ouve e o que ela lê aproximam ou afastam muito, para mim, embora nem sempre eu dê a devida importância a essas minúcias. Se uma pessoa ouve MPB e lê romances, má pessoa não pode ser. Mas e se ela ouvir, sei lá, pagode? E se lê só o jornal? E se for adepta de revistas de nudez? E se for assustadoramente fã de Mozart? A gente se atordoa com o inesperado. Pode ser que nem saiba mais muito bem do que realmente gosta, se o outro não gosta. Por isso é que se deve ter muito cuidado ao indagar. Deve-se chegar devagar e não ter nem o que sobra da pressa, porque o assombro da precipitação não há que se instalar entre dois futuros amigos, para não comprometer a promessa de relação amistosa. É necessário que se aguarde pacientemente pelas respostas, sem espanto das discrepâncias, sem euforia nas coincidências. Porque se talvez as perguntas sejam os divisores de águas, ou se talvez este lugar estiver reservado às respostas... Só a amizade ou o amor dirão.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

As paredes de um sonho¹

[...] Horizonte

Você enfia a mão no meu cabeço e bagunça todos os fios, como faz desde a primeira noite em que ficamos juntas. Feito um gato, eu me ofereço esticando o pescoço e ronronando enquanto continuamos a andar - e a sonhar - pelo mato.
Talvez o único antídoto para esta dolorida jornada humana sejam os sonhos - sem eles não levaríamos à boca uma xícara de café pela manhã e não desceríamos um lance de escada. O sonho é a pele da alma dos apaixonados.
Enquanto me entrego ao devaneio que só a mistura de vinho e frio permite, você continua falando a respeito da casa. Está agora colocando os batentes e as esquadrias, aparentes e de madeira. Tem ainda uma pequena adega, muito vidro e uma bancada onde eu vou poder cortar os tomatinhos do macarrão alho e óleo e, ao mesmo tempo, ver você lendo na sala. Tem os cachorros lá fora e aqui dentro, embora eu continue a reclamar das patas sujas no sofá e você continue a me ignorar dando ampla preferência à vontade dos cachorros.
Em menos de duas horas ela fica pronta, nossa casa no mato - e eu entendo que melhor que sonhar é sonhar junto. Fico pensando que um amor morto é aquele que não sonha mais junto.
Você volta a sentar na pedra e eu agora vejo você inserida no horizonte de montanhas ao fundo, tudo parte de uma mesma substância, que é o que somos, que é o que temos que ser. Quero fotografar, mas minhas mãos, no bolso do casaco, estão congeladas: subjetivamente, pela beleza daquele momento; objetivamente, pelo frio.
Eu estava dormindo a primeira vez que sonhei com uma casa com vista para o infinito. No sonho, eu tinha uns 60 anos e tomava uma xícara de café olhando pela janela. Sei que fazia frio porque eu usava um casaco branco de lã e gola alta. Atrás de mim, uma escrivaninha com muitos livros e uma máquina de escrever. A imagem veio como em uma fotografia superexposta: as cores eram fortes e vivas. Eu tinha menos de 20 anos e nenhuma perspectiva de virar escritora ou de conhecer um amor tão intenso.

A vida fazendo sentido

E agora tudo está ali comigo: o sonho mais belo que já sonhei querendo acontecer, você - um sonho tão espetacularmente absurdo que nem sonhado tinha sido - e aquele monte de picos e vales, os altos e baixos da experiência humana.
Mais uma vez, você coloca a mão em meu cabelo e começa a despenteá-lo. Mais uma vez, feito um gato, eu me entrego e coloco a cabeça em seu colo. A vida vai fazendo sentido.
Amanhã é segunda-feira e o mundo vai tentar ofuscar todos os sonhos - telefonemas fora de hora, contas bloqueadas, o processo do empresário safado e esperto que cai sobre seus ombros, a grana que não vai dar pra pagar tudo, o portão da garagem que quebra, a obra do vizinho, o ralo que entope.
O grande truque é não deixar o mundo entrar. O grande truque é erguer paredes sólidas - mesmo que sejam de barro -, fechar a porta, acender a lareira, pegar uma taça de vinho e continuar olhando para o horizonte de montanhas. O grande truque é jamais perder o sonho de vista, nem mesmo o mais maluco deles, porque, no fim, é ele que nos terá levado a algum lugar onde tudo fará sentido.


¹ MILLY LACOMBE,  in: Revista TPM, agosto de 2011, ano 10, n. 112, pp. 112-113. Editora Trip.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sabia de cor e ainda sei

Quarta, entre dez e onze antes do meio-dia. Não preocupada, mas nem tão longe assim daquele comportamento absorto ao qual fui acometida no fim de tarde anterior, vesti as roupas e me aproximei do sino dos ventos da janela mais à esquerda entre as três imensas que o apartamento 506 possuía. Muita gente se aglomerava entrando e saindo das lojas daquela pseudo-metrópole às vésperas de natal. Passeando lá embaixo, nenhum conhecido aparente, e gente não muito bonita - também pudera, nada pode distinguir de muito belo uma mulher míope que observa a cinco andares de distância. E eu estava sem óculos mas, no todo, a vista era bem agradável: Uma pequena praça circundada por no mínimo três faixas de pedestre, três bancos de sentar e, mais ao fundo na paisagem, três bancos de pagar contas. Três. Embora eu tentasse fazer as associações necessárias para que algum lirismo se formasse em razão da repetição dos números na cena, pouco acontecia. E eu permanecia ali: Na precaução que herdei de meu pai a não deixar que nada me pegasse muito de surpresa sem que pudesse me defender à altura e naquela expressão boba de "corpo-fechado" que já ouvi minha mãe usar algumas vezes. A conversa da noite anterior, de que uma ida à padaria (ou ao mercado, ou a outro país, ou ao cinema, ou à loja de conveniência do posto de gasolina) pode mudar o rumo de uma vida, ainda ecoavam um pouco presentes demais. 
Eu não era de todo uma mulher precavida, mesmo porque o termo mulher nem caía muito bem para alguém que usa um sutiã do tamanho do meu. Mas em parte se podia dizer que eu reagia bem às provas de fogo - poucas e breves - a que já fui submetida. Coisa boba isso de provas de fogo. Mas é como viver e ter de escolher entre pizza ou hamburger, você sabe. De soslaio eu veria, acima de todas as outras obras, Aritmética, da Fernanda Young, sobre a pilha um pouco desorganizada. Autógrafo datado de 2004, quase uma relíquia. Não fiz mais que abri-lo na espera vã de encontrar conforto, como aqueles que abrem os livros sagrados de suas fés em qualquer página bem ao centro procurando uma espécie meio imaculada de prumo. Depois achei tudo aquilo muito patético e sentei na rede improvisada paralelamente à janela do meio, para ler como fazem as pessoas mais ou menos normais: Contracapa, nota da autora, dedicatória, primeira página de texto, depois segunda, depois terceira. Parei na página doze ou treze, porque encontrei uma frase que nem sabia que procurava. O trecho tinha uma "prosa poética" que eu gostaria de transcrever no todo, mas me falta a audácia de outrora - se é que nessa Literatura de hoje as prosas podem ser classificadas como poéticas - intercalado com dois poemas, de Lichtenstein e Schickele, que até então eu nem sabia existirem (eu acho, ao menos), e o trecho era mais ou menos compreensível, como devem ser os trechos de livro que se encontra milagrosamente por acaso. Dizia quase assim: "Sabia de cor e ainda sei. Sei que ela também sabia, e ainda sabe". Que lindo e que triste. Minhas narinas aspiraram um ar frio da fresta daquela grande janela para me recompor como se eu estivesse comendo oito pastilhas de Hall's preto ao mesmo tempo. Não estava. Pensei que algumas coisas se pode negar, outras se pode esconder, outras podem se perder. Não o que a gente sabe de cor. E, naquele momento, eu sabia pessoas de cor. Três ou quatro (deixamos em três para manter as coincidências). E ainda sei. Sei que também sabiam, e ainda sabem. Embora, quase sempre, esqueçam. As chaves giraram e devolvi o livro, bem rápido, pro lugar. Tem coisa que é assim mesmo. Confunde pra ficar na estante, desperta pra não desassossegar mais que uns dias.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Eu tenho aqui uma música.

Um sorriso. E uns corações reserva, caso me engane.


"Tão natural quanto a luz do dia...
Mas que preguiça boa, me deixa aqui à toa...
Hoje ninguém vai estragar meu dia.
Só vou gastar energia pra beijar sua boca!
Fica comigo então, não me abandona não...
Alguém te perguntou como é que foi seu dia?
Uma palavra amiga, uma notícia boa...
Isso faz falta no dia a dia

A gente nunca sabe quem são essas pessoas.
Eu só queria te lembrar
Que aquele tempo eu não podia fazer mais por nós...
Eu estava errado e você não tem que me perdoar
Mas também quero te mostrar...
Que existe um lado bom nessa história
Tudo que ainda temos a compartilhar...
E viver, e cantar...
Não importa qual seja o dia.
Vamos viver, vadiar
O que importa é nossa alegria."


(Charlie Brown Jr.)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Da recíproca e outras doçuras que incentivam a seguir

"(...) Não quero que deixes teus sonhos por comodidade, que deixe de ir atrás do que queres pra viver a vida como se fosse um espetáculo repetido. E quando assim a vida for, porque certamente em alguns momentos será, que cada apresentação seja vivida como a primeira. Não as mesmas escolhas ou roteiro, mas a mesma emoção.
E eu sei que ninguém faz isso sozinho. Por isso eu vou estar com você sempre que precisar. (...) Você é a pessoa mais (...) boa de 'andar' ao lado que já conheci. (...) Quando estiveres assim no futuro, mesmo que não tão participativa na minha vida como agora, eu quero poder te encontrar, te segurar firme pelo antebraço, como a gente faz pra se puxar, sabe? Olhar bem no teu olho e te lembrar, que por muitas vezes já foste 'mais homem' que eu... E é plenamente capaz de fazer isso mais uma vez."

(MOLINARI, Wilian. Rio do Sul: 19 de julho de 2011.)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A um irremediável sacana

Boa tarde, seu grandessíssimo sacana. Sumiu, né? Posso dispensar as diplomacias do tudo bem ou como vai? Ótimo... Assim, faço de conta que me sinto à vontade. Como têm sido os dias? Bons, por aqui. No trabalho, eu mudei de função. Agora sou estagiária do gabinete e, embora pouca diferença isso faça, sinto que as pessoas se alegram um pouco por mim ao saber, por isso estou contando. Não faço mais diários de bordo. Nem escrevo com tanta frequência, não tenho sentido necessidade, como você já deve saber. É como se eu invadisse a vida das pessoas, agora, porque tudo que ouço e leio é pessoal demais. Estou digitando audiências e aprendendo a redigir despachos. O ofício me agrada. Trabalho em uma das maiores salas, e permaneço bastante tempo sozinha. A porta ao público fica sempre fechada, sem o habitual aviso de ar condicionado. Isso me confere uma imponência quase oficial.
As aulas terminaram na semana passada, mesmo com os contratempos. Acho que meus professores conseguiram dar conta da matéria, ou estão tão cansados com o final de ano quanto nós. A segunda hipótese é mais razoável. Tenho comido muito chocolate, lido um pouco e ainda não peguei sol nesse verão pra esconder as marcas da catapora e da psoríase. Entretanto, nada disso faz diferença considerável, para mim. Porque eu nos pus em regras duras demais. Passei por fases odiosas, eu sei. Detestei cada músculo que me faz dar meia volta, seguir-te da maneira mais literal que conheço e te caçar pelas portas cerradas atrás das quais você se esconde e dá novos rumos a novas gentes. Quis excluir os registros e não tive coragem, embora raramente lembre-me deles. Desejei paralisar os impulsos vitais que me eram concedidos nos beijos de despedida - sempre ao centro demais. Que destes esperançosamente em tantas outras faces, seu baita sacana. E ainda assim, eu sinto falta do riso, das mãos desajeitadas que conduziram semanas de olhos que cintilavam de maneira especial. De uma perspicácia forjada e orgulhosa de si mesma. E te escrevo para contar dos meus dias.
E como mencionar essa abnegação dos meus conceitos mais primários de amor-próprio não é do meu feitio, apenas escrevo. Resiliência, ocorre-me agora. Escrever faz sugar das últimas memórias, apropriadamente quase esmaecidas, uma gota sempre nova e brilhante de energia para me mover em frente, ou ao seu lado. Não, não. Esqueçamos o "ao lado" em nome dos bons modos. Sei que estás sempre à frente.
Distorci tudo vinte e nove vezes, mais ou menos. Eu repassei mentalmente cada despedida, inclusive aquela no meio da rua, que acho que foi uma das últimas. Eu lembro o eufemismo que vestia. E embora isso não tenha nenhuma relevância, faz com que eu sorria de satisfação pela vida que levava, clandestinamente leviana e, por isso mesmo, absurdamente motivadora.
Apareça logo! Eu sei que, sacana como lhe é próprio, e lindo, você virá. Pra me deixar pensando que tudo foi um erro, que tudo valeu a pena, que ainda valeria considerar, ou ao menos para fazer com que eu sorria para dentro assistindo tuas novidades como personagem-espectadora. Eu vou indo porque agora sou estagiária do gabinete e não posso chegar atrasada, você sabe como são essas coisas.

Confiro sua não-resposta quando voltar para a casa. E como acho aquele "atenciosamente" muito formal para essa não-conversa, vou me despedir meio romântica e meio sincera:

Sempre,
sempre meio tua,
meio presa a ele
e meio toda-livre,

Claudia L.