quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Amarras

Ouvindo "All Dressed Up", do Damien Rice.

Sentei naquela cadeira plástica dura e desconfortável com a coluna dobrada de um jeito esquisito, observando tudo. Uma mulher, jovem demais pra ser inabalável como uma mulher adulta deve ser, sentada, comendo, acompanhadamente solitária, com suas sapatilhas com laços dourados, olhando de relance para as caixas de som como quem presta atenção em cada música da rádio da universidade esperando alguma referência musical capaz de devolver o sossego tanto quanto as referências cinematográficas podem não ter conseguido. A frase faz perder o fôlego para dar a noção exata de minha asfixia.
O dia provavelmente tinha começado cedo, e talvez não muito bem, a julgar pelas feições. Ela vestia uma jaqueta jeans um pouco amarrotada que deve ter carregado durante todo o dia tórrido. Esmalte descascado em pelo menos três unhas de cada mão. Cada pedaço de comida que ela levava até a boca parecia descer minando a garganta e fulminando ainda mais o apetite.
No meio daquela refeição noturna certamente poderia ter rolado a primeira lágrima do dia, coisa que não aconteceu. E por falar em coisa, coisa curiosa é o choro que - mesmo suspenso por qualquer causa - não deixa de tornar perceptível as contrações involuntárias do corpo, retendo a água em estoque por trás dos olhos de uma mulher jovem demais para ser inabalável diante da vida. 
Sentada ali, bem vestida e comportada, imóvel, ela corria. Imitava a si mesma, no teatro de boa parte do dia. Aquela mulher tinha a pressa dentro da bolsa, protegida por um zíper frágil demais. Ela parecia atrasada para fugir de uma ocasião tão parecida com uma sessão de tortura... Estar ali, sendo quem era! Desesperador. Atada às suas próprias vestes escolhidas a dedo, ao enclausuramento que parecia necessário.
Era uma mulher enclausurada em si mesma. Em uma realidade insana e caótica, pelo menos sob certo aspecto. Os olhos daquela mulher não poderiam estar mais abertos. Cansados, eles refletiam não a si ou os outros, mas as amarras não rompidas de tudo que a liga ao irremediável tempo que se perdeu.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Manual da nem tão secreta subversão

"As relações têm que ser erotizadas, não tem nada menos erótico do que  passar o tempo todo tentando agradar, tentando ser perfeita".
Sarah Oliveira em entrevista à Milly Lacombe. 
Revista TPM (#112 - agosto de 2011). Disponível aqui.


A mesma chuva que se detesta é certamente obra das mais sutis no rol das invenções de Afrodite. Nem aos que a repudiam, se trancados a dois, ela importa ou importaria, não fossem as convenções.
Quase tudo faz parte desse rol, pelo que, momentaneamente, ateia-se fogo às meias palavras e desanda-se a confessar que o olfato é e tem sido traidoramente lascivo. Porta de entrada a uma intenção que beira o irreprimível, como o são alguns dos beijos demorados, os dedos pressionados com imprecisão pela nuca e a firmeza imprescindível no trato com toda a cintura. É o propósito da epiderme arrepiando na velocidade da luz, num contato quase osmótico de tão imaginado.
Escancarada, a excitação pode parecer patológica. Isso porque as volições dessa ordem, impetuosas, desconhecem absolutamente todas as regras. E estampam uma expressão travessa não só no rosto, mas no corpo inteiro, ao menor sinal de correspondência. A espécie mental do gênero malícia não pede licença, porque a vontade instintiva nunca tem bom senso e, por incrível que pareça, vai infinitamente além de decotes, músculos e duplos sentidos.
O desejo é o processo natural que os tabus, o orgulho e o moralismo sabem esconder melhor. A ponto de inviabilizá-lo, se não forem tomadas as devidas precauções de se permitir ser secretamente dissoluto. Dissoluto vez em quando, dissoluto vez em sempre... Cada um tem a medida exata de sua própria depravação e do quanto a vela.
É do desvelo que nascem minhas insinuações da vontade (in)constante de um prazer praticamente conhecido, nesse Cântico dos Cânticos, que é manual intimamente devassado - secreto, na medida de sua publicidade - para minha conexão com o que, de tanto tentar, já não evito. Guia pouco prático, nitidamente degenerado, tanto quanto minha (sub)versão menos desinteressante.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

C de Centelha

"Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos muito bem!"
(Millôr Fernandes, 1984)

Bem pra lá do meio do corredor foi que uma mão com as unhas pintadas de vermelho desfez o emaranhado de cabelos que imita um coque (mas pára sem nenhum grampo), enquanto pressenti os próprios saltos estalarem - frequentes, mas inaudíveis pelo burburinho. Parece que atrasei em forçar boniteza. Uns calouros me antecederam, aglomerados com suas roupas de domingo em plena segunda-feira, fazendo supor que o momento quando conhecemos alguém é muito importante.
Porque a faculdade é um mar sem fim de possibilidades de conhecimento. Os teóricos, é óbvio. "- Ainda bem", eu penso alto, assistindo ao quarto ano iniciar. Mas ainda mais óbvio - e o sorriso de cada neófito afoito recém-saído da adolescência-ensino-mediana anuncia - é que na faculdade a gente pode conhecer ...gente. Muita gente. É gente nova e admirável e interessante por todos os lados onde se olhe. Gente que eu também tenho conhecido, aliás. Fiz alguns bons amigos e beijei algumas poucas e boas bocas acadêmicas nesses três anos, eu talvez não os teria descoberto se o centro universitário não existisse, então o tom de zombaria que uso passa longe da repreensão. É antes a minha identidade de aprendiz de veterana no próprio aprendizado, no próprio conhecimento, semelhante a qualquer calouro.
A possibilidade de conhecer alguém ronda a todos nós, a todo instante. O atendente da farmácia, o carinha da nada prosaica balada hardcore, ou um desconhecido que, por um descuido cinematográfico, esbarra em você e pára (com 'a' acentuado) pra lhe ajudar a juntar os livros. O que a gente tarda a saber é que alguém muito legal não vai aparecer enquanto estivermos esperando ansiosamente que esses exemplos aconteçam. Ou vai. Mas aí, quando vê, já foi. É uma porção de acasos gostosos e grosseiros que, premeditados ou não, jamais poderão existir de véspera. Só se conhece alguém no exato e despreocupado instante em que, num piscar de olhos, o conhecimento já foi inaugurado. Então, quem sabe, certos estejam os calouros - preparados com antecedência pra tudo que está por vir.
Hoje eu não escrevo pra falar sobre conhecer novas pessoas, mas sim sobre reconhecer as antigas. É quando eu me lembro da Joana, por exemplo, dando um abraço que eu não esperava ganhar dias antes da minha avó falecer, em 2010. Não foi ali que conheci a Joana - eu já a conhecia há anos. Ali eu apenas a reconheci. Reconheci no sentido de conhecer novamente, de identificar uma nova e boa perspectiva. É como abrir um caderno antigo de alguém, de mais de quinze anos atrás, e descerrar facetas escondidas com a precisão de um arqueólogo.
É claro que reconhecer alguém nem sempre é bom e, como quase tudo no universo, acontece sem pedir licença. Eu já reconheci algumas pessoas - já conheci novamente, de algum jeito, depois de as conhecer - de maneiras que me entristeceram profundamente. Mas ainda assim, reconhecer alguém é guardar consigo a capacidade de se surpreender com o fato novo que o aparente conhecimento sobre alguém encobria.
E o melhor de tudo é que para reconhecer quem conhecemos nem é preciso soltar os cabelos... Ou usar a roupa de festa. Reconhecer só nos exige a atenção que sucede a desatenção com aqueles que já nos rodeiam. Re-conhecer alguém é tornar legítima, uma vez mais, a aventura aguardada de conhecer.

... e como são admiráveis (algum)as que (re)conhecemos.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Sempre mereci


Meia hora de chuva, formou-se uma poça entre o meio-fio e a estrada de paralelepípedo. Cada gota que caía ali depois disso dava causa a um fenômeno comum, mas muito interessante: Uma ondinha minúscula e uniforme que partia do centro às bordas, em círculo, até que a próxima gota caísse no tempo exato, de um jeito que a física saberia explicar muito melhor do que eu. Mas não saberia sentir. Pra mim era uma bonita epifania.
Em seguida deu-se início a outro fenômeno, o mais revigorante do universo... Eu percebi que o tempo começou a passar. Noventa e poucos minutos pro Flamengo vencer o Botafogo. Quarenta e oito horas de sossego nesse fim de semana e sobrou espaço pra sentir o vento de antes da chuva enchendo os pulmões com um ar frio que parecia novo. Catorze dias e o medo se esvaiu, vinte e um dias com hormônio em equilíbrio e as minhas costas já estão praticamente limpas, trinta dias e eu engordei os dois quilos que tanta gente disse que me cairia bem, quarenta e sete dias e as cicatrizes do joelho começam a desaparecer, quatro meses e a famigerada unha do pé já dá indícios de voltar ao normal, oito meses e a distância, se não me parece exata, é ao menos cada vez mais compreensível.
Se é verdade que tudo leva um tempo e cada coisa tem o seu, eu levarei o meu com a graça da canção de Caetano. Terei o meu tempo com um sorriso matematicamente obtuso e aquele cuidado gentil que sempre mereci ganhar de mim.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

"O que 'cê vai querer ver, quando você voltar a ver?"

No fim do mês de janeiro minha mãe me enviou um texto chamado "A menina quebrada", que é o que eu acho que eu queria dizer hoje, traduzido de alguma forma (o texto está disponível aqui). Então suponhamos que essa publicação é só pra compartilhá-lo com vocês. Mas eu continuo escrevendo, aventureira na falta de maquiagem e de tato com as cruezas do que eu sinto. Ou só sendo transparente. Como preferirem.



Saí do trabalho cinco minutos mais cedo e foi bom refazer o caminho inverso de todos os dias com uma folga substancial no apressar dos passos. Agora estava cada vez mais próximo o fim dessas férias da faculdade... E a rotina, que tem seus benefícios imperceptíveis a olho nu, era aguardada ansiosamente pelos meus olhos cansados o suficiente pra ver vantagem no cotidiano.
Às seis e meia da tarde da quarta de cinzas, o sol que São Pedro pintou no céu azul com poucas nuvens já tinha se escondido. Passei em frente à escadaria da Catedral temerosa e de cabeça baixa, mas não vou explicar porquê. Não convém. É um detalhe que omito pela publicidade que, hoje, eu me dei conta que essas palavras têm. 
Só vou esclarecer que meu motivo nada tinha de muito religioso, e que até chegar à faixa de pedestres - com um sinal milagrosamente aberto pra mim - eu já tinha recobrado o fôlego de um susto que durou alguns segundos. Fiz uma prece particular pra que os meus pequenos medos parassem de vir ao meu encontro, de me seguir, de caminhar ao meu lado, de me surpreender na escadaria enquanto ando distraída pela calçada. 
Rezando baixo e respirando fundo numa intenção sincera de que as coisas melhorassem, eu cheguei ao Terminal. Muita gente se acotovelando, como de costume naquele horário. A dois metros, uma menininha linda, com um rabo de cavalo no alto de cada lado da cabeça, de uns dois ou três anos de idade, afastava-se da mãe (distraída pela conversa própria da espera) pra uma aventura: Subir sozinha no banco de madeira, em um espaço pequeno que acabava de vagar porque uma senhora tinha se levantado.
Eu quis repreendê-la com a minha voz grave, o mais alto que conseguisse, mas não pude interferir na cena. Era gente demais pra que eu atravessasse fileiras de pessoas na base do empurrão e salvasse a mocinha da queda. E ela podia nem cair, o que me faria zelosa além da conta pra alguém que nunca teve um instinto materno aflorado - quer porque não tive irmãos, quer porque não tenho sobrinhos ou afilhados. Mas pior que isso era a ideia de eu atravessar aquele mar de gente e, ainda assim, ela se quebrar.
O que eu diria pra aquela menina? Eu não sabia abraçar ninguém com a tranquilidade de uma mãe. Os meus beijos não curavam a dor de ralados no joelho. Eu não sabia lidar bem com os meus próprios machucados, lidaria bem com os daquela criança no primeiro instante do tombo, se esse fosse o caso? Certo que não.
Quando dei por mim ela estava sentada. Com todos os ossos em perfeito estado e também com todos os dentes. Sorri aliviada em minha inércia. Quebrada ali, só eu. De um jeito que ninguém mais via, é bem verdade. Crescida. Muito menos dura na queda do que desejava - mas mais forte ao suportar os ferimentos do que jamais esperei daquela menininha.
Quando eu voltar a ver as coisas como são, quebrada ou não, eu espero que o mundo ainda seja minimamente gentil com os que se permitem.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Eu me divido

Oscilação extremista entre a vontade de tocar o foda-se e a de perguntar como vai a família. Entre segurar tudo num orgulho merecidamente justificável ou despejar a tristeza como se essa fosse uma folha de papel dobrada na última gaveta de um armário do porão.
É que eu sou toda coração. Mas a razão é quem pede que eu respire aliviada. E é a razão que me pede pra ser cínica. Mas uma sensibilidade me impulsiona contra a parede com a mão pressionando o pescoço, quase impossível respirar. A razão acorrenta o queixo suspenso e o nariz alto do chão, inabalável. Mas ainda chove lá fora, num dia todo muito cinza, não importa quantas cores tenha aquele filme do Almodóvar.
Então eu me reparto em duas. A que cede à tentação e põe Leoni pra cantar Quem além de você e a que implora pra que eu não me pergunte, silenciosamente, quem vai dar o abraço quando uma notícia muito ruim chegar. Eu me divido entre a pessoa que quer insistir e a que não suporta qualquer parcela de rejeição, mínima que seja.
Falta resposta pra todas as perguntas que já não interessam mais. Se eu estou bem, se eu quero companhia, se eu também tenho problemas. Tenho pressa de terminar pra ser lida antes de dormir, e tenho a paciência que saber que isso já não me diz mais respeito proporciona. Não é muito fácil ser duas metades de si mesma.


Um momento em que é possível

Acordei tarde com o sol (da música do Cazuza) me socando a cara pelo vão entre a janela e a cortina. Almocei e demorei um tempo pra perceber: Onde eu estava, quem eu agora era, o que tinha acontecido e a postura que a vida me exigiria outra vez. Como se houvesse tomado um porre muito grande de alguma coisa forte, e agora, num lampejo de consciência, recobrasse os sentidos todos de súbito. Tardou que eu tomasse um banho longo e me aquietasse por dentro. No final da escovação de dentes eu me lembrava daquela frase anônima, que rimava bem, sussurrando no meu ouvido: Lave o rosto nas águas sagradas da pia, nada como um dia após o outro dia.
A verdade é que nem a Carol nem a minha mãe mereciam minha companhia no final daquela tarde com a mesma blusa vermelha e a mesma cara péssima esmagada atrás dos óculos escuros do dia anterior. Nem que fosse pra cantar até a garganta doer, assistir às escolas de samba na televisão ou comer cachorro-quente. Elas mereciam o melhor de mim, mas mais que isso, eu merecia o meu melhor. O meu cotidiano merecia o melhor. E a melhor escolha era rir daquele dramalhão mexicano, tão exagerado, tão supervalorizado. O dia seria bom dali pra frente porque escolhi que fosse. Porque as rédeas da minha felicidade estavam nas minhas mãos - elas, afinal, sempre estiveram.
Meu metabolismo acelerado fez com que quase tudo se recuperasse naquelas vinte e quatro horas. Eu era feliz de novo, então. Tinha passado rápido. Li Clarice, mas a tranquilidade no final daquele dia merecia que eu escrevesse. Escrevesse mais, escrevesse bem, escrevesse leve. E terminasse bem. Superei minha dose de aversão ao Paulo Coelho e revisitei velhas palavras que agora transcrevo, por estar certa de que, de tudo, só fica em mim o que é bom e o que é raro:

"Ele começou a falar, e eu não conseguia concentrar-me direito. 'Devia ter me vestido melhor', pensava, sem entender a causa de tanta preocupação. Ele me notara na platéia, e eu tentava decifrar seus pensamentos: como eu devia estar? (...) 
É preciso correr riscos, dizia ele. Só entendemos direito o milagre da vida quando deixamos que o inesperado aconteça. 
Todos os dias Deus nos dá - junto com o sol - um momento em que é possível mudar tudo o que nos deixa infelizes. Todos os dias procuramos fingir que não percebemos esse momento, que ele não existe, que hoje é igual a ontem e será igual ao amanhã. Mas, quem presta atenção ao seu dia, descobre o instante mágico. Ele pode estar escondido na altura em que enfiamos a chave na porta, pela manhã, no instante de silêncio logo após o jantar, nas mil e uma coisas que nos parecem iguais. Este momento existe - um momento onde toda a força das estrelas passa por nós, e nos permite fazer milagres. 
Às vezes, a felicidade é uma benção - mas geralmente é uma conquista. O instante mágico do dia nos ajuda a mudar, nos faz ir em busca de nossos sonhos. Vamos sofrer, vamos ter momentos difíceis, vamos enfrentar muitas desilusões - mas tudo isso é passageiro, e não deixa marcas. E, no futuro, poderemos olhar para trás com orgulho e fé (...)
'Se a dor tiver que vir, que venha rápido', eu disse. 'Porque tenho uma vida pela frente, e preciso usá-la da melhor maneira possível. Se ele tem que fazer alguma escolha, que faça logo. Então eu o espero. Ou o esqueço. Esperar dói. Esquecer dói. Mas não saber que decisão tomar é o pior dos sofrimentos.' (...)
- O mesmo se passa com o amor - continuou. - Já existia antes, e continuará para sempre.
- Parece que a senhora conhece minha vida - disse eu.
- Todas as histórias de amor têm muita coisa em comum. Eu também passei por isto em algum momento da vida. Mas não me lembro. Lembro que o amor tornou a voltar, sob a forma de um novo homem, de novas esperanças, de novos sonhos.
Ela me estendeu as folhas de papel e a caneta.
- Escreva tudo que está sentindo. Tire de sua alma, coloque no papel, e depois jogue fora. A lenda diz que o rio Piedra é tão frio que tudo que nele cai -  folhas, insetos, penas de ave - se transforma em pedra. Quem sabe não seria uma boa idéia deixar em suas águas o sofrimento? (...) Não se esqueça de uma coisa - gritou, enquanto se afastava. - O amor permanece. Os homens é que mudam!
Eu ri, ela me acenou de volta.
Fiquei olhando o rio por muito tempo. (...) Então comecei a escrever.

(Trechos do livro: "Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei". Página 7, 8 e seguintes, porque me empolguei na leitura. Disponível na íntegra aqui).

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A mágica oposta

É preciso saber sentir mas também saber como deixar de sentir, porque se a experiência é sublime pode tornar-se igualmente perigosa. Aprenda a encantar e a desencantar. Observe, estou lhe ensinando qualquer coisa de precioso: a mágica oposta ao 'abra-te, Sésamo'. Para que um sentimento perca o perfume e deixe de intoxicar-nos, nada há de melhor que expô-lo ao sol. (Clarice Lispector)

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Sorte que a gente tem a vida inteira

Tirem as crianças da sala que hoje eu estou imprópria para os menores e os sensíveis. É que parece que quebrei a cara de novo. Literalmente, porque embora eu não tenha apanhado a minha cara tá um lixo, inchada de tanto chorar, como em novela mexicana. Aflita. Em pranto. Soluços intermináveis. Isso que eu comecei não fazem nem duas horas. Eu sei que eu sou mais patética do que o aceitável fazendo e contando isso, mas... É assim com boa parte das pessoas e escrever é um jeito de externalizar a sensação de "Porra! Desamor é foda". E mais uma vez é como se o dia demorasse muito mais pra acabar do que a paixão demorou pra perder o efeito. 
Uma decepção muito grande sempre faz o meu coração apertar. Primeiro de raiva por, quando dou por mim, ter deixado tudo ir pelo ralo. Sempre com a sensação de que foi depressa demais. Depois aperta de tristeza. Depois de frustração por ter apostado alto demais - em mim, no outro, na sensação de descontrole que ficar louco por alguém implica. Por que diabos eu nasci com essa predisposição deletéria e doentia de me danar? Talvez todos nós tenhamos nascido, mas hoje a minha proporção, ainda que anunciada, parece excruciantemente maior.
Já foram tantas histórias diferentes nesses quase vinte anos e no final elas foram todas iguais. Doídas. Sei que esse texto não tá ficando bonito ou esteticamente polido como os outros. Eu soube que ele não seria bonito desde o início, se vocês continuaram é porque se sentem adultos e insensíveis o suficiente pra feiúra do que eu tô sentindo. Esse texto é feio. E é porque ele representa o fim de uma história, e o fim de uma história nunca é bonito. O fim de uma história é curto e grosso. Atordoa. Vem seco e embucha na garganta, não importa o quanto a gente beba. E eu vou beber, eu me conheço. Porque ser comum é a melhor receita pra recuperar o juízo. Porque o fim de uma história é sempre fodido. E o que é fodido tende a merecer a embriaguez.
É. Quando uma paixão acaba eu preciso esquecer as regras de boa moça, escrever palavrões que ninguém lê e berrar aos quatro cantos coisas que ninguém tem saco pra ouvir. Porque todo mundo se dana com o final do encanto, mas só uma meia-dúzia se compadece da agonia do término alheio. Se vocês chegaram até aqui, vocês são tão guerreiros quanto eu, que tô estocando a ferida com uma faca de cozinha, escrevendo essas palavras tão prematuras.
É claro que eu sei que no final das contas eu sempre vou lembrar só do que foi mais marcante e talvez essa história nem seja tão marcante como eu penso que ela tenha sido. Curta, intensa. Mas igual. Ridiculamente igual às outras. Quanta idiotice ser romântica, se uma paixão é sempre assustadoramente menor depois que morre. Um romance só é delicioso verde. Maduro ele já perde a graça... Uma história que apodrece, então, não vale de nada. Um fim justifica todo o meio, porque não importa o quanto as coisas sejam bonitas, elas vão terminar mal, se o assunto pertine ao coração. É assim que a vida é, percebo, sorrindo cínica com o rímel todo borrado.
É carnaval e a decepção faz folia em mim, como já fez em outras estações, feriados e até dias santos. Não vai ser a última desilusão. E elas passam. É bom pensar nas coisas com certa praticidade nessas ocasiões. E isso, dessa vez e sempre, eu aprendi mais cedo do que gostaria. É mesmo uma sorte muito grande que a gente tenha a vida inteira... Pra se desiludir. Pra se tornar mais cínico com o passar dos blocos de esperanças quebradas na avenida. Pra amargurar as perdas incompreensíveis. E pra assegurar que essa sensação de teimosia em crer no amor um dia, talvez, quem sabe, valerá a pena.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Regulando mixaria


“Uma coisa só me maravilha mais 
do que a estupidez com que a maioria dos homens 
vive sua vida: 
é a inteligência que há nessa estupidez.”

 ("A obra em prosa de Fernando de Pessoa". 
Livro do desassossego, 
Publicações Europa-América, p. 241)



Talvez eu quisesse me permitir reprovar nas lições de sanidade, em nome de alguém, como me é próprio e em uma fórmula básica (que sempre funcionou um pouco) em vez de ter ao alcance uma paixão que me educasse e me transformasse na adulta chata e realista que nunca desejei ser, como está acontecendo nessa semana sabática.
Sim. Porque é possível que se viva toda uma vida muito mais otimista do que a perspectiva frustrada me sugere. Talvez eu quisesse simplesmente intuir que nasci com queimaduras de terceiro grau, pelo lado de dentro - só por saber o quanto querer ser inteira para o outro me é inato e me arde - em vez de ser questionada se não tenho medo de brincar com fogo. E não. Não tenho. Queimarei quantas mil vezes for necessário. Perto ou distante - é só escolher, ou deixar que eu escolha.
Mas e se, de repente - que me escuse o finado Steve Jobs - eu já soubesse exatamente o que eu quero, sem que ninguém precisasse me mostrar isso, ao contrário da maioria dos outros? E se de repente, de tanto ser rato, eu me cansasse e me entediasse antecipadamente da brincadeira de ser gato? Cansasse das procuras silenciosas e vorazes que essa agonia tão nova, e ao mesmo tempo tão batida, me exige!?
Experimentei e não gostei. Então sugiro essas hipóteses, como quem aconselha a abrir os olhos para um horizonte maior que o próprio quarto, que as próprias teorias. Dosar o tempo dedicado é superestimar a falta que se pode deixar de fazer. É um engano imodesto demais. É regular o que poderia ser mais que bagatela (ou mixaria...), não fosse a vontade de, pela primeira vez, impor as próprias regras. 
Manipular o início de um jogo tão perigoso sozinho é correr o risco de estar abandonado na mesa na hora da batida. É prevenir-se da melhor fase como se essa estupidez ao levar a vida fosse inteligente o suficiente para compensar o desperdício dos mistérios de quem - veja você - está interessado. O descaso com os mistérios de quem não é suficientemente burro para aprender lições que não deseja, goela abaixo.
Ainda que os mistérios inteligentes possam não interessar a alguns, sempre lutei tanto pelas minhas certezas. Para manter um olhar leve sobre a vida, apesar das quedas, evitando negar o contato. E é por isso que a cada hora contada e distante eu só tenho ainda mais convicção de que eu não quero - definitivamente não quero - uma paixão que me eduque a não ser eu.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Deliciosa e divertida


Era, acidentalmente e sem dúvida, a calça mais justa e escura do guarda-roupas. A combinação de blusas sobrepostas também era simples, e o cabelo certamente tinha sido esquecido com o adiantado da hora, porque estava solto e nitidamente afetado pela garoa do meio-dia. Onduladamente livre, afinal. Ao menos acertou nos sapatos - baixos, pretos e de plástico, com apenas um lacinho permeável, de outro material.
Uma conferida habitual no reflexo das portas espelhadas que serviam de vitrine fez levar a mão aos cabelos, para se distrair ajeitando-os, como se fosse melhorar algo. O próximo passo, por certo, seria conferir o horário e jogar o celular outra vez dentro da bolsa cuidadosamente hospedada um pouco abaixo da dobra entre braço e antebraço, pra só então voltar a se concentrar no caminho e nos transeuntes. Sim. Concentrar-se nos transeuntes, desde os mais absortos aos menos estoicos. Sempre há alguém que mereça atenção, por qualquer motivo.
Ele vinha na contramão. Vestia jeans e camisa de uniforme - honestamente, não sei de onde, embora faça esforço para me lembrar. Mas não contaria se soubesse. Melhor eternizá-lo em seu anonimato. O que eu sei é que era bonito, mas qualquer outra descrição seria imprópria já que me concentrei no que ela também devia estar vendo. Foi um olhar detido, de seis ou sete segundos, enquanto os corpos se aproximavam, paralelos, sobre a calçada. Primeiro, olho no olho. Seguido de um contato que foi descendo, da parte dele. Uma descida que só o gênero masculino sabe fazer parecer incontrolável e própria da evolução.
E cada um seguiu seu rumo, em sentidos opostos. Ela não olhou pra trás, e é possível que ele também não o tenha feito. Não sei explicar porque, mas tenho certeza de que, em pensamentos, ele a despiu. Instinto, não sei. Mas qualquer um que assistisse a cena com os meus olhos teria a mesma certeza e, não sendo muito moralista, sorriria comigo ao ver aquela cara de aprovação tão sutil sendo evidenciada por ambos.
Eu não sei se eram conhecidos. Ou se irão se tornar. Ou se nunca voltarão a se encontrar naqueles mesmo olhares. Vocês sabem, nossos ouvidos não são preparados para ouvir o que o futuro grita. Entretanto, não é difícil presumir que o flerte, mui provavelmente, não é antigo, já que eu reconheço o ineditismo da química a metros de distância. Muito melhor do que camuflo textos em terceiras pessoas.
Da condição humana e fértil, a única coisa que cabe admitir é que, se não é a mais simples de ser exercida, é certamente a mais deliciosa e divertida.