quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Sobre o dia em que, dando um autógrafo, na verdade eu o recebi

Hoje eu dei um autógrafo. Sim, também custei a acreditar. Um autógrafo de verdade. O primeiro da vida, claro. Já pode desfranzir as sobrancelhas, vou começar a explicar. Saindo do banco, eu esperava na extrema esquerda da faixa de pedestres, cabeça de lado, pescoço pra cima, pra poder ser a primeira a atravessar quando o sinal abrisse, uma mania estranha que adquiri semana passada. Meio minuto depois eu dava um autógrafo. Sim, um autógrafo. Do outro lado da rua, ali, um autógrafo! Uma doçura de menina me parou e, sem mais nem menos, sem me conhecer pessoalmente, sem eu ser famosa, sem nada em troca: Elogiou e pediu um autógrafo e uma foto, por causa do umcentretantos.
Assinei meu nome um pouco trêmulo na capa do caderno de faculdade. Não porque a fama estivesse próxima, não só porque estava de pé sem lugar pra me apoiar, nem porque esperasse por aquilo um dia. Justamente porque não esperava. Já recebi tanto ódio gratuito na vida, tanto olhar de reprovação sem mais nem porquê. Já assisti tanta covardia desnecessária com sentimentos genuínos. Já hesitei tanto. E agora eu estava ali recebendo carinho, admiração e reconhecimento - espontâneos! - de uma menina que me lia sem eu conhecê-la.
Não me perguntem se eu penso que mereço ser lida ou idolatrada por alguém, se é que só os fãs pedem autógrafo. Acho mesmo que não, ainda que essa confissão pareça não vir de uma leonina ortodoxa - que sou. Nesse momento não é a idolatria que me interessa, é exatamente o desapego. Pedir um autógrafo a alguém é um ato da mais absoluta generosidade. É compadecer da mesma arte do assinante sem precisar tê-lo visto uma vez sequer. É oferecer a pureza da admiração deixando claro que as atitudes ruins do admirado não são capazes de conspurcar essa admiração. A caneta eterniza o que já se produziu de bom. Porque pedir um autógrafo é potencializar as virtudes de quem autografa. Por três minutos esqueci que me empresto, tantas vezes comum, nessas palavras extremas, fáceis e fracas, repetidas, tantas vezes afogada em melancolia.
E então eu me pus a pensar que merecíamos todos distribuir autógrafos por aí, do outro lado da rua, pelo prazer de se sentir partilhado à distância. Pela euforia de descobrir que mesmo com gente amargando demais, há quem se adoce da mesma matéria. Eu me pus a pensar que merecemos todos pedido como este, tão honestamente despreocupado, como o daquela menina. 
Quantos autógrafos sou capaz de pedir? Por quantas pessoas sou capaz de abdicar de meu orgulho e meu receio, para a simplicidade de um recadinho de poucas linhas e uma assinatura, pela bondade de alegrá-las para o resto do mês, mesmo sem saber? Por quantas pessoas eu pago o preço que, nem que seja só às vezes, elas valem? É só uma tradição, eu sei, não pensem que eu acho que ganhei o nobel de literatura. Mas mudou tanto o meu dia que sou capaz de filosofar que ser reconhecido por uma pessoa - em tempos em que a órbita do umbigo é tão importante - é o bastante.
Por isso, amigos: eu pediria autógrafo de todos vocês. Pelos momentos recorrentes ou esporádicos em que nos identificamos sentindo exatamente a mesma coisa. Pelos monólogos rotineiros. E aos poucos desconhecidos, que me leem do outro lado da rua: jamais estaremos distantes enquanto as palavras forem capazes de nos aproximar. É piegas porque vem de uma pessoa comovida... Sabe, eu nem preciso conhecê-los pra saber que vocês estão todos assinados a caneta em mim e nas nossas coincidências.
Menina do autógrafo, pensando assim, do jeito que você e eu merecemos, eu te pediria autógrafo também. Pra você experimentar a singeleza de um gesto tão gratificante quanto o seu. Pra você perceber que muitas vezes basta um cutucão no ombro do outro lado da rua que o dia da gente muda. Ou, talvez, eu pediria a você um autógrafo porque... se estamos vivos, se nos dispomos a ser autênticos, se temos preparo e iluminação pra deixar pra trás a mesquinheza de narciso, também estamos aptos a sermos ídolos. Daqueles que só se preocupam em ser, para os outros, tudo de bom que dar um autógrafo pode trazer.

11 comentários:

Anônimo disse...

Se eu não te conhecesse faz quase quatro anos e assim não soasse tão estranho, também pediria seu autógrafo,kkkk.

Reitero: "porque pedir um autógrafo é potencializar as virtudes de quem autografa."

Kamikasianami.

Anônimo disse...

Adorei! Lindo de mais!

joana.gode disse...

Um gesto nada menos que merecido. Amei!

Kleine Schwarz disse...

Texto irretocável! Fazendo um trocadilho com uma frase de Nietzsche: " você não é uma mulher é uma dinamite!"

Daila disse...

Que máximo!
O autógrafo e o texto.

Anônimo disse...

Desnecessário essas bobagens que a gente é obrigado a ver.!

Aires Rafaeli Neto disse...

Muito bom Cau, 1 segundo e tudo mudo, um passo a frente e não estás no mesmo lugar, Ação e reação !

Anônimo disse...

"O sucesso não é um objetivo, é uma consequência. Faça tudo com amor que o sucesso virá."

Primeiro de muitos!

Anônimo disse...

muito bom vc merece pelos textos e pelo carater

Taai disse...

Orgulhosa de você minha amiga!

Maria Elisabete Silveira disse...

Hoje mostrei tua foto pra Isadora e Disse: Olha Dorinha: É a Claudia lembra? Filha da Cátia, amigas da mamãe. Tenho um desejo consciente de que ela cresça e se torne uma jovem como você. Te admiro. Beijos.
Maria Elisabete Silveira.