sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Ponte de tédio

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.

Adriana Calcanhotto

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Uma mentira inteira

"[...]
- E eu, como você acha que eu fiquei? 
- Foda-se você, você escreveu aquelas coisas porque quis. Eu não, eu não tive opção. E tive todas as minhas fragilidades, os meus segredos, as minhas fantasias publicadas e colocadas à venda, criticadas por coleguinhas. Descritas porcamente, inclusive, e levianamente, com floreios de linguagem. Você me tornou uma vadia pública, uma vadia insana. Não vou nunca te perdoar, nunca. Minha vida se tornou uma meia-mentira por causa de você.
- "Uma meia-mentira?"
- Uma mentira completa, você prefere?
- Não, não prefiro nada. Não tenho nada com isso, se você vive uma mentira.
[...]"

FERNANDA YOUNG, in: Aritmética. Ediouro, 2004, p.49.

O que tu ouves e o que tu lês?

E de repente, a inquirição e suas duas metades esquecidas surgiam, as mais fundamentais de todas. Não que se deva perguntar isso a todos os recém-conhecidos, não. Só aos aspirantes a amigos e aos aspirantes a amores. O que uma pessoa ouve e o que ela lê aproximam ou afastam muito, para mim, embora nem sempre eu dê a devida importância a essas minúcias. Se uma pessoa ouve MPB e lê romances, má pessoa não pode ser. Mas e se ela ouvir, sei lá, pagode? E se lê só o jornal? E se for adepta de revistas de nudez? E se for assustadoramente fã de Mozart? A gente se atordoa com o inesperado. Pode ser que nem saiba mais muito bem do que realmente gosta, se o outro não gosta. Por isso é que se deve ter muito cuidado ao indagar. Deve-se chegar devagar e não ter nem o que sobra da pressa, porque o assombro da precipitação não há que se instalar entre dois futuros amigos, para não comprometer a promessa de relação amistosa. É necessário que se aguarde pacientemente pelas respostas, sem espanto das discrepâncias, sem euforia nas coincidências. Porque se talvez as perguntas sejam os divisores de águas, ou se talvez este lugar estiver reservado às respostas... Só a amizade ou o amor dirão.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

As paredes de um sonho¹

[...] Horizonte

Você enfia a mão no meu cabeço e bagunça todos os fios, como faz desde a primeira noite em que ficamos juntas. Feito um gato, eu me ofereço esticando o pescoço e ronronando enquanto continuamos a andar - e a sonhar - pelo mato.
Talvez o único antídoto para esta dolorida jornada humana sejam os sonhos - sem eles não levaríamos à boca uma xícara de café pela manhã e não desceríamos um lance de escada. O sonho é a pele da alma dos apaixonados.
Enquanto me entrego ao devaneio que só a mistura de vinho e frio permite, você continua falando a respeito da casa. Está agora colocando os batentes e as esquadrias, aparentes e de madeira. Tem ainda uma pequena adega, muito vidro e uma bancada onde eu vou poder cortar os tomatinhos do macarrão alho e óleo e, ao mesmo tempo, ver você lendo na sala. Tem os cachorros lá fora e aqui dentro, embora eu continue a reclamar das patas sujas no sofá e você continue a me ignorar dando ampla preferência à vontade dos cachorros.
Em menos de duas horas ela fica pronta, nossa casa no mato - e eu entendo que melhor que sonhar é sonhar junto. Fico pensando que um amor morto é aquele que não sonha mais junto.
Você volta a sentar na pedra e eu agora vejo você inserida no horizonte de montanhas ao fundo, tudo parte de uma mesma substância, que é o que somos, que é o que temos que ser. Quero fotografar, mas minhas mãos, no bolso do casaco, estão congeladas: subjetivamente, pela beleza daquele momento; objetivamente, pelo frio.
Eu estava dormindo a primeira vez que sonhei com uma casa com vista para o infinito. No sonho, eu tinha uns 60 anos e tomava uma xícara de café olhando pela janela. Sei que fazia frio porque eu usava um casaco branco de lã e gola alta. Atrás de mim, uma escrivaninha com muitos livros e uma máquina de escrever. A imagem veio como em uma fotografia superexposta: as cores eram fortes e vivas. Eu tinha menos de 20 anos e nenhuma perspectiva de virar escritora ou de conhecer um amor tão intenso.

A vida fazendo sentido

E agora tudo está ali comigo: o sonho mais belo que já sonhei querendo acontecer, você - um sonho tão espetacularmente absurdo que nem sonhado tinha sido - e aquele monte de picos e vales, os altos e baixos da experiência humana.
Mais uma vez, você coloca a mão em meu cabelo e começa a despenteá-lo. Mais uma vez, feito um gato, eu me entrego e coloco a cabeça em seu colo. A vida vai fazendo sentido.
Amanhã é segunda-feira e o mundo vai tentar ofuscar todos os sonhos - telefonemas fora de hora, contas bloqueadas, o processo do empresário safado e esperto que cai sobre seus ombros, a grana que não vai dar pra pagar tudo, o portão da garagem que quebra, a obra do vizinho, o ralo que entope.
O grande truque é não deixar o mundo entrar. O grande truque é erguer paredes sólidas - mesmo que sejam de barro -, fechar a porta, acender a lareira, pegar uma taça de vinho e continuar olhando para o horizonte de montanhas. O grande truque é jamais perder o sonho de vista, nem mesmo o mais maluco deles, porque, no fim, é ele que nos terá levado a algum lugar onde tudo fará sentido.


¹ MILLY LACOMBE,  in: Revista TPM, agosto de 2011, ano 10, n. 112, pp. 112-113. Editora Trip.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sabia de cor e ainda sei

Quarta, entre dez e onze antes do meio-dia. Não preocupada, mas nem tão longe assim daquele comportamento absorto ao qual fui acometida no fim de tarde anterior, vesti as roupas e me aproximei do sino dos ventos da janela mais à esquerda entre as três imensas que o apartamento 506 possuía. Muita gente se aglomerava entrando e saindo das lojas daquela pseudo-metrópole às vésperas de natal. Passeando lá embaixo, nenhum conhecido aparente, e gente não muito bonita - também pudera, nada pode distinguir de muito belo uma mulher míope que observa a cinco andares de distância. E eu estava sem óculos mas, no todo, a vista era bem agradável: Uma pequena praça circundada por no mínimo três faixas de pedestre, três bancos de sentar e, mais ao fundo na paisagem, três bancos de pagar contas. Três. Embora eu tentasse fazer as associações necessárias para que algum lirismo se formasse em razão da repetição dos números na cena, pouco acontecia. E eu permanecia ali: Na precaução que herdei de meu pai a não deixar que nada me pegasse muito de surpresa sem que pudesse me defender à altura e naquela expressão boba de "corpo-fechado" que já ouvi minha mãe usar algumas vezes. A conversa da noite anterior, de que uma ida à padaria (ou ao mercado, ou a outro país, ou ao cinema, ou à loja de conveniência do posto de gasolina) pode mudar o rumo de uma vida, ainda ecoavam um pouco presentes demais. 
Eu não era de todo uma mulher precavida, mesmo porque o termo mulher nem caía muito bem para alguém que usa um sutiã do tamanho do meu. Mas em parte se podia dizer que eu reagia bem às provas de fogo - poucas e breves - a que já fui submetida. Coisa boba isso de provas de fogo. Mas é como viver e ter de escolher entre pizza ou hamburger, você sabe. De soslaio eu veria, acima de todas as outras obras, Aritmética, da Fernanda Young, sobre a pilha um pouco desorganizada. Autógrafo datado de 2004, quase uma relíquia. Não fiz mais que abri-lo na espera vã de encontrar conforto, como aqueles que abrem os livros sagrados de suas fés em qualquer página bem ao centro procurando uma espécie meio imaculada de prumo. Depois achei tudo aquilo muito patético e sentei na rede improvisada paralelamente à janela do meio, para ler como fazem as pessoas mais ou menos normais: Contracapa, nota da autora, dedicatória, primeira página de texto, depois segunda, depois terceira. Parei na página doze ou treze, porque encontrei uma frase que nem sabia que procurava. O trecho tinha uma "prosa poética" que eu gostaria de transcrever no todo, mas me falta a audácia de outrora - se é que nessa Literatura de hoje as prosas podem ser classificadas como poéticas - intercalado com dois poemas, de Lichtenstein e Schickele, que até então eu nem sabia existirem (eu acho, ao menos), e o trecho era mais ou menos compreensível, como devem ser os trechos de livro que se encontra milagrosamente por acaso. Dizia quase assim: "Sabia de cor e ainda sei. Sei que ela também sabia, e ainda sabe". Que lindo e que triste. Minhas narinas aspiraram um ar frio da fresta daquela grande janela para me recompor como se eu estivesse comendo oito pastilhas de Hall's preto ao mesmo tempo. Não estava. Pensei que algumas coisas se pode negar, outras se pode esconder, outras podem se perder. Não o que a gente sabe de cor. E, naquele momento, eu sabia pessoas de cor. Três ou quatro (deixamos em três para manter as coincidências). E ainda sei. Sei que também sabiam, e ainda sabem. Embora, quase sempre, esqueçam. As chaves giraram e devolvi o livro, bem rápido, pro lugar. Tem coisa que é assim mesmo. Confunde pra ficar na estante, desperta pra não desassossegar mais que uns dias.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Eu tenho aqui uma música.

Um sorriso. E uns corações reserva, caso me engane.


"Tão natural quanto a luz do dia...
Mas que preguiça boa, me deixa aqui à toa...
Hoje ninguém vai estragar meu dia.
Só vou gastar energia pra beijar sua boca!
Fica comigo então, não me abandona não...
Alguém te perguntou como é que foi seu dia?
Uma palavra amiga, uma notícia boa...
Isso faz falta no dia a dia

A gente nunca sabe quem são essas pessoas.
Eu só queria te lembrar
Que aquele tempo eu não podia fazer mais por nós...
Eu estava errado e você não tem que me perdoar
Mas também quero te mostrar...
Que existe um lado bom nessa história
Tudo que ainda temos a compartilhar...
E viver, e cantar...
Não importa qual seja o dia.
Vamos viver, vadiar
O que importa é nossa alegria."


(Charlie Brown Jr.)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Da recíproca e outras doçuras que incentivam a seguir

"(...) Não quero que deixes teus sonhos por comodidade, que deixe de ir atrás do que queres pra viver a vida como se fosse um espetáculo repetido. E quando assim a vida for, porque certamente em alguns momentos será, que cada apresentação seja vivida como a primeira. Não as mesmas escolhas ou roteiro, mas a mesma emoção.
E eu sei que ninguém faz isso sozinho. Por isso eu vou estar com você sempre que precisar. (...) Você é a pessoa mais (...) boa de 'andar' ao lado que já conheci. (...) Quando estiveres assim no futuro, mesmo que não tão participativa na minha vida como agora, eu quero poder te encontrar, te segurar firme pelo antebraço, como a gente faz pra se puxar, sabe? Olhar bem no teu olho e te lembrar, que por muitas vezes já foste 'mais homem' que eu... E é plenamente capaz de fazer isso mais uma vez."

(MOLINARI, Wilian. Rio do Sul: 19 de julho de 2011.)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A um irremediável sacana

Boa tarde, seu grandessíssimo sacana. Sumiu, né? Posso dispensar as diplomacias do tudo bem ou como vai? Ótimo... Assim, faço de conta que me sinto à vontade. Como têm sido os dias? Bons, por aqui. No trabalho, eu mudei de função. Agora sou estagiária do gabinete e, embora pouca diferença isso faça, sinto que as pessoas se alegram um pouco por mim ao saber, por isso estou contando. Não faço mais diários de bordo. Nem escrevo com tanta frequência, não tenho sentido necessidade, como você já deve saber. É como se eu invadisse a vida das pessoas, agora, porque tudo que ouço e leio é pessoal demais. Estou digitando audiências e aprendendo a redigir despachos. O ofício me agrada. Trabalho em uma das maiores salas, e permaneço bastante tempo sozinha. A porta ao público fica sempre fechada, sem o habitual aviso de ar condicionado. Isso me confere uma imponência quase oficial.
As aulas terminaram na semana passada, mesmo com os contratempos. Acho que meus professores conseguiram dar conta da matéria, ou estão tão cansados com o final de ano quanto nós. A segunda hipótese é mais razoável. Tenho comido muito chocolate, lido um pouco e ainda não peguei sol nesse verão pra esconder as marcas da catapora e da psoríase. Entretanto, nada disso faz diferença considerável, para mim. Porque eu nos pus em regras duras demais. Passei por fases odiosas, eu sei. Detestei cada músculo que me faz dar meia volta, seguir-te da maneira mais literal que conheço e te caçar pelas portas cerradas atrás das quais você se esconde e dá novos rumos a novas gentes. Quis excluir os registros e não tive coragem, embora raramente lembre-me deles. Desejei paralisar os impulsos vitais que me eram concedidos nos beijos de despedida - sempre ao centro demais. Que destes esperançosamente em tantas outras faces, seu baita sacana. E ainda assim, eu sinto falta do riso, das mãos desajeitadas que conduziram semanas de olhos que cintilavam de maneira especial. De uma perspicácia forjada e orgulhosa de si mesma. E te escrevo para contar dos meus dias.
E como mencionar essa abnegação dos meus conceitos mais primários de amor-próprio não é do meu feitio, apenas escrevo. Resiliência, ocorre-me agora. Escrever faz sugar das últimas memórias, apropriadamente quase esmaecidas, uma gota sempre nova e brilhante de energia para me mover em frente, ou ao seu lado. Não, não. Esqueçamos o "ao lado" em nome dos bons modos. Sei que estás sempre à frente.
Distorci tudo vinte e nove vezes, mais ou menos. Eu repassei mentalmente cada despedida, inclusive aquela no meio da rua, que acho que foi uma das últimas. Eu lembro o eufemismo que vestia. E embora isso não tenha nenhuma relevância, faz com que eu sorria de satisfação pela vida que levava, clandestinamente leviana e, por isso mesmo, absurdamente motivadora.
Apareça logo! Eu sei que, sacana como lhe é próprio, e lindo, você virá. Pra me deixar pensando que tudo foi um erro, que tudo valeu a pena, que ainda valeria considerar, ou ao menos para fazer com que eu sorria para dentro assistindo tuas novidades como personagem-espectadora. Eu vou indo porque agora sou estagiária do gabinete e não posso chegar atrasada, você sabe como são essas coisas.

Confiro sua não-resposta quando voltar para a casa. E como acho aquele "atenciosamente" muito formal para essa não-conversa, vou me despedir meio romântica e meio sincera:

Sempre,
sempre meio tua,
meio presa a ele
e meio toda-livre,

Claudia L.

sábado, 26 de novembro de 2011

Não é orgulho em dizer


Tudo ainda me dói enquanto relembro o repousar de talheres de um jeito bem meu, porque a fome fora menor que o empenho em retirar as cebolas do lanche que o garçom anotou por engano. Também tenho preguiça de ser inconveniente, ali. Não quero comer, quero olhar o prato e ter fome. Muita fome. Uma fome etíope.
Ao fundo, os cantores conversam amenidades e, deixando de cantar, fazem do encontro um lugar agradável para confessar-me humana. Eu não confio em ninguém que diria o que eu digo, às vezes. O cidadão à minha frente parece confiar. Ouve quando eu digo que me sobram os dedos de uma mão para contar arrependimentos. E eu faço tanto.
Não é orgulho em dizer. É querer encontrar na monotonia um lugar de aconchego para, mirando as coisas passadas, querer um futuro igual ao tudo que essa vida já foi. Escolher algo não é ter coragem, não. Ledo engano.
Escolher algo é ser covarde para renunciar os outros temperos que se poderia dar à vida, com um pouco de ousadia - mas bem pouca - em tomar uma decisão. É misturar destemperos e sentir a euforia experimentada de adrenalina com êxtase: Logo eu que não entendo de substâncias químicas.
Agora são duas pernas que não tremem muito, mãos que não soam muito, e-mails que não chegam muito, novidades que não me frequentam muito. Olhos atentos... Mas forçosamente - qual é mesmo a palavra? - já nem sei. Forçosamente eu não sei a hora certa de deixar de insistir, mas finjo.

Queijo colonial me trava a boca quando estou de ressaca. E não espero tomar de lição. Eu gosto muito de queijo.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ter fé e ver coragem no amor


Reaprendi a amar. É tão intenso quanto antes, mas mais devocional que outrora. O amor de agora é Claudia Leitte cantando O último romance de Rodrigo Amarante. Entende? É tudo igual, mas diferente.
Uma fórmula nova de se adaptar com a família e assistir filmes românticos. A mesma fila do pão, um jornal novo. E ninguém nunca diz que é tarde demais ou tão diferente assim. É só amor, ter fé e ver coragem nele. É aprender a história dos Beatles e colar uma figura escrito "Let it be" no celular já gasto. É aprender a comer sanduíche natural e a gostar de guaraná. Outro sufoco para acompanhar. É compartilhar a saliva e o suor. Principalmente a saliva e o suor. Querer andar de mãos dadas. Outra casa pra pôr na sacola. É conseguir olhar outra vez pra alguém com a mesma paixão infantil das cartas românticas e bilhetes guardados, sem medo, com muita vontade. Outras dúvidas, com o mesmo clichê: É pôr foto no porta-retrato e dar selinhos estalados de amor em público pra quem quiser ouvir. Querendo trocar a TV pra levá-lo a qualquer lugar que ele queira. É ter o horário da Taioense com lugar fixo no mural e rir dos atrasos e chegadas em cima da hora. É ser amiga dos cobradores de passagem, adorar aquelas duas gotinhas de Mont Blanc que deixam cheiro de quero mais - ou a camiseta surrada do Arsenal. Sair de casa. Se aventurar... E não tem mais sossego pra nenhum dos dois. Eu me agito, eu me recorto, eu dou outra vez o melhor de mim. Desfaço o nó da gravata e me sinto em casa. Reaprendi a amar.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Outros mil

E era simples: Eu ainda precisaria buscar muito, e conhecer outros mil eufemismos para entender o que quer que fosse.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

E sem final feliz

Outro dia cruzei com uma menina na entrada principal da faculdade e tive vontade de chorar ao vê-la sorrir. Acenei a ela com a cabeça naquela cumplicidade muda de quem não se conhece pra proferir mais que um aceno, e ela se pôs a sorrir por fora - timidamente - como se agradecesse a compreensão e soubesse exatamente o quanto eu partilhava da dor de dentro, que era dela. Tão nossa, tão dela.
Há muito eu a houvera visitado, neste fantástico mundo de palavras que criamos para nós, que ela criou para si. E ela falava de amor todos os dias. De muito amor ou de falta. Era quando eu mais me reconhecia nela. E eu conhecia a sensação, que então parecia ser dela, de estar vivendo algo muito maior do que as coisas que se podia prever. Maior e frágil. Maior e secreto. Maior e inconfessável. E eu conhecia a sensação de depois, de uma ou duas estações praticamente glaciais.
Desejei ter uma fórmula certa, tomá-la nos braços como criança e fazê-la entender que vai passar, se ela quiser. Que ela vai (des)acostumar, se ela quiser. Que o arco-íris volta em formas novas a cada chuva e sol, que o pote de ouro se esconde em lugares novos, se assim o permitirmos. Contudo, achei invasivo demais olhá-la para tão além daquele sorriso forçado - por isso, nada fiz e até agora, nada havia dito. Porque a cada lembrança minhas palavras de consolo se tornariam vagas outra vez.
E ela era linda. Autêntica, um pouco além das medidas convencionais, escrevia com o coração e era linda. Deve se ter deslumbrado com o impossível tão ao seu alcance. E ela não sabia, como talvez ninguém saiba antes de se entregar às delícias mais escondidas por palavras e metáforas dessa vida, que seria acometida pelo irremediável desejo de que o desespero passasse, dali a poucos meses, ou semanas. E eu conhecia tudo aquilo. Tudo aquilo também era muito meu. O desespero de descobrir um veneno mais forte que os naturais encantos pelo desconhecido - e sem antídoto. Então passamos uma pela outra, quase atravessando nossas dores, sorrindo. Permanecíamos sorrindo e aquela era a maior prova de que uma dor daquele tamanho não nos mataria, apenas tornaria menos frágeis aquelas mulheres que, ao falarem tanto de amor, acabaram por se perder dentro dele.
E tiveram a impressão de viver uma fantasia aos moldes daquele conto antigo sobre dois enamorados que se conhecem, se apaixonam, gargalham juntos e cometem as melhores loucuras. Muito mais intenso, é verdade. E sem final feliz. E a mocinha escreveria o conto, ao final meio débil, sem suas lentes para enxergar o que é mágico. O diário dela era cor-de-rosa. O meu, a poeira havia tomado conta, já não tinha mais cor. Desejaria que significasse que eu finalmente houvera aprendido que as cores e as palavras podem nos dar a falsa impressão de mudar o mundo sem que realmente ocorra - por isso, às vezes, é melhor deixá-las dormir... E só viver.


"Depois da última noite de festa,
Chorando e esperando amanhecer
As coisas aconteciam com alguma explicação..."
(Nenhum de Nós)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Pois é

"Pois é, não deu. Deixa assim como está, sereno
Pois é de Deus tudo aquilo que não se pode ver...
E ao amanhã a gente não diz
E ao coração, que teima em bater,
avisa que é de se entregar no viver.

Pois é
Até onde o destino não previu
Sei, mas atrás vou até onde eu conseguir
Deixa o amanhã e a gente sorri...
Que o coração já quer descansar.
Clareia minha vida, amor, no olhar..."

(Los Hermanos)

domingo, 18 de setembro de 2011

Principalmente

Estava prestes a citar Caio Fernando outra vez, quando ele diz: "Queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que eu escrevi"... Mas lembrei que emprestar as palavras dos outros nem sempre tem o mesmo efeito do que escrever. Principalmente em se tratando de querer que nos amem por isso.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Morro

"- Você morre de medo de perder alguém importante. Então, larga a pessoa que mais importa pra você...
- Não estou morrendo de medo, estou seguindo em frente...
- Por que ninguém pode tirar de você o que você não tem mais".

(House, quinta temporada, quarto episódio. Copiado do Vem cá Luísa)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A doença

“(…) Há meses reflito sobre a doença de refletir demasiadamente e estabeleci com toda a certeza a correlação entre a minha infelicidade e a incontinência da minha razão. (…) Eu não consigo deter meu cérebro, diminuir o seu ritmo. Sinto-me como uma locomotiva, uma velha locomotiva que se precipita nos trilhos e que não poderá jamais parar, porque o combustível que lhe dá a sua potência vertiginosa, o seu carvão, é o mundo. Tudo o que vejo, sinto, escuto, se engolfa no forno do meu espírito e o impele e faz funcionar a pleno vapor. (…)”

(Martin Page)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Talvez




“Talvez Clarice estivesse certa: ler é, provavelmente, a maneira mais intensa de escrever.”

(José Castello)

domingo, 28 de agosto de 2011

Um repertório

"Um repertório de desculpas pode ir sempre mais longe do que uma verdade, quando ainda não se descobriu que querer enfrentar tudo-ao-mesmo-tempo-o-tempo-inteiro é quase a mesma coisa que não enfrentar. Minha coleção de argumentos para ir avolumava-se na mesma medida em que crescia a lista de motivos para ficar. Mil razões apontando para a porta, mil e uma para o sofá, e eu ali, deitado no colo da dúvida, exausto por ter que amadurecer tanto em tão pouco tempo."

(Luciana Lorens Braga)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Sugestões para atravessar agosto

Para atravessar agosto é preciso, antes de tudo, paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro – e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah! Escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir, dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos – ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade…Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo ZAP): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu – sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.

Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques – tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas – coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.

Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.

caio fernando abreu (6/8/1995 – para o jornal o estado de são paulo)

domingo, 31 de julho de 2011

Perturba.

Os sorrisos das pessoas estão desesperados, você vê? No ônibus, no metrô, olhe nos olhos de um estranho, ele mal consegue te encarar. Sorria, ele vai hesitar e retribuir sem entender. Não é felicidade, é reflexo. Sorriso de felicidade desmancha na boca, você sabe. Se você um dia já esteve apaixonado, sabe o que eu digo. Falta paixão, não falta? Está todo mundo fodido e com medo, mas ninguém tem coragem de assumir. E inerente a isso, o medo escapa pelos olhos de vez em quando: sai tão voraz quanto entra.

As coisas vão mal… E às vezes nem parecem. Certas desgraças são tão sutis que nem se dão o trabalho de ficarem visíveis tão facilmente. Escolhem tatos frágeis, e céus, elas são tão seletivas, você não faz idéia. Ficar desesperado é como levar uma surra interminável. Socos e mais socos que você não sabe de onde vem, mas acertam com tanta força que te fazem perder o rumo, não conseguindo pensar em nada e assim fica mais fácil agir como um imbecil.

Você nunca se sentou, chorou ou então se sentiu terrivelmente triste porque por um instante percebeu que estava tudo realmente errado? De uma hora para outra você tocou o que não conseguia tocar enquanto estava ocupado estando feliz ou achando que estava. Fico feliz por isso, por nós. Dor nos faz parecer menos moribundos nessa brincadeira tosca de sobreviver.

Quando o despertador toca, a única reação é querer continuar dormindo. Levantar da cama é tentar se equilibrar em um mundo que já perdeu o chão e estamos altos, todos em cima de uma corda bamba, está ventando muito! Não é entediante ter que acordar e encarar tudo, se equilibrar nessa ventania do caralho que não acaba nunca? O corpo clama inconscientemente por sonhos porque de olhos abertos as coisas ficam mais difíceis.

Eu faço perguntas a você por que sozinha eu não consigo achar respostas, eu jamais consegui. Talvez eu devesse parar de pensar tanto, mas eu gosto de estar dentro de mim mais que qualquer outro lugar. Aqui eu posso. Eu quero respostas, não consigo achar. Isso tem me perturbado. Não te perturba?

Copiado do http://6953.tumblr.com/ por ser tudo que tenho pra dizer nesse domingo de fim de férias.

sábado, 30 de julho de 2011

Adriana Calcanhotto


"Nada ficou no lugar
Eu quero quebrar essas xícaras
Eu vou enganar o diabo
Eu quero acordar sua família...
Eu vou escrever no seu muro
E violentar o seu rosto
Eu quero roubar no seu jogo
Eu já arranhei os seus discos...
Que é pra ver se você volta,
Que é pra ver se você vem,
Que é pra ver se você olha,
Pra mim...
Nada ficou no lugar
Eu quero entregar suas mentiras
Eu vou invadir sua aula
Queria falar sua língua...
Eu vou publicar os seus segredos
Eu vou mergulhar sua guia
Eu vou derramar nos seus planos
O resto da minha alegria..."

terça-feira, 26 de julho de 2011

Eu poderia voltar a morar ali, se fosse o caso

Eu construí um castelo. Ou um palácio, não sei bem a diferença, nem faço questão de saber. Não era de areia, talvez de palavras. Era confortável. Aconchegante. Servia bem a seu modo. As escadas para a torre principal eram enormes, o que me protegia pseudo-princesa. No meu castelo-palácio não havia apego e portanto eu nunca me machucava. Esta aqui era sua Sala Magna. Ampla de lirismo, pequena de léxico. No meu castelo-palácio tudo era motivo de riso e eu era grande, exuberante, majestosa, majestade. Um pouco piegas, mas muito interessante. E até mesmo imponente: Uma mulher de posse do seu próprio castelo-palácio. Todos se admiravam. Houve quem entrou sem bater na porta, houve quem bateu na porta, entrou e depois foi-se embora. Houve quem ficou de fora das grandiosas festas de entrada franca, por medo do comportamento da anfitriã que... Bem... No caso, era eu. E em um dia feio (porque nem sempre as coisas acontecem em um belo dia) eu me tornei alienada do que era mais fundamental entre as coisas fundamentais, e aos poucos a vida no castelo-palácio ficou tão assustadora quanto a vida do lado de fora e eu fui derrubando as paredes, uma a uma, e convencionei um encontro superlativamente longo (meses!) com um dos príncipes que eu supunha encantado. Fiquei desprotegida do meu castelo-palácio, mas não fazia diferença, já que não me sentia frágil.

Até que hoje...

Frágil como agora.


***

Outro dia emprestei uma frase de Mario Vargas Llosa, lembra? Pois bem. Faltou prever que alguns dias me amanheceriam amargos, como o de hoje. Prato cheio (cheíssimo!) para quem "reaciona" a segunda opção aí embaixo das postagens.
A segunda-feira adormeceu um pouco mais sentimental do que é costume e eu tenho tido vontade de escrever, especialmente nos últimos dias. O que provavelmente não diz coisas muito boas sobre o meu estado de espírito. Estou prestes a soprar dezoito velas e eu não sei exatamente o que isso muda em minha vida. E eu não deveria estar querendo mudar a minha vida outra vez.
Tenho tido vontade de vir aqui pra dizer que o excesso de cafeína está me amarelando os dentes, que os problemas dos outros sufocam minha aparente falta de problemas, que o trabalho não anda lá aquelas coisas, que tenho saudade dos corredores da faculdade nas férias e que os pensamentos precipitados sobre os fins andam consumindo todos os meus meios.
Mas é melhor não dizer nada pra que a vida pareça em ordem. Eu não sei bem, eu não sei bem... Vez ou outra escrever me desafoga, vez em quando termina de me dilacerar.

terça-feira, 5 de julho de 2011

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Cadernos de Luísa

- Lúcio, você sentiu paz, da última vez que nos encontramos? – pergunta Luísa, reticente. Sua insegurança toma dimensões exacerbadas, quando o assunto é ele.
- Luísa, eu estava em paz – responde ele, com a habitual serenidade. - Senti-me feliz. Você que não tem paz, que busca. Eu tenho. Posso ser mais feliz, é claro, e espero que você faça parte disso.
- Quero fazer parte disso – ela sorri para o telefone.

(Vanessa Souza Moraes)

sábado, 18 de junho de 2011

Menos inadaptável

Constato diariamente que sou limitada. Imenso. Logo, tomo por breve objetivo de vida: Menos histérica. Menos ciumenta. Menos inconstante. Menos neurótica. Menos controladora. Menos agressiva. Menos emocional. Menos culpada. Menos dramática. Boas metas, mas para mim e para a minha personagem-personalidade, imensamente desafiadoras. Diluídas nos últimos tempos, seriam parcialmente cumpridas - uma a uma - para o bem de todos e para a felicidade irrestrita do meu coração.
No fim do percurso, deixaria de lado esse resquício de comportamento depressivo que me aflige de tempos em tempos. Seria sensata e completa. Ponderada e adulta. Elenquei quase tudo que de fato me intrigava em mim. Quis mesmo que só as virtudes permanecessem - o mais, seria menos. Entretanto, algo sempre nos falta. Caio anunciava: "...guarde sem dor, embora doa..." Engoli as faltas que me doíam lembrando de Caio e tomei cinco minutos no dia, enquanto esperava o ônibus, para um autismo voluntário a fim de perceber se só eu fico meio desajeitada entre as coisas que me faltam, sem defini-las, ou se todos são assim. Ouvi mil conversas e cheguei a conclusão nenhuma, porque as pessoas não mostram o que lhes falta aos desconhecidos. Talvez elas nem mesmo saibam, como eu. Então decidi que pouco importava. Desesperei.
Que é que em mim era ausente? O que não havia e era imprescindível em mim para ser completamente feliz, às vezes!? Coragem, ânimo, poesia, razão, controle? Foi quando adicionei à lista de objetivos: Menos egoísta. O ditado de que nada é perfeito é mais que secular. Não seria minha experiência de menos de duas décadas que mudaria qualquer coisa a esse respeito. E algo continuaria me faltando, e eu manteria sempre algumas falhas. Faltaria-me, mormente, a perfeição. O que podia não ser tão ruim, desde que eu mesma me adaptasse a mim.
Sacudi a cabeça teatralmente como se isso fosse desviar meus pensamentos, aproveitando para reorganizar as ideias de forma mais coerente ou inteligível; bem como para fabricar ou traduzir - de modo muito particular - um neologismo a ser adicionado em minha lista, que se sobrepusesse aos demais: Menos inadaptável. Estampar-se-ia em minha mente de forma automática: "Adaptar é evoluir". Então, as coisas pareciam voltar a fazer sentido. Podia levantar da cama e acordar para o sábado.
Sorri ao dar de cara com parte do presente de dia dos namorados que ganhei daquele que ouso chamar novo amor, porque é (porque foi, porque será e porque os primeiros sempre o são) novidade ao inspirar a mudança para menos e para melhor.
Tomaria café lembrando de alguém que me queria sempre feliz, ainda que imperfeita, agora. E eu sentia como se esse amor e como se todos os amores que me cercam pudessem se travestir de qualquer coisa para preencher minhas lacunas. Depois de tantas reflexões aleatórias, elegi a da direita como minha, por motivos óbvios: Era a adaptação materializada. Quando juntos, Wilian certamente tomaria qualquer coisa que não lhe amarelasse os dentes na xícara da esquerda, e eu desejaria que ele se lembrasse - naquele momento e em todos os outros - que possuímos muitas características comuns, mesmo sendo diferentes na forma. E eu me senti satisfeita, pensando que buscaria me adaptar às coisas que não me agradam em mim e no mundo, deixando que meus amores fizessem o resto, porque são inconfundivelmente adaptados aos meus defeitos. Que, portanto, eu conseguiria ser "menos" todas as coisas ruins de todos os dias, em nome de todos aqueles que me são caros. Nós sabemos ser infinitamente mais fácil recobrar a direção quando temos incentivo ao olhar para o lado.
Uma xícara é comum, e se confundiria com outras cem mil xícaras desse mundo não fosse por constituir um par. Uma xícara é menos convencional e descobre as dores e delícias de ser assim a cada uso. No fundo, são apenas xícaras. E este texto-desabafo, é apenas um eufemismo com muitas linhas para confessar que o que mais me agrada em viver é sempre urdir - no meio das crises, do caos, das tempestades internas - uma nova razão para seguir. Seguir sendo menos o que me atrasa. Sendo mais o que me interessa. Sendo melhor, desde que assustadoramente humana...

terça-feira, 14 de junho de 2011

De que amanhecesse regra

Um corte de meio centímetro na dobra do indicador da mão esquerda, pelo lado de dentro. Culpa do inverno e de uma sorrateira folha de ofício. Ou apenas de um descuido... Bobagem.
Leva o pequeno ferimento até a boca, e não esboça qualquer palavra em desaprovação. Pilhas de trabalho a esquerda, atendimento cordial a direita. Concentração, foco. Mais cedo ou mais tarde, vai sarar. Conformada desde as pequenas coisas. Espantosamente prática.
Mas no fundo havia medo, um medo imenso, de que toda exceção amanhecesse regra, um dia.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Es preciso



"Es preciso decidir qué es más importante para uno: vivir bien o escribir bien."
Mario Vargas Llosa, via @leoluz

domingo, 5 de junho de 2011

Auto-ajuda ou: Substrato de Domingo

Intelectuais se aprumam, pigarreiam e começam a responder dizendo "Veja bem..." e daí em diante é um blablablá teórico que tenta explicar o inexplicável. Poesia serve exatamente para a mesma coisa que serve uma vaca no meio da calçada de uma agitada metrópole. Para alterar o curso do seu andar, para interromper um hábito, para evitar repetições, para provocar um estranhamento, para alegrar o seu dia, para fazê-lo pensar, para resgatá-lo do inferno que é viver todo santo dia sem nenhum assombro, sem nenhum encantamento. (Martha Medeiros)

sábado, 21 de maio de 2011

Doce legado


Acabo de pedir alforria das alegrias que o mundo conhece. E ganho. Eu não sei explicar que diabos me acontece quando ouço Jorge Drexler. Estranho, diferente, ótimo. Lembro-me de ouvi-lo uma vez por mês, ou menos. É quando tenho vontade de fechar os olhos e ficar me balançando no ritmo das músicas, com aquela cara de satisfeita que a gente não explica porque não consegue. É um desejo que nasce entre as costelas, envolve todo o peito e contamina meu corpo até as extremidades, que brincam de fazer barulho nas bordas do teclado como quem entende algo de melodia, ou muito de espanhol. Ao que me consta, ao menos até o presente momento, Drexler é o mais doce de todos os legados. Ouvi-lo tem cheiro de uma alegria particular, peculiar. E tem gosto de tudo que é só meu.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O que será que me dá?

Cruzei as pernas e ajeitei o vestido velho que escolhi pra usar de camisola. Engraçado tirar os óculos, acionar o microondas e no meio da cozinha ir despindo as botas, logo mais na sala o casaco, no quarto o vestido e a meia, pra depois pôr essa coisa velha, coisa velha mesmo, com a qual eu me sinto imensamente familiarizada e feliz.
Meu padrão de pijama ideal tem umas alças cortadas e amarradas por minha mãe quando esse vestido ainda era grande demais pra me servir de conforto, tem um camuflado azul que eu acho quase indispensável. Tem umas manchas de comida, eu acho que são de comida, mas eu ainda adoro vestir exatamente o que estou vestindo para me sentar com gosto de pernas cruzadas e voltar a escrever depois de tanto tempo.
Bip, bip, bip. Dois minutos atrás eu carregava para o quarto um prato imenso de pizza requentada e um copo morno o suficiente pra não danificar a madeira compensada da mesinha que sustenta esse teclado que vos tecla e ainda nem está paga. Afinal, meia pizza e nescau ao gosto do freguês devem valer de janta nessa sexta-feira 13 que encerra uma semana agitada.
Tem uns livros jogados em cima da minha cama. Direito, Direito, um Código, Direito. Repetidas vezes e bem maiúsculo, que é pra dar o maior trabalho possível. Mas decidi que estou indisposta. Hoje eles não me ganham, não. Tenho um fim de semana longo pela frente. Tô com quatro notas dez e um nove. Nove em Constitucional, na prova mais fácil do semestre. E a maior parte das notas dez foram com três estrelas. Isso é importante pra mim. Sei lá, uma medalhinha pra minha mãe guardar na sala se eu não der muito certo no resto, né? Parece uma boa meta.
Mas senhores, o que tenho a dizer é que a vida adulta me engoliu e agora me mastiga. Estou sempre atrasada, quase sempre confusa e raramente certa de onde é que o meu rio vai finalmente desaguar. Talvez não desague. E hoje fiquei feliz ao lembrar do blog, lugar onde eu sempre vou poder confessar que é mais fácil ser eu mesma de vestido velho dentro do meu quarto, sentindo o que me dá vontade em vez de sustentar a mulher madura, que não sou, da porta pra fora. Em suma, eu me sentei aqui só pra confirmar que apesar de ser cheia de mim e confiar nas minhas escolhas, eu tenho um medo absurdo de não ser gente grande com três estrelas.


O que será que me dá?
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os tremores me vêm agitar
E todos os suores me vêm encharcar
E todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz suplicar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo...
(Chico Buarque)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Maroon 5



"...she had some trouble with herself
He was always there to help her, she
always belonged to someone else
(...) I've had you so many times
But somehow, I want more
I don't mind spending everyday
Out on your corner in the pouring rain
Look for the girl with the broken smile...
Ask her if she wants to stay awhile
And she will be loved...
(...) I know where you hide
(...)
Know all of the things that make you who you are
I know that goodbye means nothing at all..."


And she will be loved...

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Solidária Ode aos Inquietos Anônimos

"Fulana está grávida. Grávida e feliz. Eles namoram, ela quer ficar junto. Ela é linda. Ele é feio. Feio e velho. Ela precisa trabalhar de segunda a sexta para ter a vida que quer, não está com ele por dinheiro. Ela gosta dele. Diz que gosta porque ele faz tudo por ela. Todos veem isso." A língua do povo não tem freios, e antes de fecharem as aspas eu caí morta, fria, dura de inveja da Fulana. 'Tá pra fazer aniversário do tempo em que eu descobri que jamais gostaria de ninguém nestes termos, ou quaisquer termos parcialmente semelhantes. Quais sejam: Fazer tudo por mim. Fazer tudo por mim não basta para que eu tenha certeza que gosto, quanto menos para que eu diga isso, quanto menos para que faça ou aceite um pedido de namoro, quanto menos para que eu queira ficar junto sem titubear, quantíssimo menos para que todos vejam que gosto e espalhem aos quase-desconhecidos, como foi o caso.
Há quase um ano eu sou plenamente sozinha, e tenho andado confusa. Eu sei que sou confusa, mas tenho andado prestando atenção nisso. Ultimamente nem escrever eu dou conta. A vida não anda mole comigo. Entre os ofícios exasperantes da rotina tenho tido estalos de dúvida, instantes de introspecção que me põem desesperada. Eu sou sozinha comigo, às vezes. Estou muito inquieta por não ter certeza de nada. E já que o exemplo está posto... por não ter certeza sobre gostar e querer manter as vidas unidas.
Ficar sozinha atordoa. Andar por aí beijando na espera vã de um frio na barriga também. Mas não é só isso, isso é só um exemplo. De repente, nas festas, nos bares, nos porres, nos corpos e em todos os lugares você é só a sua solidão cansada. Cansada de procurar algo que, quando encontrado - até que me provem o contrário - vai aborrecer também.
Gostar de alguém me tumultua os pensamentos. Não gostar, idem. Gostar me enfastia a longo prazo. Gostar me cansa do compromisso. Gostar me cansa da espera de quem é que vai tomar uma atitude pra oficializar o relacionamento, como se o relacionamento fizesse tanta questão assim de ser oficializado. Namorar me cansa de ter de apresentar aos pais, namorar me cansa do enfado das tardes sentados no sofá da sala. Ou na sala de cinema. Ou no banco da praça. Ou de quem é que vai pagar a conta do restaurante.
Não sei o que prefiro, mas não deixo de amar por isso, embora mesmo o amor me canse. Os inquietos são cheios de dúvidas, não esquecem nunca das vantagens do outro lado. Os inquietos nunca excluem de seus pensamentos a outra possibilidade, por isso não têm sossego. Eles guardam, ainda que vagamente, uma lembrança de qualquer momento, momentozinho que seja, em que tudo parecia estar certo do jeito que era. Desejam que essa sensação se perpetue, caso contrário, sentem-se infelizes. E eu tive tantos momentos de alegria - desses que nos enchem de nostalgia e desespero quando acabam - que agora me sinto infeliz por não ser sempre feliz. Estou sozinha, ainda, ainda bem, talvez. Custa-me o ímpeto, preenchem-me as incertezas que surgem no meio do dia, do gosto, da solidão. Não sei renunciar de ofício. Muito embora minha própria dúvida já seja, quase sempre, um substrato de minha renúncia à escolha.
Que inveja de quem tem certeza, estufa o peito e não sente revés de sua opção pelo compromisso com o outro. Quem dera um dia eu me cansasse de me cansar. Quiçá eu me esquecesse da inquietude e gostasse com exacerbada certeza, todos os dias indistintamente, por qualquer razão, torpe que fosse. De ficar sozinha, por tudo. Ou de alguém, por algo. A beleza estarrecedora, o intelecto espetacular, a conta bancária, ou, como Fulana, a presteza irrestrita. Quão bom não seria escolher algo que fizesse valer o que foi deixado de lado, para trás. A maioria, cedo ou tarde, escolhe - e, por isso, renuncia. Os inquietos, nunca completamente. Só têm certezas de suas dúvidas. E raramente as esquecem.

domingo, 10 de abril de 2011

Monstros



"Quem luta com monstros deve velar para que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti." Nietzsche

terça-feira, 29 de março de 2011

Atravessar

“Como se ele completasse o gesto que ela iniciava,
o sonho que ela dormia. Sempre preferira os homens brutos.
Mas ele a estarrecia com tanta doçura.
Ela também o espantava.
O seu fraco sempre foram as mulheres delicadinhas.
Mas ela o surpreendia com a sua intensidade e paixão.
Como se gritasse as palavras que ele buscava, o sentido que não tinha.
Como se iluminasse o valor de todas as coisas,
coisas que ele antes nem percebia.”

Claudia Lage


Acredito cegamente que passava das seis da tarde. Sei que é possível supor porque, muito embora o relógio da Catedral ousasse não confirmar, naquele instante quem tinha o controle remoto do tempo era eu. Quase noite, mãos dadas, caminhávamos. Seis da tarde. Não me peça para explicar... Sei o tamanho do meu desatino, mas era essa mesmo a sensação que me possuía: A de que nada em volta sabia mais a respeito do tempo que eu. Com certa simplicidade, a senhora da pipoca embalava um pacote de tamanho padrão - com toda a habilidade que só as mãos de senhoras que trabalham também aos domingos o fazem - enquanto desviava olhos de muitas décadas e sorria para mim cheia de uma esperança muda. Ela desejaria que o meu sorriso tardasse a sair dos lábios. Tardaria.
Toda a praça era invadida pelo meu desejo de que aquela paz de espírito, que me acometia ao esperar o sinal fechar para atravessar a rua, fosse a paz de cada pessoa que passasse por mim. O dia e a hora exatos em que uma epifania em forma de licença poética fez com que eu entendesse muito claramente os dizeres de Clarice Lispector: Havia a levíssima embriaguez de andarmos juntos. E a cada palavra proferida onde o assunto era um pronome primeiro e muito pessoal, e tão plural que agora não mais me amedrontava, faria pensar sem demora. E por que é que, dessa vez, haveria de ser diferente? Porque era ele... as boas sensações me sussurravam. Mas a razão insistia - e por que ele? Por que assim, com essa barba mal feita, crescida, um pouco rala? Dessa forma inusitada que exige tanto um doar-se maior aos olhos dos outros ao passo que esse receber é tão íntimo, tão particular... E todas as perguntas se desfaziam enquanto ele brincava de me morder as bochechas e olhar como quem pede apenas o pouco de alegria que guardo de tudo e disponho para demonstrar.
Sentia como se o destino me afirmasse a razão de si mesmo em tudo que eu negava. Não é que a nossa brincadeira de enxergar pouco o que está mais adiante não fosse sincera... Creio mesmo que era síntese do que vivíamos naquele fim de tarde. De nada me importaria se não víssemos nada que estivesse a alguns metros, pois tudo aquilo era próximo. O outro lado da rua. Uma ânsia de viver o ininteligível me encarava e, ao fazê-lo, não precisava dizer a que vinha. Não precisava ser nítida, contanto que a compartilhássemos. E éramos nosso assunto predileto. E enquanto o fôssemos, ele atravessaria minha pele, meus escudos, minha secreta vontade de fugir de qualquer lugar enquanto é tempo. E ficaria ali, pelo vão prazer de me atravessar e tocar a boca na minha, invadindo qualquer espaço vazio que eu quisesse proteger das suas investidas tão incontroláveis. E ele me atravessava.
Encostava o queixo simetricamente proporcional em meu ombro para murmurar qualquer deletério que eu fizesse muita questão de ouvir, naquela espera. E a todo momento meu comando lhe daria o rumo do lugar esperado, da palavra desejada, do gesto que nascia antes mesmo que supuséssemos seu efeito. As vitrinas refletiriam muito mais do que dois rostos que entrelaçam línguas enquanto esperam o coração passar pela boca depois de tanto saltitar. Refletiriam nossa busca por tudo que já éramos, sem ao menos perceber: Felizes.
Logo depois das seis da tarde, eu me sabia feliz. Mesmo antes. E depois. E agora. Consciente, saber-se feliz naquele domingo fora tão só o que eu escolhera. Havia escolhido, em verdade, compartilhar ali um entusiasmo que ali mesmo nasceria, ou sempre que atravessássemos a rua politicamente corretos, ou nos atravessássemos, com afinco. Passava das seis da tarde, havia a levíssima embriaguez de andarmos juntos. E isso era tudo. Tudo que, depois, eu saberia dizer sem confessar que minha escolha era adorar sua companhia. E adorá-lo ali, do jeito infantil que se adora enquanto entardece e a senhora das pipocas embala um pacote médio... Ele era também uma escolha, bem dentro de mim. Travessa. Atravessada. Não havia por que ou poréns.

domingo, 20 de março de 2011

Bellum omnia omnes

"Estou adorável. Quem não me conhecesse, me compraria, assim, pronta para a sessão noturna do meu teatro, em cartaz nos últimos tempos. O ser humano faz da cara o que quer... Comigo não será diferente", pensei. E desci as escadas certa de que a noite que me esperava não era, nem de longe, o itinerário ideal para o meu estado de espírito. Não seria de lamentar se o motorista errasse o caminho pra qualquer lugar infinitamente longe dali.
Respirei fundo no desembarque e treinei aquela expressão facial de quem está ambientada com a ideia. Mais uma vez, minha inconstância tinha me pregado uma peça daquelas. As mentiras têm pernas curtas, mas todas as minhas estavam envoltas em uma saia emprestada que cobria bem o que precisava ser coberto, enquanto a parte à mostra contribuía para me rasgar de vergonha do imbróglio da ocasião, em cada passo. Eu era uma barata tonta à luz de uma lâmpada fluorescente inadequada para segredos tão sombrios. Atrapalhada por um instinto que não devia estar ali.
Aquilo tudo regado a muito constrangimento, bebida gaseificada e um pouco de gente esquisita me dava nos nervos... Foi o que notei assim que acordei. Deveria ter fugido dali com o salto alto na mão feito noiva arrependida, aproveitando pra borrar a maquiagem com duas ou três lágrimas e benzer com aquilo um fim mais do que necessário. Permaneci. A situação era mesmo ridícula, como eu merecia que fosse. "Cada um busca, para si, o que acha que merece."
Cada olhada no espelho me fazia lembrar que eu não poderia voltar ao início daquela busca e escolher outro caminho. Estava feito. Respirei, limpei o lápis borrado feito olheira pela enésima vez e atravessei a porta como quem vai à forca. Desde muito menina, achava que merecia um amor que exigisse obstáculos, buscas, toda aquela marmelada dos filmes e contos de fada. Até esse ponto ainda vá lá, tudo ok. Eis que, agora, tudo era dispensável. Eu só queria algo fácil, instantâneo, sem complicações.
"Construir coisas sólidas é complicado demais... Principalmente com esse brinco de bijuteria pesando nas minhas orelhas e essa blusa de regata um pouco larga." A cada coisa ou pessoa que passava em direção à saída, eu quereria mesmo era passar com ela. Desculpem-me a sinceridade, mas em estado natural, sem a cegueira da paixão, eu tenho uma puta de uma preguiça dessas ocasiões que o amor nos obriga a viver. Preguiça de amar. De me convencer que estou feliz. Da renúncia que essa história toda envolve. Sou egoísta e narcisista demais para me esquecer de mim.
Gosto mesmo é de lutas involuntárias, onde cada ato é uma prova do quanto vale a pena cometer aquele mesmo ato. Bellum omnia omnes. Todos contra todos. Em meados da indecisão. Confirmado o tédio. Desejando aquela fumaça do desaparecimento dos mágicos famosos. Eu cada vez mais convencida: Talvez eu não houvesse sido programada para lutar ao lado de ninguém que exigisse o mínimo do mínimo dos esforços... Não por enquanto. Principalmente se não fosse tão mínimo assim, para mim. Estava chegando ao fim... E eu tinha vontade de chorar quando pensava que este sonho e estas memórias iriam pelo ralo, como todas que os antecederam... Convicta, concluí que o fim do espetáculo não tardaria.


I let the beast in too soon...
I don't know how to live without my hand on his throat (...)
Oh darling, it's so sweet!
You think you know how crazy, how crazy I am.
You say you don't spook easy.
You won't go, but I know.
And I pray that you will...
Fast as you can, baby!
Run, free yourself of me.
Fast as you can...
I may be soft in your palm, b
ut I'll soon grow hungry for a fight a
nd I will not let you win...
My pretty mouth will frame the phrases... t
hat will disprove your faith in man!
So if you catch me trying to find my way into your heart f
rom under your skin...
Fast as you can, baby!
Scratch me out, free yourself!
Fast as you can...
Sometimes my mind don't shake and shift b
ut most of the time, it does.
And I get to the place where I'm begging for a lift.
Or I'll drown in the wonders and the was a
nd I'll be your girl, if you say it's a gift...
And you give me some more of your drugs.
Yeah! I'll be your pet, if you just tell me it's a gift.
'Cause I'm tired of whys, choking on whys!
Just need a little because, because...
(...)
Leave me, let this thing run its route. Fast as you can...

Fiona Apple

quinta-feira, 17 de março de 2011

Persecutória, permanece

Talvez não tenha sido a primeira vez, mas hoje me traíram. Assim, sujeito indefinido. E eu estou aqui, sentindo isso com todos os meus músculos, há horas e horas. Foi uma traição de pequeno porte, torpe, por terceiro, quase perdoável... Mas perdoar, não hoje.
Por muito tempo houve uma fumaça de despreocupação que não me deixava saber que diabos significava literalmente o verbo trair, embora da ação eu não houvesse - em definidos momentos - mantido a necessária distância.
Princípios que não julgava primordiais, promessas insignificantes... Substituídos. Inutilizadas. Traídos, traídas. Quase nunca traí minhas vontades, raras vezes traí meus sentimentos, mas com ambas situações eu me traía. Assim: A todo o mais ou a mim mesma, com avidez, em ímpeto ou caso pensado. De igual forma, sempre que deixava o assunto pra lá. Sempre que fingia não notar o tamanho da minha traição.
Distraíam-me os acasos, os mistérios, doçuras, música. Tudo me distraía enquanto traía. O trair, em si, eu sempre mantive no fundo da gaveta, aprisionado. Agora, entretanto, a palavra e a ação me doem porque estou do outro lado. Não é beijar outra boca. Não é contar um segredo. Não é deixar o monótono dar lugar ao emocionante. Não é quebrar um elo de confiança. Não é nada do que eu já possa ter feito, vivido ou pensado. É mais amargo. É traição.
E hoje eu sinto como se estivesse na condição de perpetuamente traída. Por tudo que é sagrado, dói como se fosse verdade. Dói como se fosse em mim. Dói como se continuasse sendo.
Quem sou eu para trair? Se quase não aguento nos ombros o peso que a traição faz recair sobre mim num modo tão ofensivo, cruel e inesperado - ou apenas supervalorizado - no dia de hoje!? Eu sou aquela que sempre se vangloriou de ser fiel à própria felicidade e a poucas outras coisas além disso, nesta vida. Eu sou aquela que com minguadas exceções nunca mediu consequências em se tratando de obedecer um desejo que eu avaliava não apenas justo, mas extremamente necessário. Eu sou o orgulho que eu sempre ostentei em ter a liberdade de mudar de ideia e trair quando for preciso. Uma coisa com outra, uma sensação com outra... Entre tudo que eu sou, hoje eu sou, finalmente, traída.
Hoje por uma amizade, amanhã não se sabe. Das características de uma quase-amiga chamada traição, uma delas - ocorre-me agora - é ser persecutória. E por manter posse de uma sinceridade que grita, sou levada ao caminho da crença de que a fidelidade com as coisas e sentimentos deve existir, quando e desde que sincera. É mais fácil avaliar até onde vai minha coragem de trair o que (e quem) quer que seja, vivendo o que me ocorreu hoje, sentindo o que sinto agora.
Porque quem abre as portas para a traição entrar conviverá com ela. Transitória ou prolongadamente, a sua própria escolha. A quem a traição chega sem avisar, não é possível prever. E então, a partir de hoje, escolho trancar a sete chaves a porta de saída para as traições de todos os gêneros, por tempo indeterminado, até voltar a acreditar que há mais revés do que vantagem nisso. Coisa essa que hoje eu sinto que não acontecerá. Porque, lembro bem, hoje eu fui traída. E eu não espero me esquecer do desprazer dessa sensação tão cedo.

terça-feira, 15 de março de 2011

Livres para ser: Juntos.

Desiludida, despreocupada, porra-louca. Foi assim que fui encontrada pelo cara que me arrancou inquietude desde a primeira vez que o vi. Lembro-me da roupa que vestíamos naquele vinte de agosto, bem como lembro das primeiras impressões. Impossível esquecer das semanas sem contato algum, daqueles 4 e-mails e todos os outros que viriam. Impossível não lembrar do domingo em que foi dada a largada de uma tímida sedução. Do bom humor com que ríamos de todas as nossas infinitas semelhanças e depois do nosso infinito desejo de permanecer na “distância-padrão” o maior tempo possível. Nunca imaginei, e sou muito franca em admitir que de fato jamais cogitaria que fosse me sentir tão protegida por ele. Tão bem cuidada. Tão longe de todos os medos. Uma porta de vidro, um sorriso em um dia ruim, sobretudo uma amizade sincera, até que um vinte de novembro veio bem a calhar. E lá estava eu: Desiludida, despreocupada, porra-louca. E prestes a cair de amores pelo ser humano incrível que há detrás daquele óculos e daquela cara de nerd que despertou meu interesse. Sei que isso não tem cara de depoimento de aniversário, mas é muito sincero, então decido agora que esse C de confissão que demontra nosso C de cumplicidade será mais um de meus cês entre tantos. Obrigada por não ligar a mínima para a minha desilusão, para meus despropósitos, para a minha loucura. Por fazer com que cada dia eu tenha mais vontade de escrever linhas intensamente breves de uma história linda e louca de contar para os meus netos. Decididamente, você merece felicitações pela liberdade que me dá, mas, principalmente, pelo amor livre que me inspira.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Para não esquecer de lembrar...

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.

Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete

Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo...
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos...
Enganados...
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor...
... E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

Cecília Meireles, apud Molinari.

Ou eu só queria muito?

Logicamente, ele não lia com os olhos dos dedos que eu escrevia.
E, é claro, por mais que se esforçasse não entenderia uma palavra sequer do que falava.
Talvez eu não fizesse questão.
Era bom que ficasse uma excitante dúvida acerca do que toda aquela estória poderia ou não significar.
Eu só esperava que tivesse muito claro entre um princípio e outro que, caso me ferisse, eu seria capaz de ferir também.
E em proporções assustadoramente maiores...
...não se importava.
E a cada vez que me subestimava, eu teria ainda mais vontade de que ele engolisse aquele fato cruel:
Eu era a mulher ideal.
Ainda que, às vezes, fosse divertido crer que, de fato não tínhamos certeza.

terça-feira, 8 de março de 2011

Nostalgiador

Depois de um dia cheio, adentro a casa e a luz do quarto queima. "Que saudade filha da puta!" é o primeiro pensamento ao ouvir o estouro dentro da lâmpada.
Tomo um banho demorado e coloco aquele meu vestido lilás de risquinhos vermelhos quase comprido demais, com detalhes de manufatura no busto. Amarro os cordões na nuca logo antes de fazer uma repartição simetricamente contestável. E depois brinco de secar os cabelos repartidos no escuro. Ajusto o secador para um jato de ar frio, já que quero acordar para a vida. Miro o rosto. Mantenho a calma, mas quase não consigo respirar. Espero, em vão, que o pulmão decrete falência com um sopro gélido em baixa voltagem. Bobagem a minha. Meu secador e minha nostalgia são parecidos, noto agora. Propositalmente quase me sufocam mas, no fim das contas, têm lugar certo no armário, esquecidos: Ao lado do desfibrilador, inutilizado graças a Deus. E à vida que ando levando.

Cai a noite sobre a minha indecisão:
Sobrevoa o inferno minha timidez.
Um telefonema bastaria, passaria a limpo a vida inteira...
Cai a noite sem explicação, sem fazer a ligação
Esperei chegar a hora certa por acreditar que ela viria
Deixei no ar a porta aberta, no final de cada dia
Cai a noite, doce escuridão...
De madura vai ao chão.
Na hora da canção em que eles dizem "baby"
...eu não soube o que dizer.
Ah, vida real!
Como é que eu troco de canal?

Engenheiros do Hawaii

"Desculpas sem culpas"

"Tenho um amor fresco e com gosto de chuva e raios e urgências. Tenho um amor que me veio pronto, assim, água que caiu de repente, nuvem que não passa. Me escorrem desejos pelo rosto, pelo corpo. Um amor susto. Um amor raio, trovão fazendo barulho. Me bagunça. E chove em mim todos os dias." E todo o mais.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Da série "os melhores diálogos que não tive"

- Deus é um cara gozador, adora brincadeira!
Tô pagando até os pecados que não cometi...
... e o arrependimento? Não, não mata.
Anota no teu caderninho.

(...)

- O fato é que a ausência de seus beijos doces e de conversas secretas me fazem, sim, falta. Parecem, com o perdão da palavra, um substrato de minha ação.

E, acho que esqueci de dizer: você detém a liberdade que ambiciono.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Sob o sol da manhã

Bela como a luz da lua! Estrela do oriente nesses mares do sul (...) será magia, miragem, milagre. Será mistério! Prateando horizontes... Brilham rios, fontes. Numa cascata de luz. No espelho dessas águas, vejo a face luminosa do amor. As ondas vão e vem, e vão e são como o tempo... Luz do divinal querer. Seria uma sereia? Ou seria só delírio tropical, fantasia? Ou será, um sonho de criança sob o sol da manhã...

Que seja doce!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Greatest unhits


Retribuição de cuidado. Proteção. Amizade sincera. Abraço que conforta. Sutileza que comove. Uma vontade incondicional de estar perto. Adoração. E, por sorte, por uma língua vasta que permite várias denominações para uma coisa só, em dados momentos podemos escolher como chamaremos as coisas. Temos um arsenal de possibilidades. E eu escolho deixar as sensações que não me merecem para trás. Escolho não perder tempo com o que me faz mal. Escolho esquecer o que não foi, não é, não volta. Escolho nosso futuro. Escolho me permitir. Escolho cuidar porque sou cuidada. Escolho agradecer o bem que tu me fazes. Escolho deixar que seja, finalmente, amor.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

"Talvez a gente não se encontre mais..."

E para não dizer que ele tinha os olhos marejados quando disse aquilo: Não tinha. Entretanto talvez fosse bom para o ego lírico exagerar no sentimentalismo. Aumentemos as proporções da aventura... Chorava compulsivamente, desnorteado, quando disse que talvez nunca mais nos víssemos. Fez questão. Não precisava dizer e disse. Ergueu a cabeça, meio triste meio cheio de culpa, e sentenciou que ia embora. Usou o talvez e eu achei mesmo que aquela palavra hodiernamente obsoleta antecederia um adeus breve e imensamente pesaroso. Lembrei Caio Fernando: "Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem". Era óbvio que era o princípio de uma partida. Mas uma partida que começa com um talvez não pode ser ruim... Ou pode? Assenti. Era natural sorrir. Aliás, era tudo que eu sabia fazer, já que não podia dizer. Que fazer quando se toma nota sobre perder o conhecido instante do ânimo agitado quando os olhos se cruzam? Aquela pele meio pálida de quem não dorme porque pensa demais e os dentes amarelados me mastigavam. Os olhos me investigavam - por um Deus que permite meus devaneios... Como aqueles olhos me investigavam! E a audição completava o trabalho refinada e indevidamente austera, ouvindo coisas que eu pensava nem ter dito. Era um olhar terno que não me reprovava porque, creio, por detrás das nossas "composturas" cada um queria tanto quanto. E ali, trôpega com as palavras, eu quereria ter a audácia que se exige para um pedido tão sincero. Seria para que ele permanecesse ali parado pelos últimos cinco minutos, com sua costumeira expressão de pressa controlada, para que eu pudesse fingir que não o observava pela última vez. E se depois disso eu pudesse dizer em agradecimento ao acato daquela súplica uma só frase, seria ela: "Obrigada por jamais ter permitido que eu lhe entendesse."

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Três lados

Escutei alguém abrir os portões.
Encontrei, no coração, multidões...
Meu desejo e meu destino brigaram como irmãos!
E amanhã semeará outros grãos...
Você estava longe, então por que voltou?
Seus olhos de verão... que não vão entender.
Cada um terá razões ou arpões
Dediquei-me às suas contradições, fissões, confusões!
Meu desejo, seu bom senso: raivosos feito cães.
(...) Somos dois contra a parede
E tudo tem três lados...
E a noite arremessará outros dados!
Os deuses vendem quando dão,
Melhor saber.
Seus olhos de verão...
Que não vão nem lembrar.
E quanto a mim, te quero sim!
Vem dizer que você não sabe...
E quanto a mim, não é o fim.
Nem há razão pra que um dia acabe...


Skank

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Os dias de ávido empenho

Ao som de Belle and Sebastian - I don't love anyone.

O ontem me encontrou no corredor, mas não fez mais que acenar com a cabeça e pronunciar um encontro vocálico. Depois que anoiteceu, era de se esperar. Anteontem está em outra fase, virou gente grande. Nunca mais vi, não mais posso querer. Ainda deve mexer nos cabelos com a mesma frequência. Ainda deve dizer a palavra verdade com dificuldade. Ainda deve ser doce. Antes de anteontem não demonstra nada, não me chora e não me sorri, não me mostra os dentes, não me dá sinal de vida. Um erro grotesco sentou-se algumas carteiras longe de mim. Eu não sabia se aquilo ia ser meu depois de amanhã ou meu nunca. Não havia nada de realmente encantador como nas histórias precedentes e eu temia que aquela busca acabasse assim, em erros como aquele. O hoje, preso a uma sala com as paredes desenhadas de imaginação, parecia o melhor, mas era perigoso pois nada sabia a respeito dos outros erros, dos outros dias. Então pressenti que, sem muita demora, de fato não duraria.
A consciência eu encontrei na saída, tinha um arco de balões coloridos pouco acima da cabeça. Chamativa. Levava um cartaz colado na barriga, onde se lia: Você não ama nenhum deles. Atordoada eu não consenti nem discordei, fechei os olhos, girei o corpo e passei quase colada à porta para não esbarrar naquela frase. E eu, que só sei gostar do que ainda não foi, sinto saudade de tudo e gosto daquele lugar.
Quando meu amanhã chegar - e eu suponho que é exatamente ali que nos encontraremos - aquele arco de balões coloridos será céu para um abraço. Finalmente estarei em paz. Não é mais do que a minha consciência merece, por deixar que eu teste o meu coração com ávido empenho, pouca sinceridade e um sem fim de esperança, todos os dias antes de amanhã chegar...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Pressa, paciência. Amor, contingência.

Chegou-me um garoto apressado no balcão do trabalho, na última sexta-feira. Precisava de tempo para chegar ao destino depois da parada obrigatória no setor das certidões, um dos meus. Faltavam cinco minutos para o fim do expediente e a minha imensa pressa para que aquela tarde acabasse logo era a vontade dele que o relógio desacelerasse e houvesse tempo para tudo. "Devagar aí, senhor Tempo. É minha única tarde de folga", a testa dele estampava. "Pressa, pressa, pressa", minhas mãos denunciavam.
No sábado, pensando a esse respeito e a outros, achei mesmo que o embate entre a pressa e a paciência sempre fora um dos mais cruéis, ao menos para mim. E para tudo que quase todos tivessem paciência, eu concluí que seria afoita. Por escolha própria, sempre que houve e houvesse possibilidade assumi e assumiria o revés da urgência para gozar dos benefícios do imediato. E cada vez mais, a pressa tomaria conta dos meus desejos. Tudo. Muito. Sempre para ontem e sem culpa. Pensei como o longo prazo toma espaço demais das coisas de agora, e o agora exige apenas o que o curto prazo proporciona, ao passo que não se importa com atitudes paulatinas, planejadas e com outras tantas, tantas... abdicadas.
No domingo subverti o tempo e, por razão de certa pressa - que a esta altura já me é tão familiar - esqueci o relógio. Melhor que pensar e esquecer, apenas não pensar. Eu não queria pensar na vantagem da calma, porque não me parecia provável que houvesse benefício em, estática, esperar que as coisas acontecessem ou realizá-las a passos lentos, feito plano, como objetivo. Fazia sentido, imenso sentido, glorioso sentido não querer mais do que o que fosse intensamente efêmero - ou efemeramente intenso? pouco importava... - do que o instante.
Não sei se os que andam por aí afora com suas calmas vidas, suas atitudes bem pensadas e sua paciência terão tempo para tudo e é por isso que, megalomaníaca, assumi desde a sexta-feira o compromisso de fazer parte do outro time. A paciência lá está. Eu a vejo do outro lado da mesa. Contígua à vontade de que o tempo desacelere. Lá, longe, onde estão os prudentes, os remediáveis, os afetos à segurança e os apegados ao amor necessário. No campo firme e exclusivo da necessidade.
E eu aqui. Num terreno meio Sartre e Beauvoir, despreocupada, você entende? Achando que é preciso dar espaço às oportunidades apressadamente, para não deixar que nenhuma delas escape. Com tendência à ligeireza, à precipitação, a devorar o tempo, ao infinito enquanto dure. Entregue aos braços das delícias que a pressa pode trazer consigo.
Você leu tudo até aqui.

Pressa ou paciência?
Eu só queria dizer: Amor, contingência...

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Teus olhos

Teus olhos abrem para mim todos os encantos...
Teus olhos abrem para mim, teus olhos abrem para mim
Todos os encantos bons...
Tudo que se quer vai lá
Eu vi na terra
Você chegando assim...
Assim, de um jeito tão sereno
(ai, ai, meu-deus-do-céu)
Eu vivo sem pensar... Se sou só
Acho que eu não vou mais
Agora tudo tanto faz, meu bem
Eu vi você passar levando meu encanto
Caminho sem saber de mim!
Eu vivo sem pensar... Se sou só
Ou sou mar.
Mas eu conto com você...
Pois, enquanto eu não me resolver
Eu vou lá, eu vou lá
Mas enquanto eu não me resolver...
Eu vou lá, eu vou lá...


Marcelo Camelo! Com Ivete, vale?