terça-feira, 25 de setembro de 2012

Brilho eterno de uma mente sem lembranças

A capacidade de esquecer é o que existe de mais precioso sobre a face da Terra, sob nossas faces. 
Amar é indubitavelmente mais magnânimo, mas não é tão essencial quanto o esquecimento: é ele que nos mantém vivos. O amor torna a paisagem mais bonita, mas é o bálsamo curativo do esquecimento que nos faz ter vontade de abrir os olhos para vê-la. A paixão empresta um sentido quase mítico aos dias, mas é esquecer a excruciante tristeza perante a morte dela que nos torna aptos a nos encantar novamente dali a pouco. 
Já esqueci amores inesquecíveis e sobrevivi a paixões que, tinha convicção, me matariam se terminassem. Às vezes, cruzo na rua com fantasmas que já foram bem vivos na minha história e não deixo de sentir uma certa melancolia por perceber que aquele rosto um dia pleno de significado se tornou tão relevante quanto um outdoor de pasta de dente. Algumas pessoas simplesmente são apagadas da memória como filmes desimportantes. Sem maldade ou intenção, apenas esmaecem até desaparecer. 
É mesmo impossível manter na memória da pele todos os que passaram por nós ou sermos mantidos por todos: gente demais, espaço de menos… 
O passado deve ser mantido no lugar dele e não trazido nas costas feito mochila de viajante, lotada com os erros cometidos e alegrias jamais revividas. Para ser feliz é necessário pouca coisa além de se livrar do excesso de carga e esquecer as coisas certas. É útil também jamais perder de vista um detalhe, afixá-lo no espelho do banheiro, repeti-lo como um mantra: absolutamente nada é para sempre, nem mesmo os sentimentos que parecem ser (a vida seria um lago estagnado se só existisse o perene). 
Nunca mais haverá amor como aquele? Ótimo, porque o novo é tão imenso que seria um desperdício se algo se repetisse. 
Todo mundo passa. E é bom que seja assim.
(Ailin Aleixo)

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Resultado: na testa!

"(...) As mãos suadas e aquela premissa de que ele era realmente um moleque. Dureza é voltar pra casa com os olhos borrados e contar pra minha mãe que ela tinha razão. Ele não saberia lidar com nada disso. É quando estabiliza, quando acontece a vira que a gente descobre quanto vale o jogo. Ele veio com um zap, e eu só tinha uma espadilha de nada. Não dava pra lutar sozinha se o nosso truco é jogado pra dois. Não dava pra continuar quando a aposta é doze e ele abandona o jogo no meio. Pior é constatar que não era blefe e que a mão dele era leviana. Resultado: na testa. (...) 
Não precisa muito de pôr-do-sol pras coisas ficarem bem. E se eu perder tudo isso? Eu corro. Largo as cartas na mesa e vou sem nem olhar pra trás – porque se eu olhar, eu volto." 

(Daniel Bovolento in: Conversa de portas batidas)

domingo, 9 de setembro de 2012

Que não repare a bagunça

À esquerda, três blusas desarrumadas porque despidas pela indecisão do que vestir, e uma meia calça de ontem. Um livro, dois códigos, um tablet, folhas impressas, uma calça. Meu celular. À direita, amarradores de cabelo, folhas, um cinto, um estojo, removedor de maquiagem, meus óculos, adesivo de campanha eleitoral, caixa de batom novo, a câmera antiga. Bagunça em cima da estante das bijuterias, dentro do armário. Tem roupa pelo chão. Tem uma pulseira no chão. Tem chinelo e salto alto. Tem uma bolsa no chão. Tem remédio em cima do espelho. Tem maquiagem.
Queria estar de porre, mas tô jogada em cima da cama de qualquer jeito com o notebook no colo, prestes a dormir, pseudo-sã, só assistindo as paredes do quarto limitarem esse pandemônio.

Acho que meu quarto nunca esteve tão bagunçado. 
Nem meu coração.

Deixar uma visita conhecer uma casa muito bagunçada é igual deixar que alguém novo entre num coração que ainda está assim. A gente nunca sabe o que a pessoa vai pensar, e fica mais concentrado na bagunça do que na visita. Não é que a gente não se importe com a visita. E talvez a visita nem se importe com a bagunça. O problema é que a bagunça e a visita duelam desproporcionalmente. Isso porque a bagunça tem larga vantagem, já que se agiganta em tudo e toma conta de cada espaço em branco. Porque a bagunça é contínua, duradoura, requer força de vontade incrível para exterminá-la. Uma força que eu desconheço, principalmente se a visita adivinha a hora errada pra chegar.
A visita quer passar, tem bagunça no chão. A visita quer sentar, tem bagunça ali também. A visita passeia pelo cômodo e faz questão de mostrar que sabe que a bagunça está ali. Que sabe que sempre esteve. Que sabe que a bagunça não vai sair tão cedo. Mas a bagunça não se importa. É provável que a visita se despeça no fim e leve más impressões de enquanto estavam ali, a três. Um quarto ou a casa, bagunça e visita. Eu, a bagunça do meu coração e quem está querendo entrar. Triângulo curioso. Que eu não sei equacionar.
Queria estar de porre, mas tô jogada em cima da cama de qualquer jeito com o notebook no colo, prestes a dormir, pseudo-sã, só assistindo esse músculo comumente responsabilizado pelas confusões emocionais limitar esse pandemônio.

Minha visita tem nome.
Minha bagunça também.
Se a visita recuasse, eu entenderia.
Talvez queira entrar.
E se quiser, por enquanto só vou pedir que não repare a bagunça.