domingo, 26 de dezembro de 2010

Um texto como domingo. Em tempo, é fim de ano...

Se um dia eu quisesse morder a maçã sem ser expulsa do paraíso, no outro sentiria remorso por ter acreditado que não houvesse mal em fazê-lo. E no terceiro procuraria outra macieira, até que desejasse um morango. Decidi oscilar, é um modo de vida.
Vou assumir que em alguns dias, como hoje, tenho um pouco de vontade de me arrepender pelas coisas que já fiz de errado nesta vida. (In)felizmente estas ocasiões me ocorrem justamente quando estou confusa sobre o que é certo e o que, de fato, pode ter sido errado.
E então, quando me encontrarem por aí, talvez digam que sou aquela que disse "sim" para tudo que lhe pareceu fantástico. Mesmo que nem tudo tenha sido.
Desculpe, domingo. Nasci para perturbar e ser perturbada. Essa perturbada que lhe vive como quem come maçã. E essa perturbada que oscila. Um abraço pra quem é coerente. Eu acho que loucura seria permanecer a mesma sempre...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Tão dizendo que ele é nerd

Não sei se vem a ser por conta do layout cabelo-de-colírio-da-capricho-óculos-cara-de-intelectual, mas minhas amigas tão dizendo que ele é nerd. E que nós dois combinamos.
Ele sabe o significado de noventa por cento das palavras do meu vocabulário e se encarrega de descobrir os outros dez. Parece-me que foi criado a Danone, Sucrilhos e todas as novidades hi-tech do mercado de entretenimento. É, um nerd com cheiro de leite Ninho.
Tão dizendo que ele é nerd. Daqueles que, caso eu soltasse um "Sol é feito de Amor" riria freneticamente e insinuaria que eu preciso ter aulas de química e física, além de aconselhar a parar de enxergar amor em tudo, é claro. Um nerd que se divertiria com o meu instinto piegas, fazendo com que eu me divertisse também.
Tão dizendo que ele é nerd já que não curte sertanejo, ouve pouco os clássicos da MPB e não sabe quase nada a respeito de dar atenção em conversas online porque, paralelamente, está tentando capturar um pokemon legendário no seu jogo preferido.
Tão dizendo que ele é nerd. Do tipo de nerd que não menospreza minha inteligência e não subestima as coisas que me interessam. O celular dele tem mil e duas funções a mais do que todas as tecnologias aqui de casa juntas e o seu videogame portátil, ao pouco que me consta, tem o preço superior ao de uma cesta básica. Mas dizem que só um nerd entenderia o quanto estas coisas são imprescindíveis.
Tão dizendo que ele é nerd e leu um número significativo de livros, assistiu boa parte dos filmes para os quais eu dei de ombros e é fã dos Beatles. O cabelo dele vive arrumado e seu rosto - que é apenas uma moldura para dentes indubitavelmente brancos - tem meio ano a menos de linhas de expressão que o meu.
Tão dizendo que ele é nerd enquanto ele joga qualquer coisa no emulador retrô que eu também baixei, ou enquanto se ocupa dos mistérios que lhe tomam alguns sábados, ou ainda enquanto conversa com as meninas do ensino médio que eu finjo me fazerem ciúmes.
Tão dizendo que ele é nerd. A digitação dele é rápida, os ídolos dele jogam no futebol europeu e às vezes ele é tão, mas tão difícil, que chega a parecer o sexo frágil do nosso tipo de projeto de relação. Tão dizendo que ele é nerd. Insiste em inovar, ser minha maior exceção, rir das minhas piadas e dizer que gosta de mim "mais do que ontem". Talvez ele saiba que esta escala me agrada mais do que qualquer matemática.
Enfim, como você deve ter notado, minhas amigas tão dizendo que ele é nerd. E eu conto com boa argumentação nessa tese. Tão dizendo que ele é nerd, mas se um nerd como ele é capaz de me prender em um abraço, ser invariavelmente sincero, ligar pra dizer que sente saudade e me fazer sorrir, eu não me importo nada de concordar com elas.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Eternamente... Iolanda!

As mãos com unhas vermelhas sempre foram marca registrada. As mesmas mãos de unhas vermelhas sempre fizeram a melhor maionese de batatas no almoço de domingo e a melhor cuca de farofa dos cafés da tarde. Lembro das mãos assim, cozinhando, lembro das mãos jogando cartas, lembro das mãos atendendo aos pedidos do meu avô, lembro das mãos rezando terços, lembro das mãos segurando o queixo ao assistir partidas de futebol, lembro das mãos segurando xícaras de café e também lembro das mãos fumando cigarros enquanto, sentada com os joelhos dobrados no apoio da cadeira, ela observava o horizonte. E faça o esforço que fizer, lembro das mãos ocupadas, servindo.
Lembro da última semana. Enquanto chovia fraco, esse retrospecto de mãos comparecia em minha memória com acentuada frequência. No alto de um morro, no hospital da cidade, ou mesmo em seu quarto, aquelas mãos tão conhecidas aparavam a tosse fraca de uma saúde frágil. Não era fácil ver aquelas mãos, que beijei tantas vezes ao pedir bênçãos, agora muito pálidas e com os ossos aparentes, preocupadas com os canos do oxigênio. Sem esmalte e sem anéis, eu as vi emagrecer toda semana nos últimos tempos, torcendo de todo o meu amor - aquele amor por vezes tão egoísta - para que as suas queridas mãos não se cruzassem. E quando a esperança se esvaía por tímidos segundos eu temia o que pudesse ocorrer.
Mas se fosse para o seu bem, em nome de todas as infinitas coisas boas que aquelas mãos fizeram, o meu coração esperaria que a ordem natural das despedidas não comportasse exceções: Na partida, deve doer menos em quem parte do que em quem fica. E se agora dói tanto, tanto, tanto... Fica em nossos corações um conforto do teu descanso... Aceite essas palavras como as flores que tu gostavas. São a forma que encontrei para homenagear minha avó, meu amor, meu eterno exemplo de bondade e força. As tuas mãos com unhas vermelhas, sempre ocupadas, ficarão em minha lembrança. Assim como a tua dedicação e a tua ternura. Eternamente a mulher de fibra, a mãe e esposa zelosa. Eternamente doce. Eternamente Iolanda!


Esta canção não é mais que mais uma canção...
Quem dera fosse uma declaração de amor,
romântica, sem procurar a justa forma
do que lhe vem de forma assim, tão caudalosa.
Te amo, te amo, eternamente te amo.
Se me faltares, nem por isso eu morro...
Se é pra morrer, quero morrer contigo.
Minha solidão se sente acompanhada...
Por isso às vezes sei que necessito teu colo.
Teu colo... Eternamente teu colo.
Quando te vi, eu bem que estava certo
de que me sentiria descoberto...
A minha pele vais despindo aos poucos
Me abres o peito quando me acumulas...
De amores, de amores. Eternamente de amores!
Se alguma vez me sinto derrotado
Eu abro mão do sol de cada dia...
Rezando o credo que tu me ensinaste.
Olho teu rosto e digo à ventania:
Iolanda! Iolanda! Eternamente... Iolanda!
(Chico Buarque)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A palavra do dia é...

me.re.cer
verbo transitivo
1. Fazer jus a.
2. Ser digno de.
3. Valer.

-> me.re.ce.dor (adjetivo)

Aplicação em uma frase:
"Por tudo que há de pior no mundo, eu mereço o que há de melhor, sem culpa!"

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Troféu

Encostei o nariz no teu e fiz charme com a boca que sorria entreaberta. Não demoraria mais que alguns segundos para que você vacilasse inclinando a cabeça mais para o lado direito do que deveria e acabasse com todo o mistério. E eu já deveria saber que aquele primeiro se repetiria, ou não. E eu já deveria saber que aquele último não teria gosto de último. E ao não ter gosto de último ficaria nele a sorrateira espera por outro que fizesse dele o penúltimo. E de novo, e de novo.
E aquele momento do nariz encostado no teu, por menos surpreendente que fosse, conseguiria se transformar por mutações alcoólicas, por mutações tediosas, por mutações cotidianas, em tantas outras coisas que dele e de ti me fariam lembrar.
Eram os segundos que antecediam o nosso beijo, apenas. E eu tinha a honesta impressão de que eram os louros da vitória. Um troféu, honrando a história que eu esperava ser capaz de construir. Parece-me que, no fim das contas, também por aquilo você estaria habilitado a se tornar inesquecível. Os sorrisos com a boca entreaberta são sempre os mais sinceros.

The first taste


I lie in an early bed, thinking late thoughts
Waiting for the black to replace my blue
I do not struggle in your web
Because it was my aim to get caught
(...) I feel that I'm finally growing weary
Of waiting to be consumed by you

Give me the first taste
Let it begin, heaven cannot wait forever
Darling, just start the chase
I'll let you win, but you must make the endeavor...

Oh, your love give me a heart contusion
Adagio breezes fill my skin with sudden red
Your hungry flirt borders intrusion
I'm building memories on things we have not said...

Fiona Apple

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Se não fosse cômico seria trágico (...)

- Tá seco, hein?
*ignora*
- Tá seco, tá?
*finge que não ouve*
- Tá seeecoooooooooooo! HEHE
- Ãhm?
- Esse pé de árvore que tô cortando... Tá seco.
- Hmmm *risada forçada de quem não entendeu*
- Não me denuncia, viu? *cara de disfarçado*
- Ahhh, tá! HEHE *sorriso enigmático saindo de fininho*

***

- Tá querendo acabar com os nervos do vizinho tirando foto do cabelo novo aí da sacada com ele no jardim, né? Ele tá achando que tu fotografou ele! O coitado tem síndrome do pânico!
*risadas altas*
- Claudia, tu é má ATÉ por acaso!


Enfim...

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Foste o sonho de alguns imigrantes que em teu solo quiseram viver...¹

Trombudo Central, 08/12/2010.

O calendário da Comarca anuncia: Hoje é o Dia da Justiça. Tão apropriado para escrever essas palavras-metáforas, disfarçadas de bairrismo. Aí no cabeçalho, pouco menos de meia linha bem escrita, lê-se data e nome de cidade. Sempre achei Trombudo Central um nome curioso. Diria até meio feio. Nunca soube ao certo que raio de analogia com curvas e rios era essa. Sempre deixei estar, contudo. Um dia chegaria o dia de encará-lo com olhos frios. É hoje.
Sei bem das suas dimensões e são mesmo essas, pequenas. Cresci achando ou enfim sabendo que me render aos encantos de um município como T.C. seria assinar meu atestado de burrice. Menina tonta, bitolada e - com efeito! - provinciana. "Onde é que já se viu perder tempo gostando dessa cidadezinha tão pequena, tão sem lugar para realizar os teus sonhos!?" Era isso que cada estradinha de interior, festa de igreja e fofoca de comadre sempre pareceram me avisar. Ou, talvez, que o meu contentamento sempre esteve mais próximo do fim do que do começo.
Então, como já era de se esperar, hoje eu quero o mundo e não Trombudo Central. O que é estranho, porque foi depois de "nascer" no município que eu quis o mundo. Relação torta de causalidade: Sem ele, o mundo não seria mundo para mim, ao menos não assim, como é agora. E agora, não o enxergo muito importante em meus planos. Deve ser culpa do eterno anonimato que Trombudo Central carregou consigo. Ele nunca seria capaz de acolher meus desejos por inteiro, quaisquer que fossem seus tamanhos. Tanto menos se fossem enormes como são.
E eu, experiente de apenas uma mudança de cidade e tímidas viagens comparadas às que estão pela frente, mesmo sem me orgulhar muito sinceramente de minha naturalidade, não deixo de me sorrir cheia de dentes com alguns acontecimentos que só um município como T.C. seria capaz de me proporcionar.
Entretanto, como hoje é oito de dezembro e Dia da Justiça, nem tudo são flores, rios com curvas e pedra ardósia. Justiça seja feita! Confessarei logo que em Trombudo Central o mundo se repete de uma forma previsivelmente tola, visto o reduzido número de possibilidades. Não sei o que sentir pelos tantos C's que, percebo, nascem ingênuos e tomam formas no solo desta terra que (sim!) é superficial e aparentemente infértil. Para tempos depois crescer, e perceber (ou não!) que o horizonte vai bem além das riquezas da Bracatinga, da diversão no Centro e na Cidade Alta, das delícias do Kindel ou do que é pior... A tosca prosperidade/beleza/encanto que, mediocremente, só trombudenses como eu é que fingem - a si - enxergar na Vila Nova.


¹Primeiros versos do hino de Trombudo Central.

sábado, 4 de dezembro de 2010

No alarms and no surprises, let me out of here... [Radiohead.]



"Eu queria ir pra um lugar onde eu tivesse uma sensaçãozinha,
ilusória que fosse, de que tinha alguém prestando atenção em mim."

Caio F.

Prendi a respiração para firmar o pulso e terminar de fazer o risco fino de delineador no olho direito, que sempre fica por último. Sorri para o espelho, só para notar se eu ainda ficava bem fazendo aquilo assim, quase sincera. Não sabia bem o que estava fazendo. Não sabia, com exatidão, o que me levava a mudar completamente de rumo em tão pouco tempo. Não sabia o motivo do meu desânimo com aquela história, da minha rebeldia. Ou sabia, mas era tão vergonhoso que eu não me permitiria confessá-lo. Não sabia que rumo aquela noite, aquela madrugada, todas as manhãs seguintes deveriam tomar. Supunha que deveria insistir, porque é bonito insistir, que deveria ser doce, porque ser doce era o que eu fazia de melhor - mas nem sempre eu quis o melhor, nem sempre eu conquistei o melhor. Então por que dessa vez? Por que atirar-se em uma história em que eu não estava consolidada como escritora? Sim, pois eu não saberia outro modo de me entregar a uma história sem ter as certezas de ser dona de mim, do outro, do nosso roteiro. Esse era um jeito de não sofrer, ou de sofrer menos.
O problema, contudo, consistiria sempre na falta de surpresas. Quem escreve o destino de próprio punho raramente encontra outra aventura que não parcas linhas, meio tortas, ou o fim da folha de papel, dos dias... Quem escreve o seu destino escolhe sempre o seu rumo. E por mais que a confissão seja desesperada, não quereria escrever meu destino sozinha. Nem do sozinha de solitária, mas principalmente não do sozinha acompanhada. Quereria escrevê-lo a quatro mãos. E eu me entregaria tantas vezes, e eu não me importaria com tantas esperas, e eu não ligaria para tanta distância, e eu me doaria sem hesitar, e eu procuraria em todos os lugares, formaturas, carros, ruas, becos, salas, janelas e avenidas aquele que me acompanharia. E eu faria se tivesse certeza que não fosse sentir tudo isso... Todo esse oco no peito, toda essa sensação de fracasso, todo esse estar só de falta de proteção, de falta de reciprocidade, de falta de entrega, de falta de atenção, de falta de dedicação, de falta de cuidado, de falta de um pouco mais que menos da metade.

Queria só te dizer: O olho acabou marcado, chamativo, delineado, na vista, inconfundível. E era como eu queria que as minhas vontades estivessem. Não me custaria perder o fôlego.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Miragens tolas

Sem mais nem menos.
Sem remédio, sem desculpa...
Em horas tortas
Horas tímidas, ocultas.
Pelas esquinas de olhares indiscretos
O nosso amor...
Amor claro de objeto.
Sem dor ou crime,
amor simples e direto!
Entre os pássaros de barro descansando na estante
Pelas costas amarelas dessas fotos insinceras...
Descobri lindas mentiras, tão terríveis quanto belas
Digo o que fazer então, são memórias tão reais...
Do que nunca aconteceu.
Desenhei miragens tolas...
Nas margens do seu deserto!
E uma verdade impossível,
só pra ter você por perto...

Skank

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Os olhos de agora



Os olhos de antes eram doces. Qualquer meia dúzia de cenas ensaiadas, de gestos planejados e de promessas os fariam sorrir. Os olhos de antes sempre se contentaram com pouco porque nunca souberam qual medida usar por parâmetro para ver. Pouco e quase nada é, ainda, algum detalhe a ser observado. E disso parece que eles sempre souberam - porque eram doces e sorriam.
Eles se enchiam com alguns. Alguns de encher os olhos. Deve ser por isso que não hesitariam em suplicar, silenciosamente, que eu afastasse o corpo a uma distância peculiar de hipermetropia, para que esses olhos encontrassem, compreendessem e definissem aos meus sentidos as sensações, em certa feita. Deveras, os olhos se comunicam. E talvez precisem dos centímetros que um tronco reclinado para trás por alguns segundos pode proporcionar para ter noção de familiaridade com a ocasião. Proporcionaram. Era uma cara toda sorrindo em lábios fartos, alertando-me aos olhos a que vinha. Detectar sinais, sabe-se lá de quê. Para isso, por sorte, eles serviram.
Meus olhos de antes enxergaram tudo o quanto foram capazes ou, talvez, tudo o que eu desejava ver com os olhos que tinha. Procuraram por longo tempo outros pares de olhos que pareciam existir só para esbarrar consigo. E esbarraram tantas vezes, de tantas formas e de tantas outras histórias desde então, que se cansaram de não ver o que não viam.
A rebelião dos meus olhos foi natural, despreocupada. Meus olhos de antes cansaram de camuflar a verdade e se transformaram nos olhos de agora. E enxergam tudo com uma definição de alta qualidade, assombrosa, nítida, superlativa e sintética. Perdeu-se em doçura, ganhou-se um pouco em cinismo. Os olhos de agora querem o novo, e ao dar com aqueles olhos que esbarravam nos olhos de antes, não piscam. Ao ter de encontrar, não vacilam. Ao ter de esquecer, não ficam rasos d'água. Ao ter de distanciar, não dilatam de excitação no escuro do quarto. Apenas se calam. Simplesmente. Mudos. Nem cheios de si, nem vazios de mundo.
As sobrancelhas discretamente franzidas de ironia, logo acima dos olhos de agora, é que então sussurram: Tolice não se divertir lembrando das inverdades que os olhos de antes fingiam se esquecer de possuir... Justo porque há um certo conforto em admitir que as loucuras de antes ainda ardem, absolutas, nos olhos de agora.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

À trois

(...)
- Tu já me contou. Aqui, né?
*aponta pro canto da boca*
- Não, mais pro lado...
*risos incontroláveis*
- Sério?
- É, mas acho que foi sem querer (...)
*olhares cruzados dos outros dois*
- Nãooooo, sua boba! Não se faça de ingênua!
- É, essa técnica é velha!
*risadas demoradas*
- Sinceramente... Acho que tem gente que nem desconfia o tamanho da nossa...
- Parceria?
- Eu ia dizer comunicação, mas acho parceria até mais adequado (...)
*risadas triplas*
- Sabe de uma coisa?
- Hm...
- Não vou ser advogado, nem juiz, nem p### nenhuma, vou é (...)
*risadas altas*



O calor que os dias do fim de Novembro fazem seriam capaz de deixar qualquer cristão de mau humor. Eis que surgem dois dos meus tantos anjos da guarda, provocando sorrisos que nascem no fígado e percorrem os pulmões.
Luis, Fran e eu portamos uma sincronia literalmente sem par. Uma capacidade imensa de darmos risada das nossas próprias piadas. E das nossas vidas... Que são três aventuras, hilariantes como poucas. Compartilhamos segredos que nem são tão segredos assim - e, vez ou outra, até sem querer, compartilhamos mais que isso. Mas há o principal: Nos entendemos de uma forma que poucos são capazes de fazer.
Sinceramente, não sei muito claro quais as características abstratas que me fazem crer que uma amizade é sincera. Talvez, de notável, precise haver confiança, que comumente chamamos de parceria. Talvez precise haver sinceridade. Talvez precise haver disposição a fazer o outro sorrir. Seja o que for, os dois possuem. E não hesitam em utilizar, em todas as noites, em sextas de festa e, especialmente, em segundas tediosas.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O benefício da entrega

(...) Num deserto de almas também desertas,
uma alma especial reconhece de imediato a outra
Caio Fernando Abreu

Ele já não me era mais completamente estranho como fora um dia. Pra ser honesta, ele não me era mais nem minimamente, nem de longe, nem que se esforçasse, uma pessoa estranha. Aos muitos - sim, aos muitos e em pouquíssimo tempo - como se fosse meu, como se fosse velho conhecido, ele tomou tal importância e invadiu com tamanho ímpeto os meus pensamentos que quase não pude acreditar. Era mesmo assim que ele era: Invasor de sonhos. Dos mais doces aos reconhecidamente voluptuosos, que envolviam cinturas e cafunés. Um protetor resoluto da minha capacidade de acreditar na existência das pessoas especiais, dispostas a criar tanto quanto se envolver com algum tipo de sentimento diferente, novo, surreal, intenso.
Sua não-estranheza, agora já confessa, convidava-me a lembrar do que sempre agradou tanto: A sensação de segurança em um mar de surpresas e incertezas. A maré insistia em me levar pro cais, que é tão dele, a cada dois minutos de pensamentos... Então insisto também, eu. Sinceramente, eu insisto nos sentimentos, nos impulsos, nas paixões. Insisto em acreditar nos romances ideais que funcionam, a mim, como um ímã, e que nesses inícios guardam consigo sempre um pouco de receio, de frio na barriga. Uma porção generosa de alegria convertida em risos a qualquer hora do dia.
Digam o que disserem... Razão nenhuma prepondera perante a sintonia que as almas não-desertas de Caio Fernando me sugerem. Suponho que qualquer um já deva ter entendido que nunca deixo uma alma não-deserta passar por minha vida, em branco, sem convidá-la para escrever entrelinhas comigo. Eu sou da tribo dos ingênuos, por mais que isso me contradiga. Dos ingênuos que, como eu, acreditam: Nos sentimentos, apostando neles. Nas pessoas especiais, apostando nelas. Arcamos com as consequências. Respondemos sempre pelo revés da entrega. Mas também por todos os seus infindos benefícios...

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A palavra do dia é...

su.ti.le.za (ê) sf. 1. Qualidade de sutil. 2. Argúcia, perspicácia. 3. Argumento engenhoso.


Aplicação em uma frase:
Era incrível a sutileza com a qual nos fitávamos, falávamos e queríamos.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Diário de bordo VI

O estágio tem me trazido provas de responsabilidade, de pontualidade, de comprometimento... Acato todas com gosto, porque creio que os estágios são exatamente para aprendermos muitas dessas coisas, imprescindíveis na vida profissional posterior. Contudo, de brinde têm me ocorrido "provas" de fogo, também. Testes para minha compaixão, emoção e piedade.
Hoje recebi, pelo malote, a carta de um detento do presídio que, de próprio punho, redigiu uma folha de caderno suplicando que o juiz lhe tirasse do lugar onde está. Condenado pelo artigo 33, da lei de drogas. Ele implorava, em cinco parágrafos, seu alvará de soltura, expondo seus motivos... Esposa e filhos passando necessidade. Todos sabemos que sua manifestação em nada será determinante... E que o meio mais correto seria uma petição, com fulcro em alguma lei nos códigos que estão aí postos, repleta de muito juridiquês e ausência de erros ortográficos.
Enfim. Sei da importância dos processos penais, da atuação da promotoria, sei do esmero das fases investigatórias, mas sei também que estamos tratando de humanos - por mais cruéis, inescrupulosos, frios, contraventores - ainda e sempre serão humanos. E é por isso que meu coração aperta ao ouvir as algemas ressoarem nos pés dos réus que precisam comparecer às audiências... Ou ao ler as cartas como a que recebi hoje. Por mais clichê que isso pareça, um filme realmente passa em minha cabeça. Não se trata de excluir os axiomas que, sim, eu também possuo a respeito de ladrões, homicidas, traficantes (...) e um sem fim de outros. Trata-se de imaginar a humilhação que uma pessoa deve sentir ao ter que ser carregada como um animal doméstico pelos corredores, por exemplo.
Os conservadores/extremistas/positivistas possivelmente me diriam que, enfim, na transgressão das normas está contida a prerrogativa de todo esse constrangimento. E eu responderia que as normas são necessárias, sim. Que quero ser operadora do Direito, sim. Que acho a "justiça" que a lei positiva parece defender extremamente válida, sim. Mas que os criminosos continuam sendo humanos. E o simples fato de serem seres - humanos! - parece instigar minha sensibilidade e comoção...

Categoria: Desventura

domingo, 21 de novembro de 2010

"Algo novo, que fizesse sentido..."

Houve um tempo em que eu quis muito um cabelo com volume, que parasse consideravelmente para o lado direito. A imponência dessa espécie de "penteado" sempre me enchera os olhos. As mulheres que usam cabelo para o lado são sempre as rainhas do baile. Ficam lindas, graciosas e parecem ter super-poderes para que a produção não desmorone. Naquela noite, Adriara conseguiria a façanha de permitir que eu saísse de casa com o cabelo irretocavelmente para o lado, amparada em muito fixador e uma escova enorme. Adorei o resultado, de imediato. Arrumar-se com amigas é divertido. Arrumar-se com amigas que entendem de realizar árduas tarefas tais quais ladear cabelos revoltosos e alinhá-los para o lado que se quer, ainda melhor.
No fundo, acho que no dia da bandeira eu vestia verde querendo encontrar o salvador da pátria na feliz situação de tudo-posso-naquele-cabelo-que-me-fortalece: Quereria aquele que me retirasse a incômoda impressão de coisa oca que o meu peito já não sabia mais abrigar. Queria alguém que honrasse os conselhos de minha mãe. Aquele que portasse um terno, uma gravata e um sorriso sincero me ganharia por quantas horas a madrugada festivamente musical me permitisse. Quanto maior o sorriso, melhor. Quanto maior a frequência e mais fina a sintonia, melhor.
Escolhi lhe acompanhar com os olhos, enquanto ele, timidamente escondido sob conhecidos vitrais quadrangulares incolores, naquele descompasso nada poderia perceber da minha satisfação da sua falta de ritmo sertanejo... Dos seus "tanto faz"... Dos seus "você que sabe"... Da sua não-ingestão etílica... Do seu cavalheirismo... Do seu orgulho estampado na cara por ter a garota do cabelo jogado ao seu lado, inteira. E não sei, com profunda sinceridade, o que mais me movia em sua direção, além daquela satisfação emblemática que eu carregava comigo por todos os motivos torpes - e não torpes! - que eu mesma criara nas últimas semanas e horas. Não sei exatamente o que me levava a permanecer plantada do seu lado com tanto vigor, dadas as possibilidades.
Não saberia afirmar com precisão qual a medida da vontade necessária para respirar e, outra vez, jogar-se enfaticamente ao perceber uma queda mais ou menos inevitável agora tão próxima. Ter disposição para não lhe bagunçar as ideias, para lhe guiar no caminho da rua, para frear os beijos afoitos, para abraçar brevemente. Pequenos aprendizados que custavam pouco, os quais eu não deveria me importar de ser aprendiz...
Ou não. E como a marca registrada da indecisão parece estar impressa em mim com muito mais ênfase do que eu desejaria, talvez não houvesse uma certeza mormente absoluta de estar agindo da forma mais lícita ou enveredando pelo caminho mais sensato. Acompanhá-lo naquela ocasião, de toda sorte, passava longe de significar um solo firme, onde eu pudesse manter meu equilíbrio, minha segurança, minha coerência. Estar junto dele era quase como enlouquecer, dar corda para que o impossível ocorresse, atrair uma centena de expectativas que potencialmente poderiam ser frustradas... Alimentar meus medos... E eu decidi em cinco segundos que esse era um preço que eu pagaria, do salto alto ao último fio.
O cabelo, magicamente elaborado, se desfazia aos poucos sob o calor do salão, e já não era tão importante, desde que uma realidade sem muito mistério a ser desvendado. Foi quando eu lembrei, não sem certo pesar, de que houve um tempo em que eu quis muito um cabelo com volume, que parasse consideravelmente para o lado direito... E de que agora, naquela noite, eu o possuía, e que a única coisa que me cabia era desfrutá-lo com sagacidade. E que sua imponência, por conseguinte, diminuía na medida que as constatações de dominância sobre ele se observavam: Como tantas outras coisas que desejei com coração e vísceras, realizando sem maiores implicações.
Não era de se espantar que eu já não soubesse mais se o desejo latente de possuir um cabelo jogado para o lado ainda me valia para algo às 4:30h. Vão-se os anéis, ficam-se os dedos. Só me restava aproveitar os últimos minutos daquele que houvera sido um sincero anseio de um tempo mais ou menos distante: Ostentar um cabelo jogado para o lado. E esperar... A oportunidade e o discernimento - tão necessários! - para saber optar entre ousar penteados novos ou repetir a experiência daquela noite de novembro, inúmeras vezes.


(...) 'Cause nothing lasts forever
And we both know hearts can change
And it's hard to hold a candle
In the cold november rain...
November Rain - Guns N' Roses

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

(...)

- Bom dia.
- Oie *bocejo*
- Só vim aqui pra lhe acordar (...) e dar um conselho...
- Diga-me *espreguiçando*
- Hoje é Sexta. Põe o teu melhor vestido e segue a tua vida, meu amor!
- *cara de espanto* e por que esse conselho mais louco do mundo agora, e a essa hora?
- Porque sim. Estive pensando... Quem entrar na tua vida, terá muita sorte. Quem sair dela, bem... Quem sair dela, dane-se...

*risos*


"Se as mães não existissem eu pediria a Deus que as inventasse!"
ou:
"Tu te torna eternamente irresponsável por aquilo que avacalhas..."

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

"...formando breves confissões, mas intensos desejos..."

Pareço contigo... Normal e do avesso.
Vamos seguir o caminho seguro...
Pra continuarmos assim no futuro.
Pareço contigo... Sem mais, nem por quê.
Vamos seguir nossas pistas com toda a incerteza, pra continuarmos - felizes! - à mesa...
(...) Pareço contigo... De olhos fechados.
Vamos seguir no escuro...
Sonhando acordados, pra nunca deixar nossa luz se apagar.
A gente se parece tanto... A gente está só começando.
A gente vai se conhecendo e vê que ainda não sabe nada...
A gente só quer ser feliz, um mundo mais equilibrado
A gente esquece que o amor... É tudo, e não nos cobra nada.
Eu dou um valor absurdo na vida: Ela me traz bem mais que alegria... Traz alguém pro meu sozinho....
Você, às seis e trinta!


Jota Quest

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A dois passos do impossível: Anjos, futuros amores e portas de vidro.

"Quem és tu que me lês? És o meu segredo ou sou eu o teu?"
Clarice Lispector

Apareci na porta de vidro e o fitei por longos 5 minutos, sem que ele percebesse. Lindo vê-lo daquela perspectiva. Agrada saber-me um sem fim de imprevisibilidade, mesmo depois das revelações no telefone. Queria ser criativa para deixá-lo admirado, e aparecer naquela porta, aquela hora, era tudo o que me ocorria. Precisava vê-lo. Meu coração precisava se aquietar ou pularia fora do peito. Parece-me que o meu estoque de esperanças sentimentais nunca se acaba... E ele parecia adorar tudo aquilo tanto quanto eu. Parecia perfeitamente sintonizado na minha frequência de entrar no jogo sem saber onde é que vai parar. Nossos olhares se cruzaram. Sorri. Tinha vontade de entrar lá e pedi-lo dois minutos do seu tempo para ensinar-lhe o caminho de volta para mim, a fim de que ele o fizesse sempre que desejasse. Tinha medo de sufocá-lo com as minhas expectativas. Guardei certa distância, segura. Me contive em mirá-lo de longe, com a delicadeza de quem tem os lábios entreabertos esperando para ser surpreendida. Talvez... Bem, talvez nossa história um tanto quanto confusa e desajeitada - como todas que a precederam - fosse o ponto de partida ideal para uma história linda, exatamente do jeito que eu esperava - ou, como insistia Joana - precisava viver. Porque ele insistia em merecer. Por Deus, como ele merecia. Todos os dentes um pouco maiores do que o normal me encantavam. As camisetas multicoloridamente estampadas me enchiam os olhos. Os bilhetes que ele me enviaria duas horas depois me mereciam ontem. Os olhos castanhos e a voz meio rouca me mereciam ontem e o resto do mês. Do ano. Achei que ele estivesse com o mesmo cabelo de sempre, mas ele havia me dito que aquele era o "penteado descuidado", para que eu opinasse. Estava lindo, incontrolavelmente divertido, o que produzia um efeito muito semelhante às cócegas que um dia, certamente, ele me faria, enquanto esperássemos os meus pais me buscarem num fim de domingo de verão. Daqueles fins de domingo de verão onde tudo parece parar, desde que na companhia de um futuro amor. Minha alma sorria, aliviada. Naquela noite, ele existia apenas para cuidar de mim. De longe, com os olhos, conseguia ser protetor. Imagine de perto! Um anjo. Talvez fosse o que ele era: Um anjo me reensinando a sair do chão com suas asas, ou meu futuro amor. Para além dos meus sonhos interrompidos, para além dos nossos medos, para além do céu, para além daquela porta de vidro. Quis confessar minha alegria e agradecê-lo por existir, mas não tive tempo... Meu sorriso distante confessava por mim tudo aquilo que, mais tarde, eu repetiria sem titubear - embora nem precisasse dizer...

Faz de conta

Era claro... Espelho d'água. Perfeição que a pedra destruiu!
Uma onda; Mais uma onda... Outras ondas e já não tem fim.
Agora é centro... Do movimento. A qualquer momento pode transbordar!
Quando a pedra caiu na água, quando o espelho foi ao chão...
Quem estava ao teu lado? Quem estava com a razão?
A pedra afundou, a onda inundou
(...)
Malas prontas. De hoje em diante mais distante talvez, menos mal
Desencanto na garganta... Faz de conta que eu fui mais legal.

Humberto Gessinger | Melissa Mattos

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Juliano VP: Bandido por vocação ou por decorrência?

Até onde o meio social em que um indivíduo está inserido é capaz de influenciar em sua conduta? Quais os limites entre a luta pela sobrevivência e as consequências éticas e morais de nossos atos? Estes limites são distorcidos quando somos submetidos a situações adversas do que a sociedade considera “cabível”? Tais questões, ainda que controversas, parecem ser suscitadas quando da leitura de “Abusado: O dono do morro Dona Marta”, do jornalista Caco Barcellos, publicado pela editora Record em 2003, com 588 páginas. A história real do jovem Márcio Amaro de Oliveira, apelidado na obra de Juliano VP, envolve o leitor no sentido de conhecer minuciosamente a evolução da favela Santa Marta – às margens do bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro – bem como no sentido de acompanhar uma realidade que pode parecer remota, versando sobre a ascensão e declínio de um garoto no tráfico de drogas dentro de sua comunidade.
Mais do que críticas batidas ao “sistema” que deixou os mais pobres de lado em todo o Brasil ao longo dos anos, Abusado relata em três partes - “Tempo de Viver”; “Tempo de Morrer” e “Adeus às Armas” - a vida particular de um jovem filho de imigrantes nordestinos atraídos para o Rio de Janeiro com o intuito de prosperar. Juliano VP não é tratado em tempo algum, na obra de Barcellos, como um exemplo a ser seguido, e sim como alguém que busca se tornar respeitado ao seu modo, visando ser herói para “seu povo”, dentro de suas limitações. Talvez não seja possível assegurar que o personagem seja produto das condições históricas a que foi submetido porque nem todos os moradores de favelas se tornam bandidos; mas há de se levar em conta que a representação de homem que remonta à Idade Média aonde a relação social “de onde você vem” impera de forma determinante, ainda parece estar presente nos dias atuais influenciando escolhas movidas por desrespeito.
O protagonista desta reportagem investigativo-biográfica inicia sua trajetória nos cargos mais baixos na hierarquia da “boca” – nome dado à organização criminosa na venda de tóxicos ilegais – com a aspiração mediata de vir a se tornar um grande líder. Cresce observando o tratamento hostil com os inimigos, tratados na linguagem coloquial pelo termo “alemão”; e notando o impasse que os representantes da lei significam para a fundamental obtenção de lucros deste comércio no mínimo inusitado. Aqui, parece adequado traçar um paralelo de como as relações propriamente conceituais de “segurança” e “proteção” divergem nesta delimitação de território chamada favela. A polícia, que para os cidadãos “do asfalto” é sinônimo de garantia da segurança oriunda do Estado, para outros é obstáculo de suas atividades (e aqui não se faz necessário, ainda, mencionar a ilicitude nas relações que, em uma análise mais minuciosa, se caracterizarão como realizadas mediante propina e demais persuasões fraudulentas). A assistência à integridade física é feita não por um órgão competente – porque estes pouco interferem em tais aglomerados humanos – mas sim por revólveres, fuzis e pistolas carregadas por “jovens adultos” e adolescentes que desde muito cedo aprenderam a se defender da violência através de mais violência. E diz-se “jovens adultos”, pois em dado momento o próprio livro trará a informação de que trinta a trinta e cinco anos é tempo de vida demais para um bandido que se considera “bom”.
Abusado traz à tona um fragmento de sociedade com características muito próprias, para além do exemplo da segurança, sobre temas como a religião, a cultura, a sexualidade e o poder. Juliano VP se revelará cristão, levando consigo imagens de santos e velas para rezar em momentos críticos dos combates internos e externos, mas também um frequentador assíduo do “Terreiro da Maria Batuca”, amplo salão que também serviria muitas vezes como abrigo em suas fugas e local de festas com os amigos. Toda a forma de proteção é aceita para os soldados como ele, como o próprio afirmará em dado momento da história. É curioso crer, da perspectiva que vemos atualmente, que religiões teoricamente divergentes – como a Umbanda e o Cristianismo – possam ser invocadas de forma conjunta, mas as circunstâncias apontam para a normalidade de tal ato na vida de VP e de toda sua comunidade. Adepto da leitura de clássicos da Filosofia, desenvolto com a fala e articulado em suas relações, Juliano VP contradiz a ideia primária que se tem de um traficante. A sexualidade, outro ponto conflituoso, inicia precocemente na vida de quase todos os moradores citados enquanto personagens e, por certo, na vida de Juliano. Sua pluralidade de namoradas, seu desapego às relações afetivas duradouras e sua iniciação sexual prematura são descritos como comuns aos seus colegas de quadrilha, assinalando uma visão nula de educação sexual nos moldes que temos. O poder – e leia-se por poder o comando do tráfico – mostra-se para o protagonista como a alternativa de mudar os rumos da própria vida e das condições precárias que o morro Santa Marta possui, incluindo-se aí a falta de saneamento básico, condições de saúde vergonhosas e educação ainda mais debilitada.
Associado ao Comando Vermelho, espécie de organização hierarquizada da criminalidade, Juliano tem nas tantas gerações de administração de sua favela – mortos em combate – e nos ídolos detidos em presídios de segurança máxima uma fonte de sua admiração. Mostra-se muito extremada e belicosa a relação entre os gerentes dos pontos de venda, e é à elite do Comando Vermelho (CV) que os chefes de morros do Rio de Janeiro recorrerão para solucionar os conflitos mais acentuados. Quando Juliano VP, abusado, se torna chefe-maior do tráfico de drogas em seu território, se comunica por meio de cartas com a diretoria do CV com o intuito de informá-los das desigualdades e injustiças que crê terem sido realizadas. Nesta organização que ele adere ao lema de “Paz, Justiça e Liberdade”, princípio norteador e “justificador” dos seus atos criminosos. É de espantar, contudo, a quem vive em uma realidade tranquila como a das cidades de pequeno porte, a violência física utilizada na favela Santa Marta. Parece haver uma forma avessa de praticar a paz, a justiça e a liberdade com “as próprias mãos” e sem nenhum julgamento criterioso, sendo feitos apenas os chamados tribunais, repletos de torturas e execuções para se impor pelo medo. Dezenas de mortos nos conflitos armados são a prova cabal de que o lema do Comando Vermelho, embora muito virtuoso, aliado à prática indica uma contradição.
Há uma exposição sobre a crueldade nas cadeias, a corrupção dos policiais e o evento de grandes proporções que foi a vinda de Michael Jackson à favela de Juliano VP para gravar um clipe. Alguns desses adventos indicam o alarde que a mídia não faz para os dilemas concretos, e sim as esporádicas denúncias jornalísticas para os problemas que no Brasil, infelizmente, parecem ser atemporais. O espanto que o livro de Caco Barcellos causa deixa nítido um esquecimento seletivo das motivações de um criminoso para sê-lo, e isso não se resume à política. Não é possível avaliar ou produzir juízos de valor sobre um criminoso de uma perspectiva tão rigorosamente biológica quanto a de Cesare Lombroso, mas nem tão socialmente determinista como a de Émile Durkheim. Encarar o desafio de interpretar a história de vida de Juliano VP, com neutralidade em relação aos valores pessoais, é respeitar um alguém que teve condições muito reduzidas desde a infância, mesmo que não se compactue com suas atitudes.
“O lado certo da vida errada”, definição dada pelo sujeito-personagem da obra para si e para seus companheiros, parece não ter evitado a sua prisão e morte tempo depois da publicação do livro, relatada em um posfácio. Infelizmente, a condição de Juliano VP em participar das atividades ilícitas da venda de drogas e carregar o fardo de homicídios e roubos jamais se reverteu, apesar de sua intenção declarada ao jornalista Caco Barcellos no curto período em que conviveram proximamente para a produção desta reportagem, que culminaria na terceira parte de nome “Adeus às Armas”. É desesperador pensar que há incontáveis Julianos anônimos pelas cidades do Brasil e que neste exato instante, em uma série de locais, as garantias constitucionais à integridade e à dignidade estejam sendo desrespeitadas, implicando em produzir bandidos “abusados” que praticam crimes para sobreviver. Não se trata de defender o ilícito como válvula de escape a quem não tem condições dignas de vida, e não caberia tomar Juliano VP como um herói da clandestinidade, embora ele o seja nos moldes legítimos da história do morro Santa Marta. O que se pode deduzir, à luz dos estudos da disciplina de Psicologia Jurídica e após efetuar a leitura de Abusado: O dono do morro Dona Marta, de Caco Barcellos, é que um criminoso não se faz por si só, e sim com a somatização de uma série de circunstâncias em sua vida pessoal e de seu caráter, no ambiente em que está incluído e, porque não, umas poucas características predeterminadas. Se for válido refletir sobre as questões supracitadas, também parece sensato concluir que há uma força motivadora para a ambição de se tornar chefe do tráfico de uma favela qualquer: Esta é a oportunidade de ter as condições satisfatórias a que todos almejam e, vez ou outra, se apresenta como a única “porta” para se tornar respeitado. Juliano alcançou um grande feito, sim – com todos os prós e contras imbuídos nisto! – contudo, parece ter sido engolido por seu sonho.

Referência
BARCELLOS, Caco. Abusado: O dono do morro Dona Marta. 9.ed. Rio de Janeiro: Record, 2004.

domingo, 14 de novembro de 2010

Surpresa canina!

Há uma semana, chegou sem avisar. Jamais esperei que permanecesse em minha vida. Permaneceu. Roubou todo tempo, todas as horas de pensamentos nesses sete dias. Se instalou. Tão jovem, tão cheio de manha, tão seguro de si. Quis atenção. Nunca tive muito pra perder. Éramos a combinação ideal de desapego. Tem me arrancado suspiros, curado carências e correspondido às expectativas. E me olha no fundo dos olhos, e seus sons me parecem sempre perfeitos. Coisa boa dar oportunidade pra uma emoção acontecer sem saber onde é que ela vai desaguar. Sem coleiras, sem amarras, sem compromisso. Apenas a liberdade de se querer perto - na medida certa e sabe-se lá até quando. Esteve livre pra chegar, estará livre pra partir. Não me queixo de lhe dar um nome próprio, um pouco da minha loucura e algumas horas das minhas madrugadas. Não me importo de me atrever e ousar pra depois desistir ou me enfadar, ou começar a me apaixonar. Nenhum tempo é perdido com algo que arrisca, que pulsa, que vibra, que vive e que faz viver. Adoro o que me tira do sério e do tédio, porque minha versão mais apaixonada nasce apenas nos desafios. Provoque! Provoque minhas reações mais adoráveis, o que houver de melhor em mim. E então me converto em um ser pequeno, doce, disponível, que não hesitará em se compartilhar contigo.

Agradecimento à Thay, detentora dos direitos autorais do Marley:
Personagem perfeito para minha analogia/metáfora.



Backbeat, the word was on the street
That the fire in your heart is out
I'm sure you've heard it all before
But you never really had a doubt
I don't believe that anybody
Feels the way I do about you now
And all the roads we have to walk are winding
And all the lights that lead us there are blinding
There are many things that I would like to say to you
But I don't know how...
Oasis

sábado, 13 de novembro de 2010

Sexta-feira quase 13

Estive adiando a hora de escrever isso. Estou adiando. É agora. Amo essa expectativa. Detesto o gosto de estar entregue. Ninguém é capaz de mensurar com palavra a minha vontade de gritar. São dez pra duas. É quase três. Sexta prestes a virar sábado. Já virou. Mas tá longe de ter sol. Deu vontade de escrever, porque escrevendo é quando mais me entendo. Tem cinco verbos novos no meu vocabulário, que não me deixam em paz. O que não me deixa em paz é um certo moço. E o seu rosto. A ponta do anelar, da primeira dobra, me toca o lábio superior. Sinto o cheiro de quem nunca abracei. Temo, lacônica. Temo perder a propriedade do contrato artificial, que não fiz. E não sei a que vim sem querer desvendar onde estarei. Engana-me o frio na barriga, ou consola? Ameniza. Todo dia, um novo tom. Ai de mim. Toda hora, um novo tom. Com quanta impulsividade se faz uma alegria? Com quanta euforia contida se faz uma mulher de fibra, que conquista? Queria me deliciar da descoberta. Percorre-me um leve arrepio da madrugada, frio, qualquer coisa entre os tornozelos e os joelhos, os cotovelos e os punhos e a nuca. Solitária e insólita. Sorrateira. Secreta. Sinto um pouco de medo de existir, a meu modo.

***

Eu cansei de ser assim / não posso mais levar / se tudo é tão ruim / por onde eu devo ir?
A vida vai seguir / ninguém vai reparar / aqui neste lugar / eu acho que acabou
Mas eu vou cantar pra não cair / fingindo ser alguém / que vive assim / de bem
Eu não sei por onde foi / só resta eu me entregar / cansei de procurar / o pouco que sobrou
Eu tinha algum amor / eu era bem melhor / mas tudo deu um nó / e a vida se perdeu
Se existe Deus em agonia / manda essa cavalaria / que hoje a fé me abandonou.
Los Hermanos

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A palavra do dia é...

con.fu.são sf.
1. Ação ou efeito de confundir(-se).
2. Estado do que se acha misturado ou indistinto.
3. Bagunça, desorganização.
4. Tumulto, desordem.
5. Equívoco, atrapalhação.
6. Perplexidade.

Aplicação em uma frase: A semana de tpm fez uma confusão louca na minha cabeça.

Antes que seja tarde

Olha, não sou daqui... Me diga onde estou. Não há tempo, não há nada que me faça ser quem sou... Mas sem parar, pra pensar, sigo estradas, sigo pistas pra me achar. Nunca sei o que se passa com as manias do lugar, porque sempre parto antes que comece a gostar! De ser igual, qualquer um... Me sentir mais uma peça no final... Cometendo um erro bobo, decimal. (...) Pelas minhas trilhas você perde a direção. Não há placa, nem pessoas informando aonde vão... Penso outra vez, estou sem meus amigos, e retomo a porta aberta dos perigos... Na verdade continuo sob a mesma condição: Distraindo a verdade, enganando o coração!

Pato Fu

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Texto cru ou: Das coisas que só acontecem comigo

Me procurou por telefone, a apaixonada. Descontrolada. Insana. Caduca. Demente. Aos gritos. Divagou uma história de ser a amiga da amiga da avó da prima do cocô do cachorro, e que tinha sabido do meu beijo nele no sábado. Pedi para que encurtasse a conversa, fosse sincera e direto ao ponto, porque eu não tinha a noite toda para ouvi-la. Expliquei-a que eu não o beijei. Não só no sábado, como em nenhuma outra oportunidade na vida toda. Continuou berrando. Logo, gargalhei e mandei crescer, mas acho que ela não gostou muito não, com razão. Pus a educação pra funcionar e concedi mais cinco minutos para bem de que voltasse ao corpo e, quem sabe, estabelecessemos uma conversa razoável. O problema é que os cinco minutos seguintes foram os mais desastrosos do telefonema! Quando eu digo que as pessoas ficam transtornadas e irreconhecíveis quando estão fortemente apaixonadas, ninguém acredita!

Enfim... Acho situações de completa inocência, seguidas de acusação gratuita, um pouco tensas. Pagar um preço caro demais pelo que nem se fez é no mínimo desagradável. Mas gente insegura, por outro lado, não é só tenso, patético e desagradável. Gente insegura realmente se encaixa bem no meu conceito de merda.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Carpe Diem, Luis!

Nunca sonhei com a maioridade, mas agora me vejo pensando em como deve se sentir alguém que chega aos 18 anos... Será que nada muda? Será que o aniversariante cai imediatamente em si das responsabilidades da vida adulta? Será que isso só acontece com o tempo? Torço para que essas transformações gigantes me sejam amenas ou indolores.
Enfim... A reflexão nasceu do aniversário do Luis, hoje, que é uma das pessoas mais atenciosas das quais tenho conhecimento. Lembro também da Jô, me mostrando as fotinhos antes de conhecê-lo pessoalmente e de eu ficar pensando: Esse cara é insano! Estava certa nos pensamentos, na melhor acepção do termo. Luis é um menino crescido quando se trata de sentimentos, e um homem quando se trata de responsabilidade. Aliás, também escolhe time de futebol muito bem, mas essa virtude é só um adendo na sua imensa lista de virtudes. Sempre desvia os olhos quando está de lado falando comigo, e é incrível como isso não me transmite uma sensação de displicência, mas sim de que ele está levando em conta o que eu digo, está internalizando e processando bem as informações pra me dar uma resposta útil e sincera.
Aprendi a jogar boliche junto com o Luis (aliás, um ótimo professor!), mas, mais que isso, aprendi a empregar corretamente o uso da palavra "meio" (risos) e a ingerir pastéis assados "que por mais gordurosos que sejam, ainda têm menos caloria que os fritos". Ele é um cara que não se deixa vencer pelas decepções ou traumas, entretanto se esforça seriamente para a prevenção, para que as coisas ruins não aconteçam, ou, ao menos, é assim que eu o vejo...
São alguns meses de amizade e uma tonelada de papéis de bilhete, com horas de conversa no msn! Não sei mensurar a alegria que é poder contar meus segredos, planos e anseios pra alguém que me entende, que me aconselha e que põe a opinião masculina pra funcionar na minha vida e nas minhas escolhas mais importantes... Obrigada por ter se tornado tão confiável, equiparando-se com alguns amigos que construí ao longo da vida toda! Obrigada por levantar meu astraaaaaal, por sempre provocar meu bom humor, e por me aturar quando a "Claudia carniça" ataca (como nos últimos dias...)
O que sou capaz de desejá-lo hoje não é o clássico "muitos anos de vida", ou o clichê "parabéns", apesar de achar que você merece isso mesmo: felicitações e o melhor, sempre! Mas preciso lhe dizer, por oportuno, que espero que a sensibilidade nunca se acomode, que os sorrisos daqui pra frente sejam vindos naturalmente e, sobretudo, desejar que os seus desejos e ambições estejam sempre dentro do limite do realizável, pra você nunca se frustrar - mas que esses mesmos limites variem, mudem, sejam maleáveis, de acordo com o que mandar a aliança entre coração e consciência... Sempre com um objetivo nobre, que, tenho certeza, você possui: SER FELIZ!

Carpe Diem, amigo! Com todas as suas melhores expectativas para o futuro... Aproveite o dia! Este, e todos os tantos outros que virão nessa recente "vida adulta"!
Que a sorte seja sempre amiga do teu imenso talento.
Feliz aniversário! Conte comigo.

Cheia de manha

Batom na boca, swing no quadril... Supostamente, namoradinha do Brasil. E dançou sem perceber o que o corpo fazia... E cantou sem compreender o que a letra dizia... E quase como um sonho bom, onde entreter também era brincar, mamãe mandou eu insistir. E rir!
A vida persiste dizendo: não existe, estrela tamanha. Essa menina é cheia de manha... Já não sabia se era o início ou fim, vivia imersa numa infância de festim. Era a criança menos infantil. Infelizmente, namoradinha do Bra... A vida insiste em dizer estou triste. Sua mãe diz: "Não estranha, essa menina é cheia de manha." Ela é cheia de manha....

Móveis Coloniais de Acaju

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Quando C quer dizer Cinderela

O telefone tocou 9h e eu lembrei logo de Cinderela... E de nossa conversa de ontem à noite. Impossível que minha amiga já tivesse novidades... Sim, eu sou amiga de Cinderela e, sabe, essa menina é estranha. A fada-madrinha da Cinderela que eu conheço entrou no efeito reverso e caiu no sono profundo da Bela Adormecida. Se esqueceu de entrar em ação. Veja você que a coitada ficou desmadrinhada, um show de azar, medido pela vez em que se despediu de um príncipe e ele virou um unicórnio... O que, na prática, não significa muita coisa, porque Cinderela é uma princesa singular.
Também beijou uns dois lobos maus, e um sapo que não se transformou. Mas esse histórico é muito breve e não convém ao que quero lhes contar. Minha conversa de ontem foi bem mais interessante: Ela me contou que resolveu levar outra vida. Se libertou da madastra, que salvo engano se chamava Saudade, e está prestes a se apaixonar pelo irmão da Barbie. E que ela está se divertido muito com essa situação. E que ele quer seduzi-la.
Gargalhei com gosto da impulsividade de minha amiga e das confusões nas quais se mete. Perguntei se Cinderela estava ficando maluca. Ela me respondeu que já havia conhecido muitos personagens, tantos quantos nem sabia se lembrar do número, e que, infelizmente, havia se decepcionado com a maioria. Era hora, portanto, em seu raciocínio, de dar chance para o inesperado e... quem sabe... perder o sapatinho em lugares novos. Assenti sorrindo, invejando sua disposição em se apaixonar. Admirei C de Cinderela, sinceramente, sem modéstia. O brilho em seus olhos e o sorriso cheio de dentes parecia indicar que era tempo de confiar nos próprios feitiços.


Eu sei que por enquanto 'tá difícil enxergar a porta de saída, outra cena, outro lugar. Difícil de lembrar que a vida é cheia de surpresas! Mas só pra começar, dá uma olhada ao seu redor, no mar, no pôr do sol. Um gesto de bondade... Por que é que a gente fica cego pra tanta beleza? Então relaxe e vem com a gente, ninguém pode viver sozinho. O que você pensou que era o final? É só o inicio do caminho... Você vai rir de tudo isso, espera um pouco mais pro fim da história. Tudo passa, tudo muda, muita calma nessa hora...
Leoni

domingo, 7 de novembro de 2010

A flor e o espinho

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh'alma à sua
O sol não pode viver perto da lua

Paulinho Moska


"...e as flores de plástico não morrem..."

sábado, 6 de novembro de 2010

Last Night





(...) But the people, they don't understand. No, girlfriends, they can't understand! Your grandsons, they won't understand... On top of this I ain't ever gonna understand (...)
Last night she said: "Oh, Baby, I feel so down. Oh, and turned me off... When I feel left out"!
So I, I turned around: Oh, baby, I don't care no more. I know this for sure! I'm walking out that door!


The Strokes


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Encontros e despedidas

"Mande notícias do mundo de lá, diz quem fica.
Me dê um abraço, venha me apertar, tô chegando...
Coisa que gosto é poder partir, sem ter planos.
Melhor ainda é poder voltar. Quando quero.
Todos os dias é um vai-e-vem:
A vida se repete na estação.
Tem gente que chega pra ficar,
tem gente que vai pra nunca mais...
Tem gente que vem e quer voltar;
Tem gente que vai e quer ficar;
Tem gente que veio só olhar...
Tem gente a sorrir e a chorar.
E, assim, chegar e partir.
São só dois lados da mesma viagem:
O trem que chega é o mesmo trem da partida..."
Milton Nascimento|Fernando Brant


Hoje eu decidi deixá-lo imerso no sossego de uma vez por todas. Deixar em paz, se você preferir. Quis dar fim à semana conturbada que tivemos com o abraço espontâneo que combinamos retribuir na próxima vez que nos víssemos. Tentei, em vão, uma última vez, te encontrar de propósito. A contragosto, não fui capaz de lhe achar, exatamente como você alertou que seria. Todos os amigos indispostos ou sem gasolina. Os outdoors em minha mente anunciaram imprecisos: Você! A 50, 120 ou 200km, em uma pizzaria, na China, na casa dela, na sua ou no Alaska. O que eu precisava saber já sabia. Estava ocupado, caímos na caixa postal do número da operadora antiga, do celular antigo, do amor antigo. Caímos eu e as minhas intenções piegas.
Era hora de adentrar a casa, vestir aquele pijama preto de alças, curto, confortável. Que você adorava. E respirar fundo. Foi quando olhei o retrato caído na última prateleira do armário, escondido entre a caixa verde (onde ainda guardo todos os presentes) e as roupas de dormir. Sorríamos sinceramente, com o coração. Nostalgia. Não demorou muito mais que 10 segundos para que eu desviasse os olhos ao espelho e entendesse: A menina da fotografia que lhe arranca sorrisos não sou mais eu. E tudo fico claro, claríssimo...
Que tolice a minha, depois de tanto tempo ainda crer - insistir-em-crer-gostar-de-crer - que você esperaria de uma pessoa a prática do uso correto do mas e do mais, das quatro formas de escrever por ques, a valorização da própria criatividade em detrimento das tentações do plágio em depoimentos. Que tolice a minha, crer que você admiraria em alguém as pequenas censuras sinceras: no duplo sentido de recados enviados, numa pureza honesta, numa virgindade a zelar, num pai rígido a respeitar, em horários para chegar.
Quanta inocência a minha, acreditar que tu procurarias em alguém o que esperou de mim. Que equívoco pueril crer que o amor, o gostar, o querer-bem, o "ser feito feliz" depende de critérios tão específicos quanto os que um dia lhe atraíram, porque eu os possuía. Nós não nos apaixonamos pelas pessoas que cabem na nossa forma definida de alma gêmea, não, embora até muito pouco tempo atrás eu relutasse em depositar esperanças no contrário.
Você não vai "voltar" a me amar porque sou melhor ou mais polida. Os teus encantos, em especial, advém do rearranjo de virtudes: Ora porque deseja - com a consciência - determinada característica, ora porque fecha os olhos para outras feiúras da personalidade que, em outras condições, você repudiaria.
Até muito pouco... não. Serei mais precisa: Até a noite de hoje, quis muito crer que seria possível ser amada no todo, com a tolerância aos piores atos e atribuição de rótulos heróicos às melhores condutas, como o confessar que te amo. Mas não é bem assim que funciona, na prática. Ama-se apenas por tudo que fica ao alcance da vista, nas vitrinas que só um relacionamento-fornecedor proporciona ao "consumidor".
Pus na cabeça e no coração que vou guardar comigo a segurança de ter te amado muito e a certeza de que o rio-amor, imenso, extenso, avassalador, não acabou e não acaba por aqui. Apenas mudou, mudaste, mudamos. Não sei mais de onde será a tua partida, tampouco a que horas se dará a tua chegada. O que digo, aliviada, é que o dia de hoje me trouxe uma porção generosa de sossego, já que com ele nasceram duas certezas:
A de que outro oceano provará o doce de tuas águas;
E a de que a mim sobrará, ainda e sempre, a nobre tarefa de agradar - espontânea - a quem vê pouca graça na constância, imutável, que nada arrisca por medo de sofrer.

Você, vocês?
Não sei, não vi.
Eu, permaneço aqui:
Com a mesma paz com que te deixo ir.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Mirando no impossível

Escolhi minha profissão quando frequentava uma aula chata de geografia em que a professora repetia coisas decoradas que não me apetecia ouvir. Estava feito. Naquele instante eu reconhecia uma vocação emanada de dentro. Quis ser vendedora de eloquência e demolidora de argumentos. Quis transtornar alguém despreparado erguendo a sobrancelha esquerda com ar de reprovação. Quis defender muito uma crença, um ideal, uma prerrogativa legal. Quis dedicar tempo e vísceras no convencimento da parte contrária. Quis persuadir na 'absolutez' do certo e do incerto. Quis não medir esforços para conseguir as coisas.
As causas ganhas nunca me atraíram. Os casos fáceis, entendo, não me enobrecem. O que me agita os nervos, me faz vibrar, me impõe limites funciona mais ou menos como uma força motriz de toda intenção. Digam os desavisados que isso é prepotência, digam os homens de sucesso que "no que diz respeito ao desempenho, ao esforço, à dedicação, não existe meio termo. Ou faz bem feito ou não faz”¹ ... O que eu digo é que me dedicar e insistir tem rendido frutos: no amor, nos estudos, na vida e na escolha do Direito enquanto forma de encarar qualquer situação. Persistência, convicção, empáfia? Não sei definir. Só não desisto de algo sem de fato esgotar TODAS as possibilidades. Tem funcionado...

¹(AYRTON SENNA, 1990)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Quer vir pra festa, venha.

Sempre adorei festas, e as minhas festas sempre foram cheias de palavras. E as palavras, por si só, sempre foram recheadas dessas certezas momentâneas que vem e que vão tão precisas quanto chuva em dia de verão. Porque as palavras sempre adoçaram o amargo de estar só ou a solidão de estar mal acompanhada. E, em paradoxo, sempre deixaram ardente o que era doce demais. Uma proeza particular, porque há palavras que adoçam a vida, a priori, sozinhas ou acompanhadas de melodia. O problema é que as minhas festas de palavras começaram a receber gente inexperiente, desavisada dos meus carnavais. Gente que não estava preparada para o alto teor de embriaguez que as palavras dão ao meu festim. E, principalmente, gente que não era convidada. Mas eu não tenho vocação para expulsar penetra, não. Quer vir pra festa, venha. Mas pague o preço do ingresso, e não reclame se levar um pouco das minhas palavras nos bolsos, na memória, inoportunas. As palavras me custam caro. Sem demora, nesse esbanjo do que é tão meu, nesse leva e traz do que me compõe, eu poderia me cansar e parar de escrever. Assim, para agradar. Pra agradar quem quer que pudesse se sentir inseguro/espantado/atordoado de palavras. Mas ninguém é capaz de guardar certezas no bolso pra sempre. Então festejo.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O próprio caminho


"Por que hás-de tentar ser como os outros, se estás condenado a ti? Para que hás-de rir, se, quando ris, a tua própria alegria sincera é falsa, por que nasce de te esquecer de quem és? Para que hás-de chorar, se sentes que de nada te serve, e choras mais as lágrimas não te consolarem, que porque as lágrimas te consolem? Se és feliz quando ris, quando ris venci; se então és feliz porque te não lembras de quem és, quão mais feliz serás comigo, onde não mais te lembrarás de nada? (...) Vem ao meu carinho, que não sofre mudança; ao meu amor, que não tem cessação! Bebe da minha taça, que não se esgota, o néctar supremo que não enjoa nem amarga, que não desgosta nem inebria. Contempla, da janela do meu castelo, não o luar e o mar, que são coisas belas e por isso imperfeitas; mas a noite vasta e materna, o esplendor indiviso do abismo profundo! Nos meus braços esquecerás o próprio caminho doloroso que te trouxe a eles."

Fernando Pessoa

domingo, 31 de outubro de 2010

Baladas bregas

Me dá a mão, me leva embora. Passou da hora, já bebi demais... Ninguém mais me considera. Só velhos, bêbados e animais... Gastei tanta palavra por gastar. Agora as pobres tentam se salvar... Me pega e leva, porque eu te amo. Andei fugindo mas estou aqui, escutando baladas bregas. Deixar de te amar não é pra mim! Não se deixa de amar assim... Seja como for, mas seja sempre o meu amor, perpétuo. Onde estiver, esteja. Onde está meu peito, aberto (...) Me pega e leva, porque eu te amo. Andei fugindo mas estou aqui, derretida, sentimental. Porque deixar de amar não é normal... Não se desama dando um mero tchau.

Kid Abelha

sábado, 30 de outubro de 2010

Cartas pra você - "Me diz, o que é pouco tempo..."

Hoje faltou luz por uns vinte minutos. Perto da meia-noite. Tava sozinha em casa, então me pus a pensar e parece que, como diz aquela outra música, toda vez que falta luz o invisível nos salta aos olhos. Acendi uma vela com cheiro doce das que ficam de adorno na estante e que a gente pensa que nunca vai ocupar, mas ocupa. Foi o que bastou para encontrar um caderno e começar a escrever à moda antiga...

Gosto de você, e acho que isso é um ótimo começo para partirmos à análise de qualquer coisa. Descobri comendo um X-calabresa, há cerca de uma semana. Nunca tinha descoberto como se devia amar alguém enquanto comia hamburgeres e digeria presuntos-pepinos-milhos-queijos e pães e calabresas, mas foi assim que ocorreu. Tava sentada na lanchonete da praça, de frente pro rio, quando ouvi dizer que, quando gostamos, devemos valorizar o que o cara tem de bom, dando ombros para as imperfeições. Foi o início dessa semana tão agitada, que eu jamais poderia prever que fosse acabar tão tranquila, tão bem. Parei de chorar. Tudo tinha razão de ser.
Na segunda, achei que você devia saber que ainda te amo. Acordei inspirada e te fiz um texto de bem mais que uma página destas. Sincero. Na terça, teu coração, quase comovido, achou irresistível vir falar comigo, e eu, apressada, nem soube como responder. Na quarta te dei um tempo de mim e analisei cada ensaio de beijo que se foi pra nunca ser. Na quinta te senti distante, na sexta tive certeza. Hoje pela manhã chorei, choramos. É que o teu chorar ultra-agiu, e eu senti no meu choro todos os choros que você derramou desde que parti. Eu sou você, às vezes.
Hoje à tarde, pensei em duzentos jeitos de te provar que eu quero ser tua outra vez, confiante, honesta, de mãos limpas. E já de noite, escrevi. Faltou luz, sobrou amor. Agradeci aos trovões e à companhia elétrica por poder te confessar pelas letras, quase em tom de segredo - às sombras da chama que ainda queima - que te quero bem mais do que pode explicar o meu parco léxico. Sei dizer que a nossa história daria um livro. De romance. Dos bons.

Muito obrigada por ler. Obrigada por escrever e ler.
São semi-intenções de dizer que te amo. Sou feliz, imenso, por você existir.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Meia volta, volver.

Estamos de tal forma... não, unidos não é a palavra.
Estou a tal ponto ligada que dei para admitir que o que era para ser eu virou você, de forma recíproca. Não espero que você entenda. Só me deixa dizer que de repente, bem mais que de repente, invertemos tudo aquilo que nos era permitido tornar contrário. Falhamos no teste fundamental do manter-se vivo na ausência, o que me parece inteligível de sua parte mesmo a certa distância. Principalmente com essa distância. Eu, mestre em quase todas as ironias, não sei o que me provoca essa vontade de te mostrar que eu posso ser melhor, e se apostar em algo, ainda que ironicamente, estarei mentindo.
Mas anota no teu caderninho: Faltou escrever que eu recuperaria essa capacidade de chorar a qualquer tempo. Faltou assumir minha desonestidade com o teu querer, faltou gritar que eu não descanso um minuto de te rememorar tão longe, e faltou dizer que eu acreditei todas as vezes, em cada instante em que você me dizia que amava pra sempre, às vezes. E é por isso que te amo e que te espero voltar. Porque você dizia com a boca e eu te sentia com o olho.
Não entendo nada de amor, nada, nada mesmo, percebo agora. Entretanto, se é que um dia entendi, foi por tua causa, tua mea culpa, mea tua culpa, mea culpa tua. Aprendi que se deve ser paciente e esperar por si, em si. Se eu mudar de endereço, daqui a uns anos, vou lhe avisar. Não precisa querer, assim, como quem quer muito alguma pessoa ou alguma coisa, mas queira um pouco saber de mim e, principalmente, me dê ouvidos. Estou esperando de braços descruzados, sentada no meio-fio, pedindo carona, torcendo para que ninguém me dê.
É que você pode não saber o dia de amanhã, mas eu quero prevê-lo crendo que um dia você voltará. Ou espero que volte, quero crer que vai querer voltar, e incrédula eu perguntarei se foi o amor que te trouxe. Você dirá que foi a dúvida, o caminho incompleto, o querer-ser do quase - pois se houvesse qualquer resquício de certeza, você não me perdoaria - e eu vou levantar e te dizer que sou nova, muito nova, muitas vezes, novíssima, e que você tem quantos séculos desejar para descobrir o que é capaz de nos unir, o que uniu e o que unirá. Mas talvez você logo não queira. Aí não tenho o que fazer.


Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
Adélia Prado

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Neurose

Talvez o silêncio nunca me perdoe por ter dito que te amo. Sou vítima de mim mesmo, de minhas próprias frases, da minha própria consciência. Tenho procurado entender a minha vida, mas as conclusões a que cheguei não são nada conclusivas. Esperei o tempo necessário para compreender que, na verdade, eu não posso ter você. A vida é assim, eu tenho que me acostumar. Os dias irão surgir, o sol irá brilhar aqui. Hoje é o primeiro dia do resto dos nossos dias. E eu ainda espero por você. Entre e feche a porta, tente me entender. Acalme-se, pois você vai ver que estes são os meus problemas. Os problemas que não tenho, que crio em minha mente. Por você.

Reação em Cadeia



"Fomos longe, isso eu sei.
Talvez não o bastante."

sábado, 23 de outubro de 2010

Mas que merda! Chega dessa palhaçada!

Não se ofenda.
Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Um dia me abduziram, sabe? (Claro que sabe. Não se faça de tonto, não) Disseram que eu pertencia à Terra, esse lugar onde as pessoas de 12 a 25 anos (às vezes mais) não se importam com nada. Nada mesmo. Não se importam com nada, nem com o que lhe diz respeito. Um universo de pessoas que querem curtiiiiiir qualquer coisa ou pessoa, uhuuuuul, animaçããããão, aproveitaaar muitoooo, bebidas, sorrisos embasbacados, beijos em bocas mais ou menos rodadas, futilidades, ou talvez, o que é pior: amores mágicos da noite pro dia, mas tudo em larga escala.
Me trouxeram pra esse lugar onde ir para a cama com alguém não significa absolutamente nada, onde usar qualquer droga é como comer feijão com arroz, onde ser burro como uma pedra não faz diferença nenhuma. O negócio é beijaaaar, ou daaaaaaar, ou namoraaar muitas pessoas, qualquer uma, ou bebeeeeeer, ou fingir que tudo está óóóóóóótimo sempre. Muito bem.
O problema é que esqueceram que no meio dessa zona toda tô eu. E que eu sou de Marte. E que lá o negócio é diferente. As pessoas aqui na Terra parecem se esquecer que eu não quero ouvir quantos elas beijaram em uma noite de Oktoberfest (e foram mais de DEZ!), que eu não quero ver fotos de gente bêbada muito feliz com suas caras de feliz a qualquer preço (custe o que custar!), que eu não quero ser a outra, que eu não quero que minha companhia seja dispensável em detrimento da moça que é dada ou que oferece certa demasia em estabilidade, que eu não quero vomitar de tanto álcool, que eu não quero voltar de uma festa fedendo a fumaça que jogam pro alto pra provar que são sabe-se-lá-o-que, que eu não quero estar perto de gente que acha o máximo usar regata pra mostrar a tatuagem e os músculos, que eu não tenho saco pra conversa mole de oi-como-tu-te-chamas-quer-ficar-comigo, que eu não admiro gente vazia, que eu não aguento cena de gente porca e medíocre, que eu não quero ter que me contentar com pouco porque o mundo todo ri às pampas de tudo que eu não acho graça.
Eu não sou assim, ainda que não seja fácil não ser assim numa madrugada com o cabelo fedendo a cigarro, as unhas roídas e uma lista de contatos babacas, acéfalos, comprometidos, desinteressantes ou ocupados demais com pequenezas terráqueas. A Terra, percebo muito a contragosto, é desses meia-bocas. Um marciano legítimo se inquieta com meia-bocas, pois sabe que a galáxia é muito maior. E, infelizmente, os marcianos estão em extinção. Só sei que não se acabaram porque, longe dos espelhos, EU ainda me sinto uma alienígena nata.
Outro dia se espantaram com os meus tantos meses de solidão. E os humaninhos idiotas, já seguros de si, me dirão que a culpa é minha. E é verdade. Talvez eu tenha pedido para ser abduzida, como poucos o fazem. Em todo caso, para efeitos de redenção, proponho uma embaixada de Marte aqui na Terra para todos os rubroplanetários que andam enojados de todas as coisas, cansados dessas estrangeirices, espantados com a tolice manifesta da exacerbada maioria da população desse planetazinho de quinta que quer nos naturalizar pela pressão.
Queria saber me camuflar no senso comum, mas é na minha vontade de isolamento que a palavra MARTE se imprime em letras garrafais em minha testa enquanto vago no meio das gentes. Que seja assim, então. Nada como uma órbita depois da outra.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O vulto constante

Tempos de definição são difíceis. Duros. Exigem de nós energia que por vezes não temos - não é todo dia que queremos lutar contra sentimentos díspares, complicados, que desejamos nos perguntar se realmente o amor acabou, se o que sobrou foi só carinho e preocupação, ou se ainda existe um resquício mínimo que guarda em si a possibilidade do renascimento. Não é todo dia que temos fôlego para questionar o que fizemos de nossa vida até aqui e qual o rumo que realmente queremos dar a ela. Cansa. Exaure.
Tudo muda quando se passa por uma cisão que altera a maneira de ver o mundo: lá se vai a crença de um amor que resiste a tudo e fica um gosto estranho de fracasso, como se as emoções, e as pessoas, pudessem ser avaliadas em termos tão maniqueístas... Separar-se de alguém que se amou demais é, antes de mais nada, triste. Mas tristezas, por mais fundas que sejam, passam. Desde que não as alimentemos.
E a forma mais comum de alimentá-las é insistir em um contato nocivo por nos trazer alento, um tanto duvidoso, mas um alento: a voz conhecida, as palavras um dia tão queridas, o choro que sabemos como estancar, a risada que nos lembra dias mais ensolarados (você já reparou como nos sentimos mais acolhidos com a segurança do passado conhecido, com todos os seus problemas, do que com o vislumbre do futuro?). Alimentá-la é achar que isso pode, em algum nível, fazer bem para algum dos dois. É como manter vivo um paciente com falência cerebral na esperança de que um milagre o faça acordar sorrindo, inteiro. Dói todos os dias em que isso não acontece. E dói mais ainda quando, finalmente, ele morre - mas, então, pelo menos, todos estão livres para seguir a vida.
A verdade é que enquanto não decidimos se acabou ou não, se queremos aquela relação de volta (com todas as idiossincrasias, neuroses e desgastes que nos fizeram partir) ou se ela faz parte do panteão do passado, nada anda. Ninguém novo pode entrar, arejar os dias. Nem sozinho ficamos bem. Só a vulto constante da tristeza nos acompanha, mesmo nas horas mais alegres - ela sabe que, a qualquer momento, a guarda baixará e ela terá espaço suficiente pra se instalar.

Ailin Aleixo