domingo, 18 de novembro de 2012

Deixa que deixem

Enquanto eu decidia o que queria ser quando crescer, bebia sôfrega um copo de suco de uva desproporcionalmente preparado. Um dedo de concentrado e todos os outros mililitros de água fria sem gelo. Não tinha gosto de nada. Nada que eu quisesse realmente beber ou que matasse a sede melhor que água.
Assisti a garrafa de plástico, azul, ir enchendo aos poucos na pia de metal prateado desde o antepenúltimo gole. Depois olhei pro lado e o chão da cozinha estava brilhando, mas não era de limpo. Derrubei uns três litros de óleo por descuido trinta minutos antes e não houve pano, esponja, desengordurante, joelho no chão ou detergente que vencesse de todo aquele líquido viscoso e amarelo que pareceu entranhar em cada fresta. 
Deixa pra lá, deixa pra lá. Limpe a sujeira e deixe pra lá. Foi o que me repeti todas as vezes que algo caiu ou quebrou de repente, nos últimos anos. O segredo de deixar pra lá era desfrutar da euforia e do tédio como se fossem a mesma coisa... Matéria indispensável da qual a outra não sobrevive se uma não existir. Como banho de chuva e um estágio demasiado formal ou como a melancolia e o desatino.
E parecia que os pensamentos não tinham muito nexo quando decidi, concluindo apressada em mais um textinho fast food, pra ser consumido em minutos, que quando crescesse a única coisa que eu queria ser era melhor do que sou agora.

domingo, 4 de novembro de 2012

Mórbida


Breve, curta e mordaz. Tanto quanto um beijo, capaz de conter uma parcela dos lábios de um entre os dentes do outro, preciso tomar banho, mas vou esperar a trovoada passar. Concluí bem rápido, antes de decidir que escreveria a respeito, que minha aparência, aqui, está muito próxima do que ando sendo. Isso porque não cabe uma descrição literata ou erudita, embora doa admitir. Estou confusamente frágil, na iminência de uma síncope.
Fecho os olhos e refaço mentalmente, em ordem tão cronológica quanto possível, a ordem dos fatos do feriado todo. Isso porque, por mais mórbida que seja uma história, ela merece ser tão esmiuçada quanto possível na busca de um sentido.
E em cada passo, em cada um dos cinco segundos parada na frente daquela escadaria, em cada fragmento de realidade, em cada gole, em cada espera vã: Eu vejo extremos. Só buscas e negações. Preocupação. Excesso.
A vida, cáustica, anda me atordoando. Mas depois de um exagero sempre vem o melhor de mim... Espero.

Impulso

"Estava num impulso de sinceridade e confissão que muitas vezes eu tenho em relação a você", ela disse a Lúcio. "Mas não sei, talvez porque você nunca tenha sentido em relação a mim esse mesmo impulso, eu fico de repente apenas com as palavras que eu queria dizer mas sem gostar delas".

(Carta de Clarice Lispector para Lúcio Cardoso, 12-03-1944. Clarice, de Benjamin Moser, p. 190)