quinta-feira, 23 de junho de 2011

Cadernos de Luísa

- Lúcio, você sentiu paz, da última vez que nos encontramos? – pergunta Luísa, reticente. Sua insegurança toma dimensões exacerbadas, quando o assunto é ele.
- Luísa, eu estava em paz – responde ele, com a habitual serenidade. - Senti-me feliz. Você que não tem paz, que busca. Eu tenho. Posso ser mais feliz, é claro, e espero que você faça parte disso.
- Quero fazer parte disso – ela sorri para o telefone.

(Vanessa Souza Moraes)

sábado, 18 de junho de 2011

Menos inadaptável

Constato diariamente que sou limitada. Imenso. Logo, tomo por breve objetivo de vida: Menos histérica. Menos ciumenta. Menos inconstante. Menos neurótica. Menos controladora. Menos agressiva. Menos emocional. Menos culpada. Menos dramática. Boas metas, mas para mim e para a minha personagem-personalidade, imensamente desafiadoras. Diluídas nos últimos tempos, seriam parcialmente cumpridas - uma a uma - para o bem de todos e para a felicidade irrestrita do meu coração.
No fim do percurso, deixaria de lado esse resquício de comportamento depressivo que me aflige de tempos em tempos. Seria sensata e completa. Ponderada e adulta. Elenquei quase tudo que de fato me intrigava em mim. Quis mesmo que só as virtudes permanecessem - o mais, seria menos. Entretanto, algo sempre nos falta. Caio anunciava: "...guarde sem dor, embora doa..." Engoli as faltas que me doíam lembrando de Caio e tomei cinco minutos no dia, enquanto esperava o ônibus, para um autismo voluntário a fim de perceber se só eu fico meio desajeitada entre as coisas que me faltam, sem defini-las, ou se todos são assim. Ouvi mil conversas e cheguei a conclusão nenhuma, porque as pessoas não mostram o que lhes falta aos desconhecidos. Talvez elas nem mesmo saibam, como eu. Então decidi que pouco importava. Desesperei.
Que é que em mim era ausente? O que não havia e era imprescindível em mim para ser completamente feliz, às vezes!? Coragem, ânimo, poesia, razão, controle? Foi quando adicionei à lista de objetivos: Menos egoísta. O ditado de que nada é perfeito é mais que secular. Não seria minha experiência de menos de duas décadas que mudaria qualquer coisa a esse respeito. E algo continuaria me faltando, e eu manteria sempre algumas falhas. Faltaria-me, mormente, a perfeição. O que podia não ser tão ruim, desde que eu mesma me adaptasse a mim.
Sacudi a cabeça teatralmente como se isso fosse desviar meus pensamentos, aproveitando para reorganizar as ideias de forma mais coerente ou inteligível; bem como para fabricar ou traduzir - de modo muito particular - um neologismo a ser adicionado em minha lista, que se sobrepusesse aos demais: Menos inadaptável. Estampar-se-ia em minha mente de forma automática: "Adaptar é evoluir". Então, as coisas pareciam voltar a fazer sentido. Podia levantar da cama e acordar para o sábado.
Sorri ao dar de cara com parte do presente de dia dos namorados que ganhei daquele que ouso chamar novo amor, porque é (porque foi, porque será e porque os primeiros sempre o são) novidade ao inspirar a mudança para menos e para melhor.
Tomaria café lembrando de alguém que me queria sempre feliz, ainda que imperfeita, agora. E eu sentia como se esse amor e como se todos os amores que me cercam pudessem se travestir de qualquer coisa para preencher minhas lacunas. Depois de tantas reflexões aleatórias, elegi a da direita como minha, por motivos óbvios: Era a adaptação materializada. Quando juntos, Wilian certamente tomaria qualquer coisa que não lhe amarelasse os dentes na xícara da esquerda, e eu desejaria que ele se lembrasse - naquele momento e em todos os outros - que possuímos muitas características comuns, mesmo sendo diferentes na forma. E eu me senti satisfeita, pensando que buscaria me adaptar às coisas que não me agradam em mim e no mundo, deixando que meus amores fizessem o resto, porque são inconfundivelmente adaptados aos meus defeitos. Que, portanto, eu conseguiria ser "menos" todas as coisas ruins de todos os dias, em nome de todos aqueles que me são caros. Nós sabemos ser infinitamente mais fácil recobrar a direção quando temos incentivo ao olhar para o lado.
Uma xícara é comum, e se confundiria com outras cem mil xícaras desse mundo não fosse por constituir um par. Uma xícara é menos convencional e descobre as dores e delícias de ser assim a cada uso. No fundo, são apenas xícaras. E este texto-desabafo, é apenas um eufemismo com muitas linhas para confessar que o que mais me agrada em viver é sempre urdir - no meio das crises, do caos, das tempestades internas - uma nova razão para seguir. Seguir sendo menos o que me atrasa. Sendo mais o que me interessa. Sendo melhor, desde que assustadoramente humana...

terça-feira, 14 de junho de 2011

De que amanhecesse regra

Um corte de meio centímetro na dobra do indicador da mão esquerda, pelo lado de dentro. Culpa do inverno e de uma sorrateira folha de ofício. Ou apenas de um descuido... Bobagem.
Leva o pequeno ferimento até a boca, e não esboça qualquer palavra em desaprovação. Pilhas de trabalho a esquerda, atendimento cordial a direita. Concentração, foco. Mais cedo ou mais tarde, vai sarar. Conformada desde as pequenas coisas. Espantosamente prática.
Mas no fundo havia medo, um medo imenso, de que toda exceção amanhecesse regra, um dia.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Es preciso



"Es preciso decidir qué es más importante para uno: vivir bien o escribir bien."
Mario Vargas Llosa, via @leoluz

domingo, 5 de junho de 2011

Auto-ajuda ou: Substrato de Domingo

Intelectuais se aprumam, pigarreiam e começam a responder dizendo "Veja bem..." e daí em diante é um blablablá teórico que tenta explicar o inexplicável. Poesia serve exatamente para a mesma coisa que serve uma vaca no meio da calçada de uma agitada metrópole. Para alterar o curso do seu andar, para interromper um hábito, para evitar repetições, para provocar um estranhamento, para alegrar o seu dia, para fazê-lo pensar, para resgatá-lo do inferno que é viver todo santo dia sem nenhum assombro, sem nenhum encantamento. (Martha Medeiros)