domingo, 31 de outubro de 2010

Baladas bregas

Me dá a mão, me leva embora. Passou da hora, já bebi demais... Ninguém mais me considera. Só velhos, bêbados e animais... Gastei tanta palavra por gastar. Agora as pobres tentam se salvar... Me pega e leva, porque eu te amo. Andei fugindo mas estou aqui, escutando baladas bregas. Deixar de te amar não é pra mim! Não se deixa de amar assim... Seja como for, mas seja sempre o meu amor, perpétuo. Onde estiver, esteja. Onde está meu peito, aberto (...) Me pega e leva, porque eu te amo. Andei fugindo mas estou aqui, derretida, sentimental. Porque deixar de amar não é normal... Não se desama dando um mero tchau.

Kid Abelha

sábado, 30 de outubro de 2010

Cartas pra você - "Me diz, o que é pouco tempo..."

Hoje faltou luz por uns vinte minutos. Perto da meia-noite. Tava sozinha em casa, então me pus a pensar e parece que, como diz aquela outra música, toda vez que falta luz o invisível nos salta aos olhos. Acendi uma vela com cheiro doce das que ficam de adorno na estante e que a gente pensa que nunca vai ocupar, mas ocupa. Foi o que bastou para encontrar um caderno e começar a escrever à moda antiga...

Gosto de você, e acho que isso é um ótimo começo para partirmos à análise de qualquer coisa. Descobri comendo um X-calabresa, há cerca de uma semana. Nunca tinha descoberto como se devia amar alguém enquanto comia hamburgeres e digeria presuntos-pepinos-milhos-queijos e pães e calabresas, mas foi assim que ocorreu. Tava sentada na lanchonete da praça, de frente pro rio, quando ouvi dizer que, quando gostamos, devemos valorizar o que o cara tem de bom, dando ombros para as imperfeições. Foi o início dessa semana tão agitada, que eu jamais poderia prever que fosse acabar tão tranquila, tão bem. Parei de chorar. Tudo tinha razão de ser.
Na segunda, achei que você devia saber que ainda te amo. Acordei inspirada e te fiz um texto de bem mais que uma página destas. Sincero. Na terça, teu coração, quase comovido, achou irresistível vir falar comigo, e eu, apressada, nem soube como responder. Na quarta te dei um tempo de mim e analisei cada ensaio de beijo que se foi pra nunca ser. Na quinta te senti distante, na sexta tive certeza. Hoje pela manhã chorei, choramos. É que o teu chorar ultra-agiu, e eu senti no meu choro todos os choros que você derramou desde que parti. Eu sou você, às vezes.
Hoje à tarde, pensei em duzentos jeitos de te provar que eu quero ser tua outra vez, confiante, honesta, de mãos limpas. E já de noite, escrevi. Faltou luz, sobrou amor. Agradeci aos trovões e à companhia elétrica por poder te confessar pelas letras, quase em tom de segredo - às sombras da chama que ainda queima - que te quero bem mais do que pode explicar o meu parco léxico. Sei dizer que a nossa história daria um livro. De romance. Dos bons.

Muito obrigada por ler. Obrigada por escrever e ler.
São semi-intenções de dizer que te amo. Sou feliz, imenso, por você existir.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Meia volta, volver.

Estamos de tal forma... não, unidos não é a palavra.
Estou a tal ponto ligada que dei para admitir que o que era para ser eu virou você, de forma recíproca. Não espero que você entenda. Só me deixa dizer que de repente, bem mais que de repente, invertemos tudo aquilo que nos era permitido tornar contrário. Falhamos no teste fundamental do manter-se vivo na ausência, o que me parece inteligível de sua parte mesmo a certa distância. Principalmente com essa distância. Eu, mestre em quase todas as ironias, não sei o que me provoca essa vontade de te mostrar que eu posso ser melhor, e se apostar em algo, ainda que ironicamente, estarei mentindo.
Mas anota no teu caderninho: Faltou escrever que eu recuperaria essa capacidade de chorar a qualquer tempo. Faltou assumir minha desonestidade com o teu querer, faltou gritar que eu não descanso um minuto de te rememorar tão longe, e faltou dizer que eu acreditei todas as vezes, em cada instante em que você me dizia que amava pra sempre, às vezes. E é por isso que te amo e que te espero voltar. Porque você dizia com a boca e eu te sentia com o olho.
Não entendo nada de amor, nada, nada mesmo, percebo agora. Entretanto, se é que um dia entendi, foi por tua causa, tua mea culpa, mea tua culpa, mea culpa tua. Aprendi que se deve ser paciente e esperar por si, em si. Se eu mudar de endereço, daqui a uns anos, vou lhe avisar. Não precisa querer, assim, como quem quer muito alguma pessoa ou alguma coisa, mas queira um pouco saber de mim e, principalmente, me dê ouvidos. Estou esperando de braços descruzados, sentada no meio-fio, pedindo carona, torcendo para que ninguém me dê.
É que você pode não saber o dia de amanhã, mas eu quero prevê-lo crendo que um dia você voltará. Ou espero que volte, quero crer que vai querer voltar, e incrédula eu perguntarei se foi o amor que te trouxe. Você dirá que foi a dúvida, o caminho incompleto, o querer-ser do quase - pois se houvesse qualquer resquício de certeza, você não me perdoaria - e eu vou levantar e te dizer que sou nova, muito nova, muitas vezes, novíssima, e que você tem quantos séculos desejar para descobrir o que é capaz de nos unir, o que uniu e o que unirá. Mas talvez você logo não queira. Aí não tenho o que fazer.


Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
Adélia Prado

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Neurose

Talvez o silêncio nunca me perdoe por ter dito que te amo. Sou vítima de mim mesmo, de minhas próprias frases, da minha própria consciência. Tenho procurado entender a minha vida, mas as conclusões a que cheguei não são nada conclusivas. Esperei o tempo necessário para compreender que, na verdade, eu não posso ter você. A vida é assim, eu tenho que me acostumar. Os dias irão surgir, o sol irá brilhar aqui. Hoje é o primeiro dia do resto dos nossos dias. E eu ainda espero por você. Entre e feche a porta, tente me entender. Acalme-se, pois você vai ver que estes são os meus problemas. Os problemas que não tenho, que crio em minha mente. Por você.

Reação em Cadeia



"Fomos longe, isso eu sei.
Talvez não o bastante."

sábado, 23 de outubro de 2010

Mas que merda! Chega dessa palhaçada!

Não se ofenda.
Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Um dia me abduziram, sabe? (Claro que sabe. Não se faça de tonto, não) Disseram que eu pertencia à Terra, esse lugar onde as pessoas de 12 a 25 anos (às vezes mais) não se importam com nada. Nada mesmo. Não se importam com nada, nem com o que lhe diz respeito. Um universo de pessoas que querem curtiiiiiir qualquer coisa ou pessoa, uhuuuuul, animaçããããão, aproveitaaar muitoooo, bebidas, sorrisos embasbacados, beijos em bocas mais ou menos rodadas, futilidades, ou talvez, o que é pior: amores mágicos da noite pro dia, mas tudo em larga escala.
Me trouxeram pra esse lugar onde ir para a cama com alguém não significa absolutamente nada, onde usar qualquer droga é como comer feijão com arroz, onde ser burro como uma pedra não faz diferença nenhuma. O negócio é beijaaaar, ou daaaaaaar, ou namoraaar muitas pessoas, qualquer uma, ou bebeeeeeer, ou fingir que tudo está óóóóóóótimo sempre. Muito bem.
O problema é que esqueceram que no meio dessa zona toda tô eu. E que eu sou de Marte. E que lá o negócio é diferente. As pessoas aqui na Terra parecem se esquecer que eu não quero ouvir quantos elas beijaram em uma noite de Oktoberfest (e foram mais de DEZ!), que eu não quero ver fotos de gente bêbada muito feliz com suas caras de feliz a qualquer preço (custe o que custar!), que eu não quero ser a outra, que eu não quero que minha companhia seja dispensável em detrimento da moça que é dada ou que oferece certa demasia em estabilidade, que eu não quero vomitar de tanto álcool, que eu não quero voltar de uma festa fedendo a fumaça que jogam pro alto pra provar que são sabe-se-lá-o-que, que eu não quero estar perto de gente que acha o máximo usar regata pra mostrar a tatuagem e os músculos, que eu não tenho saco pra conversa mole de oi-como-tu-te-chamas-quer-ficar-comigo, que eu não admiro gente vazia, que eu não aguento cena de gente porca e medíocre, que eu não quero ter que me contentar com pouco porque o mundo todo ri às pampas de tudo que eu não acho graça.
Eu não sou assim, ainda que não seja fácil não ser assim numa madrugada com o cabelo fedendo a cigarro, as unhas roídas e uma lista de contatos babacas, acéfalos, comprometidos, desinteressantes ou ocupados demais com pequenezas terráqueas. A Terra, percebo muito a contragosto, é desses meia-bocas. Um marciano legítimo se inquieta com meia-bocas, pois sabe que a galáxia é muito maior. E, infelizmente, os marcianos estão em extinção. Só sei que não se acabaram porque, longe dos espelhos, EU ainda me sinto uma alienígena nata.
Outro dia se espantaram com os meus tantos meses de solidão. E os humaninhos idiotas, já seguros de si, me dirão que a culpa é minha. E é verdade. Talvez eu tenha pedido para ser abduzida, como poucos o fazem. Em todo caso, para efeitos de redenção, proponho uma embaixada de Marte aqui na Terra para todos os rubroplanetários que andam enojados de todas as coisas, cansados dessas estrangeirices, espantados com a tolice manifesta da exacerbada maioria da população desse planetazinho de quinta que quer nos naturalizar pela pressão.
Queria saber me camuflar no senso comum, mas é na minha vontade de isolamento que a palavra MARTE se imprime em letras garrafais em minha testa enquanto vago no meio das gentes. Que seja assim, então. Nada como uma órbita depois da outra.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O vulto constante

Tempos de definição são difíceis. Duros. Exigem de nós energia que por vezes não temos - não é todo dia que queremos lutar contra sentimentos díspares, complicados, que desejamos nos perguntar se realmente o amor acabou, se o que sobrou foi só carinho e preocupação, ou se ainda existe um resquício mínimo que guarda em si a possibilidade do renascimento. Não é todo dia que temos fôlego para questionar o que fizemos de nossa vida até aqui e qual o rumo que realmente queremos dar a ela. Cansa. Exaure.
Tudo muda quando se passa por uma cisão que altera a maneira de ver o mundo: lá se vai a crença de um amor que resiste a tudo e fica um gosto estranho de fracasso, como se as emoções, e as pessoas, pudessem ser avaliadas em termos tão maniqueístas... Separar-se de alguém que se amou demais é, antes de mais nada, triste. Mas tristezas, por mais fundas que sejam, passam. Desde que não as alimentemos.
E a forma mais comum de alimentá-las é insistir em um contato nocivo por nos trazer alento, um tanto duvidoso, mas um alento: a voz conhecida, as palavras um dia tão queridas, o choro que sabemos como estancar, a risada que nos lembra dias mais ensolarados (você já reparou como nos sentimos mais acolhidos com a segurança do passado conhecido, com todos os seus problemas, do que com o vislumbre do futuro?). Alimentá-la é achar que isso pode, em algum nível, fazer bem para algum dos dois. É como manter vivo um paciente com falência cerebral na esperança de que um milagre o faça acordar sorrindo, inteiro. Dói todos os dias em que isso não acontece. E dói mais ainda quando, finalmente, ele morre - mas, então, pelo menos, todos estão livres para seguir a vida.
A verdade é que enquanto não decidimos se acabou ou não, se queremos aquela relação de volta (com todas as idiossincrasias, neuroses e desgastes que nos fizeram partir) ou se ela faz parte do panteão do passado, nada anda. Ninguém novo pode entrar, arejar os dias. Nem sozinho ficamos bem. Só a vulto constante da tristeza nos acompanha, mesmo nas horas mais alegres - ela sabe que, a qualquer momento, a guarda baixará e ela terá espaço suficiente pra se instalar.

Ailin Aleixo

Sonho


Olho no poço do teu olho escuro, meia-noite em ponto. Quero fazer um feitiço para que nada mais volte a andar. Quero ficar assim, no parado. Sei com medo que o que trouxe você aqui foi esse meu jeito de ir vivendo como quem pula poças de lama, sem cair nelas, mas sei que agora esse jeito se despedaça. Torre fulminada, o inabalável vacila quando começa a brotar de mim isso que não está completo sem o outro. Você assopra na minha testa. Sou só poeira, me espalho em grãos invisíveis pelos quatro cantos do quarto. Caio Fernando Abreu

Tudo está fechadinho, sem frestas, sem espaços vagos para que, sei lá, eu possa ocupar. Não tem lugar pra mim na tua brincadeirinha de andar sempre em par. E você dirá que sonho a gente nunca retoma, que me avisou, que eu já devia ter aprendido. E eu vou te dizer que sempre estive meio convicta de que insistir podia não ser tão ruim, e que por isso mesmo posso muito bem me lamentar por ter acordado. E que eu tentei, mas agora... Lamento, meu orgulho não deixa ir adiante, tão unilateral. Voilà. Acabo de desistir de me intrometer nessa vida torpe que você está construindo longe do meu campo de visão.

Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia — qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido. Tinha terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina. Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo. Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim. Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis.
...E eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim – para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura. Caio Fernando Abreu

... mas tenho pressa, é o último combate. A minha urgência parece não encontrar lugar no meio da sua paciência.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O que era? O que era?

Era colorida porque essa é a cor das luzes de festa. Condensada, eu podia vê-la. Vista de longe, tinha infindos atributos e variações. Azul-céu, vermelho-batom, roxo-vinho. Caleidoscópica. Tinha o cheiro do perfume importado que escolhera para atrair qualquer maluco que se dispusesse ou não a encontrar a mulher dos sonhos antes da meia-noite. Era ouvida porque os decibéis da música popular brasileira esgotavam o admissível sempre que se sentia só no meio das virtudes. Era sentida, não sem certo remorso, ao tatear as mãos sem sinal de compromisso.
Eu já tinha elementos suficientes. Podia ser só sua.
Fui descobrir, em tempo, que ela era ingrata, quando perdeu o rumo e contornou-me o nariz encontrando a língua. Era salgada. Distante, os leigos poderiam chamar do que quisessem. Talvez chegassem todos em uma conclusão de três sílabas. Por ironia, começariam com a mesma letra. Mas a resposta da charada era una, pois inconfundivelmente minha e consoante a mais. Não tinha dúvida. Só eu sentia o gosto. Não era lágrima. Era liberdade.

João, Maria e Martha

Minha vida amorosa tá bem pra história de João e Maria: Sair sozinha procurando sabe-se lá o que, se perder na floresta, procurar as migalhas deixadas pra voltar. Infeliz de uma passarinha, comeu. Enxergar no bruxo do abrigo feito de doçuras uma esperança razoável. Continuar, pois, aprisionada. Contudo, se engana quem pensa que o felizes para sempre é a última página.

Então ela desfez-se da arrogância: “Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história. Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui."
Martha Medeiros



(...) Se despediu brevemente, evasivo.
Foi quando fechei os olhos e meu coração sorriu: Ele, é claro, também sentia.

domingo, 17 de outubro de 2010

Rumo, má fé e (in)validade

Certo dia seria perguntada sobre uma coisa muito difícil de se responder. Eu perdendo o rumo? É a má fé de Sartre em pessoa. E dando tudo pra ter uma consciência de si mesma que, sabe-se lá se, um dia, eu tive. Perder o rumo é, incertamente, ter certeza que algumas coisas precisavam ser ditas mas o prazo de validade delas já expirou há muito (ou pouco?) tempo!

Maresia

O meu amor me deixou. Levou minha identidade, não sei mais bem onde estou... Nem onde há realidade. Ah, se eu fosse marinheiro, era eu quem tinha partido! Mas meu coração - ligeiro! - não se teria partido... Ou se partisse colava com cola de maresia. Eu amava e desamava. Sem peso e com poesia... Ah, se eu fosse marinheiro! Seria doce meu lar. Não só o Rio de Janeiro, a imensidão e o mar... Leste, Oeste, Norte, Sul. Onde o homem se situa quando o sol sobre o azul, ou quando no mar há a lua... Não buscaria conforto; Nem juntaria dinheiro. Um amor em cada porto!
Ah, se eu fosse marinheiro...


Adriana Calcanhotto

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O velho e o moço

Deixo tudo assim... não me importo em ver a idade em mim. Ouço o que convém! Eu gosto é do gasto...
Sei do incômodo, e ela tem razão quando vem dizer, que eu preciso, sim, de todo o cuidado... E se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz, quem, então, agora eu seria? Ahh, tanto faz... Que o que não foi, não é. Eu sei que ainda vou voltar... Mas eu quem será? Deixo tudo assim, não me acanho em ver vaidade em mim. Eu digo o que condiz! Eu gosto é do estrago... Sei do escândalo e eles têm razão, quando vêm dizer que eu não sei medir: Nem tempo e nem medo. E se eu for o primeiro a prever (e poder desistir) do que for dar errado? Ahhh, ora, se não sou eu quem mais vai decidir o que é bom pra mim? Dispenso a previsão! Ah, se o que eu sou é, também, o que eu escolhi ser? Aceito a condição.

Vou levando assim, que o acaso é amigo do meu coração quando fala comigo, quando eu sei ouvir...

Los Hermanos

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

É dia de celebrar. Parte dois. Sete meses depois.

Março de 2010. Descobri que a Maçonaria estava mais próxima do que eu supunha e que a Ordem DeMolay me rodeava. De todos os preceitos que vim a conhecer, houvera sido a proposta “ecumênica” perante as divindades, Deus(es) e suas religiões o que mais me agradou – se excetuarmos, por obséquio, os segredos que ambas envolvem. Nunca fui do grupo dos que tem medo de supostos mistérios, muito menos dos partidários da teoria cega (que, sem titubear, rotulo como conspiratória) de que maçons tem pacto com o que eu, irônica, e os personagens de Star Wars chamaríamos de o lado negro da força. Aviso de antemão que por essas terras tudo é – ou ao menos tenta ser – sem substratos e julgamentos prévios. Está incutido em mim um profundo respeito por tudo que eu não conheço. E estes são os termos, tão importantes, com os quais encerro esta introdução.
Para ilustrar, lembro-me do mês, a hora e o lugar em que, dividindo um colchão esparramado pela sala, confessei a um católico fervoroso, sem delongas, que não acreditava neste exemplo primordial de homem que a minha religião professa (um homem casto, infalível, concebido de uma virgem, que anda sobre as águas, etc...), enfim. Talvez não tenha me expressado bem. Fui mal interpretada. Ou melhor, não fui interpretada. Só pude ver, de relance, um par de olhos verdes condenando instantaneamente o que seria a minha heresia de “brincar com o temor de Deus”. Agradeci por não estarmos mais no tempo da “Santa” Inquisição, embora parecesse o contrário entre aquelas paredes. Acho que quem me ouviu alegou insanidade como resposta a esta dissidência, mas, dessa última, nada posso afirmar com precisão. Aqui não tento me redimir das coisas ditas naquela madrugada filosófica e em tantas outras, nas quais pensei tantas coisas similares. Inclusive, sou levada a crer que a esta altura nada faria aquela companhia mudar de opinião ou refletir sobre algo que, para si mesmo, parece ser incontestável. Fechando esse parêntese, tenho a contar-lhes que emprestei um livro (e terminei de lê-lo nessa madrugada) onde, finalmente, encontrei argumentos claros e sólidos que não fazem restar dúvidas sobre o que penso a este respeito. É o que nos dirá Valdir Gomes, católico e maçom, em seu livro “Igreja Católica e Maçonaria”, segunda edição, p.155-156:

"Há, porém, um sério obstáculo que dificulta a realização do pleno ecumenismo. É que as religiões sempre se julgam detentoras da verdade eterna e imutável. As concessões que se tem feito mutuamente com base em suas crenças comuns não avançam no sentido de tornar mais maleáveis seus dogmas particulares e não reconhecem que a verdade é multifacetada e que o mais importante não é possuir a plena verdade, o que, aliás, é impossível diante da limitação humana, mas abrir-se humildemente à conquista paulatina do conhecimento que liberta (...) A propósito, a plena verdade da Igreja Católica (e de outras igrejas cristãs), é pregada a partir do nascimento de Jesus Cristo, há dois mil anos. Os dogmas impostos pela Igreja, como por exemplo o da Santíssima Trindade e da Virgem Maria e a notória tentativa em interpor o "Senhor Jesus" e os santos e santas, como agentes de intermediação para a comunicação com Deus (o único pai celestial, criador do Universo), não pode ser aceita como definitiva, porque se poderia fazer a seguinte pergunta:
E a humanidade dos 3.700 anos anteriores a Cristo?
Era toda ela pecadora, herege? Não havia nenhuma pessoa boa e justa, que merecesse o céu? Foi toda a população nascida em quase quatro séculos para o inferno?
Provavelmente, lá não haveria lugar para tanta gente!...
É inegável que Jesus Cristo foi um ser humano evoluído, uma figura extraordinária, um líder carismático, uma personalidade forte.
Mas, não podemos negar que também o foram Buda, Confúcio, Maomé, Moisés e Mahatma Gandhi, líderes de outras religiões, para os quais "a verdade deve ser dita com amor e que antes de matar pela arma é importante conquistar pela alma", ao contrário de Átila, Nero, Gengis Khan, Fernão Cortez, Stalin e Adolf Hitler.
As instituições aqui estudadas, Igreja Católica e Maçonaria, contabilizam uma carga de bons serviços à humanidade. No entanto, o entendimento equivocado da Igreja, de que a Maçonaria é uma religião concorrente, a deixa estática e retrógrada, numa posição intransigente e intolerante."
"Para variar", acresento eu.
Antes de ser excomungada preciso esclarecer que nasci “católica apostólica romana”, batizada, catequizada, confirmada, sacramentada. Mas sem medo de duvidar. Nascida em dia de santo, filha da comentarista da missa, neta de ministros e devotos. Mas sem pudor para questionar os mitos/dogmas/contradições/falhas da minha religião. Perdi as contas de quantas vezes fiz sinais-da-cruz, rezei pai-nossos, ave-marias, santo-anjos, crei’mdeuspais e salve-rainhas. Nunca soube exatamente o sentido de todos os gestos e frases, e vezenquando repito vários deles, por hábito. Mas talvez Deus não me queira um papagaio. Talvez Deus me queira raciocinando. Nunca tive plena certeza do real sentido de nenhum versículo da Bíblia e não vejo grandes problemas nisso, porque creio em um Deus que me compreende em todos os meus infinitos dilemas, dúvidas e anseios por entender algumas coisas que talvez transponham o limite do entendimento. Ao crer nesse Deus, nesse Grande Arquiteto do Universo ou seja lá que nome mais queiram dar a ele, creio em uma energia transcendental que tudo cria, tudo move, tudo vê. E que me ama, me perdoa, me protege. Sei dizer que tenho uma fé absoluta, imutável, inexplicável, e que hoje essa fé já não precisa mais de "enfeites".
Há tempos sou movida a alguns segredos secretos e alguns revelados. Tudo porque sou fascinada pelo exato momento - de euforia - que antecede o conhecer, ou o suposto conhecer, bem como pelos encantadores e apaixonantes mistérios que me foram apresentados nesses curtos 17 anos de experiência (o que inclui as Ordens supracitadas e algumas pessoas que delas fazem parte!). E, penso, disso tudo o que deve ficar de lição é a gratidão a um Todo Poderoso que é generoso e infinito por me fazer pensante.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Wave

Vou te contar.
Os olhos já não podem ver...
Coisas que só o coração pode entender.
Fundamental é mesmo o amor!
É impossível ser feliz sozinho...
O resto é mar, é tudo que não sei contar
São coisas lindas que eu tenho pra te dar
Vem de mansinho à brisa e me diz
É impossível ser feliz sozinho...
Da primeira vez era a cidade
Da segunda o cais e a eternidade
Agora eu já sei da onda que se ergueu no mar
E das estrelas que esquecemos de contar!
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos envolver...


Tom Jobim

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Escapismo/Dinamismo

Não sei de fato para o que servem os feriados estendidos e os dias santos no meio da semana. Sou capaz de fazer algumas suposições. Talvez sejam destinados a companhia da família, a festa no interior do interior (com direito a aniversariante vestida de princesa e gentes de todas as tribos), a saber novidades da tia Carmen, comer sorvete na panificadora do Scheller, desligar o celular, rir com gente querida. Mas acho que tudo faz mais sentido ouvindo o jornal com as notícias sobre mineiros esperançosos no Chile, um dicionário em distância estratégica ao alcance das mãos, uma musiquinha baixa tocando, as vozes das visitas, uma formatação do trabalho da amiga...

Uma suposição incontestável de que devia abandonar as coisas que me acompanham há quase meio ano e que não vão mudar, porque vêm das suas mais de duas décadas. Vamos encarar as coisas com otimismo. Ao menos, não consigo mais chorar. Ao mais, vocês sorriem na janela permanentemente aberta - e sorriem de um jeito todo especial, para mim. Digo rindo que vocês são feitos para durar... Ops! Acho que me repeti, mas penso que você não vai se importar.

Pobre de quem não consegue escapar do lugar-comum que é rotular pessoas...
...como monótonas...
... quando elas são verdadeiramente previsíveis.

Dois dois

Acho que vou morrer na ignorância. Bela evolução dos tempos estão me oferecendo. Querem acabar com os arrepios espontâneos na espinha, os desejos saídos sabe-se lá de onde, de contrariar as leis da física e fazer com que dois corpos ocupem o mesmo lugar no espaço; querem acabar com as entrelinhas, as expectativas, o dar-se por inteiro, seja lá como for. Deixem em paz os meus vinícius, pessoas, quintanas, florbelas e drummonds. Eu não quero a modernidade entrando goela abaixo com seus impulsos mecânicos, desejos fabricados, artificialidade de farmácia. Deixem-me na antiquação dos que preferem pular na piscina sem saber se tem água, correndo o risco de se afogar ofegante numa paixão mal resolvida, a criar um sentimento testado e aprovado pelo Ministério da Saúde. Repito Caio F. Abreu: "Não sei, deixo rolar. Vou olhar os caminhos, o que tiver mais coração, eu sigo." por Nathalia Duprat

Mais a respeito do post "Caio sempre!" ou [DESABAFO:] Beleza não compensa indelicadeza!

Todos os, ...sei lá, arrisco dizer QUATRO primeiros caras pelos quais me interessei eram - salvo uma exceção - maravilhosos. Maravilhosos mesmo. Invariavelmente, gentis. Tinham um conjunto razoável de atributos que me faziam suspirar, embora não fossem perfeitos. Uns tinham sorrisos lindos, outros tocavam violão, outros citavam filósofos, outros visitavam frequentemente o blog. Até aí, estava eu plenamente convicta de que: Ou os homens seriam realmente bonitos ou realmente inteligentes, nunca as duas coisas. Mas vá lá, que uma virtude pode contemplar a falta de outra, em certas ocasiões. Principalmente quando a virtude é a gentileza.
Foi quando o conheci. E os olhos brilharam de contentamento pela possibilidade... Seu jeito tímido, a cor dos cabelos, o sorriso aberto, a adaptação do nome italiano e o vestibular disputado em uma das faculdades do estado (que eu conhecia) era mais do que suficiente para preencher os requisitos e passarmos para o que eu chamaria de entrevista. Lindo, charmoso, simpático, tímido... Ok. Já deu pra entender que cheirava novidade na minha breve lista. Cedi. Estava na hora de trocarmos as primeiras palavras, virtualmente, depois de semanas nos encarando de longe, sabendo tão pouco. Aquela timidez, beleza e possibilidade de inteligência me eram assustadoramente afrodisíacos. Afrodisiacosíssimos. Foi quando tudo desandou. Nunca vi nem li ninguém tão explícito em toda a minha vida! Que errasse tanto em escolher adjetivos carinhosos (leia-se: nenis, bonitinha, gatinha...) nem que me cantasse tão descaradamente e de um jeito tão burro, bruto, insensível, beirando o cavernoso.
Lindo, charmoso, simpático, tímido... Nojento. Detestei, não haveria de ser diferente. Esvaiu-se sem titubear a minha chance de beijar um galã de novela com ares de novo gênio sabe-se lá, agora, de que área. Consagrou-se, de imediato, a lei da compensação. E não poderia terminar este post dedicado a ele sem a clássica: É melhor calar tendo a possibilidade das pessoas acharem você um imbecil, do que "abrir a boca" e elas terem certeza absoluta disso.

p.s.: Feliz dia das crianças!
E "nenis" é a senhora sua mãe, energúmeno!

sábado, 9 de outubro de 2010

Escrever e Vomitar

Vomitar. Palavra feia. Mas já falei de ser mosca, não me custa falar sobre vômito. Escrever é muito parecido com vomitar. Repito isso há dias. Es-cre-ver é como vo-mi-tar. Digo porque vai-se embrulhando o estômago e os sentidos até chegarmos em um ponto de uma espécie de náusea tonteante a qual, enquanto não se escreve, engasga-se feito azeitona de empada entre a faringe e o esôfago! Cada um reage de um jeito. Eis algumas das maneiras mais habituais: Ou vomita, ou se acomoda, admitindo que não é tão ruim ter uma sensação de desconforto dentro de si. Há também, por conseguinte, aqueles que engasgam pra nunca mais desengasgar. Ou ainda os que nasceram engasgados e assim morrerão.
Aos vomitadores de plantão, afirmo que compadeço do distúrbio, como bem se nota. Primeiro vem a ânsia, e depois a constatação de que os componentes do alimento não poderão ser digeridos com facilidade. Danou-se, preciso vomitar e reestabelecer a sensação de alívio do jejum. E mastigamos mal tanta coisa... Impossível não reparar. Sorvemos inteiros, como água, cotidianamente, os pedaços gigantes de coisas de outros. Comemos coisas de outros e seu gosto parece razoável. Por isso, embora não me orgulhe, considero que é impossível vomitar algo cem por cento nosso. E mais... Raras exceções, você sempre olha para as porções de bolo alimentar com suco gástrico e sente vergonha por ter posto aquilo pra fora. Vezenquando chega a negar autoria de assombroso comportamento. Vomitar pode parecer feio. Eu - para ser franca - só não sei é como alguém pode sobreviver, nos dias/noites/madrugadas de hoje, abstendo-se da bulimia de redações, do regurgitar quase imediato. Acho válido objetar. Alguns dirão que sou caduca e os caducos como eu concordarão:
No vômito e na escrita, você mira no impossível e lança (habitualmente) algumas parcelas que se convertem em uma. Para se sentir limpo, aliviado, livre, novo. Lança torcendo para que o odor não seja de todo ruim, ou, quando seja, não fique impregnado em você, nos outros. Para que ele não tenha efeito "vinculante" sobre seus próximos vomitares. Mas não adianta! Quando não fica o cheiro, fica o gosto. Quando não o gosto, o esgoto lembra. Alguém sempre lembra. Vale memorizar.
E é por esta e as outras que escrever, para mim, hoje, é como vomitar. Pode se esquecer do quando, do onde e do como... Nunca do por que.

Caio sempre!


“Mas não vou ceder. Foi a ultima paixão. Paixão é o que dá sentido à vida. E foi a última. Tenho certeza absoluta disso. Agora me tornarei uma pessoa daquelas que se cuidam para não se envolver. Já tenho um passado, tenho tanta história. Meu coração está ardido de meias-solas. Sei um pouco das coisas? Acho que sim. Tive tanta taquicardia hoje. Estou por aí, agora. Penso nele, sim, penso nele. Mas não vou ceder. Certo, certo: ninguém tem obrigação de satisfazer ao teu desejo, pela simples razão de que você supõe que teu desejo seja absoluto. Foda-se seu desejo, ora. Me dói não ter podido mostrar minha face. Me dói ter passado tanto tempo atento a ele — quando ele nunca ficou atento a mim. E eu passei tanta coisa dura. Rita Lee canta “são coisas da vida…” Caio F. Abreu

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

(...)

"Não te entendo. Mas gosto assim."
É quando a semana fica pequena pra tanta espera...


O amor é o desejo de encontrar alguém que viva, sinceramente, a liberdade de amar alguém só pelo bem querer.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Tá rindo, é?

Ah! Hoje eu quebrei o meu despertador logo pela manhã.
Tocou atrasado e eu quase perdi o horário da van...
Agora você vê como são as coisas Maria José, se der
Se der, pra você me emprestar aquele seu vestido azul cor de mar
E se não servir, vou tentar perder um quilo e meio até lá
Semana que vem é o tal casamento, e eu não tenho o que usar...
Se der...
Ah! E falando nisso homem bom, hoje em dia, tá ruim de arranjar.
Aquele que eu tinha eu peguei com outra, mandei ele andar...
Malandro e folgado comigo não dura mais nem um luar.
Tá rindo, é?
Ah! Recebi um torpedo da telefonia no meu celular.
Prometendo desconto às três da manhã, se eu puder falar
Mas de madrugada, quem vai me atender, quem vai me ligar? (Eu, hein!)
Tchau!
Fique tranquila que o vestido eu cuido, não deixo sujar.
Quem sabe eu te ligue pra poder a tarifa a gente aproveitar...
Ou quem sabe até eu arranje alguém novo pra me namorar
Tá rindo, é?
Ah! Vamos dando risada que a vida nos chama, não dá pra chorar
A minha oração é bem curta, pro santo não entediar:

E vamo que vamo e vamo que vamo que dá.

Ana Carolina

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Título: Eu queria ser uma mosca doméstica comum

Querida professora! A senhora perguntou que bicho eu queria ser e eu estou aqui pra lhe responder que eu queria ser uma mosca. Como o termo bicho, na minha concepção, é um pouco mais abrangente do que animal, as moscas parecem estar compreendidas neste conjunto. É bem verdade que pode parecer estranho uma menina como eu não escolher borboletas ou coelhinhos (aliás, por que a senhora não botou as moscas no exemplo pra gente escolher?) e é sabido que aos olhos da maioria as moscas são relativamente feias. Deve ser por isso que todos perseguem elas com mata-moscas, livros, almofadas e até umas fitas amarelas coladas no texto com cheirinho atraente. Mas enfim, eu queria ser uma mosca.
A segunda pergunta, que eu devo responder no segundo e terceiro parágrafo, é "por quê", tudo isso com base no meu conhecimento adquirido na disciplina de ciências. Bem, eu vou tentar explicar. As moscas me parecem formidáveis. Pequeninas, são ligeiras ao esquivar-se da perseguição de alguns humanos. E elas voam, como a senhora sabe. Eu me imagino voando. E elas cabem em qualquer lugar; Todo mundo já viu uma mosca presa entre as janelas abertas. Elas não se importam com a falta de espaço ou coisas supérfluas e luxuosas. Aliás, aonde é a casa das moscas? Eu não sei. Suponho que elas não se preocupem com isso, porque são livres. E eu ambiciono a completa liberdade de uma mosca. Ah! E já ia me esquecendo... As moscas tem uma visão muito ampla do mundo, mas não enxergam obstáculos. Pode parecer ridículo uma mosca confrontar um espelho, mas eu admiro muito a persistência. Elas também são simples, pois comem migalhas e não estão nem aí pra isso. Esta última informação até me faz querer esclarecer uma coisa: Queria ser uma mosca doméstica comum, porque moscas verdes me deixam um pouco nauseada. Sei que ambas se satisfazem de coisas que eu não me alimentaria, mas se eu fosse mosca e tivesse nascido mosca, acho que estaria acostumada. O problema é o verde. Minha vaidade não me permitiria vestir verde todos os dias. De fato, eu quereria ser uma mosca doméstica comum, preta básica.
Apesar de individualistas, as moscas podem achar companhia de outras moscas em qualquer lugar com um pouco de calor do mundo, a qualquer momento. Não tem consciência e, portanto, não são seletivas. Deve ser agradável ter despreocupações sociais, culturais, alimentares, reprodutivas - seja lá o que isso quer dizer. As moscas simplesmente vivem e não se preocupam com muita coisa, eu suponho. Isso me faz lembrar que eu perguntei a dois amigos o que eles responderiam nesse texto que a senhora pediu. O Luis Gustavo, que senta do meu lado, disse que ele queria ser qualquer coisa que voa e come carne, e eu pensei que nós dois poderíamos ter nascido moscas. Depois refleti melhor e acho que ele deseja alçar voos mais altos. Mas ignorante que sou, eu não conheço um outro bicho bonito e inteligente que voe e coma carne. Que seja. Já a Franciele, que senta atrás de mim, disse que queria ser um cachorro malandro e despreocupado, e quando eu pensei que se eu fosse mosca eu sobrevoaria o cocô dela, isso me fez desistir de querer saber a resposta dos meus outros amigos e, convicta, permanecer fiel aos meus princípios de querer ser o bicho que escolhi.
Por último, vou confessar à senhora que acho as moscas uns bichos muito autênticos. Este é o maior pró de suas existências. Sou muito curiosa e me agradaria não ter que disfarçá-lo. Adentraria cozinhas dos restaurantes que agora frequento, irritaria a senhora e todos os chatos que eu não gosto enquanto servissem o almoço para as visitas, pousaria sorrateira nas seções secretas dos pais dos meus conhecidos e, finalmente, colocaria a máxima do Carpe Diem para funcionar em sentido integral. O mundo teria nojo de mim e eu sorriria faceira com minha boca de mosca, sabendo estar representando primorosamente a minha espécie. Tudo isso porque, não raro, eu viveria esta vida incerta em torno de um mês. O que, convenhamos, é tempo suficiente para se desfrutar todos os prazeres de ser uma mosca doméstica comum. FIM.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

"O dia" ou: Os maravilhosos mistérios da madrugada


Contudo, um dia seu coração vai... Sei lá, apertar. Ficar maior que o seu peito. Exatamente como tem ficado há dias, sem que se dê conta. Vai passar a euforia, o início vai virar meio. Você vai perceber que por mais que você tente enxergar em outro rosto e procurar em outro gosto, o meu tom é inconfundível. Sem as modéstias falaciosas, ninguém vibra na minha frequência. O meu lugar já muito pequeno, tímido, esquecido, mas ainda insubstituível. Ternura. Perceberá uma parcela considerável de ternura que não se sabe de onde vem. Você pensará para trás e não a verá. O passado, como sabemos, é escrito a caneta e, por isso, é impossível que tudo aquilo se repita ou apague. Eu sei. Você saberá melhor do que eu, quando chegar a hora. Enquanto não, vamos vivendo. Assim, imitando a paixão que um dia tivemos, o amor que um dia fizemos, o sentimento arrebatador que vivemos. E talvez, quando você me encontrar por acaso, se for uma madrugada fria e atípica de outubro/novembro/dezembro, seu coração, bem talvez, ligue o alarme. Sirenes. Sinais. Não precisa me contar, não, basta sentir. Você sentirá. Comemoraremos a falta silenciosa que lhe fazem todos os mistérios que só você desvendou em mim. E a ausência das minhas pernas, dos meus abraços, os meus cabelos, o meu sorriso. Não é mais o meu sorriso. Não tem mistério. Não são os meus olhos. Basta você fechar os seus para descobrir. E é inquietante, não se acomoda. Com efeito e ênfase. Inquietante que não se acomoda. Desviarei a visão pro fundo da sua alma que abriga um coração apertado e terei a plena certeza de que chegou o nosso dia. Quando sangra, instantaneamente, o corte parece não produzir grandes efeitos. Mas com o tempo, embriagados pela assustadora sensação que traz a madrugada, não há ferimento indolor, que não doa, que não tenha doído, que não doerá. Um dia, vai chegar o nosso dia.

Ligue, ligue, ligue, ligue, ligue para mim.
Diga, diga, diga, diga, diga que me ama
que eu não vou mais implorar...
Se quer saber, deixa estar
Digo que não ligo, mas não vivo sem você!
Eu falo, não me calo, tiro sarro
só pra ver se eu consigo despertar o seu amor
Deixa estar...
Eu sei,
que na verdade eu não consigo entender o nosso amor
Que o teu silêncio fala alto no meu peito
E que nós dois estamos juntos na distância
discrepância do destino...
Ziguezagueando zonzo de te procurar,
eu tranco no meu pranto canto alto de euforia
que eu queria te cantar.
Guardo pra mim, deixa estar...
Sei que fez um mês entre vocês, de união
Pouco, muito pouco, quase nada
Nesta estrada você está na contramão
E a solidão? Deixa estar...
Vocês vão aprender que nessa vida
não se pode mais errar
Vão descobrir que entre as estrelas
e o chão
existe o mar...
Aí então a euforia, um belo dia, vai passar
E cairá sobre seu mundo, num segundo, a traição.
Deixa estar!
Los Hermanos

sábado, 2 de outubro de 2010

O último dia da semana ameaça se despedir...


Flores nascem e morrem no jardim... Assim o dia acaba em noite e o céu parece não ter fim. Estrelas sempre mudam de lugar, fazendo curvas no destino (...) Até diria qualquer coisa pra te convencer que os dias passam, as pessoas mudam. Por que é tão difícil acreditar em nós? Quando estamos sós, a sua voz faz o meu tempo parar. (Biquíni Cavadão)


...suponho que você compreenda meu sorriso de alívio.

Perguntas

Chovia. Eu tava doida pra te perguntar uma coisa, pouca coisa, qualquer coisa. Mas o que? Afinal, o que é que eu ainda precisava saber a seu respeito? Como? Onde? Com quem? Talvez não exatamente. Estes eram questionamentos que não me levariam muito longe.

Perguntaria se você ainda me lê. Isso. Impactante. Assim mesmo:
- Você ainda me lê? Mas, sem mais, sem menos, você poderia me responder que o "ainda" está desconexo do contexto, vagando nas minhas frases. Ora, ainda o que - não é? - se nunca fomos! Depois arriscaria, mentalmente, uma pergunta nova:
- Foi de verdade? Mas que tempo verbal mais traiçoeiro, dizer que "foi" é quase admitir que "não é", quando pra mim o presente pode existir. E isso seria demais pro meu orgulho. Ou quem sabe:
- E quando chove e você ouve as músicas que eu gosto, lembra de mim? Mas é claro que, ainda que lembrasse, você não assumiria. Pensei mais longe:
- Você me amou? Mas que pergunta mais idiota! É óbvio que não é necessário saber nada disso. E mais... Quem usa a palavra amor como quem troca de roupas, nessa história, sou eu e não você. Um tanto prolixa, possivelmente eu fizesse a tentativa de indagar:
- Está me evitando porque não é importante preocupar-se por tão pouco, ou propositalmente, pra me ferir? Ruim. Quando crendo na afirmativa, eu engasgaria no segundo termo da proposição. Simplifiquei:
- Você tá feliz? É claro que tá. Essa pergunta é batida no repertório de quem espera uma resposta surpreendente e nunca a tem.
- Se arrependeu? Não, isso eu não posso questionar, porque se você for honesto eu vou morrer na sua frente, com causa mortis "sincericídio agravado por decepção".
- E saudade? Você tem saudade de ter minha atenção? Mas antes, eu precisaria conseguir definir esse termo tão complexo, impossível.

No fim, nunca resta muito a saber. Não sobra espaço para perguntas e nem tempo para as respostas. Ambas, aliás, desnecessárias. A gente se sabe de cor. Sabe tudo. Salteado. Inteiro. Previsível. Com todas as dúvidas. Observe: Fugimos da interrogação enorme que nos causamos. E, além disso, chove.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O problema

Sabe qual é o problema?


O problema é que *conteúdo censurado por conter declarações comprometedoras*
"Quando a vida lhe oferece um sonho muito além de todas as suas expectativas, é irracional se lamentar quando isso chega ao fim."