segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O melhor de mim

Ônibus é matéria infinda do que escrever. Já falei, mas preciso repetir.
Sento sempre do meio do ônibus pra trás. Quando estou lírica, como hoje, prefiro um banco perto de uma janela que abre, pro vento bagunçar o cabelo e organizar as ideias. Acontece muita coisa num ônibus. Tem sempre muita gente diferente num ônibus. Preciso falar assim pausado pra processar bem todas as informações que me ocorrem.
Hoje uma velha me tirou do sério. Sou muito doce com idosos. Se eu digo velha, não é assim que eu chamaria uma avó ou qualquer idosa que fizesse valer a minha cordialidade e merecesse todo o meu apreço. Se eu digo velha, não é, tampouco, porque não a respeito, é só porque não são usuais os termos "idosa caduca" ou "idosa coroca". Eu digo velha porque a velha embarcou reclamando do atraso, bastante rabugenta, e veio o corredor inteiro torcendo o nariz de amargura. Não tinha banco duplo vazio, ela precisaria sentar com alguém e aquilo, como a vida, de modo geral, azedava-lhe infinitamente. Aquela velha devia amar muito a própria solidão.
Mas o caso nem é esse. Meu umbigo acharia ela só mais uma idosa que endureceu ao envelhecer, se o que aconteceu não tivesse acontecido: A velha me desprezou. Parou no corredor, do meu lado, por uns vinte segundos, olhou no fundo dos meus olhos, recebeu um sorriso, torceu o nariz e ficou procurando outro banco, bem no fundo do ônibus, em que pudesse se sentar. Em algum lugar que não fosse comigo. Rejeitar parceiros de banco de ônibus é recorrente, quando se pode escolher, mas a mim isso acontece sempre de maneira aleatória e certeira, não com a crueldade daquela velha. Não depois de olhar fixo por tanto tempo.
A velha sentou atrás de mim e desandou a falar alemão com a moça que lhe acompanhava como se eu não fosse entender. Eu de fato não entendi, uma vez que não falo alemão, mas a situação toda foi suficiente pra eu ter certeza de que reclamava da minha jovialidade, dos meus cabelos escorridos sobre os ombros, da minha frivolidade imaginada, talvez do castanho escuro dos meus olhos. Velhas como aquela fingem não se importar com o mar de possibilidades que se encerra na juventude, mas na verdade o detestam.
Incrédula, não olhei pra trás. Não vi quem foi o infeliz que tomou a companhia da velha como se fosse melhor que eu. Não quero a mágoa amarga de ter sido preterida, porque talvez seja exatamente essa mágoa que me tornaria igual aquela senhora. O que a velha não sabe é que ser rejeitada por quem vale pouco faz valorizar quem vale muito. E que amanhã, pra vingá-la como se deve, dou a quem sentar comigo o maior sorriso, a mais sincera atenção... O melhor de mim.

domingo, 24 de novembro de 2013

Bebem-nos pelo caminho


No prefácio da edição que li de Cartas a Milena, Torrieri Guimarães rememora uma citação de Franz Kafka que diz: "Escrever cartas significa desnudar-se diante dos fantasmas, que esperam isso avidamente. Os beijos por escrito não chegam ao seu destino, bebem-nos pelo caminho os fantasmas." Guimarães segue dizendo que nos resta pedir a esses fantasmas de sonhos que devolvam as carícias e os beijos roubados, ou inspirem aos leitores o verdadeiro sentido dessa imensa paixão, oculto nas entrelinhas.

Eu não te escrevo a carta de amor que desejo. Não porque seria um devaneio deletério comigo mesma, nem porque não mereces. De fato, a essa altura não mereces, mas gostar de alguém e escrever uma carta de amor nada tem a ver com meritocracia. Não porque não reconheça alguma imensidão nesse projeto de paixão, nem propriamente porque não posso, nem porque tenho medo de ser mal interpretada, nem porque a escreveria às vésperas do verão e tenho medo de que seja confundida com uma carta de amor de verão... No fim das contas, meus amores são sempre veroninos.
Não te escrevo uma carta de amor porque ela seria cheia de juras pretensamente eternas, infinitas na dureza da caligrafia, referências poéticas de Quintana e paráfrases de músicas bregas do Fábio Jr., e essas referências se estragariam por mais tempo do que durássemos. Porque ela seria cheia de declarações superlativas da minha vontade de estar perto, mesmo de longe, de ver crescer o que nos antecedeu, de acompanhar o passo, de me alimentar das incoerências e inconstâncias e insatisfações que nasceram conosco e das que produzimos em nós depois de nos encontrarmos, de não ter que te deixar pra trás, de emprestar vivacidade e inspiração, de te aquecer sob a tradição surrada da tua infância, inventando novos planos pra essa recente vida adulta.
Se escrevesse uma carta de amor, e isto agora não me parece possível, anunciaria a disposição em reorganizar a vida pra caber a todo tempo nas palavras-ônibus que vais largando entre uma linha e outra. Eu não diria que não quero te repartir, mesmo amando livre. Não citaria mais Simone pra não confundir minha condição anacrônica com a modernidade que almejo, pra não me confundir com teu passado e com teu futuro. Não diria que sou o avesso do que preferes, embora acredite nisso. Não diria que o que alguém prefere diz muito mais sobre si do que sobre o que se deixa de preferir.
Eu pediria que fosse meu o beijo de despedida. Pediria a lembrança esporádica que socorre a solidão, vista da janela do ônibus, do carro, do trem, do avião. Imploraria pra ser o meio de transporte, na obrigação de fim entre o improvável e o que quer que fosse capaz de fazer darmos certo. Entretanto, qualquer súplica não faz sentido, se está sempre prestes a ser dementada.
Então escrevo, mas não uma carta. Não muito pessoalmente, não com todos os predicados que te identificariam, não de maneira direcionada a respeito. Uma carta se perderia na distância, os fantasmas não devolveriam minhas carícias desperdiçadas e os meus sonhos, agora vivos por escrito... Os beijos que eu desejasse e dedicasse nas últimas linhas esperariam ser os primeiros do reencontro. Ainda que não houvesse reencontro. Mas os fantasmas não perdoam. Os fantasmas bêbados do que também me inebria lembram que a condição platônica é nossa característica mais genuína. E que a metafísica é linda nos livros, mas dolorida e insuficiente na vida real. É pela materialidade da experiência que estampamos beijos por escrito no final das cartas.
Não te escrevo uma carta de amor pelo pudor de ficar nua diante dos fantasmas com essas unhas roídas, as olheiras escuras e o hematoma da coxa esquerda. Não te escrevo porque a avidez dos fantasmas contrasta com a paciência que me obrigo a ter nos teus silêncios. Não escrevo porque se te cortasse da vida, como corto agora... E se sangrasse, como sangro... Se meu choro de alívio fosse água com sal pra te estancar de mim... A carta seria, depois da cura, uma cicatriz. E cicatrizes permanecem.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Ambidestra

A coisa mais inteligente que já vi alguém fazer foi não se deixar rotular. A recíproca é verdadeira.
Na retórica, disseram-me um dia, a melhor estratégia é enquadrar o argumento opositor em um molde qualquer: Relativismo, egocentrismo, existencialismo, neoliberalismo, budismo, estoicismo, hedonismo. Funciona. E funciona porque engessa o raciocínio e porque praticamente toda designação "ística" já foi combatida em algum momento cíclico da filosofia e do discurso. É como se o rótulo só trouxesse o revés aos ombros de quem o invoca.
Sabedora da técnica mais elementar da retórica, não legitimo um extremo só. E não compreendo a motivação da necessidade voluntária de abraçar um gênero, uma nomenclatura. Ou compreendo e, por isso mesmo, sigo reiterando que é no que não se identifica e no que não se deixa designar que as melhores sínteses acontecem. Que sejam livres os radicais, mas... Que eu possa continuar achando livremente que tudo que não aproveita a hibridez e o contraponto, mais dia menos dia, embota.
Que eu não seja isso ou aquilo, que eu me encontre sempre em trânsito entre isso e aquilo para jamais endeusar causas que, por fecundarem em pretensão ideologicamente puritana, nascem falidas. Que eu guarde distância segura do lixo de quaisquer designações e me dê o luxo de aproveitar o melhor delas. Que eu esteja um dia gelo, noutro água, noutro vapor, depois volte a estar gelo, que eu vire esfinge, não me importa. Antes de tudo, interessa-me mais a catálise ou o freezer. 
Ninguém me diz o que eu sou e, em certa medida, eu mesma não me digo, para assegurar o paradoxo. Então simplesmente não sei, não me sei, até que um gênero me caiba já terei mudado três vezes, e não há vergonha alguma nisso. Eu só estou. Quero os altos e os baixos para experimentar o valor do equilíbrio. Quero ser ambidestra para discutir até com os centristas, trabalhando e lucrando sem ganhar ou perder a razão. Quero lutar em nome de uma só causa: A chance de mudar de ideia. Quero herói e vilão de cada trama disputando pelo posto de quem é mais patético, por não serem o que há de mais peculiar e admirável, que é ser humano.
Tenho um dedo apontado para mim e desvio dele: A partir de então, limitado é quem me rotula.

domingo, 17 de novembro de 2013

.redecorteR


Como sempre, aguardo o apetrecho homérico, talvez mágico, que subverterá o tempo. Estou deitada e deslizo a mão sobre o lado vazio da cama, o mais perto da janela. A textura do cobertor alinhado me recorda a fruta. Cada dedo desliza devagar na direção de mim até que o braço não alcance mais a proximidade, desde a lonjura. Sinto com a ponta dos dedos e as unhas arredondadas, crescidas bem pouco para fora da carne, a maciez do gesto. Já fiz coisa igual duas centenas de vezes. É sem dúvidas a atitude mais genuína que poderia tomar, é sem dúvidas o lugar vazio mais cheio - de espaço - que poderia haver para ser tocado nesse quarto três por quatro.
Tomo um gole de água. Levanto da cama em marcha à ré até a cozinha e não esbarro em nada, como se fosse personagem de folclore. Fecho e abro a geladeira, tomo a garrafa gelada nas mãos, sem coragem de abrir, a bem de que o gosto me acompanhe. Faço barulho com o que sobrou de um pêssego, cada milímetro da minha boca se molda ao caroço, depois à carne da fruta, que acabou de entrar em contato com o entremeio dos meus dentes distribuídos mais à frente do que a estética entende conveniente. Meu queixo escorre a pressa líquida de comer o pêssego. Derramo a ânsia de um instinto misturado e primitivo de saciedade e satisfação. Sou voraz para tomá-lo à boca como o sou para descascá-lo, enquanto a saliva, ainda não corrompida, denuncia o quanto ele me apetece.
Alcanço o pêssego mais bonito e, não sendo flagrada, encosto-o à bochecha esquerda e fricciono levemente, como se do contrário ele fosse se derreter ou a cena toda fosse ter menos beleza. Olho a superfície afável e o degradê corado do pêssego, que fazem lembrar qualquer coisa entre a descrição detalhada da miríade de pelos finos e claros de uma nuca sob o sol e a pele-cobertura de uma dureza que não sabe ser madura, só inesperada, e não tardará para ser descoberta.
A sacola de pêssegos entreaberta na pia da cozinha se confunde com a minha própria vida. Quero corrompê-la, meus dedos desejam atravessá-la como se a um portal temporal e cósmico. Sou acometida pelo pavor absoluto do desejo de anteceder o próximo ato. Mas só me sei se for de frente para trás. Nunca posso me prever.
De repente estou sentada no sofá, com vontade de pêssego, sem me lembrar da importância do instante que virá, para aproveitá-lo ao máximo. Insuspeitando o impulso que me moverá para o que desejo e ainda nem sei o quanto desejo. Cruzo os braços no fim do filme como quem espera impaciente pela chance de confessar a fome multifacetada de todos os dias outra vez.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Fantasiosa


Hoje é domingo. Assisti um filme da tv aberta porque ele rimava com a minha frivolidade fantasiosa e criativa de domingo: As crônicas de Nárnia. Estranhei muito não poder pausar a programação. Por muitos anos só tivemos a tv aberta e os comerciais cronometrados me serviram bem, mas aos poucos, nos últimos tempos, acostumei a pausar os filmes, assistir repetidas vezes os meus diálogos favoritos e controlar o ritmo das cenas - Aslam do mundo que inventei pra mim, deusa-leoa da minha cinemania. Só que nos filmes da tv aberta, você não tem controle. Pisca os olhos e perde um tempo precioso que não volta. Igualzinho na vida real.
No fim da tarde, fui dar uma volta e passei por um cachorro. O cachorro não latiu pra mim, como fazem quase todos. E me incomoda que o cachorro não lata, já passo a pensar que ele não me acha exceção, não me percebe direito. Talvez seja só um grandessíssimo problema com o seu instinto farejador, mas passo a fantasiar que, porque não provoco nada nele naquele instante, o cachorro não deve me provocar nada em instante nenhum. Se o cachorro latisse, tudo virava festa. Talvez até me mordesse as canelas, mas quem se importa? Se o cachorro latisse, tudo virava agito. E eu adoro agito. Às vezes parece que os cachorros sabem desse pequeno-grande poder.
Não é estranho? É. Sou eu sendo. Gosto de cachorro que ladra e me desperta da vida, como se fosse brecar o tempo, fonoguiar o próximo passo, estagnar as voltas do relógio, desarmar o tic-tac que o mundo faz, com seu latido. Só que aquele cachorro em especial, aquele cachorro de hoje, parecia conformado com a lógica do tempo e só me assistiu passar.
Como o tempo aceita estampar sua lógica em um trombadinha, que continua sempre a correr da polícia, como o tempo se reafirma em cada dose de Johnnie Walker, que nos aconselha a continuar sempre andando. Como um espectador da tv aberta que desvia sua atenção e perde parte do espetáculo, mas pode reverter a situação caso se detenha no final do enredo.
Hoje é domingo e não tem coesão manifesta ou parágrafo finalizador lógico de raciocínio nesse texto. O tempo segue, o cachorro e eu também. Logo a gente se encontra e ele late pra mim, e eu sinto medo, ou faceirice, ou devaneio e lato de volta. O tempo corre se eu e o cachorro corrermos (atrás ou fugindo) um do outro... O tempo corre se ele latir ou não. Mas é melhor que, desconformado com a vida e desejando atenção, ele lata. Só pra mim.

sábado, 9 de novembro de 2013

Catedráticas

Nunca entrei na Catedral de Rio do Sul. Há quase um ano, com a frequência dos dias úteis, dobro uma esquina depois do Terminal Rodoviário e nesta esquina se encerra uma expectativa cotidiana. Tomo fôlego duas vezes e descubro se o sinal está aberto ou fechado para mim, e se terei ou não de esperar para cruzar a avenida.
Se não espero, chego adiantada na calçada contígua ao muro de pedra, que me provoca os mesmos pensamentos com suas fugas pretas desbotadas entre uma pedra e outra. Sim, se estou agitada eu só reparo no muro. Não sou católica das praticantes. Ignoro as escadarias. Especificamente ali, apressada, não sou mulher de joelhos para promessas ou perdões. Quase sempre eu sinto cheiro de vela queimando e isso me faz pensar no significado de súplicas, milagres e gratidão. Uma igreja inspira muita gente a ser melhor, penso. Camufla muito moralismo barato também. E em última análise eu refilosofo para dentro sobre religião, e uma expressão como ópio das massas me ocorre.
Se o sinal está fechado para mim e espero para atravessar, fito tímida e de cabeça erguida a arquitetura alva que simboliza a instituição de tanta influência. O relógio impreciso que badala tantos pecados inventados e depois confessados, bençãos concedidas, acordos de cavalheiros para a salvação da própria maldade e a glória de uma vida que promete ser eterna para os que creem nela. O sino ecoa pela cidade como uma bússola que aponta o norte da conduta dos fiéis, em uma demonstração de imponência nada pontual.
Dizem que quando entramos em igrejas pela primeira vez e fazemos então um pedido, ele se realiza. Catedráticas e, talvez por isso, poderosas. Procedi ao ritual uma única vez, quando era mais jovem e mais temerosa, em uma pequena igreja de interior, vazia e sem muita cerimônia. Não lembro qual foi meu pedido, e assim também não sei se ele se realizou. Provavelmente era um pedido de longo prazo e um tanto ponderado, pela força que eu reconhecia que profecias como essa poderiam ter, na época em que o fiz.
Hoje em dia sou mais relutante, mais cética com muita coisa. Mas a dúvida que circunda essa crendice me inspira, por isso dou crédito a ela. Então todas as muitas igrejas em que ainda não entrei preservam a possibilidade de realização dos meus desejos. Ao seu modo, renovam minhas esperanças nos sonhos. Curiosamente, mesmo que não entre nelas.
A Catedral de Rio do Sul simboliza muita coisa para muita gente, desde o poder de uma instituição ao atrativo turístico. Para mim, aquela Catedral de portas abertas guarda em si, entre tantas, uma expectativa em especial, que não se encerra. Reservo para quando entrar ali meu melhor pedido. Seja ele qual for, quando me vier. Aguardo a revelação que ainda nem reconheço e o momento sublime em que conferirei àquele lugar a chance do poder realizador de meu anseio mais profundo.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Pedra

Hoje vesti um short rosa pink, uma camisa listrada e um blazer preto, com um sapato de salto médio cheio de tiras em cima, confortável na medida do possível. Botei meus óculos escuros pretos e novos e fui andando altiva pela rua. Usar óculos escuros é um grande momento de glória feminino. É como se o uso dos óculos precisasse acontecer para escurecer a vista porque os holofotes claríssimos estão voltadíssimos para nós. Para as feias os óculos são ótimos e para as bonitas também, pelo mesmo motivo: Os óculos não deixam que o rosto todo se revele, há sempre uma aura de mistério. E eu, que estava agora em condição de paridade com as feias e as bonitas, era inabalável. Até chutar uma pedra, tropeçar numa pedra.
Uma pedrinha de nada, uma pedrinha perdida, uma pedrinha diminutiva e moleque, uma pedrinha juventude transviada da calçada em que eu seguia, uma pedrinha matreira. Uma pedrinha na minha esquerda. Com meia dúzia de ideologias válidas e outra meia dúzia de crenças falidas que às vezes se anulavam. Eram elas: Ser pedra. Existir em órbita no seu eixo de pedra. Edificar. Ser pedra. Incomodar. Ser pedra. Vencer o jogo disputando com a tesoura que corta minhas expectativas. Ser pedra. Perder o jogo para o papel no qual me escrevo. Ser pedra. Cruzar caminhos. Ser pedra.
O meu caminho era muito, muito, muito maior do que aquela pedra. Realista e autodefensora, eu era capaz - não sem certo pesar - de ignorar qualquer meio que aquela pedra tivesse de me provar o contrário. Não caio. A pedra me aparece no caminho e ainda é um projeto mal acabado do que podia ter sido.
Depois do tropeço não faz diferença que a pedra seja ardósia ou preciosa. Chuto a pedra. A pedra me chuta no universo paralelo que eu dispenso conhecer. Numa dimensão que conhece a altura, mas não mede a queda. Numa dimensão que conhece o quanto é larga, mas desperdiça coloquialmente sua sorte. Numa dimensão que conhece e experimenta a profundidade de mim e mesmo assim a subestima.
Tropeço e quase xingo a pedra, quase me declaro para a pedra, quase levo a pedra no bolso para uma recordação. E assim a pedra quase me ganha, mas depois me perde. Porque o meu dedo começa a doer por causa da pedra. A pedra estatiza meu sentimento como se ignorasse que meu estado é, por natureza, leve, e por isso de independência diante de pedras. De independência diante das pesadas substâncias, das sólidas substâncias, das pedras substâncias. Das perdas substanciais. A pedra é meu desejo de que a antimatéria seja composta pela reação de igual intensidade dessa ignorância diante de sua existência.
Pedra é um erro de gênero, número, grau. Não cabe em nenhuma das minhas contas e ângulos, não cabe nas minhas frases de amor, motivo pelo qual preciso enfiá-la num texto sobre o árduo cotidiano. Mas a pedra continua ali, e é meu tropeço que traz em si essa certeza. A pedra é o próprio tropeço e com ele se confunde quando quase me faz cair.
Vou andando faceira e inabalável. Tropeço na pedra. A pedra quase me ganha, mas depois me perde. Equilibro outra vez, alinho a gola da camisa listrada e ajeito o short rosa pink. Ergo e acomodo os óculos. E não espero nem deixo, pela saúde dos meus joelhos, mãos, minha carne, meus ossos... E não espero nem deixo, pela integridade dos meus óculos novos que fazem enxergar a vida tão confiante... Não espero nem deixo que pedra nenhuma me desvie de mim.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Policlichê

Não é o poliamor como eu o concebo, eu saberia se fosse. Esse é apenas mais um policlichê. E sua pretensa alternatividade subterfugia a carência desmedida e agressiva que sentimos todos. À margem, alguns de nós viram estas carências-arestas para dentro, e suportam. As arestas de vocês, policlichês, são ofendículos. Falo assim, a toda uma categoria, pois sou erudita no tema do quanto o caos desorganizado pode ser ofensivo e um tanto ridículo.
Nessa brincadeira passam todos, politicamente incorretos, à conclusão de que o amor é livre e não faz cobranças. À conclusão de que finalmente haverá em amores multifacetados contemporâneos a subserviência de não interferirem e não impossibilitarem um ao outro. À dedução ilógica de que o amor se prestará às conveniências, invirtudes e desverdades. À falha cognitiva de pensar que o amor, por ser plural, aceitaria menos que o máximo. Esquecendo-se de que ele é amor antes de tudo, e poli só lhe prefixa por um lapso subversivo, um desvio ortográfico.
Aceno a cabeça incrédula com a ignorância na interpretação. É claro que o amor é livre, mas o clichê não. Tsc tsc, na-na-ni-na-não. O clichê aprisiona, é cotidiano puro, escorre líquido, medo exponenciado, ojeriza densa, banho que não purifica. O clichê se aquece com o cobertor surrado enquanto a possibilidade de qualquer amor entra em hipotermia. O clichê não merece nem o mínimo, mas se contenta com ele. O clichê é limitado, vai até o momento em que o estalo acorda o sonâmbulo.
Estalo os dedos, aponto o indicador, com um sorriso contrafeito sentencio cínica: - Policlichê, doçura, só poliama quem está acordado. Mas ele retorna ao sono, pseudotranse, dormir de pé e seguir rumos aleatórios parece sua especialidade. O coletivo múltiplo do clichê é detentor da fórmula que faz as coisas darem errado, é a surda e prostituta prova de que o cano sempre esteve rachado, testemunha de que o único conserto possível é inutilizá-lo.
Senta aqui. Ouve bem. Travestir a canalhice em colorido hedonismo é piada laranja, vermelha e verde. Não é poliamor. Estamos hepaticamente verdes, mesmo curados, porque a culpa não amadurece o policlichê, tampouco o digere, apenas o romantiza. Amadurecer seria incumbência do amor que, quase sempre, não aceita fazer a trajetória mais curta, a trajetória da rotina. O poliamor bem direcionado é a exceção. O atalho tomado mata-o antes mesmo de nascer.
Teria mais tempo de ser fantástica se não tivesse motivos tão claros para me perder. Se eu não estivesse agora, nesse exato instante, em apressada fuga. De um policlichê.

domingo, 3 de novembro de 2013

O pior texto


O pior texto é aquele que não se escreve. O texto que não se escreve fica incrustado na memória e volta como fantasma em qualquer fragilidade. O encadeamento lógico de ideias que não cabem em domínio público é o inferno particular do escritor, já que nenhum diário merece o rascunho de uma obra que não será acabada. 
O pior texto é aquele que não se escreve, eu já disse, mas vou repetir. Sua força emana da força que não tivemos para compartilhar nem mesmo com o papel os nossos pensamentos, e é exatamente por isso que se torna tão assustadora a sua volta à memória. O texto não escrito que vai, volta confirmando a terceira de Newton. É como se nossa negação diante dele não nos redimisse da fraqueza afirmativa de nossas próprias construções mentais e relativizações sintáticas. Não é possível transferir a culpa de si para o texto não escrito. Escrevê-lo a eternizaria, mas não escrevê-lo atordoa.

Feromônica

Fui mais feliz quando não sufoquei, quando lancei mão do instinto possessivo e deixei que o pronome fosse ao meu lado se quisesse, inteiro e próprio, sem amarras. Fui mais feliz quando não fui assombrada pela possibilidade da perda, já que não se perde o que nunca se teve, e eu desejaria que nunca me tivessem tido de verdade. Fui mais feliz quando ignorei as grades de um sentimento, de um relacionamento, de um pensamento. Quando fui toda minha, quando estive livre para ir e vir, tanto, que já não cobrava as vindas dos outros. Quando as vindas me vinham, vinham vidas inteiras, em breves frações todas minhas. Fui mais feliz quando lembrei para sempre das cenas do filme mesmo sem guardar os bilhetes do cinema. Sem esperar que eles subvertessem na história que eu contaria aos netos e ao mesmo tempo convertendo-os na história de desapego que eu desejaria que lessem em mim. Fui mais feliz quando dei importância às coisas certas sem ignorar as coisas que tinham importância por sua própria natureza.
Fui mais feliz quando o amor nascia do que quando durava, do jeito que durava. A paixão sempre comportou melhor minha concepção de efemeridade diante da vida, a paixão sempre correspondeu melhor às expectativas que aprendi a não ter para surpreender o outro, para ser imprevisível como sempre desejei que fossem para mim. Fui mais feliz quando a corda firme que segurava leve era extensão dos meus braços, quando depois dela havia um partner habilidoso que girava só, girava ao meu redor, enrolava-se todo por desejar estar perto e desvencilhava-se com facilidade sem ferir minhas mãos. Tinha consciência da possibilidade de sua partida e soltava a corda sempre que precisasse, sempre que o braço doesse, sempre que não aguentasse a hipótese remota de prendê-lo e consequentemente de estar presa, engessada no nó de um passo de dança desajeitado. Eu queria era ser o exercício constante, a ginástica artística, festival de sucessivos movimentos graciosos, ciranda dos meus excessos.
Fui mais feliz quando minha felicidade esteve além da ideologia fixa, quer do amor tradicional, quer do amor moderninho. Porque fui feliz quando admirei um Cazuza exagerado e jogado aos pés de quem quer que seja e quando me identifiquei com uma Simone de muitos corações. Mas principalmente quando transitei no limiar, quando não precisei conceder ou pedir alvarás de soltura porque estar solta era uma questão de perspectiva, a perspectiva que eu mesma sempre me concederia. E que também queria que os outros concedessem a si mesmos. Já fui feliz porque tive reconciliações depois dos ciúmes que sempre foram desnecessários, e já fui feliz porque não sofri com o desejo da reciprocidade de uma fidelidade irrestrita em que não se pode olhar para os lados. Fui feliz porque confiei que meu jeito, torto como fosse, encantaria. Porque confiei que minha personalidade, em permanente construção como fosse, atrairia. Fui mais feliz quando me acreditei feromônica. Encaminhando-me a todo tempo para aprendizados que me acompanhassem. Para ideias que me permitissem, para pessoas que se permitissem. E que só voltassem para transbordar a completude que minha própria companhia trazia para mim. Fui mais feliz quando não estar presa me pareceu afrodisíaco.
Conjugo no passado uma felicidade que me parece futura, que nasce do desprendimento, do encanto transcendental, da identificação, da leveza, da atração e sobretudo da liberdade.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Dois corações

Ganhei um colar de corações da minha madrinha e ele tem um fecho engraçado. Os corações, que são o pingente, também são o fecho do colar. Um coração maciço, fininho, e outro vazado, só contorno, que têm aparentemente o mesmo tamanho, unem-se. Transpassam-se. Um coração passa por dentro do outro, e depois o coração maciço fica fazendo pêndulo no meu decote, um pouco distante do que é só contorno, que fica perto do meu pescoço amparando também o cordão dourado que passa dentro dele. 
Minha analogia primeira, dessas que me habituei a fazer, inclinaria à análise de dois corações que se pertencem, de uma pessoa e outra, cada qual em uma ponta do cordão, sentenciadas a só fazer sentido juntas. Suportando distâncias, cordões remanescentes, as finezas e aberturas uma da outra. Muito poético mas, na prática, acho que as relações entre corações, principalmente as que envolvem ao menos um coração que eu mesma carrego, não podem se valer de tal lógica.
Então passei a pensar diferente, em uma reflexão que pode parecer absurda, mas é um tanto mais adaptada à minha visão do amor (que não pretende ser menos absurda do que é). Atentemos ao fato de que tenho dois corações na história... Talvez ambos sejam meus. Talvez só um seja, e a partir daqui a história se divide em outras duas pequenas histórias, dois finais que pretendem terminar felizes.
Se apenas um coração desses do colar for o meu, outro precisa ocupar a outra ponta, e o que ocupa a outra ponta é o que está teoricamente vazio, à procura. Porque combino mais com o coração cheio de algum composto inerente aos compostos da bijuteria-semi-joia, que não se sabe muito bem o que é, mas que parece ouro aos meus olhos. Uma camada bem fininha e por isso aparentemente frágil, de material maciço, folheado a esse valor que costumamos atribuir ao que sentimos.
Sou mais parecida com o coração que, para existir, ter função ou mesmo ser amado - seja lá a medida que emprestemos à metáfora - requer algumas concessões da outra parte. E em troca brilha, caleidoscópico. Brilha na altura do peito, brincando faceiro com o precipitar dos meus movimentos, entre um passo e outro, entre um virar de tronco para espreitar a vida e outro. Se sou o coração maciço, nem por isso o outro me será menos valioso. Somos da mesma matéria, afinal. Entretanto, a outra ponta jamais será réplica exata de mim e jamais será posse minha, na qual eu mando e desmando. Ela não serve para me repetir, ela me emoldura e, à sua medida, aceita me suportar. Nossa composição não é elementar, já fazíamos sentido muito antes, só de dividir a volta que o cordão dá ao pescoço - que é o mundo para o colar em questão.
O caso é que juntos temos muito mais graça, o coração-contorno e eu. Somos tão bem pensados que - juntos! - o lugar-comum de um coração, que é no peito, parece uma ideia genial. É assim que estar junto de alguém deve ser. Uma repetição, porque até o mundo da moda e o da política são cíclicos, quem dirá o mundo do amor, mas uma repetição que tenha em si uma audácia gritante, que não lhe permita ser confundida com qualquer outra repetição.
Talvez, contudo, os dois corações sejam meus. Por não querer frustrá-los, leitores, apresentei de antemão esta possibilidade um pouco mais egocêntrica, e deixei para explorá-la no final. Se admito conter ambos os corações é porque reconheço a força das contradições do que sinto. Porque desse modo eu poderia reservar para mim um coração permissivo, que aceitasse ser invadido, transpassado sem muitas delongas, e também um outro coração que invade. Um que foge, outro que aceita, como diria Caio Fernando em outra ocasião. O que foge desejaria alçar voo, já o que aceita, resiliente, conteria o que foge pela graça de ter estado perto.
Se os dois corações fossem meus uma volta do coração preenchido sobre a haste coracionada do que é vazado seria muito necessária, do contrário escorregariam cada qual para seu destino, como em um cabo de guerra dourado em que só a queda alivia a dúvida de qual dos dois vence.
Se esses dois corações forem meus, e é bem provável que o sejam, buscam equilibrar-se no peito para fazer justiça com meu direito de ser feliz sem reservas, equilibrando a solidão e a companhia exatamente como Têmis, a deusa cega equilibrando a balança e a espada. Se esses dois corações forem meus, um implora sossego enquanto torce, em vão, continuar sendo útil ou manter-se inteiro, mesmo cheio de espaço. O outro aceita ser de alguém que o tome nas mãos para com elas enxergar, como acontece com meu colar.