quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Poderosamente: A força que o discurso tem

Eu devia ter cabalísticos sete anos quando olhei pro céu e imaginei que o movimento das nuvens demonstrasse, na verdade, não uma corrente de vento ou qualquer coisa que o valha, mas a rotação da Terra. Naquele momento aquela me parecia uma ideia iluminada e que me elevaria ao patamar de Newton, Darwin e o povo todo das ciências naturais, grande parte que eu ainda nem conhecia. Não era verdade, talvez vocês já saibam, mas o poder que aquele discurso recém-criado exercia em mim surpreendia. Os discursos tem sempre esse poder.
Não  lembro, por exemplo, de quem me ensinou a dançar em par, mas em todas as danças em par da minha vida aquela mesma voz indecifrada ecoará dizendo dois pra lá e dois pra cá com uma força que desconheço de onde vem. Porque o discurso sempre tem poder exatamente como acreditamos nele, e acreditei peremptoriamente que aquele era o melhor jeito do mundo de dançar quando o aprendi, talvez por isso ainda não tenha aprendido jeito que me pareça mais apropriado, motivo pelo qual ele continua valendo.
Eu devia ter uns decisivos vinte anos quando um cara me disse que podia curar a própria carência com qualquer garota e aquilo não me parecia muito verdadeiro, aplicado às regras da minha vida, mas talvez porque ele acreditasse naquele discurso o próprio discurso operasse milagres e desastres na vida dele. E nos distanciasse. Os discursos têm também essas variações de poder: Eles podem tanto que aproximam ou distanciam pessoas.
Há aqueles que criamos em imaginados momentos de inspiração, como minha teoria infantil sobre as nuvens, e aqueles que são repetidos por séculos na tradição, como dançar dois em dois, ou no livros - que, aliás, também são discursos. Não importa que os discursos que formulamos sejam mais frágeis, mais cheios de arestas e possivelmente valham menos do que aqueles que já foram confirmados e abaulados por todo empirismo ou toda ciência. O que se mantém incólume é a força que operam independentemente dessa classificação. 
Não importa se somos os chatos que repetem os discursos inventados para arrebanhar interlocutores para o nosso lado da mesa ou se permanecemos na quietude de quem acredita desacreditando, mas segue firme os próprios ditames. Funciona para a política, para teorizar sobre o amor, para distanciar e unir pessoas, para tudo. O discurso pode, inclusive, mudar e se contrapor com o passar dos anos, mas a força que operou enquanto vigente não pode ser combatida.
O discurso versará sobre economia mundial, sustentabilidade, axiologia das normas, coisas bobas como nuvens, danças ou carências, porque não é a matéria que move as ideias, mas o modo como moldamos essa matéria em algum ponto do corpo que é responsável por armazenar o molde na forma de um discurso em que acreditamos. Se Kafka tinha mesmo razão quando disse que de certo ponto em diante não há retorno possível e a esse ponto é que é urgente chegar, arrisco que a premência do ponto referido se consubstancia no instante da escolha dos discursos que, eleitos, passam a guiar nossas vidas poderosamente através das convicções.

Um comentário:

KATIAF disse...

Me permito falar (escrever), brevemente, sobre o poder da posse do discurso. Não o farei da maneira poética como vc tão bem conduziu o seu discurso, mas farei do meu discurso, um chamado... um chamado para a massa... saibam decifrar discursos; uma chamado para as mídias... usem o discurso para o bem da sociedade; um chamado para os políticos... vcs que também, tão bem, usam usam o discurso... saibam olhar e tenham atitudes para a coletividade; um chamado para os leitores... interpretem o discurso observando o contexto que em que ele foi criado; um chamado para os que discursam... usem as palavras (escritas, ditas, desenhadas, simbolizadas) para todos!