quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Os olhos de agora



Os olhos de antes eram doces. Qualquer meia dúzia de cenas ensaiadas, de gestos planejados e de promessas os fariam sorrir. Os olhos de antes sempre se contentaram com pouco porque nunca souberam qual medida usar por parâmetro para ver. Pouco e quase nada é, ainda, algum detalhe a ser observado. E disso parece que eles sempre souberam - porque eram doces e sorriam.
Eles se enchiam com alguns. Alguns de encher os olhos. Deve ser por isso que não hesitariam em suplicar, silenciosamente, que eu afastasse o corpo a uma distância peculiar de hipermetropia, para que esses olhos encontrassem, compreendessem e definissem aos meus sentidos as sensações, em certa feita. Deveras, os olhos se comunicam. E talvez precisem dos centímetros que um tronco reclinado para trás por alguns segundos pode proporcionar para ter noção de familiaridade com a ocasião. Proporcionaram. Era uma cara toda sorrindo em lábios fartos, alertando-me aos olhos a que vinha. Detectar sinais, sabe-se lá de quê. Para isso, por sorte, eles serviram.
Meus olhos de antes enxergaram tudo o quanto foram capazes ou, talvez, tudo o que eu desejava ver com os olhos que tinha. Procuraram por longo tempo outros pares de olhos que pareciam existir só para esbarrar consigo. E esbarraram tantas vezes, de tantas formas e de tantas outras histórias desde então, que se cansaram de não ver o que não viam.
A rebelião dos meus olhos foi natural, despreocupada. Meus olhos de antes cansaram de camuflar a verdade e se transformaram nos olhos de agora. E enxergam tudo com uma definição de alta qualidade, assombrosa, nítida, superlativa e sintética. Perdeu-se em doçura, ganhou-se um pouco em cinismo. Os olhos de agora querem o novo, e ao dar com aqueles olhos que esbarravam nos olhos de antes, não piscam. Ao ter de encontrar, não vacilam. Ao ter de esquecer, não ficam rasos d'água. Ao ter de distanciar, não dilatam de excitação no escuro do quarto. Apenas se calam. Simplesmente. Mudos. Nem cheios de si, nem vazios de mundo.
As sobrancelhas discretamente franzidas de ironia, logo acima dos olhos de agora, é que então sussurram: Tolice não se divertir lembrando das inverdades que os olhos de antes fingiam se esquecer de possuir... Justo porque há um certo conforto em admitir que as loucuras de antes ainda ardem, absolutas, nos olhos de agora.

3 comentários:

Anônimo disse...

Os olhos de antes camuflavam. Eles estavam ligados diretamente à emoção e não à razão.
Os olhos de hoje vêem. Eles estão ligados diretamente à razão do sofrimento de ontem e não à emoção do encantamento de amanhã.

Sonhar com os pés no chão, não é fácil tarefa para uma sonhadora. No entanto, a dura realidade chama meu nome!

Deixei de ser da época (em partes). Cansei do preto e branco e da tradição. Agora vejo colorido e só quero o que me faz bem!

Frããn,

Sou C! disse...

Em determinado momento, os olhos de antes sempre viram olhos de agora. E os de agora um dia serão os de antes... E é ótimo que seja assim!

Amizade em sincronia. Do destino, ironia pouca é bobagem...

Anônimo disse...

Espero apenas que seus olhos não cansem de enxergar, pois assim se perderão nas visões das cores nebulosas. Enquanto verem, por mais ofuscadas que sejam as cenas que são vistas, ainda se poderá jorrar algumas lágrimas perdidas e sobrar alguns rasos d’água. Talvez sejam da emoção da razão... Os dois olhos podem conviver em harmonia, porque não a emoção e a razão! Conheço olhos que assim o são... Mais próximos do que até eu consigo perceber!

Kamikasianami!