segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A um irremediável sacana

Boa tarde, seu grandessíssimo sacana. Sumiu, né? Posso dispensar as diplomacias do tudo bem ou como vai? Ótimo... Assim, faço de conta que me sinto à vontade. Como têm sido os dias? Bons, por aqui. No trabalho, eu mudei de função. Agora sou estagiária do gabinete e, embora pouca diferença isso faça, sinto que as pessoas se alegram um pouco por mim ao saber, por isso estou contando. Não faço mais diários de bordo. Nem escrevo com tanta frequência, não tenho sentido necessidade, como você já deve saber. É como se eu invadisse a vida das pessoas, agora, porque tudo que ouço e leio é pessoal demais. Estou digitando audiências e aprendendo a redigir despachos. O ofício me agrada. Trabalho em uma das maiores salas, e permaneço bastante tempo sozinha. A porta ao público fica sempre fechada, sem o habitual aviso de ar condicionado. Isso me confere uma imponência quase oficial.
As aulas terminaram na semana passada, mesmo com os contratempos. Acho que meus professores conseguiram dar conta da matéria, ou estão tão cansados com o final de ano quanto nós. A segunda hipótese é mais razoável. Tenho comido muito chocolate, lido um pouco e ainda não peguei sol nesse verão pra esconder as marcas da catapora e da psoríase. Entretanto, nada disso faz diferença considerável, para mim. Porque eu nos pus em regras duras demais. Passei por fases odiosas, eu sei. Detestei cada músculo que me faz dar meia volta, seguir-te da maneira mais literal que conheço e te caçar pelas portas cerradas atrás das quais você se esconde e dá novos rumos a novas gentes. Quis excluir os registros e não tive coragem, embora raramente lembre-me deles. Desejei paralisar os impulsos vitais que me eram concedidos nos beijos de despedida - sempre ao centro demais. Que destes esperançosamente em tantas outras faces, seu baita sacana. E ainda assim, eu sinto falta do riso, das mãos desajeitadas que conduziram semanas de olhos que cintilavam de maneira especial. De uma perspicácia forjada e orgulhosa de si mesma. E te escrevo para contar dos meus dias.
E como mencionar essa abnegação dos meus conceitos mais primários de amor-próprio não é do meu feitio, apenas escrevo. Resiliência, ocorre-me agora. Escrever faz sugar das últimas memórias, apropriadamente quase esmaecidas, uma gota sempre nova e brilhante de energia para me mover em frente, ou ao seu lado. Não, não. Esqueçamos o "ao lado" em nome dos bons modos. Sei que estás sempre à frente.
Distorci tudo vinte e nove vezes, mais ou menos. Eu repassei mentalmente cada despedida, inclusive aquela no meio da rua, que acho que foi uma das últimas. Eu lembro o eufemismo que vestia. E embora isso não tenha nenhuma relevância, faz com que eu sorria de satisfação pela vida que levava, clandestinamente leviana e, por isso mesmo, absurdamente motivadora.
Apareça logo! Eu sei que, sacana como lhe é próprio, e lindo, você virá. Pra me deixar pensando que tudo foi um erro, que tudo valeu a pena, que ainda valeria considerar, ou ao menos para fazer com que eu sorria para dentro assistindo tuas novidades como personagem-espectadora. Eu vou indo porque agora sou estagiária do gabinete e não posso chegar atrasada, você sabe como são essas coisas.

Confiro sua não-resposta quando voltar para a casa. E como acho aquele "atenciosamente" muito formal para essa não-conversa, vou me despedir meio romântica e meio sincera:

Sempre,
sempre meio tua,
meio presa a ele
e meio toda-livre,

Claudia L.

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