terça-feira, 1 de setembro de 2015

Sorri e vive

Um pragmático age, refreia e espera o confete. Sua racionalidade coage e manipula a realidade para que caiba em uma premissa da física, uma regra geral, uma verdade, um preceito lógico e moral. Um pragmático se preocupa com o que vai parecer, certo e errado como adversários. O artista só aparece e atropela.
Um artista não pede licença para fazer suas escolhas. Ninguém vive a dor e a delícia por ele. E ele não mede a dor de antemão. Para um artista, a aprovação alheia é, no mais das vezes, apenas a aprovação alheia. Boa, mas prescindível. O artista pode errar cem vezes, pois se perdoará, insistindo cento e uma.
Um pragmático não se converte em artista da noite para o dia. Não se aprende. Um artista se permite, e permitir-se é sempre um risco. Requer coragem. A arte é, por excelência. O pragmático tentará dissecar a alma humana, enquanto um artista a reflete e toca. O toque é lento, fundo, raro, intenso, imediato. O pragmático se debate, porque não compreende - sobretudo não compreende, embora demasiado tente - a complexidade. Um artista também não, mas se conforma. Faz parte. Sabe sempre que tudo passa, e um carrossel passa, repetidamente, pelo mesmo lugar, e a criança não sorri menos, apenas solta os braços e sente que voa.
O artista vive lutos excruciantes e aprende com eles, mas em pouco tempo os pesos não pesam mais. O pragmático se concentra no fardo, até se confundir com ele. Suas memórias repetem os desacertos, preocupa-se com os mecanismos. O artista só engrena, samba, empresta e doa. Um pragmático cobra caro. Um pragmático nunca trombará com um artista sem repreendê-lo.
O artista provoca um riso constante e o mundo enternece com a cara pintada e bendita. Um pragmático pragueja. O pragmático espera que o amor encaixe, feito tetris. O artista, inteiro, transborda e pede mais.
Mãos dadas com a intensidade, abre-se o mundo, levitam os caminhos. O artista desfila na avenida da vida, braços abertos entoando a canção, o coração repleto. E o pragmático tenta, em vão, compreender este mistério. O artista, não. Sorri e vive.

2 comentários:

Anônimo disse...

E eu tentando ser artista pragmatizando sempre...

Elizabeth P. Teixeira disse...

Como sempre seus textos me encanta.