terça-feira, 22 de setembro de 2015

Ninguém se salva de si

Vale mais o que fazemos do que nos fizeram do que o que nos fizeram. Eu digo isso para parafrasear Sartre irresponsavelmente, é claro, mas muito mais para me catequizar no acerto.
É que eu tenho percebido nas pequenas coisas, como ir até o Sirmione almoçar sozinha e não sentir solidão alguma na minha companhia, que as coisas podem ser boas apesar de. Encho o prato de tomate, cenoura e alface e fico contente ainda que ninguém aplauda. Sento de costas para quem chega, não atento para, não desperto ou provoco um olhar sequer, senão do garçom e dos senhores do caixa, porque lhes é ofício. E mesmo quando passo despercebida tenho estado em paz, a alma sorrindo. Sem deixar de aproveitar o que me é dado.
Bate um vento, a basculante fecha num susto. Eu bato os talheres, a criança ao lado chora, o velho esboça um bravejo. Aquilo, é claro, toca cada um de um jeito. Como rigorosamente tudo no mundo.
É por isso que não vale deixar o mar revolto de fora perturbar a maré calma de dentro. No fim do dia é cada um por si. Mesmo para quem dorme com as pernas entrelaçadas, no fim do dia é cada qual com seu cada qual. Se eu morresse amanhã - e os deuses que me livrem, porque sabem que quero viver mais umas oito décadas - uma lição bonita eu já teria aprendido: já que ninguém se salva de si, é útil inventar, a cada dia, um jeito bom de conviver consigo.

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