Tirem as crianças da sala que hoje eu estou imprópria para os menores e os sensíveis. É que parece que quebrei a cara de novo. Literalmente, porque embora eu não tenha apanhado a minha cara tá um lixo, inchada de tanto chorar, como em novela mexicana. Aflita. Em pranto. Soluços intermináveis. Isso que eu comecei não fazem nem duas horas. Eu sei que eu sou mais patética do que o aceitável fazendo e contando isso, mas... É assim com boa parte das pessoas e escrever é um jeito de externalizar a sensação de "Porra! Desamor é foda". E mais uma vez é como se o dia demorasse muito mais pra acabar do que a paixão demorou pra perder o efeito.
Uma decepção muito grande sempre faz o meu coração apertar. Primeiro de raiva por, quando dou por mim, ter deixado tudo ir pelo ralo. Sempre com a sensação de que foi depressa demais. Depois aperta de tristeza. Depois de frustração por ter apostado alto demais - em mim, no outro, na sensação de descontrole que ficar louco por alguém implica. Por que diabos eu nasci com essa predisposição deletéria e doentia de me danar? Talvez todos nós tenhamos nascido, mas hoje a minha proporção, ainda que anunciada, parece excruciantemente maior.
Já foram tantas histórias diferentes nesses quase vinte anos e no final elas foram todas iguais. Doídas. Sei que esse texto não tá ficando bonito ou esteticamente polido como os outros. Eu soube que ele não seria bonito desde o início, se vocês continuaram é porque se sentem adultos e insensíveis o suficiente pra feiúra do que eu tô sentindo. Esse texto é feio. E é porque ele representa o fim de uma história, e o fim de uma história nunca é bonito. O fim de uma história é curto e grosso. Atordoa. Vem seco e embucha na garganta, não importa o quanto a gente beba. E eu vou beber, eu me conheço. Porque ser comum é a melhor receita pra recuperar o juízo. Porque o fim de uma história é sempre fodido. E o que é fodido tende a merecer a embriaguez.
É. Quando uma paixão acaba eu preciso esquecer as regras de boa moça, escrever palavrões que ninguém lê e berrar aos quatro cantos coisas que ninguém tem saco pra ouvir. Porque todo mundo se dana com o final do encanto, mas só uma meia-dúzia se compadece da agonia do término alheio. Se vocês chegaram até aqui, vocês são tão guerreiros quanto eu, que tô estocando a ferida com uma faca de cozinha, escrevendo essas palavras tão prematuras.
É claro que eu sei que no final das contas eu sempre vou lembrar só do que foi mais marcante e talvez essa história nem seja tão marcante como eu penso que ela tenha sido. Curta, intensa. Mas igual. Ridiculamente igual às outras. Quanta idiotice ser romântica, se uma paixão é sempre assustadoramente menor depois que morre. Um romance só é delicioso verde. Maduro ele já perde a graça... Uma história que apodrece, então, não vale de nada. Um fim justifica todo o meio, porque não importa o quanto as coisas sejam bonitas, elas vão terminar mal, se o assunto pertine ao coração. É assim que a vida é, percebo, sorrindo cínica com o rímel todo borrado.
É carnaval e a decepção faz folia em mim, como já fez em outras estações, feriados e até dias santos. Não vai ser a última desilusão. E elas passam. É bom pensar nas coisas com certa praticidade nessas ocasiões. E isso, dessa vez e sempre, eu aprendi mais cedo do que gostaria. É mesmo uma sorte muito grande que a gente tenha a vida inteira... Pra se desiludir. Pra se tornar mais cínico com o passar dos blocos de esperanças quebradas na avenida. Pra amargurar as perdas incompreensíveis. E pra assegurar que essa sensação de teimosia em crer no amor um dia, talvez, quem sabe, valerá a pena.