sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Regulando mixaria


“Uma coisa só me maravilha mais 
do que a estupidez com que a maioria dos homens 
vive sua vida: 
é a inteligência que há nessa estupidez.”

 ("A obra em prosa de Fernando de Pessoa". 
Livro do desassossego, 
Publicações Europa-América, p. 241)



Talvez eu quisesse me permitir reprovar nas lições de sanidade, em nome de alguém, como me é próprio e em uma fórmula básica (que sempre funcionou um pouco) em vez de ter ao alcance uma paixão que me educasse e me transformasse na adulta chata e realista que nunca desejei ser, como está acontecendo nessa semana sabática.
Sim. Porque é possível que se viva toda uma vida muito mais otimista do que a perspectiva frustrada me sugere. Talvez eu quisesse simplesmente intuir que nasci com queimaduras de terceiro grau, pelo lado de dentro - só por saber o quanto querer ser inteira para o outro me é inato e me arde - em vez de ser questionada se não tenho medo de brincar com fogo. E não. Não tenho. Queimarei quantas mil vezes for necessário. Perto ou distante - é só escolher, ou deixar que eu escolha.
Mas e se, de repente - que me escuse o finado Steve Jobs - eu já soubesse exatamente o que eu quero, sem que ninguém precisasse me mostrar isso, ao contrário da maioria dos outros? E se de repente, de tanto ser rato, eu me cansasse e me entediasse antecipadamente da brincadeira de ser gato? Cansasse das procuras silenciosas e vorazes que essa agonia tão nova, e ao mesmo tempo tão batida, me exige!?
Experimentei e não gostei. Então sugiro essas hipóteses, como quem aconselha a abrir os olhos para um horizonte maior que o próprio quarto, que as próprias teorias. Dosar o tempo dedicado é superestimar a falta que se pode deixar de fazer. É um engano imodesto demais. É regular o que poderia ser mais que bagatela (ou mixaria...), não fosse a vontade de, pela primeira vez, impor as próprias regras. 
Manipular o início de um jogo tão perigoso sozinho é correr o risco de estar abandonado na mesa na hora da batida. É prevenir-se da melhor fase como se essa estupidez ao levar a vida fosse inteligente o suficiente para compensar o desperdício dos mistérios de quem - veja você - está interessado. O descaso com os mistérios de quem não é suficientemente burro para aprender lições que não deseja, goela abaixo.
Ainda que os mistérios inteligentes possam não interessar a alguns, sempre lutei tanto pelas minhas certezas. Para manter um olhar leve sobre a vida, apesar das quedas, evitando negar o contato. E é por isso que a cada hora contada e distante eu só tenho ainda mais convicção de que eu não quero - definitivamente não quero - uma paixão que me eduque a não ser eu.

2 comentários:

Jeferson Cardoso disse...

Oi C! Conhece a canção “Como nossos pais”? É real. E a frase do Carpinejar “Liberdade na vida é um amor para se prender”? Também é real. [sorrio]
http://jefhcardoso.blogspot.com lhe espera. Abraço do Jefh e bom feriadão.

Jean Pierre Costa disse...

Começando bem o dia.