sábado, 25 de julho de 2015

O Batman não voa


Desci atrasada e sem lentes para o aniversário de três anos do Érick. Minha mãe já havia entregado o nosso presente: uma máscara e uma capa do Batman. Quando cheguei, cansado do corre corre das crianças, veio até mim como quem tem uma ideia genial, pedindo que pusesse a capa nele. Enquanto as senhoras da sala comentavam, aos cochichos, dos perigos de que uma criança da idade dele se engatasse em algo com a capa ou "entrasse demais na fantasia", fechei o velcro preto com cuidado, frouxo o suficiente para que não ficasse desconfortável. A máscara ele mesmo pôs, enquanto subia no sofá (aquele sofá que a tia mandou tirar os pés pra ficar mais rente ao chão, sabe-se lá por quê).
O pequeno ensaiou o pulo umas três ou quatro vezes. Quando finalmente tomou coragem, dobrou bem os joelhos e se precipitou em direção ao chão. Já no chão, olhou pra mim por uns segundos, olhos azuis estralados, e parecia assustado: "Não voa!?". Andou devagar pela sala, matutando. Pulou mais um pouco na espuma do sofá e, como quem descobre um defeito de fábrica, sentenciou: "Não tá voando". Cismava com as sobrancelhas franzidas enquanto arrastava a máscara para a testa. Estranhando que o pulo não tivesse sido mais que um pulo, saiu em direção à garagem, onde estavam os homens, olhando para os rostos, com atenção e cenho habituais. Alguém haveria de resolver a questão! Enxerguei o suficiente para perceber que balançava a capa e repetia: "Não voa!? Não voa!? NÃO VOA!?". Mas ninguém lhe deu muita atenção, então ele arrancou a fantasia completa e voltou pro quarto de brinquedos.
Não voa, Érick. É assim com muitas coisas na vida, não importa o quanto tentemos nos convencer do contrário ou o quanto fiquemos atônitos com a constatação. O Batman não voa. Pode ser um cara muito legal ou com uma boa farsa (identidade secreta e todo o mais), mas provavelmente não pegará voo nunca. Talvez tenha sido criado para não voar, talvez tenha medo de altura, talvez se sinta impotente, sem asas. Talvez esse não seja seu superpoder. Sendo você, o papai ou o Ben Affleck, o Batman não voa. Não tivemos coragem de te dizer no início, tinha tudo para voar, mas não voa. Deixe ele pra lá, se te chateia tanto. É a frieza, recomendável, de entrar demais na realidade - e não na fantasia, como temem as sábias senhoras da sala.

Aproveitemos os pés fincados no chão, e aprendamos, ainda que decepcionados, a brincar de outra coisa menos incrível e mais real.

Um comentário:

Elizabeth P. Teixeira disse...

Gostei, é simples e te prende até o fim.