terça-feira, 13 de julho de 2010

Leituras, tapetes e viagens em geral

Estive sem internet por três dias na semana passada, e o resultado foi uma desintoxicação (ao passo de uma abstinência) que há muito eu não houvera tido. Escrevi, é claro. E acho que desintoxicada as ideias me saem mais soltas, com gosto de diário. Não sei direito se isso é melhor ou pior mas, em todo o caso, hoje tirei um tempo pra transcrever:
O tapete fofo e novo esperava que meus pés tocassem nele depois da retirada dos sapatos. Um pequeno prazer que eu ainda não havia tido. A TV nem precisaria estar ligada, pois eu não a ouviria. O livro que o Leo me deu esteve jogado na minha estante desde ontem. Eu queria começar a lê-lo porque era um presente e porque parecia que me deixaria mais interessante e porque eu queria mandar uma mensagem para o Leo dizendo qualquer coisa sobre ter gostado, ou mesmo não, porque era ainda uma alternativa. Talvez, tudo isso pra que ele me achasse menos tudo que ele pode ter me achado nos últimos dias. Hesitei. Na noite de ontem, eu não tinha ânimo para ler porque tinha muito no que pensar. Todas as noites eu tenho. Dessa vez, não. Pus-me desajeitada na cama. Ali pelo meio. De um jeito que, sem os sapatos, pudesse encostar meus pés no tapete fofo e depois subi-los até formarem um quatro, assim, meio tosco. Ou só encolhê-los. Minha coluna dobrava-se por conta dos dois travesseiros. Eu estava sozinha em casa, em instantes alguém chegaria, pra dizer qualquer coisa sobre a falta de postura, compostura, normalidade, porque quando a gente quer silêncio um pouco de barulho sempre chega, isso é certo. Aproveitei o pouco de silêncio que me restava e li as primeiras páginas com avidez. Logo minha mãe chega, é claro. Primeiro me pediu pra comprar pão, depois me perguntou o que era o “acaso” que o Leo tinha escrito na dedicatória do livro que, sim, ela notara derrubado sobre os outros. Contei-lhe sobre as duas encomendas que ele havia feito, e não consigo ser sincera ao responder se ela acreditou ou não que ele é, mesmo, só um amigo. Não, um projeto de amigo. Pois isso não é importante hoje. Voltei ao meu quarto, pé no tapete fofo, pernas, leitura. De repente me berra lá da cozinha, ou da sala de janta que aqui em casa não é repartida da sala de estar, e me pergunta sobre uma palavra. Antropocentrismo. Perguntou se eu sabia o que era aquilo e eu respondi muito confiante. Eu sabia que sabia. Ela também, pelo visto. Depois me perguntou sobre outra. Biocentria. Essa eu não sabia, mas respondi, mesmo vacilando. Pra ela ter gosto de me perguntar coisas. Não saber a segunda palavra deve ter conferido menos certeza à minha primeira resposta. O que tecnicamente nem importa, eu mesmo nem me interessaria pelo trabalho do grupo de estudo da minha mãe ou por uma palavra como era aquela: Biocentria. E não comi os pães. Apesar do bom aspecto, não tinha mais fome, ou ao menos não queria ter, porque ler era o que eu esperava. Deito-me, coluna torta, um capítulo inteiro, e ela me pede para alcançar a tesoura, acomodo o livro, alcanço. Por pouco não me ofereço para cortar as folhas que ela cortaria, mas achei que fosse um pouco injusto com o meu livro, que esperava debruçado sobre a minha colcha florida, no meu quarto que tocava a mesma música que toca agora, ou alguma muito parecida. Perto do meu espelho, do quadro que me tem sorrindo com janelinhas de falta de dentes e com o meu armário e a minha caneta que ninguém guarda nunca, e um mural cheio de recortes e a nova aquisição da família: O meu tapete fofo e bege, que nem se mensura o prazer de pisar. Retornei, pois, sem cortar nada. E li. Ao ler, uma espécie de campo magnético se forma ao meu redor, mas que tolice isso do campo magnético, que seja. Eu li. Até minha mãe retornar e não dizer nada sobre os sapatos jogados no chão e a música mais alta do que é preciso e sobre a minha coluna e devolveu a tesoura à gaveta, pediu-me que achasse uma fita que colasse o papel muito importante que ela havia acabado de cortar por engano. Às vezes as interrupções me irritam, às vezes não. As do gênero “ache isso, cole aquilo”, especialmente quando estou lendo, irritam muito. (Mas me ama, ela, eu sei que me ama) Colei. Dei de ombros à cara de reprovação que ela não fez, colei mal colado, pus na cômoda e voltei para minha leitura. Tapete fofo, pernas em quatro, todo aquele ritual. Então meu pai chega, e ouço a TV em algum volume que provocasse minha música alta. Não fez menção de pedir que eu abaixasse o meu som, nem me cumprimentou muito cortês, porque não lhe é do feitio. (Mas me ama, ele, eu sei que me ama) Acho que conversavam sobre o goleiro que matou a mulher e deu de comer aos cachorros. Desconectei. Meu livro era mais interessante do que uma morte trágica dessas, o próprio goleiro ou mesmo os cachorros – muito menos os cachorros. Não ando sensível às ternuras dos outros. Nem às minhas. Foram páginas inteiras, poucas, mas inteiras, de expectativa. As estórias têm esse poder de encantar a gente, coisa que um livro abandonado na estante não faz. Lembrei-me das coisas que já tive vontade de escrever. Lembrei-me de tantas coisas. Os livros que não li. Ia pensado no que ia escrever. Na noite de ontem, na vista da cidade inteira, no humor, na indisposição para o livro. Numa vida que consegue imitar a arte. Numa arte que não é outra coisa a não ser retrato de vida. No fim, todas as histórias já estavam escritas - ou serão escritas algum dia, ainda que não estejam nos livros. O sapato está jogado, o tapete fofo, inerte. Meu pai jogado, também, mas no sofá, irritado com minha música ou distraído com as reportagens do canal 28. Minha mãe saiu. Acho que a ouvi se despedir, tinha uma reunião. Ao Leo eu ainda não agradeci a última vez, ou mesmo comentei o final do livro, acho que seria equivocado da minha parte e, para ser sincera, o Leo ainda não é tão importante quanto o livro que ganhei de presente do Leo. Acho agora que deveria ter feito do Leo personagem com outro nome para preservar-lhe o direito de não morar nos meus escritos desajeitados. Não fiz. Estou vendo tudo passar, sentindo os pés gelarem, por isso dou valor ao tapete fofo. Os cabelos não me deixam enxergar muito os lados ou ter disposição para fechar a janela. Ou quem sabe fazer um chá. E eu não sei como terminar, o que é pior. Acho que nunca sei como terminar, inversamente ao quanto sei começar... (Penso agora que isso é o sentido do texto, e que o final sempre parece o sentido dos começos e dos meios) E começo tantas coisas, escrevo tantas outras. Lembro muito... Acho que, por isso, ainda estou escrevendo. Porque me lembro. Mas não sei o que serão das coisas todas que passam e das quais escrevo. Não sei o que será do livro, acho que vou abandoná-lo outra vez agora que o terminei, mas não sei. Talvez o recomece. Não sei do que será o papel mal colado, do meu estômago, o pé gelado. Há uma série de outras coisas para se ler ou escrever, alimentar. Ou mesmo lembrar, mas tudo às vezes me é tão absurdo e indiferente que só termino. Acho que sou diferente. Não, indiferente. Mudo. É tão simples. Mudo e termino. Sempre uma decisão silenciosa... Que nem de longe se compara ao meu tapete. Aí vou terminando, desgostosa e sem jeito, tão polidamente cordial quanto vou começando, e afinal, disso tudo só o que importa é minha recente combinação predileta: Eu, minha leitura e meu tapete.

***

E para não ficar por isso mesmo, e porque hoje o sentimento já é outro, e porque foi porque li esse ainda há pouco que me lembrei de postar isso aí de cima, segue A viajante, de Rubem Braga:

Com franqueza, não me animo a dizer que você não vá. Eu, que sempre andei no rumo de minhas venetas, e tantas vezes troquei o sossego de uma casa pelo assanhamento triste dos ventos da vagabundagem, eu não direi que fique. Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra. Você talvez esteja fugindo de si mesma, e a si mesma caçando; nesta brincadeira boba passamos todos, os inquietos, a maior parte da vida — e às vezes reparamos que é ela que se vai, está sempre indo, e nós (às vezes) estamos apenas quietos, vazios, parados, ficando. Assim estou eu. E não é sem melancolia que me preparo para ver você sumir na curva do rio — você que não chegou a entrar na minha vida, que não pisou na minha barranca, mas, por um instante, deu um movimento mais alegre à corrente, mais brilho às espumas e mais doçura ao murmúrio das águas. Foi um belo momento, que resultou triste, mas passou. Apenas quero que dentro de si mesma haja, na hora de partir, uma determinação austera e suave de não esperar muito; de não pedir à viagem alegrias muito maiores que a de alguns momentos. Como este, sempre maravilhoso, em que no bojo da noite, na poltrona de um avião ou de um trem, ou no convés de um navio, a gente sente que não está deixando apenas uma cidade, mas uma parte da vida, uma pequena multidão de caras e problemas e inquietações que pareciam eternos e fatais e, de repente, somem como a nuvem que fica para trás. Esse instante de libertação é a grande recompensa do vagabundo; só mais tarde ele sente que uma pessoa é feita de muitas almas, e que várias, dele, ficaram penando na cidade abandonada. E há também instantes bons, em terra estrangeira, melhores que o das excitações e descobertas, e as súbitas visões de belezas sonhadas. São aqueles momentos mansos em que, de uma janela ou da mesa de um bar, ele vê, de repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e docemente, coisa sua. Mas há também, e não vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo, é de um ar em que se fica mais distraído, é de um cheiro antigo de chuva na terra da infância, é de qualquer coisa esquecida e humilde - torresmo, moleque passando na bicicleta assobiando samba, goiabeira, conversa mole, peteca, qualquer bobagem. Mas então as bobagens do estrangeiro não rimam com a gente, as ruas são hostis e as casas se fecham com egoísmo, e a alegria dos outros que passam rindo e falando alto em sua língua dói no exilado como bofetadas injustas. Há o momento em que você defronta o telefone na mesa da cabeceira e não tem com quem falar, e olha a imensa lista de nomes desconhecidos com um tédio cruel. Boa viagem, e passe bem. Minha ternura vagabunda e inútil, que se distribui por tanto lado, acompanha, pode estar certa, você.

5 comentários:

Paula Baiadori disse...

Olá,
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Abraços.

MAILSON FURTADO disse...

Excelente post...

PArabéns, belo blog...

Estarei acompanhando sempre!!!

Muito bom...

Acesse:
http://mailsonfurtado.blogspot.com

Ester disse...

Admiro sua abilidade com as letras!
Me peguei imaginando seu quarto, invejando seu tapete, e concluindo que as boas mães em muito devem ser no mínimo parecidas!!

To sempre dando uma passadinha por aqui!
adooooooooooooro!

Ester disse...

*HABILIDADE
essa modernidade que me enfraquece... hihi

Anônimo disse...

Fui um leitor até agora anônimo, mas com a surpresa de ver meu nome como um personagem dessa história, me senti quase que obrigado - por mim mesmo - a comentar algo. Descrição por vezes perfeita, senti e gostei seu tapete em meus pés sem ao mesmo tê-lo tocado ou visto. Tem algo nos seus textos que me agrada, não sei dizer, tecnicamente, o quê, mas gosto. É bom.
Seu " projeto de amigo", Leo