"É mais honesto...", adverti. E era mesmo. A frase veio pronta e acabada. Quem dera a conversa não houvesse seguido a frase. É mesmo muito mais honesto tentar se envolver com alguém que seja a cura, daquele jeito torto de sempre, em vez de beijar meia dúzia de bocas.
Nem preciso repetir que as carências emocionais são muito mais honestas - quiçá mais legítimas - do que as carências de ordem não-emocional, para mim. Se estas são passatempo, aquelas são viscerais. Difíceis. Demoradas. E passam longe de indolores.
Aliás, passava longe de uma tentativa de substituição. Até porque não era preciso substituir, já que havia tempo para tudo. Para o futuro representado por uma dúvida, tão assustador, para o presente sem representações, tão carente da minha atenção, e para o pretérito, cru como ele só, tão transformado de mais-que-perfeito para imperfeito em um distrato e meia dúzia de acusações recíprocas.
Ele não me amava mais, ele disse. Imperativo e categórico, mas em voz baixa, como lhe é próprio. Fez questão de dizer, embora não precisasse depois de tanto conflito, de tanto desentendimento, de tanto desrespeito, de tanto desamor velado. Eu, à minha maneira extremamente subjuntiva, teria preferido um insensível do início ao fim e não só no fim. Ou um insensível com a memória pior que a minha.
Cortei as palavras e era como se o silêncio estivesse ao contrário. Tudo em mim gritava. Todo atrito me doía. Toda palavra me machucava. Toda ofensa me ofendia.
Esse termina simples, sem mistério e sem esperança, uróboro, infinitamente áspero como começou. É mais honesto...
Esse termina simples, sem mistério e sem esperança, uróboro, infinitamente áspero como começou. É mais honesto...