Estaciono o carro pontualmente às 19h02. Elegantemente atrasada. Apenas dois minutos. A anterior acaba de sair do prédio. A seguinte sou eu. Verônica sorri na porta como quem diz bem-vinda de volta. Complacente. Os cabelos presos. Um rabo baixo. Moda modesta. Despontam do cocuruto uns fios brancos muito hidratados. Pontual como sempre. Pronta a me receber. No corredor iluminado, última sala à… direita, Verônica? É oposta da que eu me lembrava. Ah, sim, faz ano e meio que não venho aqui, guria, é verdade. Quanto tempo. Vais ter trabalho, heheheh. Que bonito ficou esse novo espaço, heheheh. A meia-luz ainda é a mesma. A lâmpada quente e o ventilador, como de castigo, disputando quem fica mais virado para a parede. Depois da enchente não tem mais o papel colado com desenho de bambu. Reformaram? Tá tudo com cara de novo mesmo, heheheh. O cheiro ainda é igual. Álcool. Cânfora. Arnica. Limpo e enjoado. O teto e o chão igualmente brancos. Mais assépticos do que eu me lembrava. A Verônica vai passando a mão embebida de álcool diretamente na maca com uma precisão de quem já fez isso quatrocentas e oitenta e duas mil vezes só hoje. Como se a mão fosse um pano. Como se os panos fossem todos dispensáveis aqui. Cacete. Fui mais rápida do que devia. Já estou só de calcinha. Ameaço esconder os peitos com as mãos. Ao menos enquanto ela termina os procedimentos de limpeza. Logo me lembro que foi Verônica quem drenou o inchaço do silicone e passa. Ô, vá lá, já me viu pior. Meus mamilos teimam apontar tímidos como se, como eu, talvez devessem olhar um pouco para baixo sem conseguir. Sinto um calafrio de constrangimento que dura dois segundos. É o tempo de me lembrar que o número da Verônica é a melhor herança que João me deixou. E ainda cobra barato. Ainda fala só o estritamente necessário. À exceção da vez que passou a sessão inteira falando da igreja porque devo ter sido educada a ponto de parecer interessada ou merecia ser convertida. Ainda me dá vontade de rir só de pensar que a pessoa mais carola que eu conheço no mundo também é a que mais vê gente pelada por minuto redondo. E ainda fica esfregando. Enfim sós. Eu ali em pé quase nua e a Verônica alisando a maca. Ela faz uma gracinha pra quebrar o gelo. A persiana fechada me blinda da janela indiscreta da Receita. Antes era virada pra um escritório. Antes era lá perto da Casan. Não que alguma vez a cortina estivesse aberta, mas sempre penso e se estivesse. Amaldiçoo em silêncio ter me despido rápido demais. Isso e o bolinho de carne de meia hora antes. Ela veste apressada um lençol descartável e muito fino de TNT na maca. Estende a toalha de rosto. Intuo que lavada duzentas vezes, com cloro. Áspera como de motel. Talvez pela mesma razão. Tem gente que prefere sem, ela diz. Eu não duvido. Nem me atrevo, Verônica, em negar essa esfoliação facial a seco oferecida de brinde. Subo descalça torcendo pra saírem os farelos de sandália do pé do dia inteiro nos dois degraus de madeira improvisados. Deito de bruços. E ali já sei que aquele bolinho ou o aipim de mais cedo me traíram na digestão. Só que agora só posso esperar um show de fogos ou um show de horror. Que não me espera. Acomodo a cara nesse grande donut encapado com a pequena lixa branca em formato de toalha. Álcool na mão. Álcool nos pés. Com algodão dessa vez. Ela tem método. O profissionalismo da Verônica exala do avental. Espio com metade de um ângulo um trabalhado no piso de cerâmica da sala. Metade de cada olho afofado nessa borda da maca. Cabelo preso. Não posso mais me mover. Verônica começa a operar seu milagre. Primeiro apóia duas mãos mornas, encremadas e lisas nas minhas costas e me balança curtinho como se ninando um neném. Um ritual. Não encontro meios tampouco circunstâncias para dizer que não não não pare com isso se o combinado era hora marcada para que sim sim sim e eu ainda vou pagar no fim. Sinto um calafrio que nasce do umbigo. Rapidamente desce para o ventre agora bastante esmagado contra o peso do meu corpo todo. A tração adicional do antebraço inteiro da Verônica sovando firme as minhas costas mais o peso da tensão. Logo eu que tinha receio das costas esfarelarem. Agora o medo é outro. E eu penso em dizer pare de uma vez por todas eu não vou suportar. E eu respiro fundo e aí penso que assim o ar vai se reorganizar com ainda menos espaço então eu devia era estar soprando. E eu contraio os esfíncteres e com eles os glúteos. Tão firme que ela me diz relaxa. E eu reclamo tímida que meus dedos do pé estão formigando e aí ela diz devo ter liberado um ponto perto do nervo este lado está mais difícil que do outro mas agora falta pouco. E de todas as tantas coisas que o meu corpo pode entregar e a quem (farelo lágrima muco cera leite sangue gozo suor e suor frio), um peido à Verônica nunca esteve nos meus planos. Tipo não mesmo. Em tempos de curandeiros e osteopatas, Verônica segue séria, firme e íntegra. Raiz. Não promete o que não cumpre. Sem placa na porta. A salinha alugada e a agenda cheia. Tudo no boca a boca. Tem nem Instagram. Atendimento VIP. Fora o que ela gasta em álcool. E tempo. E creme de cânfora e arnica. E cloro. Ela não merece isso. Rearranjo a cara outra vez contra a donutoalha como se o desconforto fosse mesmo esse e ela me diz quer um travesseirinho querida e eu digo não não, não precisa, enquanto penso que se for um peido mínimo pode que eu já tenha até soltado sem saber porque pra dentro é que ele não ia com esse apertamento todo que ela está me fazendo. E aimeudeuuuus se eu já tiver soltado sem perceber porque estou com a cara virada para o outro lado e talvez não tenha sentido. Minha nossa os que não fazem barulho são os que mais fedem o que é que eu vou fazer agora se tiver saído mas claro que não saiu ou eu saberia minha nossa como eu odeio ser louca. Tinha aquele colega da síndrome do intestino irritável que soltava a descarga um milissegundo depois de entrar no banheiro e aí pensava que disfarçava mas tinha barulho de descarga e de peido juntos na repartição e repartição é um nome engraçado para chamar a coisa pública onde às vezes muitas pessoas trabalham juntas sem divisórias exceto nos sanitários e aí eu penso detidamente na bunda. A bunda das pessoas. A minha bunda. A da Verônica. Este mecanismo feito para soltar e contrair coisas mas vento não, vento pode escapar se a gente é apertado onde não deve ou segura demais ou tem crise de riso. Logo eu que tenho um vasto histórico com isso que não me cheira nada bem vai mais oitocentos anos de terapia até chegar lá seja o que Freud quiser na fase em que ele quiser falar disso eu empaquei metaforicamente bem antes. E então me lembro de todas as histórias de peido possíveis e imagináveis e sinto vontade de rir mas não posso porque rir piora a vontade de peidar. E rezo a Deus, e prometo uma promessa, afinal estamos todos na quaresma, afinal estou na presença da beata Verônica, e no final rezo a mim mesma, e ao meu intestino, e rezo ao próprio peido para que não se esvaia em vapor e apelo a tudo de mais sagrado que eventualmente possa evitar esse constrangimento estrondoso e iminente que seria eu soltar um peido nessa sala tão bonita, privada e limpa. E que cheiro terá o meu peido misturado com esta arnica, jesusamado, só o capeta é que pode prever. E essa é a ideia mais insuportável entre todas. E então eu traço um plano de fuga e penso em sair correndo, agarrar apenas a blusa e a calça do cabideiro se conseguir, acomodá-las debaixo do meu sovaco esquerdo enquanto a mão direita avança contra o trinco da porta e aimeudeuuus se estiver trancada deve estar e as roupas ainda debaixo do meu sovaco eu pelada enquanto corro até o carro neste caso eu deixo as sandálias de brinde para a Verônica mesmo sabendo que nada nada nada vai indenizá-la o suficiente se isso acontecer ou aconteceu ou acontecerá um dia comigo ou qualquer outro cliente paciente sei lá como ela chama. Então Verônica suspira. E eu me pergunto se é porque farejou algo com a intuição ou se soltei o peido mesmo sem notar e ela quer acabar com o suplício logo ou se é só o cansaço do dia inteiro ou se ela de repente está liberando o ar para toda a podridão de dentro do meu ser ter espaço para se acomodar melhor a cliente em primeiro lugar você sabe como é o ar denso sobe ou desce eu já nem lembro mais das aulas de química uma hora dessas. E aí ela dá as últimas esfregadas a que chama manobras no meu pescoço teso e diz prontinho. Digo Obrigada Verônica Quanto eu te devo O pix ainda é o mesmo Sim sim é sim Pontual como sempre 20:33. Tchau, obrigada, a massagem tava boa sim, heheheh você é ótima. Pago em caroço nas costas pra que nunca mais se repita. Tratar aqui.