quinta-feira, 27 de março de 2025

Melaleuca


Ouvir uma verdade enquanto se vive uma potencial mentira pode ser devastador. A verdade entra no ouvido direito, arde os miolos bem onde dói e procura atordoada a saída por outro buraco desse labirinto de ossos, carninhas moles, cartilagens, fluidos e cérebro. Parece não haver espaço para que percorra — a verdade parece três vezes maior enquanto se acotovela pelos corredores da cabeça da gente a duzentos por hora sem poder voltar por onde entrou. 
É assim, a verdade traz a mesma pressão craniana que a de um espirro trancado. Parece que vai nos carregar junto, nós e nossas inconsistências morais. Nós e cada partícula de negação assentada como dogma bem no meio do juízo. Nós e a construção. Nós e o assoalho antigo que a arquiteta mandou arrancar para ficar moderno. Nós e esses casacos pesados roídos de traça que ainda estão bons pra usar em casa porque imagina quem não tem nem um desse. Nós e esses móveis que ainda se organizam como se organizavam as mentiras que não eram mentiras quando foram dispostas assim, estáticas, nestes cômodos.
Tantas vezes guardei no fundo de um armário empoeirado a versão de mim que me daria mais trabalho no manejo, acho que entendo, eu juro. Acho que entendo. Quanta vergonha teria evitado nesta vida se aquele paninho puído estivesse encobrindo o espelho pra que eu não visse qualquer verdade entrar e zunir. Aí então conseguiria disfarçar bem. Sem precisar ajustar a pupila pra ver a beleza no caminho da sombra. E depois o risco de afogar sem boia. Ou o tombo sem rodinha na bicicleta.
Apita o timing do relógio e da constância. Essa impressão de já ter passado o tempo do desatino. Esse braço enganchado no certo da vida como um pilar, um fraio, um mastro, como se alguma coisa nessa vida fosse cem por cento certa se a gente planejar bem, para não ter que ver se alcança o que pode vir depois tendo que dar um salto de fé. Ou de coragem.

Deixa a verdade pros jovens.
Eu vou amassar um pacote de calaboquitos e depois deitar em paz com os farelos.