terça-feira, 18 de março de 2025

Camélia

O feminismo transita em rua mais ou menos estreita em que só passam três carros. Se houver um estacionado, necessariamente o centro terá que se deslocar um pouco para o lado — mas qual. E como. Além do que as ruas são muitas. E os estacionamentos, idem. Estamos sempre correndo o risco de rasgar nossas credenciais ou tê-las queimadas em praça pública em caso de colisão. Bum.
Trafegamos apressadas, atordoadas como as baratas — que agora temos que matar porque isso não é mais coisa de homem. Vou ligar o pisca-alerta para frear brusco, também eu, e me demorar aqui:
Coisa de homem.
Coisa de mulher.
Nesta rua estreita, estão veementemente proibidos de transitar estes conceitos.
Esvaziamo-los.
Mas o que fazer com o que sobra orbitando neste vazio do caminho, Senhor? Virar de volta, voltar pra casa, rogar toda manhã bem cedo em um café crendeuspai pelo encontro do varão clássico, provedor, pai de família?
Defendei-me.
Defendei-me também, porém, das tantas outras nuances e armadilhas, tão mais sutis que as coisas de homem e as coisas de mulher, obstaculizando a via enquanto este camburão com giroflex ligado em que plotaram em preto e negrito a palavra Evangelistão dirige à frente, interrompendo o fluxo dos nossos avanços.
Que falta faz conhecer bem o que é Cuidado. Conhecer como a gente se sente cuidada. Que falta faz dominar a contabilidade das compensações financeiras e afetivas neste livro-caixa que registra em uma coluna os desejos materiais e, em outra, os emocionais. E que diferença há entre eles, além deste fino traço vertical que os divide, imaginário como a fronteira entre o que é ser homem e o que é ser mulher?
A mim e meu teto de vidro, muita.
Pra ti bem menos.
O feminismo talvez seja este gato velho a que estimamos tanto mas que às vezes a gente se vê obrigada a tirar de cima da mesa mesmo sabendo que ele vai subir de novo, porque é da sua natureza. E tu este pássaro pseudo-selvagem, pseudo-exótico, com o teu hábito de só se ver capturada por trás do olhar do outro. A quem apagaram com borracha o traço vertical, transformando-o em horizontal — para se apoiar num fio fino e eletrônico em troca de conforto.
Conforto.
Esse predicado comum ao capital e, às vezes, ao amor.
Em ti o conforto se mistura, agora conhecido e novo, transformado em uma gratidão pela espécie de proteção. E aí o tesão pode estar onde a razão nunca estaria: não importa. O desejo desobedece às cartilhas. O gozo vira um pequeno lago de água parada no meio das dunas. E o que te interessa mais talvez sejam as dunas: conhecê-las, esquiá-las, fotografá-las. Sempre com a boca entreaberta e correndo o risco de entrar areia pelas frestas que se abriram — no rosto assimétrico, nas ideologias simétricas ou no vazio dos velhos conceitos. Assim como os tchecos podem eventualmente sentir um saudosismo militar que abominamos em vez da nostalgia da Primavera de Praga, que em fundamento também abominamos. Percebe? 
São tantas camadas nos ismos.
Na fauna da vida, querida, nos deparamos por estas estradas com o que julgávamos conhecer, mas também com pequenos axolotes alvos que parecem saídos de outras eras. Com os estranhamentos que não respeitam as paletas,
bandeiras,
as métricas
e estéticas
nem essa tua identidade visual em sépia, pretensiosa (e bastante retrô) como o Ph na palavra Farmácias nas embalagens bonitas da Granado.