Desacelerando para o semáforo no fim da avenida. O corredor recreativo em paralelo, pela ciclovia. Vai indo. Vem vindo. Tudo depende da perspectiva: o carro ainda em movimento, já quase parando, ou ele pelo retrovisor. Repara: tem trote de maratonista.
Logo vai ter que escolher dobrar a esquina e avançar pela ponte nova ou virar de volta. Vai escolher virar de volta? Vai escolher virar de volta. Remoer o caminho, num delírio de ser seguro, quem sabe porque fantasia já conhecê-lo, quem sabe porque o caminho de volta parece sempre mais curto.
Na volta tem os cansaços da vinda. Vai escolher voltar mesmo assim. Talvez precisamente por isso. Achando, claro, que vai voltar em linha reta. Não suspeita que o caminho de volta é sempre feito em outro ângulo. Passa criança de patins, vem rolando uma bola, avança nele o cachorro, o ciclista espaçoso de fim de turno vem transportando uma caixa imensa e pesada. Ainda não sabe. Vai pensar que é simples. Só inverter a direção. Que agora domina a técnica. Vai pensar que já sabe tudo porque veio por aqui, mas é que estava correndo, depois é que vai se dar conta que veio sem se dar conta que às vezes olhava pro chão, e não pros prédios, ou pros prédios, e não pro céu, ou pro céu, e não pra quem... esquece, já passou.
Vai escolher virar de volta. Eu reconheço pelo passo ritmado de quem sabe fingir que não vai ter que parar em algum momento. E vai parecer tão óbvio. Intuitivo até. Enquanto ainda trota em direção ao sinal vermelho, internamente ele já sabe que em algum momento, no fim da avenida, se quiser mesmo voltar, vai ter que pisar como quem pisa em falso. Bem rapidinho, finge que vai e não vai. Vai pensar que dá pra disfarçar, ninguém tá nem me vendo, eu não sou tão importante, essa gente tem mais o que fazer. Vai tentar se convencer de que quando menos esperar já estará refazendo o percurso, agora em mão contrária. Vai supor bastar uma coragenzinha, uma coisinha de nada, vai ser de um golpe só. Nisso até tem razão. Vai ser preciso tê-la. Ninguém inverte o caminho se não fizer o passinho caricato que não combina em nada com o ritmo da corrida inteira. Um passo que vem da dança. Chama-se pisa vira. Eu sei porque já dancei. O corredor vai meio que ter que esquecer que corre. Sai de súbito o atleta, entra um lampejo de artista. Vai ter que dançar por meio segundo. Pisar e virar.
E o caminho de volta não será o mesmo. É sempre outro.
O caminho de volta tem uma gravidade forte e embutida. Pode fazer cair. Pode fazer chegar. Quero dizer um magnetismo. Que também atrai. Enquanto não repele.
O caminho de volta também pode ser algo como o que o cuspe faz em direção à testa.
Mas por enquanto ele ainda não sabe.
Estou avisando só em pensamento — eu que já fui, dancei e voltei tantas vezes.
O caminho de volta exige: (antes/agora)
Um pequeno ridículo;
A dose certa de remorso
em sentir que não vai em frente; e
Não saber tudo
o que ainda pode ser inédito.