quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Cebolíaca

Eu já nasci meio ofendida
   (queria ter estômago para dizer "alérgica"
Com suas cascas tão finas
e as camadas bem grossas
infinitamente leitosas
organizadas
e brancas
Um luxo de UX.

Fariam páreo às Bananas
não fosse vocês, Cebolas,
impregnarem dedos e olfato
De quem ousa parti-las
E partem-se, e partem-lhes sempre

Em anéis
Nos quadrados
Nos restaurantes e
Em cada casa
E até ralam
Liquidificam-lhes
Quanto menor melhor

É caso de tentar o extermínio sensorial
de sua falta de tato
em coexistir com os dentes
Para impedir
O disparate de uma mordida, quem sabe
Se não o apreço do paladar

Por isso partem-se
Eu já falei que partem-lhes
Partem fazendo chorar, não se importam
Com ser tão rudes e vulgares
Não perdem nunca esta mania espalhafatosa
E tão peculiar
E se pensassem, pensariam:
"Que nos deixassem quietas e inteiras,
tão frágil e bem pensado é o que nos protegia"
ou
"Lágrima também é legado"

Fazem-se catar, fragmentadas, para habitar a borda
Em roda
E o crec horrendo quando
ainda
meio
cruas
Todas espécies de autodefesa

Ao passo que temperam bem com sal
absolutamente tudo
desde que douradinhas e miúdas
— dizem

E se repito percebo que posso
Em partes tantas
quanto Cebolas têm camadas
ou ganham partículas
Estar finalmente tendo no prato
Chances de me curar