Do pó viemos todos — tu retornaste antes.
Estar preso é como estar um pouco morto.
Estar preso é um interdito, é sentir frio, e sentir medo, e se sentir bem mais sozinho quão mais cheia for a cela, tanto que já não se é mais as coisas boas que foram sidas antes.
Estar preso é se sentir o Aquém-Homem. À margem dos Súperes.
E lá vem mandado ser cumprido, de novo, todo dia de manhã um pouco mais, e tu com o riso nervoso, de novo, foi como um susto, de novo. E eu sei que tu rias no momento exato, numa espécie de soluço mostrando os dentes. Os olhos arregalados. Aquele cabelo. O coração na boca. Tu sem as rédeas da situação implorando, em silêncio, uma misericórdia que a vida agora talvez pareça não ter te dado nunca, mas eu acho até que deu. E rindo. Rindo como quem Coringa: tu indo de Augusto a Tramp em um instante sem nunca ter tido meia aula de clown. Trocando as vestes ali, ao vivo, na frente do agente penitenciário. Ser palhaço tu sempre soubeste. Faltou eleger bem a modalidade. Viraste um pouco do que não queria parte da plateia. Viraste tua própria plateia quando houveste por bem converter a tua dor em riso. Dor mas não só: dor, vergonha, desleixo, desistência. Um jogo de imitação. E aí também foi tanto luto, e foi dilacerante, e foi a queda de um púlpito alto com a escova de cabelo imitando microfone, e depois riste mais um tanto, e o teu riso era tão falso, e o teu riso era sintético, e o teu riso era um pouco branco no canto do nariz, o teu riso era um estado da matéria granulado, o teu riso custando o peso da grama do ouro e tu pagando porque precisava, e nisso não pagando o que de fato precisava. Enquanto isso recolheste, como em concha, pra nos proteger de ti ou pra se proteger das nossas reprovações, que afinal isto tu sempre soubeste que te daríamos de mão beijada.
Mas o sangue amalgama os elementos heterogêneos. E agora funde essa água da chuva e o pó; do chão; por baixo do colchonete. O sangue chora a tua angústia escorrendo por entre as grades, desce sem freio a Serra Canoas, lubrifica uma compaixão toda nova que atravessa a BR. A mesma de quando nos fazes rir. E tudo que mordemos, embora seja nobre, tem o gosto de merenda de presídio. É o sabor insosso de saber que talvez nada mais te ponha na linha, ainda que o fim do teu desespero de hoje tenha preço.