sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Resedá

Eu não queria saber como vai o trabalho.

Queria saber de qualquer coisa como o teu cachorro, ou era uma cachorra? Eu já não lembro agora. Quero saber das orelhas que se recolhem, do pelo curto ou longo, do rabo que abana quando está alegre e treme ritmado quando trovoa. Teu animal de estimação tem olhos, os mesmos, castanhos, do pai? Quem sabe também esteja ficando grisalho ao redor do focinho. Voltou do petshop decorado para o Carnaval com um mês de antecedência só para te irritar, tu que gostas pouco de folia e combina mais com o cinza da quarta-feira, como naquele poema de T.S.Eliot. O que tens pensado sobre as eleições deste ano? Tu tens escrito? De que cor é a capa do último livro que você leu? Quando está alegre teu cachorro sorri de canto, bem sóbrio, eu aposto. Teu filho já é adolescente? Se apaixonou por Juan Pablo, filho de imigrantes espanhóis, pela internet? Ou por Dorotéia, que tem esse nome por conta de alguma personagem famosa de uma mãe muito bem inspirada? Escuta, tu tens escrito? Teu filho também lê a coleção de capa dura vermelha e gosta? São frases e perguntas que não me ocorrem no sol, vestindo short e chinelo, só debaixo do guarda-chuva com um céu despencando, como agora. Preciso tomar um açaí cheio de confeitos para me ensolarar por dentro, ou corro o risco de sucumbir à melancolia. Talvez chova tanto de tempos em tempos para me lembrar de aproveitar o verão, não reclamar da escaldância, não ligar tão rápido o ar condicionado.
Tu, que nunca soubeste como derreto.
Não quero saber dos teus colegas de trabalho, quero saber de ti.
Daquela vez em que o teu melhor amigo de quatro patas foi pego pelas frontais, quero dizer as da frente, também não sei dizer o antônimo de traseiras, e foi conduzido pela garagem de casa, o piso liso e chovia, chovia, como chove agora. Tinhas bebido e tiraste o teu cachorro pra dançar. Ainda bebes? Ainda odeias vodka, porque não tem gosto de nada? Ainda te recolhes no escritório para imaginar o teu cachorro sonhando ontem com dias de menor interação social, pessoas menos obcecadas com o emagrecimento, algodões doces, máquina do tempo, a volta do tempo da promessa — um céu cheio de cachorros e salsichas aquecidas no microondas. Talvez o teu cachorro tente flanar pelo céu como um balão de gás hélio a cada vez que pensa em ti, ou em salsichas aquecidas e olha que ele só ganha as sobras e quando estás de bom humor.
Estou carregando um envelope até agora, junto do peito, tem um saco plástico ao redor, mencionei a palavra casamento mas num contexto diferente do que pretendia, o que queria mesmo te perguntar é o que tu perguntarias a alguém que não vê há muito tempo se cruzasse na rua sem ser de supetão, porque bem se vê que eu não sei dizer o que eu queria de verdade sem me preparar, e olha que fui eu que puxei as conversas protocolares. Faz sentido o teu cachorro ser pequeno e dócil e que exija brincar enquanto queres te recolher nos teus aposentos, com essa tua personalidade meio felina que eu nunca entendi bem, mas vá lá. Se bocejo perto de ti me acordam as contradições daquela época. Foi bom te rever, lembrar que tu existes, lembrar que eu já existi antes, talvez mais, talvez melhor, com um futuro mais promissor, seja lá o que isso queira dizer, seguramente bem diferente de agora. Ou será que não.

O saudosismo é o animal de estimação de um tempo que ainda era promessa.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Com tinta

Escrever ciente
De que o peso da caneta
Manda exércitos ou alforria

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Epitalâmio

Janeiros nascem
Para renascermos com eles.

Casar em janeiro
Do ano 1
É crer na esperança
De um começo novo
De tempos em tempos.

Reunir amores
para celebrar publicamente o amor
É dar um recado ao destino,
Quase em ritual:
Nós todos cremos.
Nós nos reinventaremos
Quantas vezes for necessário
para que o sentimento bom
Que nutrimos um pelo outro
reverbere
do nosso quintal para o mundo.

Nos vestiremos de festa
Bateremos palmas e corações
Verteremos água salgada pelos olhos
Transbordaremos a fé de que o amor
É coisa que pulsa no peito de toda gente
No mesmo compasso.

Que é coisa graúda, que se exalta
Com luzes quentes
Taças para o alto
Dancinhas frenéticas
Sorrisos para os cliques
do álbum bonito que guardará
Momentos do dia em que nos encontramos
Só para que o amor fosse esta coisa bendita
Que, bem no fundo, ele já é
Desde que nasceu.

Um casamento tem seus mistérios.
Como será o vestido da noiva
Que música tocará
No momento em que a primeira lágrima
Com sorriso embutido
For derramada
E quantas tribos serão capazes de se reunir
Só para concordar:
Amor é ponto de convergência
Amar é um ponto inicial,
De partida para a aventura
De conviver.

Casar é inaugurar a chance
De enxergar as belezas do mundo
Desde dentro dos olhos atentos das pessoas
Que nos testemunham alegres
Com a coragem de desejar
Que, por uma noite, sejam todos bem felizes
Junto conosco

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Desculpa o atraso

“Exponho o meu modo, me mostro. Eu canto para quem?”
(Adriana Calcanhotto)

Nasci de amor e isso é das coisas que mais me amolecem lembrar em dias duros. Como não fosse sorte o bastante nascer de amor, tenho também a maioral das desculpas para ser tão impontual, amando tanto até hoje a adrenalina do deadline: é que eu já nasci atrasada. E deu tudo certo mesmo assim. Te juro. Passei pra lá de 6 dias do último dia do prazo. A mãe não sabe dizer se isso queria dizer 40, 41 ou 42 semanas, mas lembra bem que só aí que ela teve um pouco de contração, era uma quarta, a vó correu internar ela, e era força e força, e nada, e nada, 3 dias de força e eu fui sair só na sexta e de cesárea. Fiquei no quietinho do forno até dourar um pouco a casca e os cabelos se avolumarem, como o tempo faz o pelo nos fungos das comidas mais passadas da geladeira crescerem, crescerem, crescerem, negros-esverdeados. Cresci no ventre o que deu. Diz a mãe, com a memória só meio acordada da epidural, que o clínico geral que se vestia de obstetra lá em Barbacena na época contou durante a empreitada toda uma longuíssima história da caçada da semana passada lá no Mato Grosso, e encerrou o meu parto — que era o primeiro dela — dizendo Essa guria não ia nascer nunca de parto normal com uma cabeça desse tamanho. Aí eu chorei. Acho que de ofendida. A equipe de enfermagem riu. O que deve ter me ofendido mais ainda. A mãe perguntou se meu nariz era o do pai, ouviu que sim, finalmente relaxou e dormiu. Para depois poder contar essa história e rir também, bem na minha frente, ela deu conta de me convencer que gente de cabeça grande demais é mais inteligente. Porque, como já disse, eu nasci de amor. Eu sou da turma de amor e sorte. Tanto, que ao ficar adolescentinha a teoria virou Minha filha, é que gente de testa grande também é mais inteligente. Nós acreditamos. Como nascer não bastou e coube a mim a tarefa de provar corretos os teoremas da madre, falei cedo. Cedo mesmo, antes do primeiro ano. Talvez para comunicar a pressa que não tive para nascer, mas agora tinha para dizer. Tenho pra mim que isso até hoje explica minha logomania. Vez ou outra atravesso as pessoas na fala, e no meu grupo de amigos quase sempre tudo bem, e fora dele quando eu vejo que fiz de novo encolho os ombros, peço desculpas com um aceno de cabeça, digo desculpa, não não, pode falar, e faço finalmente um silêncio dos mais desatentos, como quem sai andando. Se eu der duas voltas no Parque das Desculpas Esfarrapadas eu passo o bastão das mãos da Inconveniente para a Interpelativa. Quero falar de mim, mas também quero saber de ti. Nunca passei da fase dos por quês. São estas as desculpinhas que eu peço quando digo desculpa o atraso.

domingo, 4 de janeiro de 2026

É impossível

Exilar a intimidade para
Expoliar o poder
Outorgado

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Ceticismo

É o gesso
que ata o osso
quebrado

Me protege e
às vezes
dorme

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Teoria do Caranguejo da Shopee


Corri na linha
Agarrei num trem
Acabou-se o trilho
Esborrachei no campo
Avistei uma estação