quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Desculpa o atraso

“Exponho o meu modo, me mostro. Eu canto para quem?”
(Adriana Calcanhotto)

Nasci de amor e isso é das coisas que mais me amolecem lembrar em dias duros. Como não fosse sorte o bastante nascer de amor, tenho também a maioral das desculpas para ser tão impontual, amando tanto até hoje a adrenalina do deadline: é que eu já nasci atrasada. E deu tudo certo mesmo assim. Te juro. Passei pra lá de 6 dias do último dia do prazo. A mãe não sabe dizer se isso queria dizer 40, 41 ou 42 semanas, mas lembra bem que só aí que ela teve um pouco de contração, era um quarta, a vó correu internar ela, e era força e força, e nada, e nada, 3 dias de força e eu fui sair só no sábado e de cesárea. Fiquei no quietinho do forno até dourar um pouco a casca e os cabelos se avolumarem, como o tempo faz o pelo nos fungos das comidas mais passadas da geladeira crescerem, crescerem, crescerem, negros-esverdeados. Cresci no ventre o que deu. Diz a mãe, com a memória só meio acordada da epidural, que o clínico geral que se vestia de obstetra lá em Barbacena na época contou durante a empreitada toda uma longuíssima história da caçada da semana passada lá no Mato Grosso, e encerrou o meu parto — que era o primeiro dela — dizendo Essa guria não ia nascer nunca de parto normal com uma cabeça desse tamanho. Aí eu chorei. Acho que de ofendida. A equipe de enfermagem riu. O que deve ter me ofendido mais ainda. A mãe finalmente relaxou e dormiu. Para depois poder contar essa história e rir também, bem na minha frente, ela deu conta de me convencer que gente de cabeça grande demais é mais inteligente. Porque, como já disse, eu nasci de amor. Eu sou da turma de amor e sorte. Tanto, que ao ficar adolescentinha a teoria virou Minha filha, é que gente de testa grande também é mais inteligente. Nós acreditamos. Como nascer não bastou e coube a mim a tarefa de provar corretos os teoremas da madre, falei cedo. Cedo mesmo, antes do primeiro ano. Talvez para comunicar a pressa que não tive para nascer, mas agora tinha para dizer. Tenho pra mim que isso até hoje explica minha logomania. Vez ou outra atravesso as pessoas na fala, e no meu grupo de amigos quase sempre tudo bem, e fora dele quando eu vejo que fiz de novo encolho os ombros, peço desculpas com um aceno de cabeça, digo desculpa, não não, pode falar, e faço finalmente um silêncio dos mais desatentos, como quem sai andando. Se eu der duas voltas no Parque das Desculpas Esfarrapadas eu passo o bastão das mãos da Inconveniente para a Interpelativa. Quero falar de mim, mas também quero saber de ti. Nunca passei da fase dos por quês. São estas as desculpinhas que eu peço quando digo desculpa o atraso.