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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Viajera [4]


Quando viemos ao mundo
os mais versados em perseguir
os subtextos
eram os mais inteligentes.
Ganhavam troféus
Acertando as charadas
Como se o meu amor era
Uma carta daquele jogo de adivinhar ou
Um clique no campo
sempre minado.
Venceu quem acertava
Às vezes por sorte
Outras por faro
Sem explodir

Quem ria primeiro da ironia não passava
a vergonha de não me entender
Nem poderia perguntar
Porque perguntar é ou não é
Afinal
Coisa de burro?
E nós tão tão inteligentes
ajeitando os colarinhos
por fora da presunção costurada
nos blazeres que vestiremos
quando esfria.

Quando casar contigo,
As portas da suíte tremerão sozinhas
Só com o vento que venta
Pela basculante
Nunca porque as estou chacoalhando
Com palmas furiosas de espanto
Não de matar mosquitos, pensamentos
Este estresse avassalador
Que exige o silêncio de recobrar o senso
Esvaído de todo no simples expelir de
gás carbônico de
um resfriado
mais simples ainda.

Quando casarei contigo,
Esta aflição tão propícia
De querermos e não termos podido
Seria maior
Que o medo
de jamais sermos realmente ouvidos
e ouvintes
Aos gritos.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Viajera [3]

A escova de dentes que penderá novinha
de bruços sobre o aparador
do box do banheiro
contemplando a vista
como quem descansa
prestes a caía
ou se jogar
sem querer

E a minha estatelava
Em cima da tua
— as cerdas um pouco rendidas —
como quem se aconchegará
Bochecha contra a nuca
Dobrando o peso úmido do sempre
prestes a cair
sem suspeitar
que pesam.

Sentir paixão no
miúdo é refazer
viagem completa
ao mais-que-perfeito do presente.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Viajera [2]


Quando a tosse e a coceira passarão
Nos abraçávamos
Sem medo de contágio
Como se nunca haja
Perigo;
Receio;               Distância

Quando eu chorarei pela memória da velhinha do filme
você disse que o que mais gosta é dessa minha
sensibilidade

Tanto quanto quando odiará eu revidei
eu revidei de novo
um acinte com outro
muitas e muitas vezes pior
Mais capaz de ferir
Seria persona non grata
E então comigo não se brinca.

Pense se fosse o contrário 
Você teria me dito
Se nunca fosse o contrário

Pense se fosse o contrário

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Viajera

Amanhã bem cedo vais reclamar
Do teu lábio encostado no micróbio de debaixo da minha unha

Hoje ainda não sei

E vou cansar o pulso
Enredando dedos de fazer dormir
Circulares e salpicantes
Nos teus cabelos compridos.