quarta-feira, 24 de junho de 2026

Mocha mousse

Rutinha era como as Terezas que, por capricho no Cartório, já nasceram diminutas. Foi batizada assim por um viajante do tempo, cresceu pouco, o conjunto de letras fazendo jus ao formatinho curto das pernas. Rutinha foi desde sempre no pequenitivo.
O primeiro presente que a mãe de Rutinha ganhou para ela na maternidade foi um laço verde água para enfeitar os poucos cabelos que ela tinha até ontem. Era isso e esconder a moleira aberta, aquele buraquinho no crânio de que padecemos todos e crescemos tentando preencher. O laço o dobro do tamanho da bebê. Chegavam as visitas e diziam: como fica bonita com este lacinho. Que de inho não tinha nada.
E então sorriam. E Rutinha sorria, enfeitada, mimetizando o contentamento alheio com a beleza que exalava do adereço. Como sina, quando criança, ao contrário das que preferem os brinquedos ou os livros, Rutinha gostava de ganhar vestidos e saias bem rodadas de tutu no aniversário. Melissas. Botinhas. Casaquinhos de botões para repousarem suas duas tranças em cima e, nas pontas, xuxinhas combinando. Gostava de ser a mais bonita da turma, nem sempre bem penteadinha mas sempre muito engomada, obrigada, madrinha, dessa eu ainda não tinha. Vestia a saia espalhafatosa de presente, por cima da calça mesmo, só para desenhar uma ronda saltitante pela casa. Depois tirava e dobrava para não sujar.
Quando Rutinha foi entrando na puberdade, o nariz foi ficando cada vez mais adunco, o formato do queixo assim já meio indefinido. As olheiras mais fundas. Não se importava de não ter a beleza dos traços das outras, mas uma coisa nunca deixou de querer ter: mais roupas. Muitas roupas. As vitrines todas imantando possibilidades novas, o vestuário carimbando um passaporte para um mundo em que não houvesse diferença entre a roupa de hoje e a de domingo.
E Rutinha sorria, mulher feita cada vez mais enfeitada. Eu lembro de um ano em que Rutinha ficou toda bege porque era clean e no ano seguinte usava muito azul com marrom em suas variações de tom porque jurava que era moda. Antes de comprar presencialmente, gastava um tempo analisando as costuras para se sentir um pouco mais segura. 
Teve um marido que não podia mais com a quantidade de cabides (dele) que só diminuía, um filho que diz até hoje que só viaja com o dobro de cuecas na mala do que os dias que passará fora de casa, um dente canino do lado direito trincado de tanto arrancar uma borda daquele pequeno fiapo de plástico com duas hastes que atravessa o tecido só para nos contar das proporções e procedências com a boca.
A lixeira do trabalho sempre temperada com os papéis branquinhos ou até coloridos esfrangalhados em pedacinhos para que ninguém suspeitasse das somas que desembolsava todos os meses. Ousaria dizer semanas.
Tinha a visão embolada das roupas escondidas atrás das pilhas recém passadas. E o prazer de ter crédito para vestir o que bem entendia e vez em quando até comprar à vista. As caixas de sapato descartadas antes de entrar em casa com outro par embaixo do braço, como quem se engana sozinha.
Houve um tempo em que Rutinha ficava devendo na praça uma parte das doze prestações de dezoito e noventa por outra blusa básica de mangas compridas que não exatamente precisava. Mas queria tanto quando viu na manequim. E bom é querer e ter.
Chegava em casa e era a quinta peça com etiqueta que se entulhava junto com as outras sem ocasião nem circunstância. Nada parecia combinar com nada. Ou pior (e até mais comum): agora precisava de algo que com isso que chegou fizesse mais sentido. Rutinha sentia uma paz momentânea no coração de vestir tudo, ter aquilo para vestir, vestir até a sacola de papelão amarelinha com timbre dourado pendendo do próprio pulso propagandeando: Boutique da Lu. Para logo depois sentir um remorso, um remorso tremendo por todas as peças da loja, que não haviam sido escolhidas, que eventualmente outras pessoas comprariam, que eventualmente morreriam secas e amarrotadas na famigerada pilha de fast fashion do Atacama, essa ideia assombrosa que desde que chegou nunca mais lhe abandonou, embora não lhe impedisse de continuar comprando por impulso. 
Nossa pequena Rute exagerava nas quantidades, o mesmo modelo em três ou quatro pequenas variações, e nem é que não se importasse com a qualidade, porque nunca lhe escapou um fio sem cortar, é só que a lógica do acúmulo lhe fisgou o coração bem cedo e insistia em, de algum modo e por razões praticamente desconhecidas, lhe apaziguar, por pelo menos dois segundos e meio — o prazo entre a compensação do pix e a emissão do código de rastreio.
A lógica do acúmulo é uma prima-irmã da frequência da escassez, embora também seja meio-irmã da ideia que nos foi vendida de prosperidade. Tudo é parâmetro. Gera parâmetro. Esconde um vácuo que traga, um mundo antigo, uma lembrança muda de estar na fila do caixa esperando para parcelar e se espantar com os quatro dígitos antes da vírgula e a palavra débito seguida por quanto fica de desconto à vista.
Ter antes de precisar.
Bom é se importar com ter e ter para ter.
Com as mangas dobradinhas e as golas saindo de dentro dos suéteres. Um clássico que entra e sai das lapelas conforme a conveniência do freguês.
Ou pelo menos era assim que a Rutinha pensava para se perdoar quando se excedia.
Às vezes chamávamos-lhe centopeia, dada a quantidade de sapatos básicos e excêntricos que se empilhavam em caixas ao lado e acima da sapateira, e ela insistia que deste ainda não tinha, é que a moda mudou, eu tenho um parecido da última estação, mas não voltou bem igual, agora o cano deve ser um pouco mais longo, olha o subtom do brilho desta fivela.
Tinha sempre um marrom que agora chamavam de um jeito que Rutinha pronunciava mal mas se esforçava, e então precisava desesperadamente vestir qualquer coisa cor de café com leite, ou lhe faltaria o ar (de fidalga e antenada), embora o tecido se confundisse com a sua própria pele e não favorecesse em nada a coloração pessoal e os seus contrastes.
Ao contrário do baralho, em que se conta alcançando cento e quatro e está completo, os cabides de Rutinha não conheceram números inteiros. E ainda assim dominaram multiplicações e adições. Comportaram sempre mais e mais camadas, uma anarquia jamais vista (por inteiro). Na prateleira uma pilha na frente da outra pilha maiorzinha, Rutinha arrancava uma peça pulavam três a cada manhã, trocava tudo até ficar pelo menos um pouco satisfeita com as provas, bagunçava ainda mais e sentia que nunca tinha o que chega na hora de sair.
De tempos em tempos, tirava pra ser caridosa. Doava o quinto dos moletons que usou só duas vezes, ou o pijama remendado, ou o vestido que parecia de outro tecido na foto e na modelo do anúncio e ela acabou perdendo o prazo da troca. Coisas com etiqueta. Como se o excesso estivesse expurgado se fosse também convertido num excesso de caridade.
Rutinha era muito amiga da minha mãe e frequentou a nossa casa sempre com seus jeans e suas alfaiatarias e suas pontas assimétricas e ponchos e camisetas de algodão por cima de mangas de renda ou de tule. Uma vida toda. Sempre vistosa, vaidosa, sem um estilo definido, sempre o que chegava (bem atrasado, eu descobri depois) ou de Paris ou de São Paulo ou lá da China ali na Terezinha Modas. Calça saruel ela teve oito e não guardou nenhuma para quando voltou a da Jasmine.
Não sucumbiu à onda do botox, apenas manteve-se irresistivelmente atraída pelo efeito produzido pelas roupas, as armaduras bem cortadas da indústria têxtil para as guerreiras que guerreiam suas próprias batalhas aqui no interior. Houve um tempo em que Rutinha se pegava pensando à noite no look da próxima manhã como se o simples fato de poder escolher o que vestir, entre tantas opções, desse-lhe ânimo e coragem para atravessar os dias seguintes.
Quando a cerimônia começou no crematório municipal, pensei primeiro que era sorte estarmos no outono e os cinzas e o rubro das brasas lhe terem sempre caído tão bem.
Rutinha tinha muitos pontos fortes. E apenas um fraco, que lhe cobria o corpo em adornos. Morreu na manhã de ontem. Foi encontrada caída, no chão do banheiro, vítima de um choque fatal no próprio secador de cabelo enquanto tentava desamassar um pequeno vinco numa peça de linho. Morte besta, como são todas. Descalça. Diminuta. Estava nua em pelo. Do tamanho do próprio tamanho. Bem ao contrário das minhas memórias. É por aí que você vê como são as coisas e os finais — nem sempre fazem jus aos meios, às meias, cachecóis, chapéus Fedora e sobretudos ajustados na cintura.
Calçando belos sapatos altos é que Rutinha desfilou em torno de todos os seus cataclismas, enfeitou a carcaça, fez o que pode. Na fornalha fúnebre, vai só um paninho por cima.
Mistura estabilizada de 80% algodão e 20% de poliéster.
Por aí é que a gente vê como são as coisas.
Ela vestia um tailleur feito sob medida para ser consumido pelo fogo e nunca ser roído pelas traças. Uma roupa linda de morrer. Enfeitavam-lhe flores brancas, palavras doces e tristes. A promessa bem humorada de um brechó com o seu acervo. As bolhas de plástico que os ossos assistiriam antes de virarem pó.
Na coroa de homenagem no canto direito, sem assinatura ou mensagem de condolências, um exagerado laço de fita verde água. Seda pura. O nó bem firme, preso às extremidades, parecia tapar um buraco.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Viajera [4]


Quando viemos ao mundo
os mais versados em perseguir
os subtextos
eram os mais inteligentes.
Ganhavam troféus
Acertando as charadas
Como se o meu amor era
Uma carta daquele jogo de adivinhar ou
Um clique no campo
sempre minado.
Venceu quem acertava
Às vezes por sorte
Outras por faro
Sem explodir

Quem ria primeiro da ironia não passava
a vergonha de não me entender
Nem poderia perguntar
Porque perguntar é ou não é
Afinal
Coisa de burro?
E nós tão tão inteligentes
ajeitando os colarinhos
por fora da presunção costurada
nos blazeres que vestiremos
quando esfria.

Quando casar contigo,
As portas da suíte tremerão sozinhas
Só com o vento que venta
Pela basculante
Nunca porque as estou chacoalhando
Com palmas furiosas de espanto
Não de matar mosquitos, pensamentos
Este estresse avassalador
Que exige o silêncio de recobrar o senso
Esvaído de todo no simples expelir de
gás carbônico de
um resfriado
mais simples ainda.

Quando casarei contigo,
Esta aflição tão propícia
De querermos e não termos podido
Seria maior
Que o medo
de jamais sermos realmente ouvidos
e ouvintes
Aos gritos.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Formas orgânicas

Descobri que cabelos caídos colados com o dedo úmido no azulejo também úmido da parede do meu banheiro são capazes de formar a imagem exata do pensamento que tentei lavar no banho. Sereia, madonna amamentando, uma menina de cabelos compridos segurando um balão de coração, um pescador, um coelho banguela com um cifrão acima da cabeça, uma pedra, um coral. Sobra mais um fio depois de enxaguar a máscara e preciso escolher entre posicioná-lo confirmando ou testando a tese. Um fio a mais e o que eu penso primeiro vira uma coisa negrita, sublinhada, ou inteiramente nova ou disforme.
Os cabelos são como nuvens nessa minha cabeça que nem sempre é céu.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Tome notas - sabor manga de camisa


Desligar a tela
Apagar a luz da ribalta

***

Não vi a poça
Para a senhora, molhada,
isso não faz diferença

***

Escrever ciente
De que o peso da caneta
Manda exércitos ou alforria

***

Dou uma mão para o delírio
Ainda te alcanço
com a outra

***

Os móveis absorvem
O som
Do que eu não digo

***

A certas loucuras se põe rédea
Rédea não, freio
Freio não, cabresto
— mas cabresto se põe em cavalo
Não que não seja o da
anarquia

***

O chupim
é o lobo
do homem

***

As pessoas são todas
como receita de bolo
às vezes erramos
A temperatura do forno

***

Para cada grama de ouro de semelhança
Uma tonelada de penas
de diferenças

***

A humanidade criou o conceito do olho gordo
para fazer contrapeso à impressão
de que os bonitos só têm vantagens

***

O falido

O ar do falido
E sua empáfia de fidalgo
Os brios que escolheu
conservar

***

O comprimento da onda

A vida nunca é água parada
É sempre profunda
Na melhor hipótese
Marola
Uma pororoca
Um tsunami
Que deságua!

***

Valor

Penso tanto em ganhar
Que esqueço que o que importa
mesmo para viver bem
É pensar em perder

***

Mareados

Os loucos são os mais certos
Porque estamos todos girando sem perceber
Enquanto a Terra se move

***

Desinvestir.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Gataria

Meu feminismo é felino
Ora feroz
Ora aconchegado
No colo das feras minhas
Tão relaxadas em bando
que amassam pães sobre os pontos
mais tensos pra serem frágeis
acompanhadas

Meu feminismo é felino
Manifestou-se primeiro
Cravando as fendas
Em ninhos
Nas comumente rajadas
Nas negras e 
tricolores
Envelhecidas e
aos gritos
violadas. 

Meu feminismo é felino
Eu sou bonita e sem raça
Bem gorda e prenha ou
peluda, bigodes e rabo em riste ou
Tudo
ao contrário afinal
caibo dentro
de caixas
de sapatos também

Meu feminismo é felino
Mia alto pela casa
Reivindicando comida;
espaço; liberdade
E espateia por atenção
Com almofadinhas que tocam
Olvidadas do próprio tamanho e
habilidade de se mover

Meu feminismo é felino
Vive o perigo da selva
No ambiente doméstico e, bem,
Nos montes mui másculos
Rasga o chão dos céus
Em que eles sobem sem
saber andar em
catwalk

Meu feminismo é felino
Dentes que cravam até deixar
marca
A língua
espessa
Garras de ter
que usar e afiar
E vez em quando poder
recolher

Meu feminismo é felino
Ele erra o pulo
Cai de pé
Esgueira fino por um vão
Sobrevive aos biomas e o
Cerrado
Quando é difícil de chegar
Estica-se
E quando alcança vale o impulso
De ter pulado até lá
Só para em coro fazer miau

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Viajera [3]

A escova de dentes que penderá novinha
de bruços sobre o aparador
do box do banheiro
contemplando a vista
como quem descansa
prestes a caía
ou se jogar
sem querer

E a minha estatelava
Em cima da tua
— as cerdas um pouco rendidas —
como quem se aconchegará
Bochecha contra a nuca
Dobrando o peso úmido do sempre
prestes a cair
sem suspeitar
que pesam.

Sentir paixão no
miúdo é refazer
viagem completa
ao mais-que-perfeito do presente.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O ofício

No princípio de todo outono a Academia Brasileira de Lesmas envia um ofício ao Rei Sol reivindicando seja criminalizada a conjugação do verbo lagartear.
Em uns muitos parágrafos, defendem apaixonada e demoradamente o seu direito integral ao tempo do úmido.
Acusam o Sol de profanar antigos acordos ao dar as caras na estação do ano que seria delas, assim estimulando práticas contrárias às suas, pelo que se sentem um pouco inadequadas em seu próprio tempo, e não é raro que façam uso da palavra injustiça para expressarem como se sentem.
“Sou o que sou” — comunica por escrito na mesma resposta polida e protocolar de sempre o regente, que durante a metade dos dias já se esconde mesmo e em outras metades não aparece para evitar a fadiga dos conflitos nesta época de polarizações — “Deixar completamente de aparecer, não vou”.
E é justamente por já saber que o Sol não vai simplesmente desaparecer que o que as Lesmas requisitam, ao fim, é de outra ordem. Mais pelas beiradas da proibição do Rei de comparecer ao céu de seu império. O que pretendem é coibir a glamourização fanfarrona do lagarteamento como prática. De modo que ecoa do ofício um sentimento de corajosa defesa da própria comunidade. Do direito de existir como Lesma.
As Lesmas, organizadas, protestam aguerridas saindo de suas tocas, embora sem mãos para carregar bandeiras. Ameaçam até empilharem-se umas sobre as outras e fecharem o trânsito do jardim inteiro se sua vontade não for atendida. Mas sabem que basta que o Sol dê as caras para que tenham de se recolher. 
Entocam-se a contragosto de setembro a março, mais ou menos, e no primeiro vento gelado de abril sentem que é chegada a hora do seu pomposo trabalho de deixar um rastro de gosma no mundo.
Por isso seguem considerando prudente e necessário o desestímulo ao comportamento de lagarto. E que comece pelo discurso. Não querem que nós largarteemos, que vós lagarteeis, e se arrepiam só de saber que livremente, dia desses, já era quase maio e mesmo assim eles lagartearam.
Saem para fazer compras bradando ser uma pena que estejamos presos todos juntos nesta cadeia chamada Alimentar.
Cada um com os seus propósitos.
A Academia Brasileira de Lesmas foi criada sob o mote de que deve haver tempo para todos se sentirem inteiramente confortáveis como são. A convivência em comunidade retroalimentou os ideais puristas e acabou por reforçar a impressão de que uma vida contrária aos hábitos das Lesmas é ofensiva e imoral. 
O tempo da Lesma é lento, e se sabe bem o por quê. Imagine o que é ter que arrastar a própria barriga enquanto anda e ainda levar a casa imensa e pesada nas costas.
Determinadas que são para o simples ato de se locomover, se tivessem dedos, eles estariam sempre em riste, pois não admitem ser passadas para trás. As Lesmas são ligadas. Ou acham que são, só porque têm antenas.
Para elas, que compartem os dias e os hábitos com o Mofo e o Bolor, é sagrado que haja um tempo para existir em seus próprios termos. Sem medo de um caloroso policiamento. Elas apreciam o escuro e o gelado das noites amenas. Se pudessem, vestiriam meias e tomariam chás sempre pontualmente às 3 da tarde. Como não podem, podam. Ou buscam podar, já que seu intento sempre termina frustrado.
Ano após ano, todo outono, todos ainda lagarteiam.
Não importa. As Lesmas seguem considerando ultrajante que haja quem faça, e ainda por cima dando verbo ao nome do comportamento, e ainda por cima goste, do que lhes é lesmamente impossível por uma questão até mesmo de sobrevivência.
Apoquenta-lhes que haja lá fora de debaixo de suas pedras uma imaginada horda de vagabundos contemplativos que, podendo se mover ligeiros, ou até correr, se lhes der na telha, decidam ao contrário estirarem-se no gramado, na calçada, no meio-fio, num banco de praça, para em comunhão produzirem as vitamininhas deles, olha lá, tão saudáveis que eles se acham, enquanto elas morreriam esturricadas em desgraça à mínima exposição solar num encontro presencial com o tirano, no qual fantasiam tentar expor minimamente os seus argumentos amolecidos.
Nunca assinam a petição cordialmente.
Nem atenciosamente.
Cientes de antemão do indeferimento reiterado, firmam o ofício com o visgo do estômago que acaba por confessar o quanto se conhecem: são termos em que exige deferimento, ressentidamente, a Academia Brasileira de Lesmas.