quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Viajera

Amanhã bem cedo vais reclamar
Do teu lábio encostado no micróbio de debaixo da minha unha

Hoje ainda não sei

E vou cansar o pulso
Enredando dedos de fazer dormir
Circulares e salpicantes
Nos teus cabelos compridos.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Expedição

Sim, conheço os cardinais há mais tempo do que conheço as letras. Claro, depois do um vem o dois. Intuitivo como andar pra frente. Mas como eu posso entender a ordem exata destas baias tão altas e abertas, semi-circulares, se há pouco já dei o melhor de mim conseguindo pedir a ajuda do recepcionista, quarenta e tantos anos, nem tão velho mas engomado dentro de um uniforme branco de poliéster com o nome da rede do patrão bordado em vermelho no peito, me dá dor física ter que pedir um favor destes presumindo dele uma má vontade, se bem que acho natural trabalhando com isto nesta idade, será que tem idade para ser bom um trabalho operacional, vermelho é maragato ou ximango, pelo menos não fazem este cristão trabalhar de lenço como fazem com os comissários de bordo, trabalhar fantasiado deveria significar ser artista, penso essas coisas rindo depois eu me censuro, lá vou eu de novo mear a culpa, esse daí até agorinha queria era tudo menos ter que receber o meu lanche, que pelo menos então ele me espie pela porta do hotel depois do check-out de quem nem ficou pra dormir e ele não entendeu nada, eu disse Mas só se o senhor não achar muito abuso, eu sei que não é parte do seu trabalho, é que fiquei um pouco impactada pelos crackudos da rua ali do lado, queria ter dito Eu sou apenas uma camponesa só pro pedido ficar mais lúdico, ou Eu sou uma matuta lá da roça e lá não tem disso aí a gente se impressiona, de preferência me guarda com olhos de polícia e um giroflex ligado aqui na porta pelo menos até eu tirar o último pé da última listra da faixa de pedestres para cruzar a avenida dupla aí da frente além desta grade que pelo mapa nem parecia que tinha, se não eu até tinha me precavido mentalmente e melhor, tão mais fácil seria ter feito o trajeto em linha reta sem pedir arrego pra ninguém, e como são largas estas duas ruas, dali pra frente eu sei que é só eu e Deus, vou até escrever com maiúscula para ser respeitosa, só até ali o Seu olhar me guardaria, o seu olhar me guardaria, por obséquio, nem vou ter coragem de olhar pra trás para lhe agradecer com um aceno que é para não parecer ainda mais vulnerável, espero estarmos entendidos desde já, falta um pouco de educação porque também falta um pouco de jeito e sobra leitura de noticiário, e olha que até agora ainda nem sabia que as luzes das lanchonetes vão se apagando aos poucos a essas horas, Porto Alegre não era pra ser grande e alegre que chega para ser viva as vinte e quatro? Se bem que já está tarde. Ah, então estão numeradas as plataformas. Como pode ter tanta gente perto do um e ninguém ali pela dez, tem um mendigo deitado no banco acho que na altura do quinze ou será que é só um passageiro regular esta incerteza mata a gente por dentro mas que mal teria ser uma pessoa em situação de rua, hoje já não se diz mais mendigo, o problema talvez seja só se ele estiver sob o efeito de drogas mas quais porque álcool também é droga e eu não me acanho de beber o segredo é estar de estômago cheio. Depois do um vem o dois. Tenho que atravessar quarenta, uma depois da outra, será que vou por baixo ou pela passarela de cima, onde seria mais difícil armar uma emboscada. Depois da meia-lua de concreto vem o desconhecido, vai ter gente ou vai estar ermo do lado de lá, eu vou ter que ir até lá para saber, seria muita canalhice da minha parte vir até aqui só pra perder o bonde agora. Sacar o celular de dentro do cós da calça para checar a hora é menos pior ou pior que tirá-lo depois de girar o fecho dourado da bolsa marrom que imita o couro das alpargatas caricatas com que imagino toda esta gente bebendo um mate olhando pro campo e dizendo bah amanhã de manhã quando acordar para me distrair de ter medo agora que ainda é de noite? É que tem o da rodoviária e o terminal tur, mas o que é que custava eu ter descoberto isso um pouco antes de chamar aquela moça da uber, que bom que pelo menos era uma moça, precisava ter uma história tão mirabolante com separação e adoção para me contar, é sempre esta ideia frustrada de prosperidade que levou a uma conjunção de fatores, será que esta lógica também se aplicará a mim um dia, eu estou aqui fazendo isto mas estive bem perto de não precisar, e que seguro de vida me protegeria de caminhar com essa mala em sol a pino de um ponto a outro entre estes dois hotéis expresses que eu nem sabia que eram dois, as mulheres hoje em dia andam sendo violentadas e esquartejadas por muito menos, pior é que eu é que errei o ponto de chegada e agora uber nenhum vai aceitar uma corrida de duzentos metros o jeito é enfrentá-los pé por pé. E que secura na garganta me dá ter tanta coragem de só ir andando entre o hotel errado e o certo, entre a porta vigiada e a noite escura, mais quarenta plataformas rodoviária adentro, por dentro, adentro não, afora, o movimento de uma flor que desabrocha com cheirinho de diesel e a poeira velha do asfalto, as janelas coladas que não abrem para sentir brisa nenhuma, afora depois de adentrar, fora estou eu, só se for da casinha, estou bem longe da minha casinha mesmo, Porto Alegre é longe como avisou aquela bandinha, ouço as rodinhas do pensamento saltitarem apressadas assim nem parece que eu ainda vou ter que esperar por hora e meia até dar a minha de embarcar. Santana do Livramento, plataforma quarenta e dois. Cama-leito, poltrona seis. Prefixo zero meia dois três. Nove horas depois das onze mas onze não era até ontem um cardinal que vem depois do nove, ah não, são nove de viagem e o onze é de ser pontual, acho que às vezes os números se embaralham de propósito só para me ver catá-los e recompô-los no pulso desse relógio parado que eu uso só pra bonito, como é que estes motoristas fazem para viajar a noite inteira sem adormecer eu acho que prefiro não saber, eles também fazem isso meio fantasiados. Faz um pouco de frio mas não o suficiente para este casaco que trouxe amarrado na cintura, nem para me cobrir com esta manta que veio dentro do saquinho de plástico, que mimo este travesseiro, parece de criança pequena, vou me cobrir assim mesmo porque aconchega, e além do mais em breve este ar condicionado talvez nos dê lufadas de ar denso que não circula direito e uma atmosfera de frigorífico. Quem é este cavalo de homem que comprou a poltrona da janela de última hora e agora fechou a cortininha, se ele tirar os tênis eu tiro também, é claro que ele vai tirar, quem tem pudor com chulé com estranho não tendo no uso à vista de um cabelinho liso e engordurado destes, devo fazer amizade ou fazer a misteriosa, devo ser solícita ou solicitada, certamente a misteriosa e apenas solicitada, nunca se sabe quem está aqui pela muamba e se a muamba é animada ou inanimada, será que cogitar que me retalhariam por um rim no mercado negro é ter autoestima demais ou meus rins em muita alta conta se bem que ultimamente eu até tenho bebido bastante água, quanto é que se paga por um rim meio hidratado, nestas próximas horas não vou tomar quase nada para não ter que usar um banheiro em movimento, eu não quero saber de mais nada porque vai dar tudo certo, de algum modo confio que esta cream cracker em farelos que me foi gentilmente entregue pelas mãos do funcionário da viação ouro e prata há de me salvar, como um amuleto, imagina dar o nome de um filho de Vespasiano, vou dar um jeito de dormir agora e de manhã eu ligo de novo o cérebro e o contador.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Viver aqui me ensinou

O que fazer
O que não fazer
Como tratar pessoas
E as que me tratam mal
Como lidar com autoridade
E com quem não tem poder
Exatamente igual

sábado, 31 de janeiro de 2026

Um cartão para Beyoncé

Mulher,

a tua arte e a tua face pública são tudo isso e ainda fazem jus a mais um pouco, hein. Espero que gostes destes girassóis.

Acho isto de que eles giram para o sol uma coisa rica de significados para uma pessoa-holofote, tão iluminante como tu. Brilhe e siga rodopiando! Um abraço apertado, este mimo florido e uma carta comprida, para quando estiveres bem disposta. Não precisa ser hoje. Quando sentir que deve. 

C.

***

Bey, (disse a entrosona te chamando pelo apelido e este é definitivamente um dos meus defeitos — se o extrovertido carente sem medo de ser ridículo for uma praga no mundo eu sou a paciente zero)

Um cartão também pode ser uma carta grande? A resposta é sim.

Para te desejar somente o melhor preciso antes te descer para a terra, junto de nós, meros mortais. E isso só consigo sendo prolixa. É presunçoso achar que as divindades fazem aniversário. Ou leem cartas. Deusa não nasce, é ela quem cria mundos. Não quero incorrer em negging ou acrimônia, veja bem, e olha que eu sei que estou correndo um risco, mas é que no fundo eu sou da turma que concorda com o Skank quando cantam que os filósofos não dizem nada que eu não possa dizer. O que faz um ícone é o totem ou a atenção que as pessoas lhe direcionam?

Esqueça. Tu és diva e a idade vem pra qualquer um, se se achar divindade errada não vais estar, eu vou me explicar melhor a seguir e com sorte tu me entendes sem se ofender. Tenho facilidade em lembrar que a obra e o legado podem ser eternos. Mas aniversário é coisa de gente. E gente é coisa que tem muitas camadinhas entre uma efeméride e outra. É por elas que mais me interesso. Louvo as obras de mente e coração, louvo até as deusas, mas me corrói a curiosidade pelas ramelas e o bafo com que acordam depois de uma noitada as grandes figuras. Ainda mais as mais blindadas. Qual o nome do cachorro e por quê. O fato de não suportarem água com gás. Como se manifesta o ego. De onde salta a joanete. Coisinhas assim que a tua equipe de PR não alcança, por mais que se estique, e eu sei que eles se esticam. Sou viciada neste cinismo diante da imagem perfeita. E tu? Nem é que eu não ache que o verniz da camada pública não brilha mesmo ou não é real. Todas as faces de um prisma são. Entendo um pouco como isso funciona. Mas é que eu sou muito imperfeita. Beyoncé do céu! Tu nem imaginas o quanto. Trata-se, portanto, de um fenômeno de projeção. Além do mais, só ver o inteiro pode conectar uma humanidade na outra. Chulé com chulé. Falha com falha. Rachadura com rachadura. Franqueza com franqueza. Vergonha na vergonha. Pelo menos é assim que eu sinto e entendo o mundo. As melhores amizades. O meu relacionamento. Não é uma brisa tentar por luz no lado mais escuro da gente? Que aí deixa de ser escuro e as outras coisas se reorganizam. Ganham sombra e contorno. Nuance. Imagino que para as celebridades a lua também se põe — embora nunca tenha visto ninguém chamar isso de pôr da lua. É quase como se as pessoas preferissem enxergar o mundo sob a luz escaldante do holofote-rei incidindo sobre todas as coisas em vez de entender que o mundo pode ser todo escuro e as coisas que se prateiam à noite serão bem outras no clarão ou será que são ambas e ao mesmo tempo eu já não sei de mais nada mas especulo.

Quando descobri que tu existias o Jailson já era fã faz tempo. Teu show foi o primeiro que ele foi, assim, de artista internacional, do resto não sei exatamente, e não sei se consegues imaginar tão em abstrato a distância que dava ir de Agrolândia até Brasília. Dava e dá, até hoje em dia. É ir de uma ponta a outra do país e custa notas e notas de empenho. Muito trabalho, parcelas de dedicação e coragem envolvidos. Coragem antes, pra sonhar grande. Pegar um voo pra nós era uma coisa de outro mundo — no sentido mais literal possível em um mundo capitalista que é dividido até em capital e interior. Ele alçou voo primeiro. E primeiro foi só pra te ver pessoalmente, olha como isso é bonito. Deslocar-se milhas e milhas para um encontro desta magnitude tem um impacto quase tectônico. Mais bonito ainda é pensar que, mesmo mui indiretamente, foi tu que abriste as asas de um avião para mim: anos mais tarde foi esta mesma coragem dele que providenciou nossas passagens aéreas para uma primeira viagem internacional de férias. Buenos Aires. Partindo acho que de Floripa. Ou Navegantes. Da saída eu não recordo bem, mas de fingir costume na chegada sim. Tu já foste a Bue? É linda. Tive um déjà vu lá que até hoje não me esqueço. Linda. Hoje em dia não sei tanto, porque fui faz tempo. Tem cara de cidade grande, mas mais ao sul do mundo. Tomara que tenhas ido naquela época e com os mesmos olhos de turista com os quais eu vi desabrochar a Floralis Genérica.

Bobagem. Sei que conheces o mundo todo. Beyoncé Giselle, o que desejar a quem supostamente tem tudo? E como conservar olhos de turista tendo o mais mais do acesso? É uma pergunta que faço gostando de imaginar que posso ter resposta. Tua. Que a encontres. Ou da vida, um dia. Se tua, eu poderia te conhecer melhor. Quem sabe aproveitar a troca para crescer contigo e não só com o contato calculado com a tua obra. Que é linda. Isso não se discute. Puts. Bicha, que produções incríveis. Pouca gente da minha geração não ficou com aquelas performances de moletom amarelo e depois cor de rosa, ou vice-versa, na arquibancada da memória. Pouca gente lembra de outra pessoa quando os cabelos voam ao ficar de frente para o ventilador. E me escorre uma lágrima do canto do olho direito a cada vez que ouço Daddy Lessons. Eu só não sei se vai te interessar saber ou se pra ti esta é só uma terça-feira qualquer. Se eu digo mesmo assim é porque sou das que acreditam que a maioria das coisas se organiza pelo Verbo, outras pela Verba, e todas as demais apenas com o Tempo.

Como é que é isto de tu seres uma diva pop? Te subiu para a cabeça? Deu viço para os cabelos? E a psoríase? Ah, é claro que tem dois lados, isso é coisa pressuposta, mas me pergunto se ao chegar no teu patamar de cantora mais ouvida, estrela mais brilhante da galáxia, a abelha mais rainha, etc., você ainda segue levemente deslumbrada com a ascensão meteórica. Como é o esforço de explodir enquanto permanece brilhando no céu sem que quase ninguém suspeite? Se sente enorme ou refém? Vou exemplificar. Tu és do tipo que ainda diz por aí sempre que pode: ah, a Rita Lee me escutava nas horas de folga e amava (já ouviste o mashup de Bodyguard com Lança-Perfume? é um show à parte), ou: se ela estivesse viva era beyhive até hoje. Ou: ah, sim, eu já jantei com David Bowie e ele não era exatamente como transparece nas obras, essa era só a voz que ele descobriu que comunicava melhor. Te acontece de ter que dizer essas coisas em voz alta para ter a medida da própria importância? Te acontece de deslizar na vaidade e depois pensar puts? Te acontece de ter coragem mas não necessariamente ela ser bondade? Comigo sim. Te conto antes que é para deixar confortável. Sem julgamentos. Se pergunto sussurrando baixinho é como se estivéssemos nos mesmos degraus do meio da escada do Olimpo, a meia viagem. Te faço descer na marra. Como se eu flutuar onírica ou liricamente na tua direção não pudesse depois me fazer cair, acordada.

Gosto mais destas coisas que escrevo de ressaca. Não gosto tanto de mim no auge da euforia, embora às vezes a persiga. E tu? Te ocorre às vezes ver o mundo da perspectiva do raso? Do ralo. Da derrota. Do chão — mais até do que do ponto de vista do meteoro. Me sinto mais lúcida mirando de baixo pro horizonte dos rastros fundos dos passos de uma gigante e teorizando sobre o seu peso e leveza. Me sinto um pouco de moletom sem ser no Coachella. Me conforta e aquece. Quase crio coragens conspiratórias para te perguntar qual a linha que une e qual a que separa Jay-Z de Epstein, depois volto atrás, e olha que eu vou passar a semana sendo nocauteada com estas conjecturas de poucos caracteres pelo meu algoritmo. Tu imaginas o que estava além daqueles arquivos?

Cindir-se melhor entre o público e o privado deve ser uma tarefa do cão. Porque as pessoas não param de especular, como estou fazendo agora. Também por isso te parabenizo. Por esta altura da fortaleza edificada ao redor das partes mais moles da tua alma e dos teus amores. Das tuas feiúras e feridas. E por saber dar fermento ao lado que brilha, protegendo tão bem o lado que às vezes se turva.

Beyoncé, não se preocupe, eu entendo super. Seu jogo, suas regras. Não responder já é resposta. Talvez a única que permita o tempo exato de ouvir o eco, e supor os piores cenários, enquanto decantam devagar os próprios detritos.

Desejo que seja mesmo feliz o teu aniversário.

Que um girassol gire na direção do que há de bonito no teu coração e quase só tu sabes.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Torênia

— Até porque, nesse caso...
— É velho cuidando de velho.
Minhas sobrancelhas arqueadas assentiram acovardadas da coragem de dizer o mesmo com todas as letras, até porque era justo ele dizendo aquilo. Justo ele. Dizia as palavras inteiras: é velho cuidando de velho. Ambos sabíamos que era aquilo mesmo, eu só gostava de cindir as letras para engolir algumas seguindo os manuais de etiqueta. De um lado havia muito medo de perder o viço do resto da vida investindo o tempo e a energia restantes, e sabe-se lá quanto é que lhe resta agora, para garantir o resto do viço e da energia faltantes de outro, que agora as circunstâncias fizeram lhe necessitar.
Não gosto nem de imaginar.
Mas de algum jeito sinto que preciso.
Chorão sabia que o choro começa é logo depois da vírgula de faço o que quero. Eu também sei como é. Dei pra reparar que quando se impõe o que tenho que fazer, eu tento me esquivar. Eu me debato. Agora mesmo, escrevendo estas coisas, estou relegando outras mais trabalhosas, graves, urgentes. E pouco interessantes. Aí é uma vela para cada santo e duas ou três para o nosso padroeiro.
Conversa comigo a tua resistência interna em não admitir que não suporta mais. Suponho a sensação de apagamento. Mal feito aquele cálculo do custo do fim da vida em troca de todos os benefícios da vida inteira. E além do mais a gente fala pouco de velhice, é uma coisa muito nova essa de poder confessar que tava tudo encaminhado, a gente achava que os preços já tinham sido pagos, agora era reclamar de terem sido ingratos conosco e não do preço de ser visto como ingrato, ingrato não, só desejante de liberdade, sabe-se lá se este velho mereceu mesmo o cuidado do outro ou era só a força do hábito de obrigar os mais novos a zelar pelos mais velhos, ninguém contava que também estivessem velhos quando chegasse a hora, e por aí meu pensamento vai indo até ganhar a sabedoria de um ancião.
Na maioria das vezes a coisa ainda foi super mal combinada. Pressuposta. Com quanto de vida e empenho se paga a dívida moral? Quando se considera quitada. Como se afere com a vírgula e depois os centavos este dever, e se é que ele existe, e qual o termo de seu vencimento. Não é por nada não, é pra eu já ir me programando. Para quem fica a atribuição eu sei, é pra quem não vê outra saída. Se acanha primeiro e depois reclama. Ou reclama de tanto não poder reclamar. A quem é que cabe a herança — maldita ou antecipada. O benefício em dúvida do merecimento. E se o ouro do pulso e do pescoço for ficando fosco, de tanto cansaço? De tanta saudade de brilho. As mãos na água da louça murchas com pouco sabão, o despertador tocando muito mais cedo aos domingos, os ritmos e hábitos determinados pela rigidez da velhice alheia, alheia, tão próxima e tão alheia.
Se a palavra asilo for mencionada em voz alta, morrem no além duas fadas protetoras da moral, dos bons costumes e da conta bancária.
Então me vê mais duas doses de analgésicos, quero não sentir mais dor e dissociar do monotema. Mas vem cá, você esperava mais não ter nenhuma obrigação? Sonhou alto. A vida se edifica no pilar do contragosto. Espairecer para regular temperatura e pressão é diferente de não ter nenhuma. E como conviver com uma dorzinha de nada, tão constante, e não enrabujar. Eu ainda não descobri, mas enterneço de pensar no corpo mais vagaroso que o ímpeto. Um dedo mal consolidado, as artrites, um pescoço com torcicolo, não são meus estes travesseiros, é minha só esta lombar que apita o tempo repetido de um mesmo movimento. Ou de nenhum. É uma pontada de não merecimento. Outra de mártir. Um gesto magnânimo de renúncia que já vem torrado da angústia, com dualidade. Como o sol de janeiro faz às flores que antes fez nascer.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Em estado bruto

São três irmãos
São o Taurino
O Celestino e o
Zé Ferino

Era só este mesmo
o poema.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

As fugas

Quando o peso das obrigações me caiu de volta sobre os ombros,
minha alma ainda estava suspensa e
calçando chinelos.

Prometi estar atenta ao que meu corpo
diria.
Ao enfado.
Às fugas.