segunda-feira, 4 de maio de 2026

O ofício

No princípio de todo outono a Academia Brasileira de Lesmas envia um ofício ao Rei Sol reivindicando seja criminalizada a conjugação do verbo lagartear.
Em uns muitos parágrafos, defendem apaixonada e demoradamente o seu direito integral ao tempo do úmido.
Acusam o Sol de profanar antigos acordos ao dar as caras na estação do ano que seria delas, assim estimulando práticas contrárias às suas, pelo que se sentem um pouco inadequadas em seu próprio tempo, e não é raro que façam uso da palavra injustiça para expressarem como se sentem.
“Sou o que sou” — comunica por escrito na mesma resposta polida e protocolar de sempre o regente, que durante a metade dos dias já se esconde mesmo e em outras metades não aparece para evitar a fadiga dos conflitos nesta época de polarizações — “Deixar completamente de aparecer, não vou”.
E é justamente por já saber que o Sol não vai simplesmente desaparecer que o que as Lesmas requisitam, ao fim, é de outra ordem. Mais pelas beiradas da proibição do Rei de comparecer ao céu de seu império. O que pretendem é coibir a glamourização fanfarrona do lagarteamento como prática. De modo que ecoa do ofício um sentimento de corajosa defesa da própria comunidade. Do direito de existir como Lesma.
As Lesmas, organizadas, protestam aguerridas saindo de suas tocas, embora sem mãos para carregar bandeiras. Ameaçam até empilharem-se umas sobre as outras e fecharem o trânsito do jardim inteiro se sua vontade não for atendida. Mas sabem que basta que o Sol dê as caras para que tenham de se recolher. 
Entocam-se a contragosto de setembro a março, mais ou menos, e no primeiro vento gelado de abril sentem que é chegada a hora do seu pomposo trabalho de deixar um rastro de gosma no mundo.
Por isso seguem considerando prudente e necessário o desestímulo ao comportamento de lagarto. E que comece pelo discurso. Não querem que nós largarteemos, que vós lagarteeis, e se arrepiam só de saber que livremente, dia desses, já era quase maio e mesmo assim eles lagartearam.
Saem para fazer compras bradando ser uma pena que estejamos presos todos juntos nesta cadeia chamada Alimentar.
Cada um com os seus propósitos.
A Academia Brasileira de Lesmas foi criada sob o mote de que deve haver tempo para todos se sentirem inteiramente confortáveis como são. A convivência em comunidade retroalimentou os ideais puristas e acabou por reforçar a impressão de que uma vida contrária aos hábitos das Lesmas é ofensiva e imoral. 
O tempo da Lesma é lento, e se sabe bem o por quê. Imagine o que é ter que arrastar a própria barriga enquanto anda e ainda levar a casa imensa e pesada nas costas.
Determinadas que são para o simples ato de se locomover, se tivessem dedos, eles estariam sempre em riste, pois não admitem ser passadas para trás. As Lesmas são ligadas. Ou acham que são, só porque têm antenas.
Para elas, que compartem os dias e os hábitos com o Mofo e o Bolor, é sagrado que haja um tempo para existir em seus próprios termos. Sem medo de um caloroso policiamento. Elas apreciam o escuro e o gelado das noites amenas. Se pudessem, vestiriam meias e tomariam chás sempre pontualmente às 3 da tarde. Como não podem, podam. Ou buscam podar, já que seu intento sempre termina frustrado.
Ano após ano, todo outono, todos ainda lagarteiam.
Não importa. As Lesmas seguem considerando ultrajante que haja quem faça, e ainda por cima dando verbo ao nome do comportamento, e ainda por cima goste, do que lhes é lesmamente impossível por uma questão até mesmo de sobrevivência.
Apoquenta-lhes que haja lá fora de debaixo de suas pedras uma imaginada horda de vagabundos contemplativos que, podendo se mover ligeiros, ou até correr, se lhes der na telha, decidam ao contrário estirarem-se no gramado, na calçada, no meio-fio, num banco de praça, para em comunhão produzirem as vitamininhas deles, olha lá, tão saudáveis que eles se acham, enquanto elas morreriam esturricadas em desgraça à mínima exposição solar num encontro presencial com o tirano, no qual fantasiam tentar expor minimamente os seus argumentos amolecidos.
Nunca assinam a petição cordialmente.
Nem atenciosamente.
Cientes de antemão do indeferimento reiterado, firmam o ofício com o visgo do estômago que acaba por confessar o quanto se conhecem: são termos em que exige deferimento, ressentidamente, a Academia Brasileira de Lesmas.

Quatro garrafas

O que saiu não era
A verdade
A menos que pela ressaca de uma verdade tomemos
Este misto de um constrangimento
que dói, com
o luto escandaloso pela morte trágica
do Superego, com
Os flashes da amnésia que faz acordar
No meio do dia
Num buraco muito escuro
aberto a vácuo
bem entre a Rua da Ojeriza e a
Alameda do Antônimo
da autocomiseração
Marcando letra por letra
com as unhas de dedos frios e trêmulos
as paredes de aprisionar a crença
no que se diz
antes de pensar:
Nunca mais eu bebo.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Dois pesos e duas tangerinas

Desacelerando para o semáforo no fim da avenida. O corredor recreativo em paralelo, pela ciclovia. Vai indo. Vem vindo. Tudo depende da perspectiva: o carro ainda em movimento, já quase parando, ou ele pelo retrovisor. Repara: tem trote de maratonista.
Logo vai ter que escolher dobrar a esquina e avançar pela ponte nova ou virar de volta. Vai escolher virar de volta? Vai escolher virar de volta. Remoer o caminho, num delírio de ser seguro, quem sabe porque fantasia já conhecê-lo, quem sabe porque o caminho de volta parece sempre mais curto.
Na volta tem os cansaços da vinda. Vai escolher voltar mesmo assim. Talvez precisamente por isso. Achando, claro, que vai voltar em linha reta. Não suspeita que o caminho de volta é sempre feito em outro ângulo. Passa criança de patins, vem rolando uma bola, avança nele o cachorro, o ciclista espaçoso de fim de turno vem transportando uma caixa imensa e pesada. Ainda não sabe. Vai pensar que é simples. Só inverter a direção. Que agora domina a técnica. Vai pensar que já sabe tudo porque veio por aqui, mas é que estava correndo, depois é que vai se dar conta que veio sem se dar conta que às vezes olhava pro chão, e não pros prédios, ou pros prédios, e não pro céu, ou pro céu, e não pra quem... esquece, já passou.
Vai escolher virar de volta. Eu reconheço pelo passo ritmado de quem sabe fingir que não vai ter que parar em algum momento. E vai parecer tão óbvio. Intuitivo até. Enquanto ainda trota em direção ao sinal vermelho, internamente ele já sabe que em algum momento, no fim da avenida, se quiser mesmo voltar, vai ter que pisar como quem pisa em falso. Bem rapidinho, finge que vai e não vai. Vai pensar que dá pra disfarçar, ninguém tá nem me vendo, eu não sou tão importante, essa gente tem mais o que fazer. Vai tentar se convencer de que quando menos esperar já estará refazendo o percurso, agora em mão contrária. Vai supor bastar uma coragenzinha, uma coisinha de nada, vai ser de um golpe só. Nisso até tem razão. Vai ser preciso tê-la. Ninguém inverte o caminho se não fizer o passinho caricato que não combina em nada com o ritmo da corrida inteira. Um passo que vem da dança. Chama-se pisa vira. Eu sei porque já dancei. O corredor vai meio que ter que esquecer que corre. Sai de súbito o atleta, entra um lampejo de artista. Vai ter que dançar por meio segundo. Pisar e virar.
E o caminho de volta não será o mesmo. É sempre outro.
O caminho de volta tem uma gravidade forte e embutida. Pode fazer cair. Pode fazer chegar. Quero dizer um magnetismo. Que também atrai. Enquanto não repele.
O caminho de volta também pode ser algo como o que o cuspe faz em direção à testa.
Mas por enquanto ele ainda não sabe.
Estou avisando só em pensamento — eu que já fui, dancei e voltei tantas vezes.
O caminho de volta exige: (antes/agora)
Um pequeno ridículo; 
A dose certa de remorso
em sentir que não vai em frente; e
Não saber tudo
o que ainda pode ser inédito.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Viajera [2]


Quando a tosse e a coceira passarão
Nos abraçávamos
Sem medo de contágio
Como se nunca haja
Perigo;
Receio;               Distância

Quando eu chorarei pela memória da velhinha do filme
você disse que o que mais gosta é dessa minha
sensibilidade

Tanto quanto quando odiará eu revidei
eu revidei de novo
um acinte com outro
muitas e muitas vezes pior
Mais capaz de ferir
Seria persona non grata
E então comigo não se brinca.

Pense se fosse o contrário 
Você teria me dito
Se nunca fosse o contrário

Pense se fosse o contrário

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Cebolíaca

Eu já nasci meio ofendida
   (queria ter estômago para dizer "alérgica"
Com suas cascas tão finas
e as camadas bem grossas
infinitamente leitosas
organizadas
e brancas
Um luxo de UX.

Fariam páreo às Bananas
não fosse vocês, Cebolas,
impregnarem dedos e olfato
De quem ousa parti-las
E partem-se, e partem-lhes sempre

Em anéis
Nos quadrados
Nos restaurantes e
Em cada casa
E até ralam
Liquidificam-lhes
Quanto menor melhor

É caso de tentar o extermínio sensorial
de sua falta de tato
em coexistir com os dentes
Para impedir
O disparate de uma mordida, quem sabe
Se não o apreço do paladar

Por isso partem-se
Eu já falei que partem-lhes
Partem fazendo chorar, não se importam
Com ser tão rudes e vulgares
Não perdem nunca esta mania espalhafatosa
E tão peculiar
E se pensassem, pensariam:
"Que nos deixassem quietas e inteiras,
tão frágil e bem pensado é o que nos protegia"
ou
"Lágrima também é legado"

Fazem-se catar, fragmentadas, para habitar a borda
Em roda
E o crec horrendo quando
ainda
meio
cruas
Todas espécies de autodefesa

Ao passo que temperam bem com sal
absolutamente tudo
desde que douradinhas e miúdas
— dizem

E se repito percebo que posso
Em partes tantas
quanto Cebolas têm camadas
ou ganham partículas
Estar finalmente tendo no prato
Chances de me curar

domingo, 15 de fevereiro de 2026

90377 Sedna

Essa doença
de que ainda não me curei
Explosão silenciosa acontecendo
bem longe da superfície
Júpiter ensinando Kubrick azul com marrom
combinam
mesmo sem anéis
Dois mil e vinte e tanto e ainda
a Odisseia ecoando em um
espaço simultâneo
Aberto a quatro mãos

Revoluções que
não desacontecem

Chove lá fora;
O afélio da órbita
Não faz sumir o Sol
Nem os dias polares
Nem essa doença
de que ainda não me curei

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Chá revelação

A riqueza e a maciez
São siamesas

O rico trezentos mil fios
O pobre malha embolotada
O rico acetinado
O pobre só no reboco

Rico tendência
Pobre remendo
Rico a favor das fibras
E pobre nervo

O rico aclimata fresco
O pobre sua pelo bigode
Tudo na vida do rico acolchoa
Na do pobre, pontiaguda

O rico clean
O pobre enfeita com y
O rico amplo
O pobre amontoado

O rico com tempo de sobra 
O pobre com falta de espaço

O rico hobby
O pobre tendo que ser pontual
O pobre fila
O rico encaixe
O rico tem quem limpe
O pobre mas é limpinho

O pobre chinela
E o rico colarinho
O rico aroma
Ao pobre, o cheiro
De pobre é barata
De rico é veneno

O rico insosso
E o pobre com tempero
O rico na contenção
O pobre na exibição
O rico polindo os talheres
O pobre sujando as mãos

O pobre rebaixa
O rico compra elétrico
O pobre conta o troco
O rico esquece de pagar
O pobre
Roçadeira
O rico “paisagismo”
Pobre desconto à vista
E rico no crédito pontuando milhas

O pobre sova
O rico é massageado
Pobre bicicleta com guarda-chuva
Rico teto solar

Rico direito dos animais
Pobre no preço do kilo
Agro é de rico
Cultura é de pobre
O rico diploma
O pobre briga de galo

Rico Roacutan
E pobre espinha inflamada
O rico sem glúten e integrativo
O pobre de família e ultraprocessado

O rico pensa em como ficar mais rico
O pobre joga na mega-sena
E em lado bom de ser pobre só pensa
Quem quer sinalizar virtude

Pobre agiota
Rico câmbia na baixa
Pobre brique de usado
Rico só troca por zero

O pobre sonha em comprar o ingresso
O rico promove e revista no acesso

Pobre esquemas de sobrevivência
Rico dinâmicas de poder