quarta-feira, 27 de maio de 2026

Viajera [4]


Quando viemos ao mundo
os mais versados em perseguir
os subtextos
eram os mais inteligentes.
Ganhavam troféus
Acertando as charadas
Como se o meu amor era
Uma carta daquele jogo de adivinhar ou
Um clique no campo
sempre minado.
Venceu quem acertava
Às vezes por sorte
Outras por faro
Sem explodir
Quem ria primeiro da ironia não passava
a vergonha de não me entender
Nem poderia perguntar
Porque perguntar é ou não é
Afinal
Coisa de burro?
E nós tão tão inteligentes
ajeitando os colarinhos
por fora da presunção costurada
nos blazeres que vestiremos
quando esfria.

Quando casar contigo,
As portas da suíte tremerão sozinhas
Só com o vento que venta
Pela basculante
Nunca porque as estou chacoalhando
Com palmas furiosas de espanto
Não de matar mosquitos, pensamentos
Este estresse avassalador
Que exige o silêncio de recobrar o senso
Esvaído de todo no simples expelir de
gás carbônico de
um resfriado
mais simples ainda.

Quando casarei contigo,
Esta aflição tão propícia
De querermos e não termos podido
Seria maior
Que o medo
de jamais sermos realmente ouvidos
e ouvintes
Aos gritos.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Formas orgânicas

Descobri que cabelos caídos colados com o dedo úmido no azulejo também úmido da parede do meu banheiro são capazes de formar a imagem exata do pensamento que tentei lavar no banho. Sereia, madonna amamentando, uma menina de cabelos compridos segurando um balão de coração, um pescador, um coelho banguela com um cifrão acima da cabeça, uma pedra, um coral. Sobra mais um fio depois de enxaguar a máscara e preciso escolher entre posicioná-lo confirmando ou testando a tese. Um fio a mais e o que eu penso primeiro vira uma coisa negrita, sublinhada, ou inteiramente nova ou disforme.
Os cabelos são como nuvens nessa minha cabeça que nem sempre é céu.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Tome notas - sabor manga de camisa


Desligar a tela
Apagar a luz da ribalta

***

Não vi a poça
Para a senhora, molhada,
isso não faz diferença

***

Escrever ciente
De que o peso da caneta
Manda exércitos ou alforria

***

Dou uma mão para o delírio
Ainda te alcanço
com a outra

***

Os móveis absorvem
O som
Do que eu não digo

***

A certas loucuras se põe rédea
Rédea não, freio
Freio não, cabresto
— mas cabresto se põe em cavalo
Não que não seja o da
anarquia

***

O chupim
é o lobo
do homem

***

As pessoas são todas
como receita de bolo
às vezes erramos
A temperatura do forno

***

Para cada grama de ouro de semelhança
Uma tonelada de penas
de diferenças

***

A humanidade criou o conceito do olho gordo
para fazer contrapeso à impressão
de que os bonitos só têm vantagens

***

O falido

O ar do falido
E sua empáfia de fidalgo
Os brios que escolheu
conservar

***

O comprimento da onda

A vida nunca é água parada
É sempre profunda
Na melhor hipótese
Marola
Uma pororoca
Um tsunami
Que deságua!

***

Valor

Penso tanto em ganhar
Que esqueço que o que importa
mesmo para viver bem
É pensar em perder

***

Mareados

Os loucos são os mais certos
Porque estamos todos girando sem perceber
Enquanto a Terra se move

***

Desinvestir.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Gataria

Meu feminismo é felino
Ora feroz
Ora aconchegado
No colo das feras minhas
Tão relaxadas em bando
que amassam pães sobre os pontos
mais tensos pra serem frágeis
acompanhadas

Meu feminismo é felino
Manifestou-se primeiro
Cravando as fendas
Em ninhos
Nas comumente rajadas
Nas negras e 
tricolores
Envelhecidas e
aos gritos
violadas. 

Meu feminismo é felino
Eu sou bonita e sem raça
Bem gorda e prenha ou
peluda, bigodes e rabo em riste ou
Tudo
ao contrário afinal
caibo dentro
de caixas
de sapatos também

Meu feminismo é felino
Mia alto pela casa
Reivindicando comida;
espaço; liberdade
E espateia por atenção
Com almofadinhas que tocam
Olvidadas do próprio tamanho e
habilidade de se mover

Meu feminismo é felino
Vive o perigo da selva
No ambiente doméstico e, bem,
Nos montes mui másculos
Rasga o chão dos céus
Em que eles sobem sem
saber andar em
catwalk

Meu feminismo é felino
Dentes que cravam até deixar
marca
A língua
espessa
Garras de ter
que usar e afiar
E vez em quando poder
recolher

Meu feminismo é felino
Ele erra o pulo
Cai de pé
Esgueira fino por um vão
Sobrevive aos biomas e o
Cerrado
Quando é difícil de chegar
Estica-se
E quando alcança vale o impulso
De ter pulado até lá
Só para em coro fazer miau

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Viajera [3]

A escova de dentes que penderá novinha
de bruços sobre o aparador
do box do banheiro
contemplando a vista
como quem descansa
prestes a caía
ou se jogar
sem querer

E a minha estatelava
Em cima da tua
— as cerdas um pouco rendidas —
como quem se aconchegará
Bochecha contra a nuca
Dobrando o peso úmido do sempre
prestes a cair
sem suspeitar
que pesam.

Sentir paixão no
miúdo é refazer
viagem completa
ao mais-que-perfeito do presente.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O ofício

No princípio de todo outono a Academia Brasileira de Lesmas envia um ofício ao Rei Sol reivindicando seja criminalizada a conjugação do verbo lagartear.
Em uns muitos parágrafos, defendem apaixonada e demoradamente o seu direito integral ao tempo do úmido.
Acusam o Sol de profanar antigos acordos ao dar as caras na estação do ano que seria delas, assim estimulando práticas contrárias às suas, pelo que se sentem um pouco inadequadas em seu próprio tempo, e não é raro que façam uso da palavra injustiça para expressarem como se sentem.
“Sou o que sou” — comunica por escrito na mesma resposta polida e protocolar de sempre o regente, que durante a metade dos dias já se esconde mesmo e em outras metades não aparece para evitar a fadiga dos conflitos nesta época de polarizações — “Deixar completamente de aparecer, não vou”.
E é justamente por já saber que o Sol não vai simplesmente desaparecer que o que as Lesmas requisitam, ao fim, é de outra ordem. Mais pelas beiradas da proibição do Rei de comparecer ao céu de seu império. O que pretendem é coibir a glamourização fanfarrona do lagarteamento como prática. De modo que ecoa do ofício um sentimento de corajosa defesa da própria comunidade. Do direito de existir como Lesma.
As Lesmas, organizadas, protestam aguerridas saindo de suas tocas, embora sem mãos para carregar bandeiras. Ameaçam até empilharem-se umas sobre as outras e fecharem o trânsito do jardim inteiro se sua vontade não for atendida. Mas sabem que basta que o Sol dê as caras para que tenham de se recolher. 
Entocam-se a contragosto de setembro a março, mais ou menos, e no primeiro vento gelado de abril sentem que é chegada a hora do seu pomposo trabalho de deixar um rastro de gosma no mundo.
Por isso seguem considerando prudente e necessário o desestímulo ao comportamento de lagarto. E que comece pelo discurso. Não querem que nós largarteemos, que vós lagarteeis, e se arrepiam só de saber que livremente, dia desses, já era quase maio e mesmo assim eles lagartearam.
Saem para fazer compras bradando ser uma pena que estejamos presos todos juntos nesta cadeia chamada Alimentar.
Cada um com os seus propósitos.
A Academia Brasileira de Lesmas foi criada sob o mote de que deve haver tempo para todos se sentirem inteiramente confortáveis como são. A convivência em comunidade retroalimentou os ideais puristas e acabou por reforçar a impressão de que uma vida contrária aos hábitos das Lesmas é ofensiva e imoral. 
O tempo da Lesma é lento, e se sabe bem o por quê. Imagine o que é ter que arrastar a própria barriga enquanto anda e ainda levar a casa imensa e pesada nas costas.
Determinadas que são para o simples ato de se locomover, se tivessem dedos, eles estariam sempre em riste, pois não admitem ser passadas para trás. As Lesmas são ligadas. Ou acham que são, só porque têm antenas.
Para elas, que compartem os dias e os hábitos com o Mofo e o Bolor, é sagrado que haja um tempo para existir em seus próprios termos. Sem medo de um caloroso policiamento. Elas apreciam o escuro e o gelado das noites amenas. Se pudessem, vestiriam meias e tomariam chás sempre pontualmente às 3 da tarde. Como não podem, podam. Ou buscam podar, já que seu intento sempre termina frustrado.
Ano após ano, todo outono, todos ainda lagarteiam.
Não importa. As Lesmas seguem considerando ultrajante que haja quem faça, e ainda por cima dando verbo ao nome do comportamento, e ainda por cima goste, do que lhes é lesmamente impossível por uma questão até mesmo de sobrevivência.
Apoquenta-lhes que haja lá fora de debaixo de suas pedras uma imaginada horda de vagabundos contemplativos que, podendo se mover ligeiros, ou até correr, se lhes der na telha, decidam ao contrário estirarem-se no gramado, na calçada, no meio-fio, num banco de praça, para em comunhão produzirem as vitamininhas deles, olha lá, tão saudáveis que eles se acham, enquanto elas morreriam esturricadas em desgraça à mínima exposição solar num encontro presencial com o tirano, no qual fantasiam tentar expor minimamente os seus argumentos amolecidos.
Nunca assinam a petição cordialmente.
Nem atenciosamente.
Cientes de antemão do indeferimento reiterado, firmam o ofício com o visgo do estômago que acaba por confessar o quanto se conhecem: são termos em que exige deferimento, ressentidamente, a Academia Brasileira de Lesmas.

Quatro garrafas

O que saiu não era
A verdade
A menos que pela ressaca de uma verdade tomemos
Este misto de um constrangimento
que dói, com
o luto escandaloso pela morte trágica
do Superego, com
Os flashes da amnésia que faz acordar
No meio do dia
Num buraco muito escuro
aberto a vácuo
bem entre a Rua da Ojeriza e a
Alameda do Antônimo
da autocomiseração
Marcando letra por letra
com as unhas de dedos frios e trêmulos
as paredes de aprisionar a crença
no que se diz
antes de pensar:
Nunca mais eu bebo.