terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Torênia

— Até porque, nesse caso...
— É velho cuidando de velho.
Minhas sobrancelhas arqueadas assentiram acovardadas da coragem de dizer o mesmo com todas as letras, até porque era justo ele dizendo aquilo. Justo ele. Dizia as palavras inteiras: é velho cuidando de velho. Ambos sabíamos que era aquilo mesmo, eu só gostava de cindir as letras para engolir algumas seguindo os manuais de etiqueta. De um lado havia muito medo de perder o viço do resto da vida investindo o tempo e a energia restantes, e sabe-se lá quanto é que lhe resta agora, para garantir o resto do viço e da energia faltantes de outro, que agora as circunstâncias fizeram lhe necessitar.
Não gosto nem de imaginar.
Mas de algum jeito sinto que preciso.
Chorão sabia que o choro começa é logo depois da vírgula de faço o que quero. Eu também sei como é. Dei pra reparar que quando se impõe o que tenho que fazer, eu tento me esquivar. Eu me debato. Agora mesmo, escrevendo estas coisas, estou relegando outras mais trabalhosas, graves, urgentes. E pouco interessantes. Aí é uma vela para cada santo e duas ou três para o nosso padroeiro.
Conversa comigo a tua resistência interna em não admitir que não suporta mais. Suponho a sensação de apagamento. Mal feito aquele cálculo do custo do fim da vida em troca de todos os benefícios da vida inteira. E além do mais a gente fala pouco de velhice, é uma coisa muito nova essa de poder confessar que tava tudo encaminhado, a gente achava que os preços já tinham sido pagos, agora era reclamar de terem sido ingratos conosco e não do preço de ser visto como ingrato, ingrato não, só desejante de liberdade, sabe-se lá se este velho mereceu mesmo o cuidado do outro ou era só a força do hábito de obrigar os mais novos a zelar pelos mais velhos, ninguém contava que também estivessem velhos quando chegasse a hora, e por aí meu pensamento vai indo até ganhar a sabedoria de um ancião.
Na maioria das vezes a coisa ainda foi super mal combinada. Pressuposta. Com quanto de vida e empenho se paga a dívida moral? Quando se considera quitada. Como se afere com a vírgula e depois os centavos este dever, e se é que ele existe, e qual o termo de seu vencimento. Não é por nada não, é pra eu já ir me programando. Para quem fica a atribuição eu sei, é pra quem não vê outra saída. Se acanha primeiro e depois reclama. Ou reclama de tanto não poder reclamar. A quem é que cabe a herança — maldita ou antecipada. O benefício em dúvida do merecimento. E se o ouro do pulso e do pescoço for ficando fosco, de tanto cansaço? De tanta saudade de brilho. As mãos na água da louça murchas com pouco sabão, o despertador tocando muito mais cedo aos domingos, os ritmos e hábitos determinados pela rigidez da velhice alheia, alheia, tão próxima e tão alheia.
Se a palavra asilo for mencionada em voz alta, morrem no além duas fadas protetoras da moral, dos bons costumes e da conta bancária.
Então me vê mais duas doses de analgésicos, quero não sentir mais dor e dissociar do monotema. Mas vem cá, você esperava mais não ter nenhuma obrigação? Sonhou alto. A vida se edifica no pilar do contragosto. Espairecer para regular temperatura e pressão é diferente de não ter nenhuma. E como conviver com uma dorzinha de nada, tão constante, e não enrabujar. Eu ainda não descobri, mas enterneço de pensar no corpo mais vagaroso que o ímpeto. Um dedo mal consolidado, as artrites, um pescoço com torcicolo, não são meus estes travesseiros, é minha só esta lombar que apita o tempo repetido de um mesmo movimento. Ou de nenhum. É uma pontada de não merecimento. Outra de mártir. Um gesto magnânimo de renúncia que já vem torrado da angústia, com dualidade. Como o sol de janeiro faz às flores que antes fez nascer.