Mulher,
a tua arte e a tua face pública são tudo isso e ainda fazem jus a mais um pouco, hein. Espero que gostes destes girassóis.
Acho isto de que eles giram para o sol uma coisa rica de significados para uma pessoa-holofote, tão iluminante como tu. Brilhe e siga rodopiando! Um abraço apertado, este mimo florido e uma carta comprida, para quando estiveres bem disposta. Não precisa ser hoje. Quando sentir que deve.
C.
***
Bey,
(disse a entrosona te chamando pelo apelido e este é definitivamente um dos meus defeitos — se o extrovertido carente sem medo de ser ridículo for uma praga no mundo eu sou a paciente zero)
Um cartão também pode ser uma carta grande? A resposta é sim.
Para te desejar somente o melhor preciso antes te descer para a terra, junto de nós, meros mortais. E isso só consigo sendo prolixa. É presunçoso achar que as divindades fazem aniversário. Ou leem cartas. Deusa não nasce, é ela quem cria mundos. Não quero incorrer em negging ou acrimônia, veja bem, e olha que eu sei que estou correndo um risco, mas é que no fundo eu sou da turma que concorda com o Skank quando cantam que os filósofos não dizem nada que eu não possa dizer. O que faz um ícone é o totem ou a atenção que as pessoas lhe direcionam?
Esqueça. Tu és diva e a idade vem pra qualquer um, se se achar divindade errada não vais estar, eu vou me explicar melhor a seguir e com sorte tu me entendes sem se ofender. Tenho facilidade em lembrar que a obra e o legado podem ser eternos. Mas aniversário é coisa de gente. E gente é coisa que tem muitas camadinhas entre uma efeméride e outra. É por elas que mais me interesso. Louvo as obras de mente e coração, louvo até as deusas, mas me corrói a curiosidade pelas ramelas e o bafo com que acordam depois de uma noitada as grandes figuras. Ainda mais as mais blindadas. Qual o nome do cachorro e por quê. O fato de não suportarem água com gás. Como se manifesta o ego. De onde salta a joanete. Coisinhas assim que a tua equipe de PR não alcança, por mais que se estique, e eu sei que eles se esticam. Sou viciada neste cinismo diante da imagem perfeita. E tu? Nem é que eu não ache que o verniz da camada pública não brilha mesmo ou não é real. Todas as faces de um prisma são. Entendo um pouco como isso funciona. Mas é que eu sou muito imperfeita. Beyoncé do céu! Tu nem imaginas o quanto. Trata-se, portanto, de um fenômeno de projeção. Além do mais, só ver o inteiro pode conectar uma humanidade na outra. Chulé com chulé. Falha com falha. Rachadura com rachadura. Franqueza com franqueza. Vergonha na vergonha. Pelo menos é assim que eu sinto e entendo o mundo. As melhores amizades. O meu relacionamento. Não é uma brisa tentar por luz no lado mais escuro da gente? Que aí deixa de ser escuro e as outras coisas se reorganizam. Ganham sombra e contorno. Nuance. Imagino que para as celebridades a lua também se põe — embora nunca tenha visto ninguém chamar isso de pôr da lua. É quase como se as pessoas preferissem enxergar o mundo sob a luz escaldante do holofote-rei incidindo sobre todas as coisas em vez de entender que o mundo pode ser todo escuro e as coisas que se prateiam à noite serão bem outras no clarão ou será que são ambas e ao mesmo tempo eu já não sei de mais nada mas especulo.
Quando descobri que tu existias o Jailson já era fã faz tempo. Teu show foi o primeiro que ele foi, assim, de artista internacional, do resto não sei exatamente, e não sei se consegues imaginar tão em abstrato a distância que dava ir de Agrolândia até Brasília. Dava e dá, até hoje em dia. É ir de uma ponta a outra do país e custa notas e notas de empenho. Muito trabalho, parcelas de dedicação e coragem envolvidos. Coragem antes, pra sonhar grande. Pegar um voo pra nós era uma coisa de outro mundo — no sentido mais literal possível em um mundo capitalista que é dividido até em capital e interior. Ele alçou voo primeiro. E primeiro foi só pra te ver pessoalmente, olha como isso é bonito. Deslocar-se milhas e milhas para um encontro desta magnitude tem um impacto quase tectônico. Mais bonito ainda é pensar que, mesmo mui indiretamente, foi tu que abriste as asas de um avião para mim: anos mais tarde foi esta mesma coragem dele que providenciou nossas passagens aéreas para uma primeira viagem internacional de férias. Buenos Aires. Partindo acho que de Floripa. Ou Navegantes. Da saída eu não recordo bem, mas de fingir costume na chegada sim. Tu já foste a Bue? É linda. Tive um déjà vu lá que até hoje não me esqueço. Linda. Hoje em dia não sei tanto, porque fui faz tempo. Tem cara de cidade grande, mas mais ao sul do mundo. Tomara que tenhas ido naquela época e com os mesmos olhos de turista com os quais eu vi desabrochar a Floralis Genérica.
Bobagem. Sei que conheces o mundo todo. Beyoncé Giselle, o que desejar a quem supostamente tem tudo? E como conservar olhos de turista tendo o mais mais do acesso? É uma pergunta que faço gostando de imaginar que posso ter resposta. Tua. Que a encontres. Ou da vida, um dia. Se tua, eu poderia te conhecer melhor. Quem sabe aproveitar a troca para crescer contigo e não só com o contato calculado com a tua obra. Que é linda. Isso não se discute. Puts. Bicha, que produções incríveis. Pouca gente da minha geração não ficou com aquelas performances de moletom amarelo e depois cor de rosa, ou vice-versa, na arquibancada da memória. Pouca gente lembra de outra pessoa quando os cabelos voam ao ficar de frente para o ventilador. E me escorre uma lágrima do canto do olho direito a cada vez que ouço Daddy Lessons. Eu só não sei se vai te interessar saber ou se pra ti esta é só uma terça-feira qualquer. Se eu digo mesmo assim é porque sou das que acreditam que a maioria das coisas se organiza pelo Verbo, outras pela Verba, e todas as demais apenas com o Tempo.
Como é que é isto de tu seres uma diva pop? Te subiu para a cabeça? Deu viço para os cabelos? E a psoríase? Ah, é claro que tem dois lados, isso é coisa pressuposta, mas me pergunto se ao chegar no teu patamar de cantora mais ouvida, estrela mais brilhante da galáxia, a abelha mais rainha, etc., você ainda segue levemente deslumbrada com a ascensão meteórica. Como é o esforço de explodir enquanto permanece brilhando no céu sem que quase ninguém suspeite? Se sente enorme ou refém? Vou exemplificar. Tu és do tipo que ainda diz por aí sempre que pode: ah, a Rita Lee me escutava nas horas de folga e amava (já ouviste o mashup de Bodyguard com Lança-Perfume? é um show à parte), ou: se ela estivesse viva era beyhive até hoje. Ou: ah, sim, eu já jantei com David Bowie e ele não era exatamente como transparece nas obras, essa era só a voz que ele descobriu que comunicava melhor. Te acontece de ter que dizer essas coisas em voz alta para ter a medida da própria importância? Te acontece de deslizar na vaidade e depois pensar puts? Te acontece de ter coragem mas não necessariamente ela ser bondade? Comigo sim. Te conto antes que é para deixar confortável. Sem julgamentos. Se pergunto sussurrando baixinho é como se estivéssemos nos mesmos degraus do meio da escada do Olimpo, a meia viagem. Te faço descer na marra. Como se eu flutuar onírica ou liricamente na tua direção não pudesse depois me fazer cair, acordada.
Gosto mais destas coisas que escrevo de ressaca. Não gosto tanto de mim no auge da euforia, embora às vezes a persiga. E tu? Te ocorre às vezes ver o mundo da perspectiva do raso? Do ralo. Da derrota. Do chão — mais até do que do ponto de vista do meteoro. Me sinto mais lúcida mirando de baixo pro horizonte dos rastros fundos dos passos de uma gigante e teorizando sobre o seu peso e leveza. Me sinto um pouco de moletom sem ser no Coachella. Me conforta e aquece. Quase crio coragens conspiratórias para te perguntar qual a linha que une e qual a que separa Jay-Z de Epstein, depois volto atrás, e olha que eu vou passar a semana sendo nocauteada com estas conjecturas de poucos caracteres pelo meu algoritmo. Tu imaginas o que estava além daqueles arquivos?
Cindir-se melhor entre o público e o privado deve ser uma tarefa do cão. Porque as pessoas não param de especular, como estou fazendo agora. Também por isso te parabenizo. Por esta altura da fortaleza edificada ao redor das partes mais moles da tua alma e dos teus amores. Das tuas feiúras e feridas. E por saber dar fermento ao lado que brilha, protegendo tão bem o lado que às vezes se turva.
Beyoncé, não se preocupe, eu entendo super. Seu jogo, suas regras. Não responder já é resposta. Talvez a única que permita o tempo exato de ouvir o eco, e supor os piores cenários, enquanto decantam devagar os próprios detritos.
Desejo que seja mesmo feliz o teu aniversário.
Que um girassol gire na direção do que há de bonito no teu coração e quase só tu sabes.