sábado, 31 de janeiro de 2026

Um cartão para Beyoncé

Mulher,

a tua arte e a tua face pública são tudo isso e ainda fazem jus a mais um pouco, hein. Espero que gostes destes girassóis.

Acho isto de que eles giram para o sol uma coisa rica de significados para uma pessoa-holofote, tão iluminante como tu. Brilhe e siga rodopiando! Um abraço apertado, este mimo florido e uma carta comprida, para quando estiveres bem disposta. Não precisa ser hoje. Quando sentir que deve. 

C.

***

Bey, (disse a entrosona te chamando pelo apelido e este é definitivamente um dos meus defeitos — se o extrovertido carente sem medo de ser ridículo for uma praga no mundo eu sou a paciente zero)

Um cartão também pode ser uma carta grande? A resposta é sim.

Para te desejar somente o melhor preciso antes te descer para a terra, junto de nós, meros mortais. E isso só consigo sendo prolixa. É presunçoso achar que as divindades fazem aniversário. Ou leem cartas. Deusa não nasce, é ela quem cria mundos. Não quero incorrer em negging ou acrimônia, veja bem, e olha que eu sei que estou correndo um risco, mas é que no fundo eu sou da turma que concorda com o Skank quando cantam que os filósofos não dizem nada que eu não possa dizer. O que faz um ícone é o totem ou a atenção que as pessoas lhe direcionam?

Esqueça. Tu és diva e a idade vem pra qualquer um, se se achar divindade errada não vais estar, eu vou me explicar melhor a seguir e com sorte tu me entendes sem se ofender. Tenho facilidade em lembrar que a obra e o legado podem ser eternos. Mas aniversário é coisa de gente. E gente é coisa que tem muitas camadinhas entre uma efeméride e outra. É por elas que mais me interesso. Louvo as obras de mente e coração, louvo até as deusas, mas me corrói a curiosidade pelas ramelas e o bafo com que acordam depois de uma noitada as grandes figuras. Ainda mais as mais blindadas. Qual o nome do cachorro e por quê. O fato de não suportarem água com gás. Como se manifesta o ego. De onde salta a joanete. Coisinhas assim que a tua equipe de PR não alcança, por mais que se estique, e eu sei que eles se esticam. Sou viciada neste cinismo diante da imagem perfeita. E tu? Nem é que eu não ache que o verniz da camada pública não brilha mesmo ou não é real. Todas as faces de um prisma são. Entendo um pouco como isso funciona. Mas é que eu sou muito imperfeita. Beyoncé do céu! Tu nem imaginas o quanto. Trata-se, portanto, de um fenômeno de projeção. Além do mais, só ver o inteiro pode conectar uma humanidade na outra. Chulé com chulé. Falha com falha. Rachadura com rachadura. Franqueza com franqueza. Vergonha na vergonha. Pelo menos é assim que eu sinto e entendo o mundo. As melhores amizades. O meu relacionamento. Não é uma brisa tentar por luz no lado mais escuro da gente? Que aí deixa de ser escuro e as outras coisas se reorganizam. Ganham sombra e contorno. Nuance. Imagino que para as celebridades a lua também se põe — embora nunca tenha visto ninguém chamar isso de pôr da lua. É quase como se as pessoas preferissem enxergar o mundo sob a luz escaldante do holofote-rei incidindo sobre todas as coisas em vez de entender que o mundo pode ser todo escuro e as coisas que se prateiam à noite serão bem outras no clarão ou será que são ambas e ao mesmo tempo eu já não sei de mais nada mas especulo.

Quando descobri que tu existias o Jailson já era fã faz tempo. Teu show foi o primeiro que ele foi, assim, de artista internacional, do resto não sei exatamente, e não sei se consegues imaginar tão em abstrato a distância que dava ir de Agrolândia até Brasília. Dava e dá, até hoje em dia. É ir de uma ponta a outra do país e custa notas e notas de empenho. Muito trabalho, parcelas de dedicação e coragem envolvidos. Coragem antes, pra sonhar grande. Pegar um voo pra nós era uma coisa de outro mundo — no sentido mais literal possível em um mundo capitalista que é dividido até em capital e interior. Ele alçou voo primeiro. E primeiro foi só pra te ver pessoalmente, olha como isso é bonito. Deslocar-se milhas e milhas para um encontro desta magnitude tem um impacto quase tectônico. Mais bonito ainda é pensar que, mesmo mui indiretamente, foi tu que abriste as asas de um avião para mim: anos mais tarde foi esta mesma coragem dele que providenciou nossas passagens aéreas para uma primeira viagem internacional de férias. Buenos Aires. Partindo acho que de Floripa. Ou Navegantes. Da saída eu não recordo bem, mas de fingir costume na chegada sim. Tu já foste a Bue? É linda. Tive um déjà vu lá que até hoje não me esqueço. Linda. Hoje em dia não sei tanto, porque fui faz tempo. Tem cara de cidade grande, mas mais ao sul do mundo. Tomara que tenhas ido naquela época e com os mesmos olhos de turista com os quais eu vi desabrochar a Floralis Genérica.

Bobagem. Sei que conheces o mundo todo. Beyoncé Giselle, o que desejar a quem supostamente tem tudo? E como conservar olhos de turista tendo o mais mais do acesso? É uma pergunta que faço gostando de imaginar que posso ter resposta. Tua. Que a encontres. Ou da vida, um dia. Se tua, eu poderia te conhecer melhor. Quem sabe aproveitar a troca para crescer contigo e não só com o contato calculado com a tua obra. Que é linda. Isso não se discute. Puts. Bicha, que produções incríveis. Pouca gente da minha geração não ficou com aquelas performances de moletom amarelo e depois cor de rosa, ou vice-versa, na arquibancada da memória. Pouca gente lembra de outra pessoa quando os cabelos voam ao ficar de frente para o ventilador. E me escorre uma lágrima do canto do olho direito a cada vez que ouço Daddy Lessons. Eu só não sei se vai te interessar saber ou se pra ti esta é só uma terça-feira qualquer. Se eu digo mesmo assim é porque sou das que acreditam que a maioria das coisas se organiza pelo Verbo, outras pela Verba, e todas as demais apenas com o Tempo.

Como é que é isto de tu seres uma diva pop? Te subiu para a cabeça? Deu viço para os cabelos? E a psoríase? Ah, é claro que tem dois lados, isso é coisa pressuposta, mas me pergunto se ao chegar no teu patamar de cantora mais ouvida, estrela mais brilhante da galáxia, a abelha mais rainha, etc., você ainda segue levemente deslumbrada com a ascensão meteórica. Como é o esforço de explodir enquanto permanece brilhando no céu sem que quase ninguém suspeite? Se sente enorme ou refém? Vou exemplificar. Tu és do tipo que ainda diz por aí sempre que pode: ah, a Rita Lee me escutava nas horas de folga e amava (já ouviste o mashup de Bodyguard com Lança-Perfume? é um show à parte), ou: se ela estivesse viva era beyhive até hoje. Ou: ah, sim, eu já jantei com David Bowie e ele não era exatamente como transparece nas obras, essa era só a voz que ele descobriu que comunicava melhor. Te acontece de ter que dizer essas coisas em voz alta para ter a medida da própria importância? Te acontece de deslizar na vaidade e depois pensar puts? Te acontece de ter coragem mas não necessariamente ela ser bondade? Comigo sim. Te conto antes que é para deixar confortável. Sem julgamentos. Se pergunto sussurrando baixinho é como se estivéssemos nos mesmos degraus do meio da escada do Olimpo, a meia viagem. Te faço descer na marra. Como se eu flutuar onírica ou liricamente na tua direção não pudesse depois me fazer cair, acordada.

Gosto mais destas coisas que escrevo de ressaca. Não gosto tanto de mim no auge da euforia, embora às vezes a persiga. E tu? Te ocorre às vezes ver o mundo da perspectiva do raso? Do ralo. Da derrota. Do chão — mais até do que do ponto de vista do meteoro. Me sinto mais lúcida mirando de baixo pro horizonte dos rastros fundos dos passos de uma gigante e teorizando sobre o seu peso e leveza. Me sinto um pouco de moletom sem ser no Coachella. Me conforta e aquece. Quase crio coragens conspiratórias para te perguntar qual a linha que une e qual a que separa Jay-Z de Epstein, depois volto atrás, e olha que eu vou passar a semana sendo nocauteada com estas conjecturas de poucos caracteres pelo meu algoritmo. Tu imaginas o que estava além daqueles arquivos?

Cindir-se melhor entre o público e o privado deve ser uma tarefa do cão. Porque as pessoas não param de especular, como estou fazendo agora. Também por isso te parabenizo. Por esta altura da fortaleza edificada ao redor das partes mais moles da tua alma e dos teus amores. Das tuas feiúras e feridas. E por saber dar fermento ao lado que brilha, protegendo tão bem o lado que às vezes se turva.

Beyoncé, não se preocupe, eu entendo super. Seu jogo, suas regras. Não responder já é resposta. Talvez a única que permita o tempo exato de ouvir o eco, e supor os piores cenários, enquanto decantam devagar os próprios detritos.

Desejo que seja mesmo feliz o teu aniversário.

Que um girassol gire na direção do que há de bonito no teu coração e quase só tu sabes.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Torênia

— Até porque, nesse caso...
— É velho cuidando de velho.
Minhas sobrancelhas arqueadas assentiram acovardadas da coragem de dizer o mesmo com todas as letras, até porque era justo ele dizendo aquilo. Justo ele. Dizia as palavras inteiras: é velho cuidando de velho. Ambos sabíamos que era aquilo mesmo, eu só gostava de cindir as letras para engolir algumas seguindo os manuais de etiqueta. De um lado havia muito medo de perder o viço do resto da vida investindo o tempo e a energia restantes, e sabe-se lá quanto é que lhe resta agora, para garantir o resto do viço e da energia faltantes de outro, que agora as circunstâncias fizeram lhe necessitar.
Não gosto nem de imaginar.
Mas de algum jeito sinto que preciso.
Chorão sabia que o choro começa é logo depois da vírgula de faço o que quero. Eu também sei como é. Dei pra reparar que quando se impõe o que tenho que fazer, eu tento me esquivar. Eu me debato. Agora mesmo, escrevendo estas coisas, estou relegando outras mais trabalhosas, graves, urgentes. E pouco interessantes. Aí é uma vela para cada santo e duas ou três para o nosso padroeiro.
Conversa comigo a tua resistência interna em não admitir que não suporta mais. Suponho a sensação de apagamento. Mal feito aquele cálculo do custo do fim da vida em troca de todos os benefícios da vida inteira. E além do mais a gente fala pouco de velhice, é uma coisa muito nova essa de poder confessar que tava tudo encaminhado, a gente achava que os preços já tinham sido pagos, agora era reclamar de terem sido ingratos conosco e não do preço de ser visto como ingrato, ingrato não, só desejante de liberdade, sabe-se lá se este velho mereceu mesmo o cuidado do outro ou era só a força do hábito de obrigar os mais novos a zelar pelos mais velhos, ninguém contava que também estivessem velhos quando chegasse a hora, e por aí meu pensamento vai indo até ganhar a sabedoria de um ancião.
Na maioria das vezes a coisa ainda foi super mal combinada. Pressuposta. Com quanto de vida e empenho se paga a dívida moral? Quando se considera quitada. Como se afere com a vírgula e depois os centavos este dever, e se é que ele existe, e qual o termo de seu vencimento. Não é por nada não, é pra eu já ir me programando. Para quem fica a atribuição eu sei, é pra quem não vê outra saída. Se acanha primeiro e depois reclama. Ou reclama de tanto não poder reclamar. A quem é que cabe a herança — maldita ou antecipada. O benefício em dúvida do merecimento. E se o ouro do pulso e do pescoço for ficando fosco, de tanto cansaço? De tanta saudade de brilho. As mãos na água da louça murchas com pouco sabão, o despertador tocando muito mais cedo aos domingos, os ritmos e hábitos determinados pela rigidez da velhice alheia, alheia, tão próxima e tão alheia.
Se a palavra asilo for mencionada em voz alta, morrem no além duas fadas protetoras da moral, dos bons costumes e da conta bancária.
Então me vê mais duas doses de analgésicos, quero não sentir mais dor e dissociar do monotema. Mas vem cá, você esperava mais não ter nenhuma obrigação? Sonhou alto. A vida se edifica no pilar do contragosto. Espairecer para regular temperatura e pressão é diferente de não ter nenhuma. E como conviver com uma dorzinha de nada, tão constante, e não enrabujar. Eu ainda não descobri, mas enterneço de pensar no corpo mais vagaroso que o ímpeto. Um dedo mal consolidado, as artrites, um pescoço com torcicolo, não são meus estes travesseiros, é minha só esta lombar que apita o tempo repetido de um mesmo movimento. Ou de nenhum. É uma pontada de não merecimento. Outra de mártir. Um gesto magnânimo de renúncia que já vem torrado da angústia, com dualidade. Como o sol de janeiro faz às flores que antes fez nascer.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Em estado bruto

São três irmãos
São o Taurino
O Celestino e o
Zé Ferino

Era só este mesmo
o poema.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

As fugas

Quando o peso das obrigações me caiu de volta sobre os ombros,
minha alma ainda estava suspensa e
calçando chinelos.

Prometi estar atenta ao que meu corpo
diria.
Ao enfado.
Às fugas.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Resedá

Eu não queria saber como vai o trabalho.

Queria saber de qualquer coisa como o teu cachorro, ou era uma cachorra? Eu já não lembro agora. Quero saber das orelhas que se recolhem, do pelo curto ou longo, do rabo que abana quando está alegre e treme ritmado quando trovoa. Teu animal de estimação tem olhos, os mesmos, castanhos, do pai? Quem sabe também esteja ficando grisalho ao redor do focinho. Voltou do petshop decorado para o Carnaval com um mês de antecedência só para te irritar, tu que gostas pouco de folia e combina mais com o cinza da quarta-feira, como naquele poema de T.S.Eliot. O que tens pensado sobre as eleições deste ano? Tu tens escrito? De que cor é a capa do último livro que você leu? Quando está alegre teu cachorro sorri de canto, bem sóbrio, eu aposto. Teu filho já é adolescente? Se apaixonou por Juan Pablo, filho de imigrantes espanhóis, pela internet? Ou por Dorotéia, que tem esse nome por conta de alguma personagem famosa de uma mãe muito bem inspirada? Escuta, tu tens escrito? Teu filho também lê a coleção de capa dura vermelha e gosta? São frases e perguntas que não me ocorrem no sol, vestindo short e chinelo, só debaixo do guarda-chuva com um céu despencando, como agora. Preciso tomar um açaí cheio de confeitos para me ensolarar por dentro, ou corro o risco de sucumbir à melancolia. Talvez chova tanto de tempos em tempos para me lembrar de aproveitar o verão, não reclamar da escaldância, não ligar tão rápido o ar condicionado.
Tu, que nunca soubeste como derreto.
Não quero saber dos teus colegas de trabalho, quero saber de ti.
Daquela vez em que o teu melhor amigo de quatro patas foi pego pelas frontais, quero dizer as da frente, também não sei dizer o antônimo de traseiras, e foi conduzido pela garagem de casa, o piso liso e chovia, chovia, como chove agora. Tinhas bebido e tiraste o teu cachorro pra dançar. Ainda bebes? Ainda odeias vodka, porque não tem gosto de nada? Ainda te recolhes no escritório para imaginar o teu cachorro sonhando ontem com dias de menor interação social, pessoas menos obcecadas com o emagrecimento, algodões doces, máquina do tempo, a volta do tempo da promessa — um céu cheio de cachorros e salsichas aquecidas no microondas. Talvez o teu cachorro tente flanar pelo céu como um balão de gás hélio a cada vez que pensa em ti, ou em salsichas aquecidas e olha que ele só ganha as sobras e quando estás de bom humor.
Estou carregando um envelope até agora, junto do peito, tem um saco plástico ao redor, mencionei a palavra casamento mas num contexto diferente do que pretendia, o que queria mesmo te perguntar é o que tu perguntarias a alguém que não vê há muito tempo se cruzasse na rua sem ser de supetão, porque bem se vê que eu não sei dizer o que eu queria de verdade sem me preparar, e olha que fui eu que puxei as conversas protocolares. Faz sentido o teu cachorro ser pequeno e dócil e que exija brincar enquanto queres te recolher nos teus aposentos, com essa tua personalidade meio felina que eu nunca entendi bem, mas vá lá. Se bocejo perto de ti me acordam as contradições daquela época. Foi bom te rever, lembrar que tu existes, lembrar que eu já existi antes, talvez mais, talvez melhor, com um futuro mais promissor, seja lá o que isso queira dizer, seguramente bem diferente de agora. Ou será que não.

O saudosismo é o animal de estimação de um tempo que ainda era promessa.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Com tinta

Escrever ciente
De que o peso da caneta
Manda exércitos ou alforria

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Epitalâmio

Janeiros nascem
Para renascermos com eles.

Casar em janeiro
Do ano 1
É crer na esperança
De um começo novo
De tempos em tempos.

Reunir amores
para celebrar publicamente o amor
É dar um recado ao destino,
Quase em ritual:
Nós todos cremos.
Nós nos reinventaremos
Quantas vezes for necessário
para que o sentimento bom
Que nutrimos um pelo outro
reverbere
do nosso quintal para o mundo.

Nos vestiremos de festa
Bateremos palmas e corações
Verteremos água salgada pelos olhos
Transbordaremos a fé de que o amor
É coisa que pulsa no peito de toda gente
No mesmo compasso.

Que é coisa graúda, que se exalta
Com luzes quentes
Taças para o alto
Dancinhas frenéticas
Sorrisos para os cliques
do álbum bonito que guardará
Momentos do dia em que nos encontramos
Só para que o amor fosse esta coisa bendita
Que, bem no fundo, ele já é
Desde que nasceu.

Um casamento tem seus mistérios.
Como será o vestido da noiva
Que música tocará
No momento em que a primeira lágrima
Com sorriso embutido
For derramada
E quantas tribos serão capazes de se reunir
Só para concordar:
Amor é ponto de convergência
Amar é um ponto inicial,
De partida para a aventura
De conviver.

Casar é inaugurar a chance
De enxergar as belezas do mundo
Desde dentro dos olhos atentos das pessoas
Que nos testemunham alegres
Com a coragem de desejar
Que, por uma noite, sejam todos bem felizes
Junto conosco

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Desculpa o atraso

“Exponho o meu modo, me mostro. Eu canto para quem?”
(Adriana Calcanhotto)

Nasci de amor e isso é das coisas que mais me amolecem lembrar em dias duros. Como não fosse sorte o bastante nascer de amor, tenho também a maioral das desculpas para ser tão impontual, amando tanto até hoje a adrenalina do deadline: é que eu já nasci atrasada. E deu tudo certo mesmo assim. Te juro. Passei pra lá de 6 dias do último dia do prazo. A mãe não sabe dizer se isso queria dizer 40, 41 ou 42 semanas, mas lembra bem que só aí que ela teve um pouco de contração, era um quarta, a vó correu internar ela, e era força e força, e nada, e nada, 3 dias de força e eu fui sair só no sábado e de cesárea. Fiquei no quietinho do forno até dourar um pouco a casca e os cabelos se avolumarem, como o tempo faz o pelo nos fungos das comidas mais passadas da geladeira crescerem, crescerem, crescerem, negros-esverdeados. Cresci no ventre o que deu. Diz a mãe, com a memória só meio acordada da epidural, que o clínico geral que se vestia de obstetra lá em Barbacena na época contou durante a empreitada toda uma longuíssima história da caçada da semana passada lá no Mato Grosso, e encerrou o meu parto — que era o primeiro dela — dizendo Essa guria não ia nascer nunca de parto normal com uma cabeça desse tamanho. Aí eu chorei. Acho que de ofendida. A equipe de enfermagem riu. O que deve ter me ofendido mais ainda. A mãe finalmente relaxou e dormiu. Para depois poder contar essa história e rir também, bem na minha frente, ela deu conta de me convencer que gente de cabeça grande demais é mais inteligente. Porque, como já disse, eu nasci de amor. Eu sou da turma de amor e sorte. Tanto, que ao ficar adolescentinha a teoria virou Minha filha, é que gente de testa grande também é mais inteligente. Nós acreditamos. Como nascer não bastou e coube a mim a tarefa de provar corretos os teoremas da madre, falei cedo. Cedo mesmo, antes do primeiro ano. Talvez para comunicar a pressa que não tive para nascer, mas agora tinha para dizer. Tenho pra mim que isso até hoje explica minha logomania. Vez ou outra atravesso as pessoas na fala, e no meu grupo de amigos quase sempre tudo bem, e fora dele quando eu vejo que fiz de novo encolho os ombros, peço desculpas com um aceno de cabeça, digo desculpa, não não, pode falar, e faço finalmente um silêncio dos mais desatentos, como quem sai andando. Se eu der duas voltas no Parque das Desculpas Esfarrapadas eu passo o bastão das mãos da Inconveniente para a Interpelativa. Quero falar de mim, mas também quero saber de ti. Nunca passei da fase dos por quês. São estas as desculpinhas que eu peço quando digo desculpa o atraso.

domingo, 4 de janeiro de 2026

É impossível

Exilar a intimidade para
Expoliar o poder
Outorgado

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Ceticismo

É o gesso
que ata o osso
quebrado

Me protege e
às vezes
dorme