terça-feira, 26 de agosto de 2025

Girassol

Do pó viemos todos — tu retornaste antes.
Estar preso é como estar um pouco morto.
Estar preso é um interdito, é sentir frio, e sentir medo, e se sentir bem mais sozinho quão mais cheia for a cela, tanto que já não se é mais as coisas boas que foram sidas antes.
Estar preso é se sentir o Aquém-Homem. À margem dos Súperes.
E lá vem mandado ser cumprido, de novo, todo dia de manhã um pouco mais, e tu com o riso nervoso, de novo, foi como um susto, de novo. E eu sei que tu rias no momento exato, numa espécie de soluço mostrando os dentes. Os olhos arregalados. Aquele cabelo. O coração na boca. Tu sem as rédeas da situação implorando, em silêncio, uma misericórdia que a vida agora talvez pareça não ter te dado nunca, mas eu acho até que deu. E rindo. Rindo como quem Coringa: tu indo de Augusto a Tramp em um instante sem nunca ter tido meia aula de clown. Trocando as vestes ali, ao vivo, na frente do agente penitenciário. Ser palhaço tu sempre soubeste. Faltou eleger bem a modalidade. Viraste um pouco do que não queria parte da plateia. Viraste tua própria plateia quando houveste por bem converter a tua dor em riso. Dor mas não só: dor, vergonha, desleixo, desistência. Um jogo de imitação. E aí também foi tanto luto, e foi dilacerante, e foi a queda de um púlpito alto com a escova de cabelo imitando microfone, e depois riste mais um tanto, e o teu riso era tão falso, e o teu riso era sintético, e o teu riso era um pouco branco no canto do nariz, o teu riso era um estado da matéria granulado, o teu riso custando o peso da grama do ouro e tu pagando porque precisava, e nisso não pagando o que de fato precisava. Enquanto isso recolheste, como em concha, pra nos proteger de ti ou pra se proteger das nossas reprovações, que afinal isto tu sempre soubeste que te daríamos de mão beijada.
Mas o sangue amalgama os elementos heterogêneos. E agora funde essa água da chuva e o pó; do chão; por baixo do colchonete. O sangue chora a tua angústia escorrendo por entre as grades, desce sem freio a Serra Canoas, lubrifica uma compaixão toda nova que atravessa a BR. A mesma de quando nos fazes rir. E tudo que mordemos, embora seja nobre, tem o gosto de merenda de presídio. É o sabor insosso de saber que talvez nada mais te ponha na linha, ainda que o fim do teu desespero de hoje tenha preço.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Dália


Daí do lado de lá você se tornou onipotente? Pergunto porque às vezes queria ter pra quem rezar e fosse humilde. Alguém que já foi de verdade e encostei com os olhos, e as mãos, e os defeitos, mas na passagem de tempo e plano pudesse agora não apenas me ver, mas também saber e poder. Tudo. De preferência do céu, que é pra ter bom ângulo. Queria que você ainda fosse de carne e osso onde estiver, ainda que me seja invisível. Porque confio mais em nós, os imperfeitos, cujas imperfeições se sustentam em pé ajeitando-se entre as carnes e os ossos. Sou capaz de uma fé cega em quem pode falhar. Acho que só isso pode dar complacência. Empatia. E cancha. Embora também possa ferir. Sinto que ter vivido, e morrido, e falhado no intervalo, é mais confiável do que nunca ter sido visto. Talvez por isso se tenha inventado Jesus? Daí dá pra saber? Escuta: Jesus existiu mesmo? Dois mil e tantos anos atrás? Agora vaga por aí, junto com todos os outros? Está sentado? À direita? A história é só um exagero ou foi inteira inventada em nome do dogma? Me diz: quando se chega no Além, todo mundo que partiu está reunido em ciranda ou fileira nos campos verdejantes? Exatamente como faz crer a Igreja Católica? Tem rodízio de almas, como creem os espíritas? No céu também há tempos diferentes? Ciclos? Moitas? Feriados? Descansa-se? Diverte-se? Há uma enfermaria de aflitos pra quem chega? É cada um com a sua varinha de condão? Só os melhores? Queria que você sim. Não pra me resolver a vida, não, não, isso não. Eu já me acostumei que isso não. Nem ia ter graça. Só queria que você tivesse agora um poder, não, um poder também não, uma diversão, mas também não é isso que quero dizer. Queria que você tivesse uma justiça? Talvez uma influência. Sim, uma influência. Que transcendesse o exemplo. Algo como um voto de Minerva em resoluções importantes tomadas de assembleia para o lado de cá, como quem fica com que mágoa e como elas se dissolverão enquanto corre o inventário. Queria que, assim que chegou aí, você possa ter tido um tête-à-tête com Deus. Com o Seu Deus. Ou pelo menos que seja, já a essa altura, uma das próximas da fila a tê-lo. Melhor ainda: queria que você pudesse ser um pouco de Deus, agora que também não posso mais te ver. Que Ele existisse mesmo, de verdade e só pra te emprestar a mágica da Criação. Que você conhecesse e quem sabe interferisse um pouco agora no que nos virá depois do livre arbítrio. No que sentimos de mais revolto. Todas as explicações que nos faltam; as que sempre nos faltarão; do que sempre nos faltará — faltava mesmo a ti, a quem Deus era o pastor —; das explicações que abrem espaço para outras perguntas novas chegarem na medida em que a vida avança e os caminhos se modificam. Sempre definitivamente. E eu tenho tanta curiosidade. Queria ver como o mundo seria se pudéssemos mesmo ser inteiramente conduzidos pelos teus caprichos e crenças. Rio só de pensar: seríamos tão mais sovinas. Usaríamos até a última gota de pasta de dente e perfume. Mas isso eu já faço. Então vou dizer assim: queria que Deus te desse boca. Pra poder me responder nessas nossas conversas que eu ainda poderia e queria ter, se pudesse rezar, e rezaria pra ti, e saberia que sou ouvida ou lida. E, enfim, respondida. Queria que na sua dimensão você ainda tivesse olhos de enxergar e voz de acalantar, exatamente como teve antes. Dá-se às coisas o sentido que se quer, eu sei. Incluso para a morte. A morte é não saber. A morte faz falar com quem possivelmente não escuta. E torcer pra continuar chegando a mensagem. Para que saiba. Sinta. Veja. Possa. Fazer gestos, ações e acenos. Com as mãos, que são mesmo os instrumentos de fazer coisas.
Se eu soubesse que a beata virou mesmo um pouco Deus e agora tudo sabe, perguntaria de amanhã.
Enlaçaria os dedos pra te 
invocar e perguntar
se isso é normal.
Pediria paz
nessa inconstância
que é viver —
e um sinal.

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Cativo [final]

Havia uma lua plantada
no centro do topo do céu limpo gelado
irradiando luz difusa da noite
sobre as nossas vidas
No começo
do fim
da semana
Enquanto eu ia pra casa
na sexta

Estive mentalmente sentada
no chão (que agora imita madeira
como criança construindo castelo
na areia
da praia
que a água salgada pode & há
de vir
Tomar

Com dois joelhos pro mesmo lado,
Pensando em
Nós —
oitenta e vinte
por cento sempre
Em construção,
Pensando:
Com que material
cimentarei
as bases de alguma fortaleza
que nos protegerá
por certo sempre
Das intempéries
Chegadas
em discos voadores
pra sacudir nossos quase mortos
mas muito vivos
e parvos
dilemas de dois
Tão ressuscitados quanto um Cristo
nos dias seguintes

Pensando:
Em que castelo; ou
Protegida por que fortaleza
Eu posso ser princesa
Se você me vê através
De todos os espelhos
em que não se reflete;
Desse domo de vidro fosco
atravessado por vultos;
em brumas
imbróglios
Em códigos
Feiuras
Onde já não se guardam mais nem
os segredos
sadios?

Você me vê?
Quero fugir
E me proteger
Dos conflitos que causo

Intransigente
Eu parto
pra briga
Eu travo
batalhas épicas
em nome de uma
Justiça
burra,
com as próprias mãos
e os próprios goles,
ilegitimamente
passiva.

Você, não.
Você não parte
Você fica
Você pivota
Você só entra
em guerra
por
Paz.

Me condenei,
Sou culpada:
De um cinismo
De amor
de
    -scrente
E agora quero voltar
a ser
inocente.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Tome notas - sabor groselha

Palíndromo silábico

Quanto tempo
vale y leva
o insight


***

“Mas tinha tudo”
É que a felicidade alheia
nunca é vinculada
à vossa inteireza


***

Déficit primário

No fim das contas,
não sentir em dívida
pelas expectativas que criei
                                            nas pessoas


***

Out of my own league

Como é que eu faço pra alcançar
o sarrafo
que eu ergui


***

Quem dera fosse bem pavimentada
A estrada que dá
na última montanha-
horiz'onde se esvai

Subir fácil
Poupar esforços
Poder conter o sol com toda força
(e as duas mãos
A fim que o bom do dia
claro
nunca fosse embora


***

Desinvestir.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Marta-Viva

Marta quer sentir que vive.
Quer viver mais
do que trabalhar,
mas sem não tem la plata
pra 
comer e morar.

Porque aprendeu
a palavra
C a p i t a l i s m o
A des-
culpa não lhe sai da boca:
Ora o mundo gira à base
dos suores,
especialmente aqueles
escorridos pelas têmporas
de quem para tudo socializar
é a única perfeita solução;
Ora encuca com aqueles outros
a quem o trabalho
é máxima da vida,
e fecham o nariz,
e trabalham, e trabalham,
E prosperam
em ignorar
um Desconforto que vive ali
todo mês
sem honrar o aluguel
Só não tem nome.

Em ambos se reconhece
Visto que alterna entre
O workaholic e O sentir
que vamos todos morrer
Bem loguinho e de fadiga.

Só mesmo não se identifica
Co'aqueles terceiros
A quem o Desconforto de um século
tardio como o C a p i t a l i s m o
também vive ali
A atormentar, como pulga, saltando em coceiras
Que resolvem arranhando chamar
C o m u n i s t a s
de vagabundos 
que
não querem mesmo trabalhar
Ainda que,
bem conversadinho,
Trabalhar seja uma coisa que
Pouquíssima
gente
queira
realmente.

Não é bem

questão

de

Querer
Querer mesmo,
Marta só quer
Sentir que vive. 
Ontem comprou três picolés gourmet
inflacionados
que valeram — a pena;
      um prazer culpado;
e  a hora extra da terça;
derretendo na boca um gosto de
água e
fruta congelada
e merecimento.
Esteve vivíssima.

Outro dia se pegou bem viva
Porque o xampú
tinha 
        acabado e dinheiro de sobra
Pra comprar outro bem bom
De pronto,
Um só,
Que é pra não acumular nos armários.
Fazendo com pouco uma espuma, dia a dia,
De limpar
a vida acontecendo
Os ciclos acabando
E as unhas vem crescendo
Meio tortas, por dentro das meias
Por dentro das botas.

Marta não quer sentir que morre
Um pouco a cada dia
E, para tanto,
Vezenquando hiper-
valoriza
Um cafezinho,
Um xampú,
Um dia de sol,
Três picolés,
Um básico perrengue.
Aprende um pouco por dia a lidar
Com tantos Desconfortos
Inconsistências
E hipocrisias
Quanto tem qualquer um
E outros até maiores.

O trabalho empurra Marta
                                          para a frente
do                                                               P
                                                                    r
                                                                    e
                                                                    c
                                                                    i
                                                                    p
                                                                    í
                                                                    c
                                                                    i
                                                                    o
em que vira Morta
caso se jogue sem cuidado e ressalva,
E meio-dia estende a rede
Que não lhe deixa
falhar
empobrecer
diminuir
esborrachar ou
morrer.

Mas Marta não quer só viver.
Quer sentir que vive.
Para desopilar,
Marta-Viva 
é bem capaz
De assistir a um filme cabeça
De fazer um poema de amor
De inventar um jeito de viver
— avant la lettre —
Que inaugure o gênero
Marta-Viva

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Eco [final]


A vida real é o melhor feitiço pra desconhecer. O tempo, sabedor de todos os caminhos depois do fim, o tempo, sabedor de caminhos quaisquer do durante. É o cotidiano quem gasta e pui a tessitura do inventado. Digo mais: o amarelo daquele semáforo tem cores de "Fulva" e o dúbio do sinal me faz recair em "Grafomania". Sim, Laura, um narrador pedante bem dentro da minha cabeça ainda faz isso o tempo inteiro. E com as maiúsculas estilizadas na cursiva, ainda por cima. Pior: pratico o vocabulário arcaico só pra reter a acepção de palavras novas.
Não te endereço mais, porém, a maioria das minhas divagações. Estas frases toscas que acabei de escrever, como as das aulas de novo idioma pra impressionar professor, são especiais só porque gastam de um jeito rústico e de propósito as duas primeiras palavras que, quando aprendi o que queriam dizer, guardei anotadas num bloco, por hábito e pretensão, para um dia escrevê-las pra ti, sem as aspas, mostrando que as sabia bem.
Mas já não podia.
Retive-as até hoje mais cedo, no íntimo, como se guarda a um segredo, junto com a imagem mental e iluminada que seus significados me acendem, com o barulho das buzinas do trânsito escoando lento aqui na minha frente e tudo.
Eu fiz sem fim de vezes este mesmo trajeto, às vezes mais longo que o necessário, muito atento, só pra ter chance de assisti-la à distância, agitando bagulhos dentro da bolsa imensa até encontrar o molho de chaves pra entrar em casa, toda a vida apressada. Eu percorri sem fim de vezes, com a imaginação e com a esperança, esta mesma cena — na qual eu sempre a revia magicamente naquele lugar mais provável.
Mesmo depois de saber que já tinha até mudado de endereço. E de estado civil. Mesmo depois de saber que ao se afastar de alguém, desconhece-se esse alguém e seus percursos, porque não se acompanha mais de perto as mudanças de endereço, de estado ou de ideia. Mesmo depois de saber que às vezes se desconhece alguém mesmo estando bem perto. Mesmo depois de saber que, se for parar pra filosofar, a gente nunca pode confiar que sabe verdadeiramente alguém.
Parei sem fim de vezes nesse semáforo com o amarelo fulva. Poderia ter seguido — mas era como se, mesmo bem viva e caminhando por outra freguesia, a Laura ainda pudesse vagar, com todas as penas de sua alma atormentada, ainda o mesmo e velho e conhecido fantasma, na versão que construí e pela qual me apaixonei, só pra que eu pudesse revê-la. Repetindo-se, idêntica, imaginada, onipresente, ou pelo menos em todos os lugares em que eu sei/imagino que ela já esteve. Como um eco. Um eco alimentado. Fabricado. Invocado, com afinco (três descargas e um espelho, como a Maria Sangrenta dos banheiros de colégio). Um eco — por isso mesmo, unilateral. Amiúde. Um eco zunido. Ensurdecedor de outras vozes, mais reais e melodiosas.
Ressoam em mim as memórias das todas ocasiões em que, vendo um carro minimamente parecido com o dela, com o coração ainda disparado, eu esticava o pescoço para conferir a placa. E nunca eram os mesmos sete dígitos de que só lembrávamos no estacionamento depois de fazer piada sobre o que significavam as letras, em livres associações, na forma de micro poemas bem humorados. Nunca saía pelo visor da calculadora do meu para-brisa o resultado certo na prova real da matemática nova que um dia inventamos para tentar decorar algarismos numéricos. Muito provavelmente, em alguma altura de todos aqueles anos, ela também já houvesse trocado de carro, inclusive, e o que eu perseguia era apenas a propagação do ruído que eu mesmo emitia no universo. Já disse e vou dizer de novo: um eco.
Porque nunca era ela saindo do banco ao lado da farmácia. Mexendo no cabelo, de costas. Ou cruzando a faixa de pedestre carregando sacolas enquanto ajeitava os óculos. Nunca era ela de xadrez. Nem de vestido. Nem mesmo de azul. Nunca era ela de mãos dadas com outro cara de estatura semelhante à minha passeando pelo shopping. Ponto turístico qualquer. Nunca, nunca mesmo, era ela. Era sempre uma sósia. Uma dublê de sobrancelhas. Um arquétipo. Uma minha projeção no horizonte inalcançável, etereamente intocado, mesmo a passo corrido.
Por tanto tempo qualquer símbolo que remetesse à Laura, quero dizer, que remetesse à ideia que conservei da Laura, foi pra mim como um ídolo!
Por tanto tempo qualquer mínimo sinal que me lembrasse dela e do que senti com ela foi arte sacra da minha devoção por suas heresias e por seus milagres até então insuspeitados!
Agora eu custo a acreditar que toda a fé já se esvaiu. Que demorei tanto pra aprender a lição que a Laura deixou ensinada quando seguiu a própria vida. Ignorei a lição, tangenciei a lição, escamoteei a lição, mesmo tão vívida e clara, o quanto pude.
E agora a tenho bem sabida.
Parado aqui, escrevendo, deste lado de cá dos sinais fulvos que se acendem e se apagam pela cidade, alternando-se, eu consigo perceber que namorei por mais tempo àquela vontade de reaparecer de surpresa, certo de que provocaria nela um abalo sísmico e sísifo capaz de nos reunir, ou quem sabe todos os Ford Fiestas do trânsito, do que a ela mesma, em pessoa, carne osso defeito e dilemas, para além das letras que se articulam sem parar em construções bonitas do meu vocabulário.
Hoje me dei conta, parado aqui, neste mesmo local em que conjurei os desejos mais infames de, pelo menos, revê-la, ter finalmente dessensibilizado para tudo — até para o uso sem pudor nem jeito das palavras bem novas que eu tinha guardadas na gaveta, como presentes, com bilhetes. Fulva. Grafomania. 
Agora sou a pantomima de uma cobra que nada precisa dizer para que a gente se dê conta, assistindo, de que ela mesma percebeu que abocanhou é o próprio rabo, que doeu, puta que pariu como doeu, e basta que tenha doído tanto para que, num gesto de iluminação divina, tremenda, num belo instante, recobre o tino e se cuspa. Depois me estico em outra direção. Para ainda mais longe do fim, ou do dano de mim.
O tempo, sabedor de todos os caminhos, banalizou os nossos absurdos. Ensinou-me que ao Santo Deus de Coincidências não se faz promessas, porque não aceita chantagens nem precauções. A vida nunca se cozinha em slow burn: a vida às vezes passa do ponto, noutras se come crua. Já passou muito da hora de eu tirar a Laura da geladeira (e descartá-la, mesmo sem tê-la preparado), mofada como ingrediente velho, para dar aos porcos, que tudo devoram e reciclam, para depois fazer virar torresmos novos. Ela não merece mais nem metáforas melhores.
Hoje constatei ter removido o último obstáculo — distante — no qual a reflexão das ondas de som batia e me voltava. Hoje parei naquele mesmo semáforo e esqueci um pouco o que queria dizer Fulva, embora bem me lembre o que sempre quis dizer Grafomania.
Excomunguei um beijo de adeus e misericórdia na testa do busto de marfim que um dia esculpi em tributo para Santa Laura na praça de armas do meu imaginário antes de destroçá-lo inteiro, com violência, às tacadas, transformando-a em poeira fina, diminuta. Que bem no fim eu sempre soube que precisaria varrer de mim se me quisesse curar dos acufenos. E ainda que, em agonia, eu tantas vezes não pude suportar a constatação de que devo amar pelo que tenho e não porque imagino, com esse moai de Laura já desfeito, o que sobra pra adorar é o que existe ao redor, empoeirado. O que sobra pra adorar é o que existe ao redor. O que sobra pra adorar é o que existe.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

30 de novembro

Uma vidente me disse
e eu lembro do dia
que eu era ajudada
por sua energia