sexta-feira, 17 de abril de 2020

Para ser dito e sangrado

Sangrei. Sangrei como se sangra no início dos ciclos, sabendo que eles pressupõem o fim de uma possibilidade fecunda. Eu tenho agora só um silêncio mútuo, que vai abrindo espaço para tentar reorganizar a importância do que não foi dito pessoalmente e de tudo aquilo ao que a gente se apega sobre as falhas do outro, para tentar perdoar as próprias. Tenho uma dor calma e constante embrulhando a lembrança daquele toque leve da mão nas costas depois de acordar. Era carinho. Cuidado. O último suspiro. E também um adeus. Mas só eu suspeitava. Eu tenho guardada a impressão dos lábios parados recebendo um beijo que pretendia a normalidade. Como se a minha boca estivesse petrificada de uma certeza infinita de viver o fim. Como se eu tivesse absorvido um jeito de reagir que não era meu, com resignação, para comunicar a mensagem na língua adequada. Sangrei ali a tristeza de não corresponder às expectativas. Sangrei minha incapacidade de negar e de lutar contra o desespero crescente dentro do meu peito. Pensei coisas que, com razão, não pude dizer. Disse coisas que não completam o quebra-cabeça, porque me sobram peças. No fim, eu tenho a impressão de que sempre me sobraram. Há mais em mim para ser dito e sangrado do que qualquer idioma consegue alcançar.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Profetas do apocalipse

Quando me perguntam hoje do que senti falta naqueles dias, digo que foi do toque de alguma mão que não estivesse asséptica por ordens médicas de depois do vírus, entregando algo no delivery com um olhar preocupado de quem preferia não estar ali. E do cafuné do meu namorado depois de dormir. E do beijo rápido nos meus pais quando chegava em casa. E do abraço da Leli ao perceber que eu estava prestes a desabar. E das madrugadas emaranhada com os meus melhores amigos no sofá da casa da Itoupava.
No início, nós confortávamos uns aos outros pensando no que diríamos quando as primeiras consequências viessem. Coisas como: bem feito, eu avisei. Era um jeito de ter algum consolo diante do desespero de ver uma porção grande das pessoas ao nosso redor que não enxergava o que pra nós era óbvio. Nós negligenciávamos, para o bem da própria sanidade, que não seriam só os conhecidos deles que sofreriam mais que antes, mas também os nossos. A gente ainda lembrava da época em que estivemos do lado de lá fazendo crítica e dizíamos que ninguém tinha procuração pra falar por nós. Nem pelos pobres.
Agora nós tampouco, mas sentíamos que fosse uma espécie de empatia não precisar ter os efeitos das crises batendo na porta, nem de perto, pra começar a pensar em quem tinha. Nós ainda não contávamos - e àquela altura nem poderíamos - com uma gripezinha que se alastrasse pelos continentes. Que cancelasse as missas, a patinação no gelo, a lei de acesso à informação e as Olimpíadas. Mas que não bastasse para fazê-los esquecer a ideia de que nós não devíamos acreditar nas informações técnicas e científicas porque elas chegavam também por determinado canal.
Aquela gripezinha faria com que cada um de nós se sentisse meio idoso, meio asmático, meio portador de neoplasia maligna em tratamento, meio um caso de risco. E depois meio descartável. Enquanto cada um deles se sentia mais patrão dos rumos da vida dos nossos pais e avós. E também das nossas, feito reféns. Aumentando a distância e profundidade do abismo que nos separava, cada um deles se sentia cada vez mais parte de um grupo poderoso, homogêneo e hermético de pessoas que têm muita razão. Será que tinha algo a ver com precisar se sentir protegido e confortado por uma figura de pai pra não surtar, igual o sentimento que movia os mais religiosos? Será que é porque havíamos acostumado com a ideia de que qualquer coletivo se prestava a isso mesmo, e eles não? Quem sabe fosse porque éramos mais previdentes que alguns deles. Ou porque as perdas pra nós devessem ter outra escala de prioridade. É possível que naquele momento ainda pudéssemos soar falsos moralistas. Profetas de um apocalipse que nunca chegaria, porque a opinião pública já estaria acostumada se ele eventualmente chegasse.
Melhor seria ter perdido a ternura. Às vezes lembro daqueles dias e, sozinha, volto a tremer e chorar. Já não é mais ódio ou indignação, porque aqueles tempos esgotaram de vez todos os nossos reflexos, mas um pesar profundo sobre ter despertado antes, sofrido por mais tempo e com maior intensidade. E mesmo assim não ter conseguido fazer muito. Quando me perguntam do que senti falta naqueles dias, digo que foi de toque humano. De voz humana. De consciência humana. Ou de qualquer gesto, mínimo que fosse, que pelo menos fingisse um restinho de alguma humanidade enquanto sequestravam as nossas.

segunda-feira, 23 de março de 2020

Quarentena

Tem um bicho lá fora. Gigante. E mesmo quando cada pessoa adormece, ele vive. Até três dias em superfícies metálicas. Nas notas de dinheiro. Por fora das luvas e máscaras. Dentro dos pulmões.
Eu gostaria de pertencer àquele grupo otimista e eleito para espalhar sublimação. Dos que escrevem ou republicam só mensagens motivacionais nestes tempos. Mensagens novas ou antigas passadas adiante, com uma demão de verniz. Vi coisa linda por aí. Brilhando encorajamento. Mas não estou conseguindo me distrair por completo. Meus pensamentos não são tão puros. Tenho oscilado bastante neste sentido. Até as mensagens mais bonitas que me tocam não me deixam esquecer essa dorzinha de garganta, um nó que vem não sei de onde. Que piora um pouco quando penso no que ainda vamos viver nos próximos meses. Porque tem um bicho lá fora. Sem tamanho. Invisível, menor que uma célula. Capaz de reavivar depressão, ansiedade, as piores teorias conspiratórias de todas. E muito medo também. Capaz de fazer morrer por muitos minutos no dia aquela parte da gente que consegue sentir o sol na pele e reacender pra animar uns aos outros. Pra cuidar uns dos outros. É muito mais difícil se distrair sem poder abraçar quem a gente ama. Sem poder rir o tempo todo, porque rolando o feed inevitavelmente esbarraremos nas estatísticas e projeções. Ou ficaremos ansiosos por elas. E fica ainda mais difícil sem ligar a TV. Sabendo que a novela vai ser suspensa. E os contratos de trabalho, também. Quanto desespero esse bicho trouxe, quanta fome ele pode trazer. Por que é que não nos contam tudo? Por que é que não nos contam as coisas mais devagar? Então quer dizer que o bicho entrou pelas frestas da nossa humanidade? Falhamos ou mostraremos só agora o nosso melhor? Que forte e assustador se dar conta de que cada um está reagindo o melhor que pode e que, no mais das vezes, não tem bastado. Não o tempo todo. Há sempre filhos longe dos pais, há sempre a beira da morte, há sempre a desigualdade de quem pode e quem não pode comprar álcool gel. Há sempre gente do alto escalão negociando com as vidas da gente. Pensando primeiro no lucro. Mas esse bicho nos joga todas estas verdades no colo de uma vez só. E faz com que tenhamos que lidar com elas. Dentro de casa. Dentro do peito. Tudo de uma vez. Ele não permite esquecê-las por um dia inteiro, quiçá sair pela porta afora para tomar um ar. Até no ar ele está. A gente abre as cortinas e, por trás das nossas janelas, existe uma ameaça tremenda. Eu só espero que todos estes sentimentos que nos põem alerta também acelerem nossos mecanismos de defesa. E se não pudermos sair ilesos, que haja conforto ao lembrar que sairemos um pouco mais imunes.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Eco [16]

Desistir de você foi a causa de grande parte dos meus progressos na vida e o motivo de quase todas as minhas derrotas. Digo: você. Sem referências cruzadas ou meias palavras dessa vez. Porque você nunca vai saber. Das vezes que eu quis cortar o cabelo. Trocar de emprego. Emagrecer. Coisas mesmo impensáveis. Coisas incompreensíveis como o barulho que os vizinhos do apartamento de cima estão fazendo agora e não consigo identificar o que tanto arrastam ou onde estão batendo. Tenho, também eu, alguma dificuldade em descobrir onde você me bate. Se é no dedo do pé ou na consciência. Se é na boca do estômago. Acho agora que é no baço, aquele órgão que descobri outro dia que ajuda na imunidade da gente. Ou no apêndice? Vesícula? Pra que zelar pelo que não serve pra quase nada? Temo que nunca saberei. E que sempre sucumbirei à comparação da ideia que me ficou marcada de você na memória, como uma musa inspiradora dessas que os grandes artistas tinham. Tenho pra mim muito claro que nenhuma musa é, na prática, tão incrível assim quanto a ideia que conservamos dela. Mas se eu nem sei onde ainda me bate, não posso dizer o mesmo sobre onde ainda me dói. É uma dor mansinha, mas mnemônica. Associada a dores mais simples e acessíveis. Que só emerge quando estou incrivelmente só com essa sensação de não pertencer. Que faz lembrar que, apesar de agora ser muito depois, nunca mais eu viverei antes de você.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Rotação e Translação

Eu não me despedi da casa velha. Amanheci num dia com meu pai tirando os varões das cortinas. Resolveu fazer a mudança de surpresa. Não precisaram da minha ajuda para encaixotar as coisas. À noite, quando cheguei do trabalho, eu já morava no novo endereço, as camas estavam arrumadas e, pelo que me lembro, acho que até tinha janta. Não tive tempo de fazer qualquer ritual de passagem, dizer: "adeus, apartamento" ou olhar pro jardim do vizinho pela janela uma última vez. E faria diferença?
Lembrei disso hoje, quase um mês depois da nova mudança na qual quem encaixotou tudo fui eu. Trouxe as roupas dentro das malas, muitos sapatos, um jogo de copos, meia dúzia de quadros. Com o carro na estrada e quase todo o pouco que era necessário para uma mudança tão drástica no porta-malas. Sem pensar muito. A coisa natural como era. Pareceu uma viagem. Como quando se pousa de um avião em outro fuso-horário. Outra dinâmica. Outros hábitos. E imediatamente se sabe que nada mais será como antes. São portais que atravessamos sem perceber, por vontade ou necessidade.
As coisas mudam depressa nos detalhes mais simples. Literalmente, do dia pra noite. E como tudo sempre vai embora, muda, cambia, acho que bem no final das contas eu até deixei de dar valor a certas cerimônias grandiloquentes. Sem a angústia de querer que tudo dure. Aceitei a impermanência, embora páginas 48 em branco ainda me inquietem.
A gente agora está sentado. Deitado. Em pé. Com o celular na mão. O notebook aberto. O computador ligado. Nossos pés tocam o chão ou o corpo se beneficia da gravidade na horizontal. Estamos parados neste local e momento, vivendo o que há de ser o presente. Mas mesmo que tudo pareça absolutamente inerte, algo está se movendo em algum lugar. As engrenagens girando lentas e nos impelindo a despeito de nossas pretensões de controle e domínio do agora. Pense no mundo: você não vê, não sente, nem percebe, mas o planeta inteiro está se movendo. No eixo de si mesmo e ao redor do sol. Será que é este há-de-vir - fatal e invisível - que nos causa tanta ansiedade sem motivo aparente? Estamos sempre indo para frente. Será que é esta consciência de que o que conhecemos pode ser deformado pelo tempo, sem tempo para despedidas?
Passa agora uma nuvem. Num instante, já parece outra.
Amanhã amanhece outra vez.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A queda do império

Escrevo porque História de um Casamento conversou conosco e eu sei que não foi à toa. Não é estranho como tudo sempre vai se repetir em histórias como essa, mesmo que a gente nem se conheça? De Rubel à traição, há um efeito devastador repetitivo e idêntico no homem lírico. A gente só se dá conta no final. Calma, vem aqui, eu não quero te atacar. Esse texto é uma espécie de abraço. Não, um abraço não, que eu não sou de abraçar gente desconhecida e nem quero tanta intimidade contigo. Mas fica cada vez mais claro que eu te entendo mais e melhor que qualquer uma. É por isso que escrevo. Sei que é natural o processo de negação desse sentimento de agora, porque o que ele foi lá no início ainda faz eco bem fundo na memória. De um tanto que dá medo de voltar a ser grande. A gente vai minguando e assume essa condição como nossa. Há vida, mas não é mais a mesma: são os dilemas dele e a cabeça confusa dele despertando uma versão que você achou que havia morrido há muito tempo. A autoconfiança vai enredando nas canelas dele. Se ele caminha, dá medo. Sou porta-voz de uma notícia ingrata: a partir do momento em que você se deu conta disso naquela primeira vez - que só você sabe qual foi - e resolveu ignorar, perdoar e ficar, por qualquer razão que se confunda com um amor que tudo crê, tudo espera e tudo suporta, a culpa deixou de ser dele. Ainda dá pra não aceitar. Ainda dá pra aprender a levantar-se da mesa, como ensinou Nina.
E então as líricas se enredarão nos práticos, e sentirão um gosto estranho na boca. O gosto de serem elas mesmas.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Nada a ninguém

Como resistir à vontade de provar ao outro que evoluímos muitíssimo? De que agora somos mais legais, mais politizados, de que viajamos mais, gozamos mais, de que temos mais amigos, mais resiliência e mais dinheiro, menos problemas psicológicos e incomodações e menos ciúmes, de que somos intensamente merecedores de toda a redenção experimentada e que, de modo geral, estamos tão melhores que até parece que recebemos a visita de alguma entidade sobrenatural que pessoalmente compareceu ao mundo dos vivos para nos pacificar, enaltecer e fazer filial!?

Que bom quando tudo isso parece bobagem. Quando se comparar com o outro é tão desnecessário quanto se comparar com uma versão antiga de nós. Quando a gente compreende que não foi mais que o tempo e o seu trabalho natural. Quando abandonamos o "como pude!?" para dar lugar ao "naturalmente não poderia de novo". No mais absoluto silêncio.

É necessária muita certeza de si para não precisar provar nada a ninguém.