quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Elucubrações

O último raio de sol dos meus dias reflete sempre nas janelas de um hospital no centro da cidade onde estão nascendo e morrendo pessoas. É uma luz sobre a dualidade das coisas que principiam e acabam. Também um alerta de finitudes e recomeços. É uma notícia sobre este espaço de tempo entre dois sonos — o dia que existiu e existirá inteiro amanhã, melhor ou pior que tenha sido o hoje. E se a este lapso que tudo pinta de suas cores se pudesse questionar algo, diria: aceita que as coisas reverdecem e são fanadas, como o amor no poema de Drummond.

Nos dias nublados, é à lembrança daquele raio de sol em reflexo que eu me apego, por otimismo ou por um registro insistente e positivo da memória. Pintando a parede da minha sala de trabalhar feito elucubrações muito vivas do que é feito o equilíbrio entre os avessos. Um convencimento silencioso de que todas as coisas fluem como que para um oceano certo e imenso, com textura de destino.

As coisas fluem como água também naqueles dias de sol. E às vezes é como se, sabendo da energia a ser empreendida para nadar a distância desconhecida, o único jeito fosse sentar paciente no fundo do mar e não prender a respiração e não se debater e então deixar o sal corromper os buracos e a pele — e saber, depois de tudo, acordada em terra firme, que a água salgada também é matéria viva como a chuva. Feita dos momentos que não seriam completos sem o seu oposto (aquele raio de sol refletido nas janelas de um hospital onde renascem e quase morrem pessoas). Feita de afogar e de limpar.

Ninguém nasceu sabendo explicar direito a fotossíntese, mas ninguém pode estar ou se sentir vivo sem antes aprender a conviver com todas as fases dos seus ciclos.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Pirâmides

Nunca fui ao Louvre. Mas se me pego pensando na França agora me lembro dele antes até de me lembrar da Torre. É um fenômeno engraçado. Alguns monumentos me sensibilizam mais que outros, assim como as pessoas. Ficam na memória como um caco de vidro por baixo da digital do polegar. Pra ser honesta, eu não sei bem se o que eu espero de tudo não coincide com este despertar de alguma sensibilidade, mas eu acho que sim, e só às vezes me esqueço. Eu não entendo nada de engenharia ou arquitetura ou história da arte, então penso sempre apenas poeticamente no quase encontro entre a pirâmide convencional e a pirâmide invertida do Louvre. Eu sei sentir uma ponta apontada para a outra. É quase físico. Há uma catástrofe que esse encontro concreto poderia ocasionar, não fosse um ponto estar suspenso, que eu conheço muito bem. O antagonismo que representam, deixando um pequeno espaço para a comparação das forças diametralmente opostas que são capazes de simbolizar, dentro de mim e fora. Na reflexão se este contraponto entre a vida real e física, que possibilita toda a estrutura, e uma vida divagada, inventada e analítica, que na verdade complementa a primeira, encontra lugar no cotidiano ou só muito nos inícios. Talvez comparações como esta não sejam mesmo nada saudáveis, mas desde o princípio eu não pude evitá-las, dadas as circunstâncias. É no espaço vão entre ambas as pirâmides que eu penso quando imagino tudo que me falta agora e em tudo que sobraria na escolha oposta, e vice-versa. As pirâmides sempre me lembraram que as coisas se organizam em cima das que vieram antes, e isto pode soar como uma tábua de salvação. A pirâmide oposta, ao revés, invertida, que quase toca a outra, no Louvre, me lembra de todas as escolhas anti-intuitivas que eu não fiz por medo. De tudo que eu deixo pra trás quando eu fecho os olhos e as cercas. De tudo que me sufoca e de tudo que escolho não ser. A ideia do Louvre, viva na memória, lembra todos os lugares onde não fui e pessoas que não conheci. Quando olho de perto seu retrato, um palmo de distância, sei que é a representação de tudo que eu perco quando me entrego a outra coisa. Tocá-lo, ao alcance da mão, então, nem se fala. É como estilhaçar a minha taça de beber veneno para morrer aos poucos e de tédio. Em alguma medida, eu não sei bem por quê, a ideia do que eu não posso ser deixando de estar com ele me apavora, porque talvez seja só o que me falta.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Chave, flauta e alicate

Naquele dia em que conversávamos sobre traumas e carência, um amigo me disse que vivia uma fase terrível de ferida viva na qual os portões pareciam ter-se aberto e os demônios iam saindo todos, um por um, sem que ele conseguisse fechar ou mesmo lidar com eles. A impressão tenebrosa sucedia um período no qual ele esteve absurdamente apaixonado. Ainda que não fosse, o raciocínio era perfeito. Dizia muito sobre nós, sobre o tempo que gastávamos tentando reprimir todas as nossas inseguranças sem encará-las, sobre a intensidade que sempre emprestamos e às vezes não nos devolveram. Dizia tudo sobre os esforços que fazíamos, às vezes juntos, para conter as duas bandas altas e velhas de madeira escura desse castelo antigo onde é aprisionada toda sorte de monstros com a qual preferíamos não ter que lidar. Daquele jeito em que logo se vê que o pedaço de madeira atravessado não vai suportar a pressão de dentro. O dilema - e se digo dilema é porque não encontro palavra melhor - é que viver é se relacionar. E cada pessoa que passa pode ter a chave de uma cela, o alicate de uma corrente, a flauta de um animal peçonhento que foi abafado ou pretensamente domesticado dentro da gente. Cada pessoa que nos acontece pode ser o início do furo que vai fazer estourar uma represa inteira que gostaríamos de esquecer que existe, feita dos nossos sentimentos mais feios, bem líquidos. E não nos é dado saber que custo vai se compensar em cada benefício. A cada trauma nasce em nós uma promessa de não deixá-lo se repetir, uma certeza de merecer mais, uma ansiedade de não errar de novo. Só que não existe a menor possibilidade de conseguirmos passar totalmente em branco pela vida daqui pra frente. Ou de nos fecharmos, feito prisões perpétuas, para que os demônios deixem de transitar livremente. Ou de enclausurarmos nossa disponibilidade toda nas masmorras dos nossos medos de falharem conosco. Não existe a menor possibilidade. E, se existir, espero que um lembre ao outro de que para nós o atrito entre as forças de dentro e de fora sempre ensinou muito mais do que um portão hermeticamente trancado. Porque é só pelos portões bem abertos que todo amor, euforia e reciprocidade podem entrar.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Por conta própria

De passagem de volta quase comprada para o próximo desatino
Aérea
Como a minha cabeça
Eu me pergunto como estabeleci o teto dos voos que alcei.
Por que sempre teimo ir ver se estou na esquina
Se meu destino final está aqui, na esquina.
E se digo esquina quero dizer:
Esta espécie de encruzilhada.
Por que flutuo no conhecido, orbitando as falhas, no que já provei.
Por que evito deixar espaço para momentos como aquele em que não estava dizendo que não, e também não estava dizendo que sim, e de repente as pernas podiam estar cruzadas mais para dentro da mesa e eu me esticava para trás fazendo um quiz sobre tudo-menos-a-profissão. É muito mais íntimo do que beijar na boca. Também mais incauto. Mais frugaz: uma mistura de sagaz, frugal e fugaz. Talvez até mais eu.

Porque quero saber. Ter controle.
Estar bem informada sobre o que me acontece.
Como se pudesse engarrafar este líquido que me escorre entre os dedos, para conseguir contê-lo.
Mas sei que esta condição não se impõe para mim senão com o peso de uma escolha.
Se tento me equilibrar, digamos, sobre esta tábua de madeira em cima de uma bola, é como se a certeza de que vou pender para um lado ou para o outro qualquer hora, em franco desequilíbrio, esmagasse a mim e ao outro ao mesmo tempo e rápido.
Como abandonar esta neurose dualista?
Esta espera eterna por cair.
Talvez para isso precise fugir um pouco de mim.

De passagem de ida quase comprada para o próximo desatino
Aérea
Como a minha cabeça
Eu me convenço de que só assim saberei desobrigá-lo de ser completo
Só assim posso aprender a deixá-lo ir, quando for a hora:
Se antes houver aprendido a ir e a voltar
Por conta própria.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Eco [21]

Larguei as chaves em cima de uma peça de cerâmica em formato de folha cuidadosamente pensada para ficar ao lado esquerdo do aparador da entrada, ao alcance da mão, e o gesto produziu um barulho curto, mas estridente como um alarme. No centro da mesa, flores artificiais nos mesmos tons do quadro escolhido por algum decorador famoso que eu nunca vou conseguir pronunciar o sobrenome, embora a recepcionista tenha tentado me impressionar mais cedo abusando de todos os tês mudos e efes dobrados que compunham sua assinatura.
Precisei tirar os sapatos e arrancar as meias para sentir três passos de um tapete fofo até me debruçar no sofá com o corpo inteiro jazendo pesado, a cara e tudo, num material moderníssimo impermeável, como descobri chorando sobre ele uns minutos depois. Para tentar me por absorto daquele teatro de cafonices pretensamente cosmopolitas e lembrar quem eu era, fechei os olhos e respirei fundo, obrigando a cabeça a cavoucar algum pensamento distinto no meio de tantos comportamentos automatizados.
Veio logo um episódio de mais cedo, quando eu vi uma mulher dentro da piscina maior, tia ou instrutora, mãe não parecia, tentando ensinar a uma criança a ter coragem de mergulhar. Mas o menino não era capaz, por nada no mundo, de tirar as boias apertadas contra os dois bracinhos magros, repetindo toda vez o gesto de levar a mão ao rosto, o que impedia que se entregasse à experiência completa. A mulher dava em outro idioma as instruções doces e calmas de que ele podia confiar nela, de que ela ia segurá-lo, de que naquele lado ele ainda dava pé, e a criatura como que por instinto parecia não dar mesmo conta de se soltar todo contra a água. Quando finalmente achou que tinha conseguido, as boias ainda o continham na superfície segura dos que não se afogam nem molham bem a cabeça. Pensar nisso deitado no sofá àquela hora do dia teve pra mim o mesmo efeito que beber líquida como água e cloro uma dose cavalar de realidade pelo nariz.
Quando tornei a abrir os olhos, acomodei a cabeça e reparei num canto que estava escurecendo. Digo, não do sol se por. A parede estava escurecendo. Já era estranho estar num hotel como aquele, do outro lado do mundo, mas mais ainda ser surpreendido com uma trivialidade dessa depois de despertar da lembrança anterior. Eu tinha a nuca apoiada numa almofada enorme de qualquer cor em tons pastéis quando percebi que a tinta branca da parede começava a ter ranhuras naquela pequena parte do quarto, atrás da cortina, bem próxima ao teto. Talvez, pelas ínfimas dimensões da mancha, ela houvesse passado despercebida. Eu acho pouco provável que a administração do lugar fosse deixar um detalhe desse passar, se se ativesse a ele, o que me dá a impressão de que eu era o primeiro hóspede e, mais do que isso, o primeiro ser humano a notar que aquele fenômeno estava acontecendo ali.
É quando se percebe o mofo pela primeira vez que ele começa a existir. Canos se rompem, é claro, mas só depois do primeiro furo minúsculo que dá vazão ao que estava contido é que o estrago começa a ser feito. Do mesmo modo que a primeira partícula esverdeada que se aninha a uma segunda, quando notada, inaugura um mofo inteiro. Pode-se, antes, abrir bem as janelas, arejar o ambiente, dar a ele a luz do sol. Fazer um trabalho preventivo. Porque depois não há o que se possa fazer. Eu sempre quis ter essa sensibilidade de não deixar nada mofar, desgastar ou corroer. Lamentavelmente, faço parte daquele grupo que só se dá conta do caos quando ele já está instalado. A possibilidade daquela sensibilidade é toda perdida quando o primeiro ponto de fungo de mofo aparece, porque depois daí tudo é um receio imenso do lugar ser corroído de escuro antes mesmo que a gente possa dar o primeiro espirro.
Se penso naquele menino e na coragem que lhe faltou e me enxergo o mesmo covarde de quando tinha menos anos de idade e começava a descobrir o mundo fazendo cena e resistindo ao fundo, e acreditando que tudo devia ser perfeito e liso e limpo como a parede mais bonita do hotel mais caro que o dinheiro pudesse pagar, eu lembro que o medo de afundar e se afogar é um pouco como o medo de que seja tarde demais para conter os danos e manter as aparências. Idealizando a perfeição, eu também sei vestir as boias para nunca mais querer tirá-las. Mas eu estou exausto de tentar me convencer que qualquer amor é melhor do que amor nenhum, Laura. E uma verdade úmida como essa, quando é notada, já se infiltrou pelo quarto inteiro.

domingo, 20 de setembro de 2020

Resetar

E se as noites pudessem resetar os dias? E a gente acordasse podendo gozar sem remorso, levantar cedo, começar um exercício físico. Dizer não. Elogiar o pai. Assistir ao Pós-F da Fernanda Young num monólogo da Maria Ribeiro. Revigorar. De repente até tomar mais chá do que álcool. Ter uma parte muito importante do que a gente precisa ser sempre bem guardada. Acessá-la. Voltar a alcançar essa parte, nem que seja com a ponta dos dedos, no meio das costas. Tirar das coisas o peso que elas costumam ter. Depois tirar das costas essas mesmas coisas. Encará-las com respeito, sem essa do crânio de Shakespeare, pra não repetir os maus hábitos. Escolher largar um pouco as obsessões. Abraçar o caos sem alimentá-lo. Regando as plantas. Lavando a louça. Respeitando as fraquezas. Entender que a modernidade é relativa e talvez ela não precise ser perseguida. Respirar bem fundo e não sentir mais cheiro de naftalina. Olhar para o pé de hortelã e vir leve uma ideia de que a gente só vinga sem a parte morta. Para rir de novo. Para enxergar mais de perto as oportunidades descartadas por medo. Para permitir que muitos momentos leves como esse aconteçam sem anúncio. Olhar no espelho e perceber como é surpreendentemente lindo ter vindo ao mundo bem sozinha. E que a solidão é um caminho de ida e volta. E o quanto os caminhos de volta podem ser libertadores. E o quanto se reinventar não cansa. Recomeçar não gasta. E se a gente percebesse que é meio que isso que as noites fazem?

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Bem-entendido

Mencionei o episódio na terapia uma hora antes, depois de anos, e quase não acreditei quando aquela presença indigesta se materializou em linha reta entre a minha mesa e o balcão. Quase como se ele tivesse sido convocado mentalmente pela chefe do setor de arquivos das coisas mal resolvidas da minha cabeça para um acerto de contas que possibilitasse descartar os papéis mofados pelo tempo.
Se eu não tivesse ficado tão espantada, teria rido. Eu sou perdida nessas coincidências. Fico sinceramente interessada, mais até do que deveria, no que coisas como essa têm pra me ensinar. Quero saber que ponta ficou solta como um fio desencapado dentro do meu cérebro e o que eu ainda tenho pra aprender com isso. Eu me sinto obrigada a revisar a narrativa que emprestei aos fatos de época com os olhos de agora, para tentar converter aqueles incidentes num bem-entendido dentro de mim. É como uma espécie de compromisso na resolução dos meus dramas mais antigos.
Faz parte da vida interiorana, eu sei, a gente cruza o tempo todo com gente que deixou de fazer sentido e com quem teve que deixar de fazer, por aqui. Só que coincidências acontecem por instinto, sobrepondo-se à força do hábito. Comovem pelo espanto que causam intimamente no confronto com a lógica racional. São feitas de energias que não dominamos, embora tentemos.
E é porque essa mágica acontece dentro da nossa própria cabeça que coincidências assim podem se dar no fim do mundo, em Bangkok ou em Madrid. Numa estrada de chão a caminho do sítio, levantando poeira, cantando pneu, estourando garrafa, caminhando pelo rio. Naquele filme antigo do Tom Cruise. Ou na mesa desse bar, logo depois da sessão de análise. Pra quem se dispõe a reparar na justaposição entre dois eventos aparentemente aleatórios, o mundo é sempre um ovo.
Vendo-o daqui assim sentado, meio feio, meio cheio de graça, eu revivo as nuances daquela rejeição que me pareceu enorme — porque a primeira é sempre gigante — e sem querer eu me pergunto se não teria feito o mesmo estando no lugar dele. Passado tanto tempo e tantas histórias, ao custo de todas as vezes em que eu rejeitei os que vieram antes e depois, consigo perceber que não teve a ver só comigo. Há um motivo justo para que a lógica do não-é-você-sou-eu seja universal: é verdadeira.
Será possível que a memória da gente fabrique detalhes inteiros de uma situação e os repita incansavelmente, até o convencimento? Acontece para que de alguma forma nos lembremos de nós mesmos como vítimas, e isso facilite as coisas? Ou, nesse caso, será possível que eu tenha apagado uma conversa do HD e reescrito de próprio punho como todas as coisas se passaram, por conta dos eventos de depois? Será que agora o peso dessa honestidade ou de uma cantada barata têm a graça de uma coisa totalmente nova, diante da mulher que eu me tornei? Eu não duvido. Mas não deixo de ter medo de que essa minha disposição para pensar nas coisas dessa forma volte a fazer de mim ingênua. Medo de quebrar o espelho, de usar a palavra "livramento" e de tomar outro pé na bunda igual àquele primeiro. Como é que se exige um pedido de desculpas sete anos e dois drinks depois?