terça-feira, 25 de julho de 2017

Você me desperdiça

Queimei o céu da boca com a parte rala da sopa da Elaini. Terminei a refeição e escovei os dentes cuidadosamente, mais por fora do que por dentro, para que as cerdas duras não me arrancassem desavisadamente a pele frágil e áspera - este fenômeno paradoxo que só as queimaduras conseguem produzir.
No enxágue, quase um gozo de alívio: a água gelada sorvida da mão esquerda para a boca, consolando a queimadura como quem a cura. A água na temperatura certa, quem diria, um analgésico poderoso, interrompendo as vias de transmissão nervosa entre o meu ferimento e o meu cérebro, tão viciado em sentir fogo (e, agora, também água) tão poderosamente.
Encarei o espelho do banheiro e sorri, enquanto abaixava a cabeça e cuspia. Era assim, então, que eu devia encarar o ocorrido. Com uma espécie de gratidão pelo instante de coragem louca para iniciar a escovação dos dentes, um ato que me pareceu absolutamente necessário e quase instintivo, apesar do perigo. Com uma certeza de que manter a água gelada na boca por mais tempo do que é costume faria dela fria e depois morna e depois quente como um fogo brando que me queimaria um pouco mais, ou pelo menos não faria diferença positivamente.
Confesso: eu me preparei para recebê-la. Ao contrário do que pretendo fazer crer - de que o bom mesmo é só o susto, e de que pensando com calma a vontade e a potência daquele alívio se esvaem - no fundo eu sei que não se engole a espuma da escovação de dentes a seco sem um certo desconforto. Então a água, em alguma medida, é necessária. A água é literalmente elementar para quem estou sendo depois de experimentá-la numa circunstância tão incomum.
E, no íntimo, eu desejei tê-la ali antes de saber que me estancaria a dor. Se afirmo que não se pode prolongar algo para além do que deve durar por uma questão de funcionalidade, na prática eu quis tê-la mais comigo. Bochechar. Gargarejar. Deixar escorrer pelo pescoço. Fazer com que o prazer durasse, exponenciado. Eu quis e eu quero, se me detiver no assunto, beber litros e litros de água ainda nesta semana. Até passar a língua no céu da boca recém aguado e sentir que tudo está como antes ou mais hidratado. Eu quis e eu quero que não fosse ou seja mais possível retroceder ou desperdiçar água nenhuma neste mundo.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Lamento sertanejo

Construí sobre a areia movediça uma tapera, e dela fiz uma mansão. Levantei parede, varri bem o chão. O pó eu tirava todo dia. Como eu amei a minha casinha de improviso! A minha casinha querida que me acolhia como se fosse um palácio de um rei importante. Eu ia chegando e a porta abria, a tramela velha girava inteira pra minha vontade de morar no que fosse meu, no que ninguém mais pudesse destrancar que não eu. O sol entrava manso na fresta da janela fim de tarde. Eu botava a cadeira de palha na varanda e olhava longe, tudo tranquilo, e numa hora dessa tudo ficava tão lindo que a vista não alcançava fim praquele susto de felicidade que a minha casinha me dava. Nos cafundós de uma terra onde não se podia plantar quase nada, num sertão onde só chovia depois de muita reza, eu rezava. E daí dava goteira, que quando chove casa de pobre é assim mesmo. Tratava de me conformar. O chão batido inundava todo, lá ia eu com o rodo. A chuva lavou, tá novo. E punha as roupas pra secar. E punha a alma, calejada, pra quarar. É aqui, e ninguém mais, que eu escolhi morar, é aqui que a chuva vai chover e eu vou regar. Feito árvore sem semeadura, criei raiz e fui ficando. Flori um verão. Depois mais outro. No frio comprei coberta, que em casa minha, calor é que não ia faltar.
Foi ali naquela moradinha pequena que planejei um filho só, que não cheguei a ter, que nunca dei à luz talvez por falta de sorte, talvez por sobra, que nessa época a parteira ainda nem tava por chegar. Eu decorei tudo como manda o figurino, pra bem de esperar o tempo certo se aprumar. Comprei estante de madeira, e até queria ter um sofá. Quando a noite chegava, a lâmpada comprida e branca demorava um pouco, ligava e acendia fazendo barulho pra danar, mas não fazia mal, alumiando é o que conta. Panela também tinha. Comprei vermelha, como era moda. E barata. Barata tinha de monte. Que me importava? A casa da gente é a casa da gente. Dá gosto de ver a luz na casa da gente, a água saindo da torneira, o cheiro de comida impregnando a cama do conjugado. Era uma alegria humilde, mas eu gostava muito de levar a vida na minha tapera porque a minha tapera era minha. Ou eu achava que era. Aquela ideia de ter teto tava pronta e acabada.
Até que um dia a natureza buscou de volta a casa toda de uma vez. Não sobrou madeira nem sapê nem nada pra contar história. Até o pano de louça de inicial bordada, presente da madrinha, junto com o resto do enxoval, foi pro brejo. A terra me engoliu o cofrinho de moeda, a cama mole, o ventilador mequetrefe, o travesseiro velho, o espelhão redondo do banheiro, meu único luxo. Até o globo terrestre que ficava em cima do bidê - onde eu não achava, no mundo inteiro, lugar melhor que a minha casinha, a terra engoliu. Sem deixar rastro. Sem chance de reclamo ou apelo. O chão puxou pela última ponta a raiz daquela planta que reguei dia e noite pra ver se vingava, tão ligeiro que parecia feitiço. A luz foi se apagando por baixo da terra como se nunca tivesse tido luz. Direto pro inferno, de certo. Nunca mais minha casinha. Fui tão feliz que quase que me esqueço da areia movediça sobre a qual eu levantei a fortaleza. Não fosse essa peça que o destino me pregou, tinha esquecido mesmo. Mas agora já não podia. A mão na cabeça, tremendo que nem vara verde de um apavoro feito o que bate com notícia de morte de parente, eu reparei que fingi tempo demais que não via que a minha casinha já foi levantada caindo aos pedaços. Eu fui feliz e não me avisaram de novo que areia movediça engole casa. O desaviso me custou uma nota de coisa que, cê deve de saber, não há dinheiro que pague. Perdi a minha ignorância, de sopetão, feito um tiro que tira a vida de quem não honra a conta da venda na mão do Setembrino. Defendo a honra, mas nem preciso, chorando na frente da ruína da minha tapera. Com esse lamento sertanejo que vai a São Paulo e volta. E não dá mais conta de esquecer que sem chão firme não há casa que fique de pé.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Eco [10]

Eu estou farto de selfies e stories para tentar chamar a tua atenção. Estou farto de ser refém das minhas próprias sentenças. Eu me cansei de ouvir as músicas que aprendi a gostar contigo para extrair qualquer seiva da tua persona que fosse capaz de me alimentar. Cansei da pose de vencedor por cima da carne seca com esse abismo inteiro que carne seca ou úmida nenhuma preenche. Eu sou um pobre cão raivoso. Já não tenho saúde para as amêndoas amargas, que me embrulham o estômago mas não funcionam como veneno letal. Me sobraram nesta vida, como sobram sempre aos loucos de todo gênero, somente os nossos dois amores contrariados. Cada qual num peito como se fosse inteiro, cada qual num peito parecendo desconexos entre si, não mais uma coisa só. Laura eu não voltei bar em bar desmentir aos trôpegos que me faziam companhia no balcão que você não vale nada eu não fui ao confessionário dizer que quanto às juras de amor eterno era falso o meu testemunho mas eu rezei eu rezei eu rezei como rezam os pobres contando o rosário com tom de voz de ladainha para que não lhes falte o pão nosso de cada dia eu rezei afoito e eu rezei sem vírgulas e sem fôlego nenhum para que os anjos e santos e entidades soubessem que o fim do nosso amor me bota louco ainda e um pouco mais todo dia eu rezei pelo teu perdão e pelos pecados que eu não acho que cometi eu rezei implorando misericórdia por me render aos corpos de mulheres que eu não amei porque não te via. Perdi o juízo, a sobriedade, a compostura, os bons modos e o bom senso. Eu só não perdi a vontade de te matar de amor, Laura, de sufocar nas tuas angústias como se fossem minhas, como se fosse teu pai, como se os teus vícios fossem meus também, como se eles não importassem, como se eu não estivesse constantemente ocupado demais para que não me sobrasse tempo para pensar em ti e lamentar e chorar para dentro e pensar que no fundo deste poço tanto faz a compatibilidade formal entre duas pessoas. Eu fiz ensaios inteiros sobre a autoajuda que eu não consegui me dar de verdade, depois devaneei sobre como era rápido e fácil seguir adiante, depois me senti feliz por dois segundos com beijos e carícias horríveis antes de submergir de novo neste mar de angústia, de dúvida, de tédio e de peso morto que é a solidão. Tudo me toca fundo para que as palavras saiam conexas. Tudo já foi dito e repetido para que agora haja remédio ou remendo mas há essa vontade absurda de estar aqui, agora, para dizer que só estou. Estou na tua porta como se fosse novo. Como se fosse outro. Como se não fosse o que era mas ainda sendo. Como se houvesse uma esperança inquebrantável de que só por estar na tua presença só por te ver só por ser ouvido só por não deixar que esmaeça o contraste indisfarçável das nossas cores o meu peito consiga doer um pouco menos. Não é de Deus, mulher, o quanto tu me dói.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

A capivara

No fim, bastaria apenas reproduzir o adágio: o que não tem remédio, remediado está. Como em todas as estórias que já nos contaram, a moral da história, dita de antemão, nua e crua, economiza o falatório. Mas hoje eu quero contar a fábula inteira em detalhes.
Há quatro semanas, mais ou menos, indo para o trabalho eu avistei uma capivara morta na beira da rodovia. Quando passei de carro por aquele trecho, oito e tanto da manhã, o sangue vermelho vivo tingindo o asfalto no dia claro fazia crer que o atropelamento tinha acontecido poucas horas antes.
É uma coisa relativamente simples de acontecer, para quem mora no interior, mas à primeira vista a cena era chocante. Pegava a gente desprevenido. Primeiro porque eu já atropelei uma capivara antes e sei o estrago e o susto que elas causam. Digo, atropelei não propriamente, mas já estive no banco da frente de um carro que atropelou uma capivara, e o baque do corpo gordo contra o para-choque mesmo estando de carona é uma experiência horrível que não desejo a ninguém. Segundo porque era um bicho morto. Por mais irracionais que me pareçam as capivaras, era um animalzinho que há pouco estava feliz da vida com suas quatro patas fincadas na barranca do rio comendo grama ou fruta - eu nem sei o que as capivaras comem - e agora jazia ali, para todo o sempre. O ocorrido despertava uma sensação de compaixão até para a menor das ativistas dos direitos dos animais, como eu.
Naquele primeiro dia, há umas quatro semanas, a viagem até chegar no escritório pareceu muito mais longa que o habitual. Esbravejei indignada pensando que era uma irresponsabilidade alguém tê-la atropelado e deixado ali. Dado causa ao fatídico acidente sem prestar os primeiros socorros e, agora, seguido a vida normalmente, como se nada tivesse acontecido.
Mas minha indignação era, notei depois, um absurdo. Ninguém atropela uma capivara por querer transitando na BR. Mesmo prestados socorros, talvez não tenha dado tempo de chamar um veterinário. Ou já não havia mais o que fazer. Ninguém deseja o prejuízo material e o espanto de um evento desta magnitude. Também não há, reparo agora, um jeito digno de velar um animal selvagem. Não é um humano, não há família a quem indenizar ou pedir perdão. Não há mesmo maneira correta de enterrar uma capivara morta por acidente na beira da rodovia. O que eu queria, afinal!? Que o condutor a enterrasse ali mesmo, em terras de estranhos? Que botasse no porta-malas e enterrasse no quintal de casa? Levasse para o trabalho e tomasse providência no final do dia? E o bicho fedendo de morte e impregnando tudo ao redor. Não, não, não há maneira de seguir, objetivamente, carregando aquele peso estrada afora. Então, poucos dias mais tarde, eu me dei conta de que se fosse eu mesma a atropelá-la, não seria capaz de demovê-la um centímetro sequer imediatamente, ainda que quisesse. Pior do que isso, eu nem sabia o quanto aquilo tinha afetado intimamente o causador do atropelamento. Desse modo, mesmo culpado, o motorista haveria de ser perdoado por seguir adiante e deixá-la ali.
Conforme os dias foram passando, eu fui alternando entre o sentimento de culpa (veja você: eu já sabia que não tinha forças para arrastá-la nem se quisesse, que não era comigo, mas ainda assim me sentia culpada por não poder fazer nada, o que consumia uma energia enorme) e o sentimento de piedade, fazendo um esforço mental para deixar para lá (que às vezes me custava forças que eu pensava que não tinha para controlar meus próprios pensamentos).
No quarto dia, tivemos uma chuva torrencial na região. E no meio de um afazer cotidiano, ouvindo os trovões, pensei: pobre capivara estatelada, vivendo este temporal e o sol de rachar no frio deste inverno, ao relento, sem cerimônias.
Nessa parte da história, imagino, você pensará: é bobagem, é só uma capivara, isso acontece toda hora. Embora de maneira geral eu concorde, esta é uma daquelas circunstâncias em que não se explica o quanto o inevitável é capaz de tocar fundo na alma da gente. A capivara atropelada se tornou a insígnia dos meus problemas. Em muito se assemelhava e assemelha com a minha necessidade de digerir e sofrer o irremediável da minha vida.
Vida que segue.
Ontem, tarde da noite, voltei para casa e já era escuro. Não pude vê-la, nem de longe e nem rapidamente, mas sabia que estava ali. A gente sabe ou pressente o óbvio. Ultimamente, quando passo ao seu lado, dou apenas uma espiadinha sem demora, para conferir a carcaça magra e pálida.
Agora, fazendo um exercício de memória, lembrei do dia em que, no exato momento em que passei por aquele trecho da estrada, já meio distraída, havia um urubu devorando suas tripas. Para minha querida amiga, então, já não havia remédio. Foi como se eu me desse conta, inteiramente e outra vez, de que estava tudo acabado, dada a sequência na cadeia alimentar. O curso do tempo estava operando seu milagroso trabalho. O que é ótimo. Mas se me lembro, ainda me dói como da primeira vez.

Às vezes me dá muito trabalho aceitar o que é fatal.
O que não tem remédio, remediado está.
Ou: viver bem demanda aprender a lidar com as capivaras, sonhos e planos que morrem pelo caminho.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Eco [9]

Laura, eu não sei tu, mas eu detesto com veemência a ideia de ter "contatinhos". Que praga é essa que foram inventar? Pelo amor da Santa Madre Igreja, Laura. Isso é liquidez na forma mais difícil de digerir. Minha pior bronca com a vida de solteiro. Eu não gostaria de ter que espalhar meu afeto, grão em grão, no tempo de meia dúzia de mulheres com a porcaria de um papo fraco de "você-é-lindo,-lindo!", Laura. Que raio.
Eu ainda odeio essa promiscuidade sentimental paliativa do tédio, embora já tenha reaprendido a flertar e o faça bem. Para mim, essa pulverização do desejo instensifica uma sensação de rejeição abominável. Talvez tu ainda lembres o quanto eu odeio ser rejeitado. Ainda que minimamente, por dois minutos. Ainda que por falta de olhar. A rejeição, que chega a galope, e o desinteresse, que é meio concomitante com a excitação de um novo nome na agenda, são a expressão máxima do que é ser e ter "con-ta-tinhos". Uma parte para cada passinho para trás que eu dou quando dizem essa palavra na mesa do bar. 
Às favas essa gente toda que diz por aí com tanta ênfase que quer um amor pra vida inteira (mas não cultiva direito nem um pé de cacto, Laura!), eu sei bem que esse desespero vem porque só o que eles aprenderam a ter é contatinhos. A gente sabe que quem muito quer, nada tem. Quem nada tem, muito quer. E esse ciclo que nunca acaba. Mal começou e eu estou farto de não poder conhecer o âmago de ninguém porque estão todos ocupados demais repetindo as perguntas e respostas do Questionário Oficial dos Contatinhos uns aos outros.
Não sou mais homem de uma mulher só, Laura, mas definitivamente sou homem de uma paixão só. Várias na vida, sabemos, mas uma por vez. E bem intensa. Que o contrário eu já te contei que me causou muita dor de cabeça - é coisa pra quando a gente tem dezesseis anos.
Quem sabe seja isso, então: uma espécie de maturidade. Ou uma velhice precoce. Quem sabe a idade e o tempo me impossibilitaram dessa coisa volátil própria dos que são mais jovens. Trouxeram-me uma responsabilidade emocional, fiel e senil, que me pesa no mais fundo da personalidade, sobrecarregando as articulações. Como dores nas juntas ou hérnias de disco. E, então, apodera-se de mim uma preguiça incalculável de ter contatinhos. Que me dificulta muito essa sedução indiscriminada de qualquer par de peitos que se me apresentem.
Porque são só peitos e hálitos luminosos de chiclete recém posto na boca, Laura. E eu sou piegas demais para não desejar sempre o bafinho de bom dia do domingo.

domingo, 16 de abril de 2017

Eco [8]

Quando procurei a Laura pela primeira vez depois do término, eu receava que ela não fosse me responder. Foi apenas dois dias depois, numa terça, final de tarde. Havia tanta coisa mal resolvida em mim. A minha rotina havia mudado tanto em tão pouco tempo. E eu ainda tinha um carinho e uma esperança tão grandes.
Mandei mensagem perguntando a ela como foi o dia. É, pois é. Havia tanta, tanta, tanta coisa para ser dita, perguntada e ouvida, mas a única coisa que me saiu com naturalidade foi essa pergunta boba e trivial, para introduzir o assunto. Como quem ainda faz parte do cotidiano.
Veja bem! Dois dias antes, levei o resto do domingo para que a ficha caísse. Chorando e sem entender nada, como um bebê em cólicas (minto, minto, a ficha demorou muito mais que umas horas para cair, talvez ela não tenha caído direito até hoje ou caia um pouco mais e eu volto a ser esse bebê a cada vez que eu olho de relance o canto em que ela deixava os sapatos de salto assim que chegava do trabalho e eles não estão mais lá).
Na segunda-feira, depois de não ter rendido absolutamente nada no trabalho, tomei um porre homérico. No balcão de um bar no qual eu nunca havia entrado. Sem companhia. Pedi só que um amigo confiscasse meu celular até o dia seguinte, o que ele fez sem perguntas. Torci para que aquilo antecipasse a recuperação e me fizesse sentir menos, ou me desse uma nesga de consciência de como devia agir: ficar quieto, na minha, digerindo. Cheguei em casa três da manhã, sem saber como. Dormi bem naquela noite, ao contrário da anterior.
Na terça, eu estava um caco. O mesmo caco que continuou não rendendo nada no trabalho e nas interações humanas de modo geral, mas dessa vez com uma dor de cabeça e um remorso assombrosos. Eu precisava saber da Laura. Ver como é que tinha passado as últimas quarenta e oito horas a rainha da minha ruína. Eu não podia mais negligenciar aquela vontade profunda de discutir o término. Exclamar um pouco as interrogações. Berrar qualquer coisa em voz baixa, do coração para fora. Eu não podia mais perpetuar aquela atitude anti-natural de não interagir.

Foi então que mandei a mensagem.
Uma hora e trinta e sete minutos depois, ela respondeu. Não é que eu tenha cronometrado, até porque me ocupei tomando uns oito cafés nesse meio tempo, é só porque à noite, mais tarde, abri o aplicativo para reler tudo tantas vezes que acabei fazendo o cálculo e guardando a informação.
Ela respondeu. Fez um relatório em pormenores do que havia feito no dia até ali. Foi disparando minúcias dessas que a gente enfrenta todos os dias, sem esperar que eu respondesse. Que tinha saído a pé para o almoço e, quando voltou, o mundo desabou em água, ela sem guarda-chuva, aquela coisa toda. Que almoçou isso, fez aquilo, passou no banco, deixou roupa batendo, tinha ligado para o fulano para resolver tal situação. Contava tudo como num dia normal do nosso namoro, exceto pelo fato de que ela havia terminado comigo e eu não conseguia pensar em mais nada além de me concentrar em respirar e não morrer.
No final da sequência de mensagens, completou com um nada sutil "...e senti sua falta!".
Como assim sentiu minha falta, tá doida? Digitei mas não enviei. A minha cabeça fervia de alegria e confusão. E de raiva. E de ansiedade. E de ressaca. E da falta assustadora que eu sentia dela. Tudo muito misturado, mas quando vi a notificação, sorri.
Embora eu soubesse que um relacionamento não acaba indolor para alguém tão sensível, eu não esperava uma Laura tão receptiva e honesta. Que confessasse que também vinha tendo que se concentrar em respirar e não morrer. Eu esperava uma Laura linha-dura, como a de domingo. Sem chorar. Sem titubear. Eu esperava uma Laura que não me respondesse, ou me mandasse à merda, ou já tivesse até me bloqueado. Quem sabe isso facilitasse as coisas.
Ao contrário, descobri que ela também tinha tido uma espécie de ataque de pânico do primeiro para o segundo dia daquela semana, que tinha chorado horrores depois, e que não confessou porque não sabia como eu reagiria. Exatamente como eu, só que com o adicional gosto amargo de quem não pode dar o braço a torcer para não fazer o outro sofrer ainda mais. Ou para tentar não fazer.
Descobri que ela também estava confusa - infelizmente não o suficiente para voltarmos. Como será que as pessoas precisam estar se sentindo para permanecerem juntas? Mesmo passado o nosso carnaval, eu ainda me pergunto isso de vez em quando.

Naquele domingo, Laura pôs uma luz intensa no que havia de mais obscuro nos seus maus sentimentos em relação a mim. Minhas pupilas dilatadas não enxergaram nada direito. Em seu íntimo, a Laura via com nitidez coisas que eu não suspeitava sobre nós.
Naquela terça, Laura me deu a medida de quanto tempo aquilo foi remoído nas trevas de suas entranhas até se tornar tão definitivo. E então, subitamente, tudo me doía ainda mais. Saber que a Laura estava sentindo tudo tanto quanto eu - ou mais, ou há mais tempo -, apesar de ter terminado comigo, não me ajudava em nada. Não esclarecia nada. Era de uma dureza tão grande comigo. Conosco. Eu tenho certeza de que objetivamente chorávamos as mágoas mais fundas naquelas mensagens, embora tudo parecesse conforto.
Muitas terças mais tarde, depois de experimentar um sem-fim de conversas amenas ou viscerais, francas ou mal interpretadas, e de termos nos acalentado e ferido sempre mais, lembrei do óbvio sobre relacionamentos e seus finais: a Laura não poderia me ajudar a fechar as feridas que tinha me feito. O contato era nocivo. Suas mãos eram tóxicas. Seus abraços, mais ainda. Lê-la me fazia sangrar. Procurar seus vestígios virtuais me infeccionava todo.

A cada vez que eu procurei a Laura depois do término para contar a ela como me sentia e para ouvir como ela se sentia, eu mantive uma esperança incontrolável. Eu pedi e esperei satisfações. E receei a chegada do momento em que ela não me respondesse mais. Porque o silêncio significaria o temido novo amor, ou uma festa incrível, uma terapia bem sucedida, um esquecimento, a consumação dos meus presságios sobre o término. O silêncio significaria que ela decidiu que era melhor seguir do que olhar pra trás. O silêncio significaria a mais absoluta das desistências. Uma vontade de paz, como a que tivemos juntos. Sobretudo, significaria não haver mais nada que pudesse ser dito para remendar o nosso amor imediatamente, quer a gente ainda se amasse ou não.

Um dia o dia chegou. Não nos falamos mais. Eu não soube se a Laura ainda me amava ou não, quando se calou. Se fazia só por ela ou se fazia aquilo por nós dois. A partir de então, conjecturei muitos significados. O maior deles acabou sendo o de que os silêncios apaziguam os amores grandes demais para as palavras que sobram depois do fim.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Eco [7]

Há pelo menos outros seis ecos antes deste.
Clique se quiser ler o primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto e sexto.

Meus amigos se queixam, com textos compartilhados no Facebook e nas mesas de bar em geral, da cobrança direcionada a nós, todos os caras de vinte e tantos. Da "obrigação social" excruciante de estar formado numa faculdade com um histórico escolar mais ou menos acima da média, ter o início de uma carreira, uma área de atuação definida, o limite razoável do que se pode chamar de sucesso. E dinheiro, é claro. Dinheiro pra tudo, tempo pra tudo e disposição pra tudo. O fardo de ser bem querido, bem articulado, reconhecido. O quanto pesa a expectativa. O quanto bate vontade de largar tudo e fazer um mochilão pela Europa, pela América Latina, sair pedalando sem rumo por aí, ou tocando violão, vivendo da arte e sem amarras.
Entendo, sou até bem sensível aos apelos da minha geração, mas padeço de um mal de outra ordem.
Eu faço parte daquela parcela de caras que, aos vinte e tantos, por qualquer razão, já se encontrou na vida. Não por um mero acaso, sorte, força divina ou coisa que o valha. E não por mérito próprio pura e simplesmente. Um conjunto de ocasiões que pode não ter ocorrido a outras pessoas, e que aproveitei da forma certa, quem sabe. Enfim, como disse, por qualquer motivo aleatório bem combinado com outros motivos aleatórios que poderiam ter sido diferentes. E de fato foram, pra outras pessoas. Eu faço parte daquela parcela de caras que já não tem sobre os ombros o receio de desapontar as pessoas, de morar embaixo da ponte ou de não sentir o cheiro dos louros da vitória. Já venci uma parte das metas que passei a vida inteira ouvindo que deveria vencer.
Não me cabe a causa do adolescente rebelde, da luta contra o sistema capitalista opressor que nos obriga a acumular dinheiro. Não sinto a amarra dos grilhões da expectativa. Sei, conscientemente, que não se vive de vento, que o trabalho dignifica o homem e que não há nada de mau em ter algum dinheiro guardado no banco por previdência. Não me atinge de todo esse impulso jovial, quase pueril, de querer largar tudo, senão por enfado. Não me custa cumprir as tarefas que a sociedade me incumbe de ter, porque até que gosto delas, sabe? Acordo, escovo os dentes e vou pro trabalho. Ganho uma grana no fim do mês, compro comida, viajo de vez em quando.
Sou adulto, saudável, pago as minhas contas, sou querido pelos meus amigos e, não raro, por mulheres interessantes. Troquei de apartamento recentemente, e tudo vai indo bem. O meu emprego me realiza. Realiza o cara empreendedor que eu era na faculdade. Realiza o que a minha família podia esperar de mim. E me dá dinheiro, não muito para ser rico ou ter uma casa na praia, mas o suficiente pra me possibilitar uma série de outras coisas que também me realizam. Eu tenho um carro confortável que me leva a todos os lugares, e há muito eu aprendi que ele não precisava ser importado.
Resumindo, eu tenho tudo e não me contento. Tudo, tudo, não, mas o suficiente para fazer a família orgulhosa e a avó não clamar muito por netos. Meu chefe não exige mais do que produzo e meus professores do colégio, se hoje me vissem, poriam meu nome na lista dos que deram certo (especialmente considerando que formaram donos de multinacionais, médicos, encanadores, advogados, jornalistas, vendedores no farol, desempregados convictos e traficantes).
Outro dia me abordou uma senhora na rua pra pregar a palavra com um livreto desses evangélicos falando em "estafa", palavra que eu não lembro de ter lido em nenhum outro lugar antes e depois vim a saber que pode ser inclusive um estado clínico. Falava que, pra gente se curar da estafa - uma espécie de estado letárgico onde nada mais anima ou entusiasma - só indo à igreja e fazendo o bem pras pessoas sinceramente. Fazer o bem, vá lá. Mas sejamos francos, não dá pra fazer o bem todo dia. E ir à igreja definitivamente não é pra mim, por isso na época acabei me conformando com a minha estafa esporádica.
Mas então eu me dei conta, relendo os últimos escritos e me debruçando na análise da minha própria vida, que quase sempre eu faço drama pra evitar o tédio. Sim, drama pra evitar o tédio. Aqueles momentos em que conscientemente você supervaloriza um pé na bunda corriqueiro, como vem sendo com a Laura, por exemplo. Em que você romantiza uma história que é apenas mais uma história. Em que se concentra demais na suposta sobrecarga de trabalho (veja só, em tempos de crise econômica, já fui capaz de reclamar do excesso de trabalho só pra ter o que falar nos aglomerados de pessoas), no preço do feijão (mesmo podendo comer feijão a semana inteira sem me privar dos outros pequenos luxos, se fosse da minha vontade), numa traição... Estas coisas que não levam a nada e só servem mesmo pra gente não se dar conta do quanto está "estafado" com a própria vida.
Não me entenda mal. Eu sou, de modo geral, feliz pra caralho. Só que caber demais no padrão em tantos segmentos me deixa com um pé atrás em relação ao que já conquistei. Era tudo aquilo o que me diziam, a "vida financeiramente estável" e a "satisfação pessoal e profissional"? Temo que não, embora tanto pior sem elas. É possível que esta felicidade que me venderam fosse um rumo importante pra fazer chegar onde cheguei, vá lá, não é um lugar ruim, mas também não exatamente o que se pode chamar de plenitude-coerente-e-linear-de-euforia-contínua-e-contemplação? Acho que sim, é possível que não seja.
É como se eu tivesse corrido muito, alcançado a fita de chegada com folga, ficado esbaforido uns minutos, olhasse pra trás e o segundo lugar estivesse a milhas de distância. Eu não estou triste por ter vencido, mas já passei tempo o bastante comemorando essa vitória. Felicidade demais, quem diria, entedia. Mas deusmelivre confessar uma coisa dessas numa roda de amigos. Me dirão "seja grato". Como não bastasse o tsunami de hashtag gratidão por todos os lados ultimamente. Quem sabe a hashtag gratidão tenha nascido pra conformar caras como eu. Pra que os caras de vinte e tantos anos, como eu, que já chegaram a algum lugar, como eu, gastem o tempo agradecendo em vez de constatando a própria estafa.
Eu assinto com a cabeça, concordo até, sinto a gratidão pelo que já me aconteceu de bom, porque não sou esse monstro de pessoa que venho parecendo, mas sinto mais, bem no fundo, como se fosse uma tartaruga de barriga e pernas pra cima: o casco diretamente sobre a areia fina morninha. O tempo lindo, aberto. O mar fazendo barulhinho de onda. O clima agradável. E só o que me resta é contemplar o marasmo sem tamanho de ter, como dizem, "chegado lá".
Eu tô aqui paradinho - e estes diminutivos são propositais para dar a medida da minha irritação -, paradinho a esperar a ondinha súbita que sempre vem, querendo que ela me vire de novo, cento e oitenta graus, e finque as minhas patinhas no chão para finalmente voltar a correr.
Mas não vira.
É só outra ondinha-possibilidade de fazer mais um drama pra evitar o tédio.