quarta-feira, 13 de abril de 2016

Eco [6]

Há pelo menos outros cinco ecos antes deste.
Clique se quiser ler o primeiro, segundo, terceiro, quarto e quinto.

Outro dia sonhei com a Laura. Não como quando se diz "sonhei com você", para puxar papo, desde que o mundo é mundo, mas um sonho real e enlouquecedor, no escuro e de olhos fechados, impróprio para quem tem medo de escuro e de não saber onde está pisando, a queda provável e cada vez mais perto. Nele, Laura caminhava na minha direção com uma criança nos braços, recém parida, e dizia sarcástica: tem a idade da traição.
Acordei ensopado de um suor de calafrios no clima ameno de fim de março e custei a voltar a dormir. A minha consciência não sabia o que aquilo significava. Para ser franco, preferia que a inconsciência nos desse um extrato analítico no fim do mês ou da noite, feito máquina registradora, com os vultos, assombros e coisas indecifráveis em geral que permeiam os pensamentos mais escondidos do cérebro. Facilitava para mim e para o analista. Assim, como é, as divagações e constatações se confundem.
Ali acordado depois do sonho infeliz eu me fiz finalmente, no âmago, com todos os pormenores - no meio daquela noite esquisita, sozinho na cama olhando fixo para a parede em que se reflete o vitral da igreja pela fresta das cortinas - as perguntas que vinha evitando objetivamente por meses.
Tenho vergonha de ter sido traído (e absolutamente nunca poder saber se fui)?
No lugar da Laura, eu me trairia?
Há séculos a sociedade ocidental pseudo monogâmica reproduz o estigma do corno manso. A gente convive com a zombaria em relação ao traído que admite a traição e insiste no relacionamento. A minha geração internalizou o comportamento. A que me antecedeu internalizou e, com a pouca sorte que vislumbro incidir sobre os novos tempos, a próxima haverá de internalizar.
Ótica reversa, cá estamos nesta perspectiva cretina. Que direi eu, zombeteiro de carteirinha dos ludibriados resilientes, daquela outra infidelidade - a insuspeitada? Daquela margem de erro, do risco fundado na condição humana de todos os seres, na possibilidade da Laura ter, sim, simplesmente provado o mel de outra pessoa (como naquela música que fez sucesso do João Paulo e Daniel), concomitantemente ao tempo em que usufruía do meu, ao melhor estilo abelha-rainha-da-minha-desgraça? Sendo que nunca, nunca, absolutamente nunca poderei ter certeza se isso se concretizou, mesmo que pergunte a ela, e principalmente caso creia em uma resposta negativa honesta?
Não escrevi nos dias que sucederam o sonho. Tentei esquecê-lo, como tenho tentado sempre que a Laura me vem em pensamento. Tem sido cada dia um pouco mais indolor. Só me lembrei novamente disto hoje, quando, esperando o sinal abrir para os pedestres, enquanto cruzava os braços e esfregava a palma da mão direita no antebraço esquerdo de frio, presenciei uma cena. Uma mulher de capacete subia em uma moto estacionada ao meu lado, quando foi prontamente interceptada pela dona da moto, capacete em punho, aos berros de "esta moto é minha, moça, esta moto é minha". Era óbvio, para qualquer um, que a moça de capacete confundiu a própria moto com a moto estacionada, possivelmente porque sempre a deixa ali. Mas era visível a vergonha que ela sentiu por uma situação que não era, necessariamente, ou pelo menos não exclusivamente, culpa sua. É aquela vergonha que a gente sente pelo constrangimento de não ter se antecipado à situação. Por não ter sido onipresente e onipotente. Por não ter visto, não ter podido, percebido, adivinhado ou mesmo desconfiado algo que, imediatamente depois, ficou claro como a luz, como um lampejo de sanidade.
Sim, o sonho foi o start de uma experiência ruim que talvez eu nunca experimente, de fato, em relação à Laura. Um misto de déjà vu, amostra do purgatório e pesadelo. Sim, tenho muita vergonha do furo na estatística (quando penso nesta hipótese, a de ter sido traído). Sim, atormenta jamais poder ter certeza sobre nada nesta vida, quiçá sobre uma infidelidade. Sim, eu creio racionalmente que não fui passado para trás, mas a confiança é nuvem diáfana que se dissipa quando a lua do destempero reflete o sol desta vil possibilidade. E percebi que tenho vergonha, afirmativamente e muita, quando me dei conta de que não sei responder, realmente, à segunda pergunta (no lugar, no exato lugar da Laura, eu me trairia?). Não sei responder. Primeiro porque nunca estive rigorosamente nas mesmas condições, já que cada um é um e eu não sei o que se passava na cabeça dela. Segundo porque ainda que tivesse estado nas mesmas condições, sei que às vezes a ocasião faz o ladrão, apesar de todas as convicções.
Então, vejo agora, é possível que a vergonha que eu sinto da possibilidade de ter sido traído e não saber venha da vergonha de ser insuficiente para a Laura, é claro, mas principalmente da possibilidade de ser tão... falho? aberto? inconcluso? desonesto? inescrupuloso? liberto? tão tudo, quanto ela.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Eco [5]

Logo depois de apertar o botão número seis do elevador, cheguei a esboçar o gesto de por a cabeça no vão da porta para agonizar até a morte, ficando preso entre o térreo e o andar das garagens, as pernas balançando violentamente cômicas para o lado de dentro, como em um filme do Tarantino. O bizarro da cena eximindo o bizarro do contexto. Sangue interiorano volumoso e vermelho correndo vivo até o carpete do hall de entrada do L'univers. Voilà, L'univers: uma morte medíocre, para um ser humano mediano e patético, neste cenário cafona de tão cheio de pompas.
Olhei de soslaio para o visor. Subindo. Quem dera os ricos investissem em tudo, menos em um sensor para impedir suicídios cinematográficos em seus prédios cheios de espelhos, como o que hipotetizei naqueles dezoito segundos até que a porta finalmente fechasse, depois que a obstruí com a minha modesta - para não dizer pífia - massa encefálica.
Por que diabos eu estava fazendo aquilo? Respondo: para me sentir vivo e para ferrar com a Laura até o caroço. Como ela fez comigo, se fosse possível. Quando o elevador chegou no terceiro andar, respirei fundo, pensando que depois de tocar o interfone seria muita covardia, a de sempre, aliás, amarelar ou morrer na iminência de consolidar um encontro com uma amiga da Laura, só por vingança.
Eu estava ali. Três dias depois daquela estocada nas costelas que foi o nosso término. Sem ter chorado uma lágrima sequer, ainda. Sem entender nada. Tendo passado a seco pela fase de me culpar pelo ocorrido (primeiro dia), e pela fase de ficar revisando a lista de qualidades dela (segundo dia). Finalmente, no terceiro dia, numa versão mais abestalhada de Jesus Cristo que a daquele velho, Inri, que fazia aparições na televisão, eu me considero pronto para a ressurreição. Para dar o troco com um rancor mortífero.
Sim, um troco. No meu raciocínio pseudo-macho-alfa-de-quinta-categoria, a Laura só poderia ter me traído, na minha ausência. E se apaixonado por outro, quem sabe. Só isso justificava o impulso grosseiro de não amaciar meu ego antes de tentar destruí-lo, coisa que me parecia que ela tinha feito. Não importa o quanto um homem seja lírico, às vezes ele acha que tem a obrigação de ser prático.
Então, pensei em uma dúzia de adjetivos autodepreciativos que inflavam o meu peito e outros músculos (o canalha moderno necessariamente se obriga a achar lindo ser canalha) e toquei a campainha. Bem bonita, a menina. Mais alta do que eu lembrava, de ver de longe. Loira, com uma pele um pouco torrada de sol. Risadinhas. Sotaque. Cabelo preso com um rabo de cavalo meio de lado. Exótica. Uma argentina intercambista com quem a Laura trocou confidências durante a faculdade, até se distanciarem. Eu não podia ter dado match no Tinder em pessoa pior.
Para encurtar a história, comemos pizza. Uma playlist com musiquinhas sacanas tocando. Transamos. Umas três vezes, se é que eu posso me vangloriar um pouco antes da derrocada fatal da história para a parte infame. Antes e durante, bebemos vodka. Vodka. Muita. Vodka. E aí eu... Vomitei. No caminho entre o sofá e o banheiro. Cedo demais, uma avalanche de queijo e pepperoni se direcionou para o chão. Tarde demais.
Na saída do elevador, depois de me vestir e de pedir mil desculpas - sin problemas, porsupuesto, hasta luego. É desse jeito hermanamente caricato que simplifico a parte em que não prestei mais atenção -, como fazem todas as pessoas sem um mínimo de senso de ridículo, e é impossível que você tenha chegado até aqui supondo que eu tenha um, eu liguei para a Laura. Chamou até cair. No meio da madrugada, pudera. Imaginei ela no décimo sono.
Quatro da manhã, liguei de novo. Chorando. Bêbado, claro. Uma, duas cervejas ou mais, nacionais, compradas no posto da esquina de casa, em cima do que sobrou daquela orgia multicultural de ir até um prédio com nome francês, ingerir o mais russo dos teores alcoólicos e não fazer nada além de comer em espanhol para vomitar em italiano.
Na segunda tentativa, depois do quarto toque, ela atendeu. Culpadíssimo pelos incidentes da noite, quis contar tudo para, sei lá, ser perdoado por ser um imbecil. Desatei a falar, sem dizer coisa com coisa. Até me dar conta de que a Laura estava em um lugar com um barulho ensurdecedor. Paciente, e provavelmente sem entender meus grunhidos, pediu que eu me acalmasse e tomasse um copo d'água. Como quem implora, de um pedestal, que o súdito erga-se sobre os calcanhares, dê meia volta e evite passar mais vergonha, na iminência de um pedido de reconsideração. Outro baita tapa na minha cara.
Quando ela desligou, chorei mais. Eu precisava resolver uma centena de coisas antes de voltar a ser um homem que faz escolhas sensatas. Eu precisava conseguir enxergar a Laura como uma pessoa inteira. Independente. Ela me enxergava mais inteiro do que eu era. Ao sugerir que eu me recompusesse sozinho, Laura me tratou com a decência que eu tinha esquecido que merecia de mim.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Eco [4]

De seco, cortando fundo, ela sentenciou, para começo de conversa: Não te quero mais. Não tenho estrutura. Disse firme, sem alterar a voz. As frases consolidadas, eu podendo ouvir os pontos finais deixando claro que tinha se repetido aquilo tempo e vezes suficientes, para se convencer. Sopesado consequências. Ensaiei contra-argumentar e ela, quase engolindo o lábio inferior, acenou que não com os olhos apáticos, aparentemente de uma maneira calculada. Eu me contive e aceitei. Era não para mim, então.
Era não para o benefício da dúvida e sim para a dúvida ou para as centenas de motivos que, antes, eu havia dado a ela e consideraria legítimos. Mas ela não fez antes. Esperou acumular. E, então, esperou um estopim. Procurou um estopim. Quem sabe? Mulher sem razão é melhor que mulher com razão de sobra. O que digo, é lógico, para reiterar que preferiria que ela tivesse me batido, feito o drama, desaparecido, jogado bebida na minha cara, injuriado o meu desempenho sexual por aí para terminar quando eu descobrisse.
Se eu parar para pensar, ela também me deu alguns motivos. O tal amigo com quem conversava intimamente no fim dos domingos, e eu vim a saber depois. O ar de boa moça com aquelas aventuras no passado. Uma carreira bem encaminhada e, por conta disso, muito nariz empinado. Ser interessante demais, por exemplo. É uma honra e uma desgraça estar ao lado de uma mulher tão viçosa.
Laura não era do tipo de mulher que todo cara olha quando entra no bar. Ela era apaixonante no momento em que sorria para agradecer ao garçom, quando erguia a sobrancelha esquerda para destilar uma ironia e quando espetava um ponto fraco do discurso de alguém para sentir o tom com que o interlocutor tomava a ofensa.
Sentenciou. Esperou. Não era. Era. Sorria. Espetava. Todos os verbos no passado, já que há muito não sei mais quem ela é. Muda-se muito em pouco tempo longe. Em todo caso, Laura se dizia dura e se mostrava, pelo contrário, afável e terna no cotidiano. Mas foi dizendo (e não dizendo) coisas que o nosso nós terminou. Duríssima, ela foi. Correspondia ao seu discurso, e não à sua prática. Ou eu que sou romântico demais e enxerguei amor justo nas coisas que poderiam ter feito com que eu a odiasse nos primeiros três minutos de conversa. Que construí, com fé, a falsa premissa de que o amor suportava, enquanto a falta de "estrutura" da Laura ruía sobre a minha cabeça.
Eu me dizia: que é o amor, senão essa tontura e esse desespero e essa saudade? O amor é esta coisa linda e maravilhosa, mansinha e enlouquecedora. E ela ali, socando a minha cara verbalmente com aquela baboseira da engenharia. Na hora, não me dei conta que Laura não suportava não saber, não sabia lidar com as coisas fugindo do controle, e isto infelizmente incluía os sentimentos.
Não resistimos àquelas duas semanas em que estive fora da cidade, porque para ela a distância era nociva, tão nociva, que a consumiu. Quando Laura irrompeu, com cara de atormentada, a minha porta adentro naquela noite do meu regresso, soube que boa coisa não podia ser. Não me abraçou. Não era fúria - eu já a vi espumar de ciúme, mesmo negando - e não era tristeza. Era um desequilíbrio. E o fato de ela não dizer uma só palavra e me encarar fundo, olhos nos olhos, sem lacrimejar, só podia significar que era o fim.
Esperou. Não era. Era. De seco, cortando fundo, ela sentenciou, para começo de conversa: Não te quero mais. Não tenho estrutura. Não sei se foi orgulho. Possivelmente uma exacerbada sensação de impotência diante dos precários métodos de construção de um amor. Talvez Laura ache que o que importa no amor são as certezas, enquanto eu creio que o que o amor mais faz é colocá-las à prova, suspensos no ar, sem guindastes de segurança.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Eco [3]

No feriado, resolvi não pensar em Laura. Optei por retomar o hábito de manter as rédeas da vida com a firmeza que arranca pedaço das palmas das mãos, tentando afastar a minha guia desse rumo melancólico em que a tragédia amorosa tinha me colocado. Eu decidi que era hora de ser prático, pegar a estrada e viajar. Seria perfeito dizer "viajar com os amigos", não fosse o fato de que eu ainda não havia me reaproximado de nenhum, enclausurado de saudade como estive naquelas semanas. Teria achado patético compartilhar com qualquer deles a falta que a Laura vinha me fazendo.
Mas queria, também é verdade, fazer algo que eu não houvesse feito enquanto estivemos juntos, por uma falsa noção de respeito, por medo de desagradá-la e pelo comodismo próprio das relações consideradas estáveis. Na minha cabeça, fazendo a viagem eu vingava um pouco a vida de solteiro à qual eu renunciei naquele quase um ano de paixão em que eu sentaria, rolaria e daria a patinha a ela por livre e espontânea vontade. Vingava um pouco a estabilidade comodista que talvez só eu atribuísse àquela relação. Esquecia a recente descoberta de que ela se encontrava com o amiguinho distante em vários fins de domingo, depois de sair lá de casa, para falar de mim e se livrar do peso da monogamia que eu lhe impus sem perceber. Válvula de escape que eu secretamente admiro nela, de uma inteligência emocional que nunca passei perto de ter, cego como fico quando estou atordoado com a ideia de pertencer a alguém ou a algo.
Laura sempre repetia a teoria de que, mais cedo ou mais tarde, nos entediaríamos. Essa era uma das suas infinitas teorias, que ela ia desenvolvendo ou repetindo no meio de uma conversa séria, como se tivesse mil e duas premissas e histórias amorosas que a confirmassem e validassem. Tinha também a teoria de que os relacionamentos estão sempre prestes a acabar, e nem por isso a gente podia se desesperar, senão aguava o bom do amor. Ela dizia assim mesmo, nessas palavras. E, ainda, a teoria de que o que vale é ter o mínimo para viver, ocupar-se das próprias coisas e estar bem consigo. Todas as teorias que a preservavam de mergulhar intensamente no que quer que estivéssemos construindo em todas aquelas idas e vindas, e que me fazem reflexivo sobre ter desencadeado a cólera daquele último dia, noto agora.
Hoje faz um mês que acabou. Precisamente. Sou bom com datas. Afastado o véu da romantização de sua figura, tenho aprendido tanto com a ideia que me sobrou a respeito dela e de nós. Sobre quem quero ter, o que quero ser, e principalmente o que não quero. Por outro lado, ainda sinto uma necessidade leal de comunicá-la dos meus afazeres diários, contar a ela do trabalho e do que as pessoas que encontro no elevador desse novo prédio têm me provocado, compartilhar com ela coisas que, seguramente, ela não quer nem saber.
Voltei de viagem sozinho, depois de um fim de semana e do dia de segunda-feira relativamente satisfatórios, no litoral, quase sem pensar nos meus dramas mais ou menos recentes. O mais romântico dos homens consegue se distrair se se detém por algum tempo em porções fartas de pares de peito envoltos em biquínis de cores extravagantes, bebendo cerveja à beira-mar. Torrado de sol e com o nariz descascando, cantarolava pela rodovia um álbum inteiro do Pearl Jam. A minha contribuição para o espetáculo consistia em nãnããnãns e batidas ritmadas no volante. 
A certa altura, começou a tocar Black, uma das únicas que eu sei a letra, já que não sou grande fã. Quando Eddie Vedder sugeriu Tattooed all I see, all that I am and all that I'll be... passou um caminhão. Em cima escrito: Laura. Eu não creria se não estivesse lá: um letreiro enorme numa fonte branca e cursiva. Laura-mãe, Laura-irmã, Laura-filha? Eu não sabia. Do que tinha certeza é que sucumbiria à tentação de reviver a minha Laura assim que chegasse em casa, enquanto relia mentalmente, atônito, o que me dizia aquele painel. Não no para-choque, não numa tatuagem discreta num lugar escondido. O desgraçado pôs a mulher ali, como que na testa, para quem quisesse ver e para quem não quisesse. Talvez tenha cometido o mesmo erro que eu.
Neste fim de feriado, vou decupando novamente o trauma e a delícia que aquela mulher me provocou, muito mais indelével do que qualquer um possa supor. Começo de peito estufado, orgulhoso em dizer que passei três dias quase inteiros sem pensar ou escrever sobre Laura neste diário póstumo do que não sublimei a tempo. Depois vou minguando.
Não é virtude orgulhar-se de ignorá-la, porque escrever sobre me desonera de não vivê-la. Registrar o vento de qualquer geografia, litorânea ou não, varrendo os dias do calendário é ir digerindo que, mesmo que passe, Laura entalhou marcos na pedra fundamental sobre a qual sou construído. Então, assumo mais uma vez a condição de Caminha das expedições dela ao meu córtex.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Eco [2]

Este é o segundo texto de uma espécie de série.
O primeiro, se quiser, você pode ler clicando aqui.

Laura, começo escrevendo como se fosse uma carta. Teu nome primeiro, como me vinha quase todas as manhãs: Laura. Curto, sonoro. Em duas sílabas, que de hiato já basta o que há entre nós. E então uma vírgula, um suspiro de alívio, um "apesar de" para que todo o resto que move o meu mundo se ponha a girar.
Hoje acordei mais cedo que o habitual, querendo antecipar o fim desta história de amor às memórias por escrito. É a nossa, tu sabes. É o nosso, tu sabes. São as nossas, tu sabes. Ou pelo menos tem a ver conosco. É uma versão romantizada de nós, para que não encalhe na prateleira das livrarias, como veio a encalhar nosso amor.
Amor. Digo esta palavra e coro de vergonha. Também tem me ocorrido com o verbo "sentir". Um homem feito como eu, com tantas preocupações cotidianas com as quais me ocupar, escrevendo sobre uma história que acabou. Parece piada. Pior: parece fraqueza. Que ideia de amor terá quem me ler? Oras, finjo mesmo que estou conversando contigo, tantas vezes, que não me custa registrar a pergunta: foi amor, Laura? Sexo, amizade colorida, encontro de almas? Seja o que for, noto agora que nunca teve vocação para durar, na prática. O quanto durou foi pela nossa insistência na metafísica. No lirismo super bonder que nos grudou como gruda os dedos. Achamos sempre que nunca mais vai soltar e dois dias depois já não há vestígio.
Quando interrompi o primeiro gole de café para atender à porta, a disposição de por fim a estes escritos cedeu. Chegaram os últimos móveis, junto com eles o armário. Aquele que tu organizavas enquanto eu cozinhava as tuas dezenas de pratos preferidos, como que para agradecer e ajudar a organizar um pouco a minha vida. Coisa besta, mas foi um soco no estômago.
Eu vou fazer um relicário, Laura. Como na música do Nando. Não vou jogar fora estas coisas sobre nós. Mesmo que não tenha sido amor. Mesmo que não tenha durado o quanto achávamos que ia, apaixonados que estávamos. Mesmo que os ecos voltem mais alto do que o que dissemos e vivemos, dadas as minhas hipérboles. Cada memória merece ser novamente gritada nesta prosa. Vou compilá-las, catalogá-las aos poucos, dobrando cada aresta para que caibam na estante.
Quando terminaram de descarregar e montar tudo, fui assinar o recibo de entrega e, por pouco, não me despedi com um "Todo teu,". Cheguei a escrever o T maiúsculo, uma grafia cuidadosa. E depois risquei, claro. O funcionário da empresa de mudança ia rir para diabo da minha cara.
Sem muito esforço, recordei de um bilhete que te escrevi. Deve estar no fundo da gaveta reservada para as críticas. Eu não fiz muitas, mas sou prolixo até nas notas de rodapé. No bilhete, que eu escrevia para agradecer aquela sexta-feira incrível, fazendo graça com a tua inaptidão para a cozinha e a maestria em lavar a louça, eu dizia que a tua tia Ester devia arranjar um novo marido e parar de implicar conosco. Arrematei com qualquer coisa que sugeria que ela era mal amada.
Faltou-me o tato, não era bem o que deveria ter dito. Primeiro que, com um nome tão bonito, que eu inclusive poria numa filha, má pessoa tua tia não podia ser. Efetivamente não era, tirando o fundamentalismo religioso. Segundo que homem não ajeita a vida de mulher nenhuma, só bagunça.
Se vocês ainda tiverem contato, diga a ela que quando o meu olho cruzou com o teu aquela fração de segundo era um felizes para sempre. Como nos contos de fada. E que também por isso não precisávamos casar para transar. Que a gente não sabia se era uma promessa divina se realizando, força do acaso ou de sorte. Então apenas aceitava. Diga, mais do que o óbvio - que já ultrapassamos o primeiro milênio do mundo cristão e algumas coisas ficaram por lá -, que mão dada era pouco para o quanto eu queria ser teu. Inteiro.
Conte a ela que o amor nunca é pecado e que, se ocorre de ser, já nasce perdoado.

domingo, 27 de setembro de 2015

Eco

A tentativa de reviver uma memória não passa de um eco e eu sei disso. Não é uma segunda resposta aos nossos dilemas pessoais, proferida pelo autor, a amante quase esquecida ou qualquer pessoa que tenha proporcionado a sensação original, mas uma repetição mecânica, em condições específicas, do que já foi dito, lido ou vivido algum dia, que dessa vez poderá ser interpretado de modo diferente. Um sentido para o presente, diretamente de um passado sobre o qual, enquanto estava sendo, não se precisava pensar muito a respeito.
As memórias servem para reorganizar o que passou de um modo nem sempre conforme e nem sempre cronológico. Por sorte, sempre haverá o recurso de olhar para trás e, numa esperança enfadonha que nos foi legada pelo empirismo, vasculhar a recordação em busca de alguma experiência que possa servir para influenciar a tomada de decisões no tempo presente. Há quem diga que as coisas que vivenciamos nos impulsionam, mesmo de maneira tácita e sem reflexões manifestas, às escolhas. A maioria de nós nunca terá certeza.
Eu posso fingir que não o quanto quiser, Laura, mas eu lembro com exatidão das nossas idas ao terraço do teu prédio. Os teus cabelos desgrenhados e escuros caídos sobre os ombros e as tuas perguntas malucas sobre as estrelas, o horóscopo e a minha disposição para insistir. Como se eu fosse um cientista maluco, meio cigano, capaz de te dar uma resposta precisa sobre o futuro. Como se desse para adivinhar o momento em que o tédio nos bateria à porta, para fugir primeiro, para não sofrer ou vitimizar quando a euforia acabasse. Tu olhavas para os lados, trêfega, debruçada no parapeito, procurando algo que pudesse te surpreender na cidade fria e escurecida. Um carro em alta velocidade, uma árvore antiga, quem sabe um mendigo ou um casal sexagenário. E eu só podia assistir ao espetáculo da tua frivolidade intensa e profunda – ninguém mais sabe ser frívola, intensa e profunda ao mesmo tempo como tu.
Falseavas a certeza de que aquele momento estava sendo infinito na minha companhia, fingindo ignorar a minha presença, sem me olhar nos olhos, para aquele instante não ser derruído por uma interrupção inesperada de realidade: nós dois, sempre tão sozinhos, ensaiando um par.
E então tu sorrias calma, sempre um pouco inquieta e um pouco confusa, sem se fazer entender. A mão tocava a minha e era familiar a sensação universal de estar consternado por aquele detalhe, aquele momento no terraço de um prédio velho do sul do mundo. Um terraço que, sozinho, não teria representado coisa alguma. Eu até hoje não entendo como aprendias uma palavra em libras, um símbolo em japonês, um poema imenso inteiro de cor, uma maneira sempre nova de me contar que estava sendo leve e tu desejavas estar ali, ao meu lado, até quando parecia irreal. E esquecias tão rápido, que se te pedia para repetir, já não sabias. Como que para dar espaço a uma surpresa nova. 
Aquilo, aquela pequena referência, era sempre uma verdade em ti. Uma verdade que, sem culpa nenhuma, nós sabíamos que acabava no capítulo seguinte. Fingias que a vida era descomplicada, sem parar de repetir todas aquelas coisas poéticas e dolorosas que já fomos e vivemos e nos fizeram chegar até ali, subir a escada precária de ferro, sujar as mãos, enferrujar o teu vestido rendado naquela aventura delicada e improvável.
Enlouquecido e entusiasmado, Laura, posso ser esmagado pela rotina, fatigado pelo álcool, embebido pela ternura de novos olhos castanhos, e jamais me desacompanha este rastro de te ler pela primeira vez, mais que uma vez e de diferentes e ternas formas, naquele terraço.
Eu só queria estar onde estivesse essa calma que de súbito se esvai agora, na forma de uma taquicardia, adivinhando este céu chuvoso de setembro da penumbra do meu quarto. Vou celebrando o que éramos, como se ter vivido aqueles momentos ainda fizesse parte do que sou agora.
Não me confesso nostálgico, Laura. Não posso generalizar esta sensação que só tu e os livros me causam. Repito o teu nome sem pensar muito a respeito, enquanto escrevo. Não quero a culpa de não te repetir concretamente, então te chamo, pra ver se tu vens, se tu voltas. Se ressurges, sempre inédita, como antes.
Depois de duas semanas sentando todos os dias na cadeira de frente para a escrivaninha e as janelas de madeira de moldura branca, sem sucesso, e finalmente agora, conseguindo confessar, como se alguém um dia pudesse ler, parece que pode funcionar: talvez eu venha derretendo as minhas geleiras.
Mais do que para refletir sobre tudo que já vivi, mudei de apartamento para me sentir capaz de mudar minha vida. Para me sentir capaz de reescrevê-la e inspirar alguma identificação. Em ti, por ti, quem sabe. Há uma espécie de matéria que constitui todos os românticos, neste território límbico chamado fim de um domingo.
Minutos antes fechei o livro com a sensação de abandono, depois de terminá-lo. Quantos destes já se foram? Dou conta de elencar, caso me esforce, a dúzia de clássicos que qualquer um com pouca presença de espírito teria orgulho de se vangloriar que leu, mas, no geral, não sei quantos deles – desde os mais desimportantes – já me passaram pelas mãos. Quantos já me agitaram os instintos e entre uma página e outra fizeram com que eu pensasse melhor sobre qualquer certeza que parecia absoluta, depois foram esquecidos? Não é possível reviver o ineditismo de um livro. Muito provavelmente, ainda que o releia o leitor não experimentará as mesmas sensações da primeira vez e se surpreenderá com trechos novos, antes despercebidos. Nunca a mesma surpresa novamente. Depois da primeira leitura, cada experiência sensorial que foi provocada não ressurge senão como um eco.
E o que eu digo sobre memórias e ecos, Laura, na verdade não passa de uma especulação. Eu quero dizer que reverberas no meu destino. Eu especulo o que continuas sendo em mim depois de nos despedirmos, mas não cravo resposta. Então dialogo contigo à distância, em segredo, em silêncio, enquanto olho janela afora como se estivesse, também eu, olhando para o fundo dos teus olhos escuros, enquanto olhas para o mundo debruçada no parapeito daquele terraço.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Crise!

Na noite anterior, havia chorado feito criancinha. Culpa de muitas coisas, entre elas, um pulso torcido que apesar dos pesares, lhe permitia digitar. No momento escrevia com uma faixa na mão, a qual a senhora da farmácia nominou atadura. Pouco importava. Não havia atadura que melhorasse: a briga com o amigo, da qual ela já houvera, em partes, se arrependido! Ou então as conseqüências diversificadas do período pré-menstrual que a cada mês dava conta de se fazer mais presente...
No íntimo de seu profundo 'eu', Morgause sabia bem que houvera chorado eram por motivos outros, dos quais não se arriscaria confessar a ninguém, ninguém mesmo. Porque durona que gostaria de ser por dentro mais do que por fora, e não o contrário, mesmo quando chora não se entrega nas fraquezas que ostenta, não se trai, e não trai as palavras que outrora houvera dito com tanta certeza e até certa arrogância. Por dentro sentia algo estranho, como alguém que afasta e repele o que de bom se aproxima. Um misto de carência afetiva que ela inventara a tanto tempo, com coisas que ela não conseguia exprimir. E, por fora, um olho pequeno de tantas lágrimas derramadas, mas com um sorriso de felicidade e animação forçada que já condenei em outras pessoas que não fossem ela. Mas a semana continua, e não pára. E este, finda-se assim, com redundância em linha tênue à pressa.