quarta-feira, 5 de novembro de 2025

A culpa é do Dan Brown?


Os novos agroglifos de Ipuaçu
E as marcas do deserto
no Peru
Assentam-me no juízo
um fascinante chapéu
de abas largas
de alumínio
e, nas mãos, uma CNH
pra mystery machine
do Scooby-Doo.

Cifras de César,
Runas
Arcanos
Toda ordem de símbolos
ocultos,
Moais, rituais
em códigos
— desvendados ou
ainda não
mas quase,
é só se dedicar
um pouco e
Descriptografar.

Já se passaram duas décadas desde A Lenda
do Tesouro Perdido
na Sessão da Tarde
e, muito misteriosamente,
ainda não confesso ser o meu
queridinho.

Fica descoberto:
Eu ainda sou a mesma
eufórica vibrando quando Nicolas
Cage tira
aquele par de óculos de trás
de um tijolo
ou, no fim, molha as pedras do Rushmore
a fim de encontrar
Cíbola.

Eu quero é ser dos que
Sabem.
Dos poucos que
Chegaram lá.
The Dark Side of the Rainbow,
Cicada 3301,
a mariposa impressa no poste
batendo asa,
que avisa:
Não confie no óbvio e
busque o oculto.

Dos artefatos egípcios
ao chão sempre quadriculado
de segredos
das Lojas,
Persigo cem por cento
Envolta
a lama a ser limpa
de qualquer incógnita

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Epifania

Acordei
Renascida
Sob a luz da ideia: Não quero te ter
Quero te ser.
Os hobbies e afins
Os tins, bens e tais
Tudo muito XY.

Não te sendo
hei de te atravessar
às vezes
Como um fantasma.
De um lado a outro assim
Transparentinha,
Fantasmagórica,
Sem sombra, com dúvida
Sem ter presença sentida
Através.

Daí sair sem alarde
Transpondo a matéria em-
bora impregnada
Da tua parte
mais glutinosa
— e, para mim, adesiva.
Tu meio rótulo
em frasco de plástico.
Eu nunca mais
inteiramente limpa.
Nunca mais compacta
Nunca mais lisa
Embora agora descoberta

Quando some o rastro
ainda é conhecido
o caminho.

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Chovia

Eu sei que chovia porque ouvia o barulho. Não era lágrima, era chuva. Não era água, era cansaço. Era a nuvem pesada em cima das nossas cabeças trovejando, trovejando. Uma leveza que nunca vinha inteira. Um sol e luz que não duravam. Somos solares, percebeu? Somos solares. Somos fruta das mais cítricas. Somos tropicais, mas pra que chovermos tanto? A tela escura e a chuva e esse tempo que não passa até chegar amanhã de manhã com alguma clareza. Cada pingo de água é uma vez que eu me senti ruim nos últimos tempos. Ruim quer dizer muito: amarga, grosseira, equivocada. Ruim também quer dizer pequena. Ruim quer dizer pior do que podia ter sido. Ou pior do que na imaginação. O que se pode fazer com essa chuva? Que cai. Toca fazendo barulho. Cai como as palavras mais duras caindo da boca sem retorno, nada podendo ser des-chovido. Essa chuva molha as reflexões que me recuso a fazer. Abatuma o bolo. Os ruídos e estalos. As manias. Desfaz as construções — todas de areia, barro e pó. Essa chuva desmancha os montes. Lava mais um dia pra fora do calendário de brisas amenas. Pesa o clima. Um fenômeno meteorológico que nenhum mortal, como nós, parece poder controlar. Chuva que não respeita mais previsões. Planos. Outro natal. As roupas no varal. Abri de novo a janela e não era impressão. Chovia. Abri um guarda-chuva e molhava, mesmo assim.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Cyclamen


Quem te ensinou a subtrair
Números negativos
Viu também chegar a conta
Do essencial do fim e só
por etapas
— que os detalhes sórdidos têm pontas
Sempre soltas e muito agudas —
Tornando-se
Despicienda
A verdade inteira
Tamanha a evidência
De que algo muito grave
Deu errado.

Quem deu-te a saber 
a esperar a pressão
pra explodir
em provocações e lágrimas
De revanche e remorso
Ignorantes de todos os avisos
Prévios
Luminosos e sonoros
De que merecias mais
(e não cada vez menos)
Viu a vida virar
essa novela
Boa de acompanhar
sentado
acomodado
e olhando de fora
Ruim de ser
Protagonista
ciente, consciente
Até dos próprios deslizes
A vilã
A anti-heroína
Digo mesmo:
Uma persona
Com tantas
camadas 
De moralidade ambígua e
mea culpa e
Desejo
de sair
por cima
além
Do que permitem 
os tropos narrativos
terem as mocinhas
para que delas o público se compadeça
Em uníssono
Em unanimidades
burras
E clichês
Como querer
Merecer
Não ter
E enlouquecer
de coragem
De enlouquecer.

O último a sair
paga a conta e
apaga a chama

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

Frau Valente

Clarice era Valente de casada
e abdicou da condição
sem deixar de ser

***

É redonda a cabeça do alfinete
em todo lugar do mapa
em que estive enquanto pensava
o que não devia

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

PEMDAS

(Manhã eu
dou a ré da minha vaga
O vizinho do bloco D já saiu
Me dando ângulo e coragem
Na rua dos ipês
só tem dois carros
Baixo os vidros
Respiro a música
que posso ouvir bem alta
sem atrapalhar na condução

Todo dia de manhã
Eu dou Sorte
Acordo tarde
Atraso calma
e sem sanção
Posso de novo poupar em vez de correr
Caminho rápido
Conheço
Reponho
Desejo e prontamente
Realizo
Festejo
Um descanso, se quiser.

Manhã bem cedo eu dou vista à Sorte
Às vezes não a reconheço
Sigo-a perseguindo
o resto do dia
desviando dos latidos
do mundo
Só no final computo
Os fatores
Os resultados
Vislumbro
As Subtrações alheias
Faço um balanço
Como nos colegiados

O dia é sempre bom
quando pode começar
Com Sorte a consciência
máxima do privilégio
É dar e ver
Quem sabe até louvar a
Sorte tida

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Tome notas - sabor canela


Vestígio

Minha mãe costuma dizer
"Quem a gente é
vai conosco a qualquer parte."

— não cita autor e não duvido a 
canetada seja dela.
Minha mãe é serrana e
um pouco rapper.
Seu saber
conciso.
Sua voz
marcante.
Sua verdade
raiz.
O que se é
Com consistência
não desgruda mesmo fácil
ou por deslize
Do nosso pelo
Da nossa alma
A reputação é um destino
— que nos precede;
sucede
e acompanha.


***

Obrigada, Gladiador
por me deixar ser a Besta
às vezes


***

Tão difícil
surpreender
um ansioso


***

Saudades
Ciúmes e
Pêsames
São sempre um pouco plurais


***


Tear

Um nó em cada ponta
senão desfaz
o trabalho de tear.

(Re)aprendi o ponto
alto
Só pra fazer render
o fio
que une e conserta
buracos abertos

(Re)tecer é magia de
i
            x         a  

r
de novo inteiro
Valer um elo.


***

Desinvestir.