Se vou me concentrar nisso para vir renascido o amor, ainda que bento de lágrimas, antes preciso tornar claras algumas coisas que já estão supostas entre nós. Como a Custódia da Véspera da Madeira, há momentos importantes da nossa trama em que suspeito que “se fosse sempre assim, eu teria te amado”. Digo, é óbvio que eu te amo, não estou aqui escrevendo deliberadamente, com esta concentração e afinco, para negar o que construímos. O contrário. Escrevo para lembrar o máximo que puder por que devo ficar. Só que antes os is precisam de pingos. Então talvez o mais adequado seja “eu teria te amado… mais”. Que coisa feia. Acho que é por isso que adiei dizer. Não há uma escala gradual. Amor tranquilo é espécie. São outras dimensões e naturezas. De qualquer forma, vou me concentrar em evocar os melhores momentos para me cativar de ti outra vez, por escrito. Porque acho que mereces. Todo o meu lirismo, retidão, a atenção e a devoção, o corpo e o resto. Principalmente o resto. Mas preciso que você entenda que não vou te enviar. Se você ler, você leu. Vou deixar aqui pra sempre, e me apavora esta ser uma gaveta que pode ser que você não vá abrir para me pegar no pulo. Caralho. Isso é aterrorizante pra mim. Por que não abre, amor? Poxa. E, também, se finalmente ler, faz o favor de não reclamar da exposição, que se você fizer isso eu não vou aguentar. Preciso por pra fora. E digo mais. Também não me diz que leu com eu te amo e emoji de coração ou coisa econômica que o valha. Muito menos me mostra a resposta antes pra eu revisar, como nas vezes em que eu dou o melhor de mim nas legendas. Se fizer de novo isso agora eu vou te cantar a sério a Marina Sena desafinando Voltei pra mim. Tô avisando. Mas antes, e é por isso que estou fazendo o que estou fazendo, preciso descobrir o que é este “mim” pra onde posso eventualmente voltar. Este “mim” definitivamente eu comigo. E você reservando o lirismo inteiro para a música. Verbal. Literal. Como sempre. Porque não dizes coisas grandiloquentes, mal me lês, não respondes na mesma moeda, contigo não tenho esse eco. Ainda assim tenho uma certeza absoluta da tua companhia. Da tua admiração. Do teu olhar de maré mansa. Só que cada vez que você debocha de Rubel dizendo que é música de comer gente ou faz uma paródia, eu esmoreço. Esmoreço, percebe? O oposto do entusiasmo. Por outro lado você debocha da minha megalomania em vez de enaltecê-la, e isso acho providencial. Há sempre um equilíbrio. Essa frase diz o bastante para que eu a repita e nos acrescente: há sempre um equilíbrio entre nós. Nessa balança você me empresta uma calma da qual eu careço. Estou no caminho de descobrir se eu preciso (precisar, verbo imperativo) da troca para ser feliz. Ou se ainda pode me satisfazer apenas ser quem eu sou e você ser quem você é e enxergar(mos) a beleza dos freios e contrapesos. Voilà. Temos o ponto central de todas as minhas divagações de ultimamente. O grande mistério que envelopa os outros, como uma capa comprida e impermeável que protege o cavalo e o cavaleiro. O mistério que camufla a ferrugem debaixo das minhas unhas e se apresenta - agora de um jeito a ser resolvido, que eu não posso mais escolher ignorar.
segunda-feira, 8 de julho de 2024
domingo, 7 de julho de 2024
Cativo
Teu sono ao lado me entrega a chave do meu halo das nossas algemas. Enquanto dormes, quero e posso me desvencilhar desse grilhão de ferro firme que bota… normal, atada a ti como eu quis tanto, uma das mãos da doppelganger de mim que agora precisa secar uma lágrima. Quando mais cedo viu o teu lábio fazer uso da palavra sorte, por fora concordou e por dentro parecia a moça de Psicose, só que na chuva fina. Gritava tanto. Sentia tanto medo. E precisava chorar por isso. Mas naquela hora estava de algema e precisava manter a compostura. Ainda há pouco, porém, liberta de ti acordado, eu chorei. E botei a mão na frente, entre a minha cara e o teu braço, pra te proteger da lágrima. Isso disse tanto, amor, tanto. Porque tu absorverias ela de bom grado. Me lamberia a cara inteira se eu pedisse. Já lambeu. Tens lambido há tanto tempo. Isso é o que mais me dói. Nem acordarias, o teu sono é pesado. Mas ficarias manchado. E eu não quero te manchar com essa tristeza. Por isso é que eu pus a mão. Por favor, acredita em mim, eu não quero a contaminação, estou pondo a mão e o resto na frente para que não aconteça, não quero que essa minha lágrima derreta cáustica na pele do teu abraço terno de sono e quente de afeto e de ânimo. Não quero que essa lágrima chore de anúncio se o meu coração estiver partido e partindo e eu não souber pra onde, então quando acordares vou estar com a cara seca. Quase sem fazer barulho, eu vou por de novo a algema. Vou ensaiar outra vez nossa coreografia de dedos entrelaçados pro ferro não doer na nossa carne. Já que nunca doía. Por enquanto fica dormindo mais um pouco sem saber que, nesse instante, quem está cativo é tu. Só tu. Estás cativo. E é no pior sentido.
sábado, 6 de julho de 2024
Sentimento
Te tatuei na palma da mão
Fineline
Um risquinho de nada
Pra ficar discreto
Olhando assim não dá pra dizer
Se é uma borboletinha que dá cócega
E agonia
Ou um mini dragão
Que me conduz e protege
E se parece comigo
Treme junto com o pulso que segura a chave do carro e o celular
Ora espio
Ora enclausuro em punho cerrado
Deixo preso dentro do bolso
Arde quando lavo a louça
Lavo com sabão
- porque parece muito com sujeira -
Não sai
Estou marcada feito gado
Mas é tão bonitinho de olhar
às vezes
Te assopro quando é frio
Mas te protejo enquanto soco
O travesseiro
Que intui
Aquela ideia do Chico de rabiscar corpo inteiro
sexta-feira, 5 de julho de 2024
Eco [26]
Precisamos falar sobre ódio. O ódio que agora contamina todas as minhas articulações e me faz andar como um robô e me faz tremer um pouco mais a cada hora, o ódio na forma de um agitamento nervoso. Sinto ódio desta certeza que a Laura me incutiu bem na parte que não é mole do cérebro - às favas com a nomeação precisa das áreas do cérebro e suas funções(!) - de como a vida pode ser. A certeza acerca de como as coisas funcionavam no mundo dela. Teria sido muito mais fácil não tê-la tido nunca, essa certeza tão palpável que lamentavelmente não é daquelas coisas que a minha memória de peixe escolheu esquecer.
Nisso sinto que me traí, acima de qualquer coisa, se for para abrir essa porteira de falar de traição. Eu me traí, em primeiro lugar. Se penso nisso quase começo a assobiar o Canto de Ossanha pra mim mesmo, pois está tudo ali. Primeiro dizer que é e não é, e depois rimar traidor com mandinga de amor. Mas aí, se chego na parte de uma estrela aparecer na manhã de um novo amor, me derreto inteiro de novo. Lá vem a imagem da Laura, estelar, celestial, perturbar esse odiento que eu sou agora.
Acho que esse ódio vem do fato de que, um passo atrás, olhando de fora, sempre esteve evidente que eu jamais poderia ter o melhor dos dois mundos. Ou eu a engoliria para dentro do meu (todo um vórtice de piração), ou seria tragado como fumaça para o dela. E mesmo assim insisti. Queria conhecer as cavidades e pulmões, se necessário. Até o capítulo dois, no qual desejaria desconhecer tudo.
O resultado é óbvio, você sabe no que deu. Eu sou um idiota e os idiotas sempre se permitem remar saudosos para regressar à própria casa, o vale da idiotice. Eu devia ter mantido fechadas as pálpebras metafóricas que sonho implantar nos meus ouvidos. Para não ouvir nem meia palavra do que Laura tinha a dizer, aquela Iara depravada. Para tentar me blindar do choque ultrassônico que as inteligentices dela exerciam em mim.
Certo sempre esteve o puto do padre de Fleabag que, tendo se banhado um pouco nas águas da tentação e do equívoco, em vez de sucumbir em afogamento - e depois em culpa - soube dizer: It’ll pass. Teve borboletas no estômago, é claro que teve algumas, mas quase não teve o ônus efetivo que elas implicam. Vivo e morro pra saber se passou mesmo, para ele e para ela, depois daquela cena. Ou melhor: se passa mais fácil para quem sabe dizer não. Aposto que sim, mas torço que não. Porque pra mim não passa. Esse ódio não passa. E ele também é uma confissão.
Sinto que preciso me justificar sobre tanto despautério escancarado da minha parte, já que olhando em retrospectiva se pode reparar, sem lupa, que eu fui inconsequente desde o início. É que existia na época uma pseudo-otimização dos meus sentidos. A audição parecia mais precisa. Os olhos mais abertos. As papilas gustativas prontas para sorver o agridoce pela extensão da língua inteira. O tato segurando qualquer corda que ela me desse.
Lá pelo quinto encontro eu já escrevia tanto, e tão compulsivamente (só o que fazia era escrever - porque se não pusesse pra fora todo o excesso de líquido que absorvia dela eu nem conseguiria mais andar, só boiaria pela vida) que me obriguei a trocar o computador pelo papel e caneta. Para me forçar a diminuir minimamente o ritmo, já que escrevo com caneta muito mais devagar do que digito. Um alcoólatra que precisa se manter totalmente abstinente para não recair ainda é um alcoólatra, além do que parar de escrever não era uma opção, então assim pelo menos eu conseguia desenhar na beira das páginas alguma fantasia de autocontrole e moderação.
Tudo que ia para o papel parecia um rascunho mal acabado e descartável da minha versão final. Ao mesmo tempo, era a minha magnum opus. Então eu imediatamente amassava as folhas depois que terminava de escrevê-las, em diminutas bolinhas de papel - as quais, depois, ela chamou de bolinhas hiperbólicas, e escrever os dois termos juntos hoje é pra mim quase um dèjá vu - para descartar no lixo e acabar com aquilo. E já quando o braço fazia o ângulo para o arremesso eu ia ficando com muita pena de que o que tinha conseguido dizer a ela e dela se perdesse, então guardava.
No encontro seguinte, arranjava sempre um pretexto e, simulando um surto de ódio como o que realmente estou tendo agora (acho que eu sabia que ele viria e estava ensaiando), no meio de qualquer frase, jogava no corpo dela a bolinha. Batia no ombro, no peito, no cotovelo, no joelho. Indolor. Pouca violência e muita maciez envolvidas. E a ergonomia do artefato fazia rolar para longe, às vezes. Não importava. Ela corria buscar do chão, onde quer que houvesse caído, abria e lia contente, ali mesmo, onde quer que estivéssemos, o que eu tinha redigido por entre os vincos amassados. Tudo aquilo que hoje tenho ódio de ter dito.
Talvez mais tarde eu reveja aquele episódio de Fleabag como se ele fosse uma aula do Telecurso 2000.
quinta-feira, 4 de julho de 2024
Mami,
Ainda ontem, a pretexto de me preparar o espírito para te escrever, como fazemos sempre nos aniversários, eu fui me alimentar de Pequenas Ervilhas e Nêsperas.
Faz quase dez anos que tu não postas nada ali. Eu sei que ninguém mais acessa blog hoje em dia. Talvez - e pra mim sei que essa verdade é maior do que pra ti - ninguém acessasse muito já naquela época, mas ainda assim nós seguimos (tu, por muitos outros meios) firmes paladinas da certeza de que não há nada mais eloquente do que um bom textão. Deve ser em razão dessa máxima que nos exibimos assim, por escrito, para quem quiser prestar atenção, há tantos anos.
Tinha muito da Adélia ali no Ervilhas, tia. Tu sabes. E de fome, claro. Temos sempre aquela fome da Adélia, acho que por isso é que escrevemos, e acho que internamente é por isso que elegeste para tua primeira vitrine de palavras esse nome de comidas. Para que quem tivesse fome, como nós, ou quisesse prestar atenção, dando-nos faca e queijo, o que também queríamos, ainda que menos que a fome, pudesse entrar e se servir num banquete sem pedir licença. É ela - a Adélia - quem bate as palmas para te chamar para vir à porta da casa das letras em absoluta literatura, concorda? Sempre tive certeza.
Vasculhando, já na primeira página encontrei uma citação do Cortázar, e nessa te repetias, duas vezes num curto espaço entre os meses. Aquela das tartarugas e cronópios. Essa coincidência me alegrou, porque sempre nos desenhamos andorinhas em textões, exatamente como me alegrou a resposta ao e-mail que te mandei sobre as recaídas quando estavas em Portugal: pero nosotros, tía, ¿cómo haremos? Recairemos sempre, e será brincando de amarelinha com as palavras, como crianças que estão aprendendo a letra cursiva.
E, por falar em juventude, parecia ter nos teus escritos uma visagem da Clarice fumando (por que ela também não usava um grampo de roupas para não amarelar as pontas dos dedos? que ideia gênia) naquela sessão de fotos famosa. Umas três poses diferentes. Ela bem nova, não fossem os traços tão característicos nem a reconheceríamos. Uma cara matreira. Mas levemente entediada. Não ainda uma escritora famosa, só os ares de musa subversiva. Um vir a ser. Quem via não podia dizer o quanto é perturbada, mas quando estava muito, cortava os cabelos. Nisso uma coisa meio Fernanda Young, mas autografada por ti mesma: Dona Ervilha. Que nunca fica triste, só está cansada.
Sempre admirei esse caleidoscópio de fontes de referências que veio de ti. Tanto a ponto de só me enxergar através dele. Mais cedo ou mais tarde isso pode me trazer problemas. Tudo que arranho na escrita é um pouco para me parecer com aquela Carmen do Ervilhas, que também é a Carmensita do Devendra, a quem brindamos hoje. A ponto de eu achar que ainda te imito um pouco, e eu espero que a essa altura tu já vejas isso como lisonjeiro. Como se diz das sete notas musicais para justificar os plágios, todos têm as mesmas 23 - ou 26, se quiser enfeitar ou dar uma de bilíngue, não é o nosso caso - letras do alfabeto para escrever. Mas nem todo mundo escreve como tu. Nisso é que te saúdo. Nem todo mundo tem essa capacidade de engendrar nos textos o comercial e também o poético, como quem tece ziguezagueando. Para ti parece fácil puxar o fio desse novelo emaranhado e costurar de novo um tecido esgarçado.
Antes que me esqueça ou me perca nas figuras de linguagem: te relendo lá pensei que é engraçado como a gente nunca sabe que está no auge, mas de alguma forma sempre está. Tem ali (tem, no presente, porque o que é escrito sempre resiste) um pouco de tudo que eu sou hoje. A mãe me ensinou a escrever, esse mérito é dela, mas foi tu quem me ensinou com o exemplo para que serve escrever. A respirar ou suspirar por escrito. Me ensinou a exibir - estou um pouco fixa nessa ideia hoje - o cozido ou o cru, por escrito, dando ao leitor o benefício da interpretação. Ou do deleite.
Um texto da primeira página me chamou mais a atenção. Primeiro porque não usavas "ou" no título - sempre anunciando que tens uma dúvida, como te é costume até hoje -, segundo porque tinhas praticamente a minha idade quando escreveu, mas terceiro e principalmente porque o título era: Para dor de barriga, olina. Para o resto, o tempo. Te lembras? Ontem me caiu como uma luva. Vou terminar te homenageando bem previsível, com as tuas próprias palavras, porque em dias como hoje é bom a gente se lembrar quem é, no que tem de melhor.
Começavas com: "Daí vem a vida e empurra as certezas e as dúvidas e muda o cenário. O que era certo como feijão com arroz fica com gosto de figo. Dá uma confusão nos sentidos. Daí vem a vida e os seus novos motivos". E terminavas assim: "Só não sabia que iria me reinventar agora. De graça. No pulo. É a ação do tempo, moldando cada semeadura. Oxalá que não tenha estiagem até vir o broto. Sou eu mesma quem vai pegar a cesta para colher o fruto. Eu volto para dar notícia. Precisava dizer tudo isso sem revelar o gosto que a coisa tem quando ela ainda não terminou. Mas para todo o resto, o tempo".
Tempo, tia. Sempre ele. Deixando nos reinventarmos e recairmos muitas vezes. Feliz aniversário, mas o que mais quero dizer agora é: feliz tempo pra ti.
terça-feira, 2 de julho de 2024
Jogo de azar
"A arte é uma rede de comunicações no tempo.
Há subestações de alta potência:
Homero, Dante, Shakespeare, Bach, Goya...
E há fiações, fusíveis, parafusos, isolantes,
singelos e indispensáveis".
(Paulo Mendes Campos)
Se a arte fosse só uma rede de comunicações atravessando distâncias temporais não haveria essa obstinação de, pela eventualidade, contestar verso por verso - e para ontem - antes mesmo do fim dos dias úteis. Porque pouco importaria que a informação tardasse. A arte não só comunica. Faz melhor: diverte. Tangencia. Alimenta a compulsão. Vende a chance. Está em todo lugar. A arte é antes uma rede de cassinos, onde os mais adictos se escondem sob o pretexto de se comunicarem. Ou seria só esse parafusinho - a menos - que falta para finalmente nos teletransportarmos. Ou talvez a peneira - um pequeno filtro - sem a qual o que é feio e sujo e denso rapidamente entupiria os canos que garantem o bom funcionamento e fluência do mecanismo. Enquanto o brilho de metal antigo das esquadrias embota aos muitos, nada conserva o mesmo verniz de novidade e agitação que tem uma boa aposta. Desfeitos os vidros - ou janelas - destes cassinos na agonia de se publicar sem rascunho, não há muito mais o que fazer que se expor, viciados. Com pressa, ao relento, ignorando o sereno. Arriscando alto, até a escritura da casa - onde vive a família - em troca de todas as fichas, para tentar outro all-in. É deste outro tipo de jogo de azar que ofereço.
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