quinta-feira, 17 de março de 2022
The dark side
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022
Bem menos ingênuos
terça-feira, 30 de novembro de 2021
Eco [22]
terça-feira, 26 de outubro de 2021
Um pé no atraso
Eu tenho um pé no atraso. Descobri depois de muito refletir tentando entender de onde vem essa minha sensação de inveja e ódio com a modernidade que eu vejo nos outros. Não significa dizer que eu não seja também muito moderna, por outro lado, até porque me sobra um outro pé. Nem é que eu não saiba idealizar um futuro onde seremos todos livres para usar franjas curtíssimas e cabelos coloridos, ou piercings, ou drogas, ou camisetas largas como roupas de domingo. Talvez viremos veganos todos de uma vez. Quem sabe publiquemos fotos de biquíni o inverno todo. Tudo muito sem tabu. Ou até adiramos à abertura dos nossos relacionamentos num grande evento universal para louvar a liberdade - sempre ela, o signo mor da modernidade. Mas o problema é que eu ainda tenho um pé no atraso. Sempre que lembro disso me dói um pouco a panturrilha, de tanto esforço para tocar menos no chão.
Não é que eu me envergonhe. Não é só sobre de onde eu vim, também. É que eu sou um pouco má. Um pouco retrógrada por natureza. Eu diria "retrô", mas isso é coisa de gente full moderna. Do tipo das que misturam português e inglês na mesma frase.
Às vezes me vejo assim mesquinha e careta e aí vou logo sabendo que estou atrasada. Que falta sempre dar um passo seguinte no caminho da modernidade. E que ele talvez nunca chegue. Outras vezes eu me sinto muito moderna mas me sinto tomada de uma necessidade de me atrasar para entrar no compasso ao redor. E aí volto a ponta do pé para a zona confortável do atraso. Porque às vezes ter um pé no atraso não é sobre a gente escolher pisar com ele em algum lugar, mas ter que pisar em algum lugar. Eu tenho um pé no atraso e talvez isso explique o meu fascínio com quem aprendeu a desafiar a gravidade. As coisas que são assim desde que o mundo é mundo impõem uma certa resistência gravitacional para contê-las.
Seja como for, eu tenho um pé no atraso. É bom que esteja dito. Só quando os modernos de hoje estiverem fazendo o caminho de volta é que a moderna serei eu.
sexta-feira, 30 de julho de 2021
Variantes
terça-feira, 20 de julho de 2021
Alegoria
quinta-feira, 15 de julho de 2021
Posta-restante
Ainda há o que faça aquela coisa oca se esfarelar em mil. Uma sensação antiga: poodle raivoso atrás da porta. Ossos contra ossos. O beijo do Klimt. Chão de taco. Grandes rodoviárias. Pequenos silêncios que devolvem o controle. Mentiras deslavadas. São imprevistos proibidos feito zonas radioativas. Porque evocam uma melancolia subterrânea como se o passado ficasse umas quatro camadas debaixo dos pés. Volto para juntar os farelos como quem desce um túnel com uma escada em espiral até o que é profundo. Quero estar de volta nesse ar escasso e úmido. O mesmo das covas, das cavidades e das alcovas. Quero me lembrar do que fazia ficar depois de tanto insistir para não esquecer do que fez partir. No dia a dia aquela coisa quase me escapa. Quando volto para ela, oca como agora, amaldiçoo ter gasto as minhas energias mais frescas e vivas naquele período. Depois amaldiçoo a coisa ter ficado oca. Sem recheio ou substância. Sem um vestígio sequer que não o vazio protegido por uma redoma, e que se esfarela de vez em quando. Ainda me espanta que haja o que faça aquela coisa oca se esfarelar em mil, como um gatilho. E as partículas voando soltas. Minúsculas. Quânticas. Vivas. Tendo que ser recolhidas de novo. Ainda me espanta que tanta coisa aqui passou e aquela coisa oca fica.