Escrevo para não morrer. Desde que tenho lembrança, escrevo para que as palavras não me afoguem ou sufoquem e eu seja capaz de respirar alguma normalidade depois de por o amargo pra fora através da escrita. Escrever virou uma parte importante da minha profissão e, talvez por coincidência, eu também escrevo as dores dos outros para sobreviver. Para que sobrevivam. Eu me concentro escrevendo porque é assim que comunico melhor ao mundo todas as coisas, inclusive as mais íntimas. Inclusive minha vontade de viver. Escrevo para me manter viva. E porque nunca me senti preparada para lidar com a morte. Tanto a ponto de evitar funerais para evitar a certeza de que a vida acaba, quer tenhamos feito nossa parte para melhorar o mundo ou não, e para evitar o sofrimento que a ideia da morte me causa. Mas mesmo assim tenho me sentido triste (eu diria deprimida até, não fosse a falta de diagnóstico) num nível muito mais profundo do que consigo dizer em voz alta. E me sinto triste, especialmente, porque tenho evitado dizer como me sinto. Com medo de quem pensa diferente de mim hostilizar o modo e as razões pelas quais eu me sinto como eu me sinto. Como inclusive já aconteceu, várias vezes. Eu fui me calando e agora é como se ouvisse muito altos os gritos do absurdo para que minha voz pudesse se opor a eles. Ao meu redor é como se a pluralidade parecesse ser cada vez menos tolerada. Gradualmente. Sem que ninguém que pense diferente de mim se dê conta. E aos poucos muita gente que pensa como eu também se cala: para não ser condutor de ódio e se confundir com o que gostaria de combater, imagino eu. Para evitar o conflito. Para - na pior das hipóteses - não ser perseguido agora ou mais tarde, quando as pessoas perderem de vez o pudor de institucionalizar a morte como a melhor saída para o que é diferente. Se é que já não perderam. Hoje é segunda-feira. Escrevo só porque ainda posso. Porque o medo e o pavor que eu sinto não parecem nada com liberdade. Para não morrer sufocada. E mesmo assim eu morro, todo dia um pouco, quando me calo. Todo dia eu morro, por sentença de morte assinada por mim mesma, ao fechar os olhos numa espécie de conivência que eu nunca quis ter. Todo dia eu morro caminhando para o que é extremo sem querer, acotovelada por quem se sente livre - sabe-se lá até quando.
segunda-feira, 15 de março de 2021
quarta-feira, 9 de dezembro de 2020
Elucubrações
O último raio de sol dos meus dias reflete sempre nas janelas de um hospital no centro da cidade onde estão nascendo e morrendo pessoas. É uma luz sobre a dualidade das coisas que principiam e acabam. Também um alerta de finitudes e recomeços. É uma notícia sobre este espaço de tempo entre dois sonos — o dia que existiu e existirá inteiro amanhã, melhor ou pior que tenha sido o hoje. E se a este lapso que tudo pinta de suas cores se pudesse questionar algo, diria: aceita que as coisas reverdecem e são fanadas, como o amor no poema de Drummond.
Nos dias nublados, é à lembrança daquele raio de sol em reflexo que eu me apego, por otimismo ou por um registro insistente e positivo da memória. Pintando a parede da minha sala de trabalhar feito elucubrações muito vivas do que é feito o equilíbrio entre os avessos. Um convencimento silencioso de que todas as coisas fluem como que para um oceano certo e imenso, com textura de destino.
As coisas fluem como água também naqueles dias de sol. E às vezes é como se, sabendo da energia a ser empreendida para nadar a distância desconhecida, o único jeito fosse sentar paciente no fundo do mar e não prender a respiração e não se debater e então deixar o sal corromper os buracos e a pele — e saber, depois de tudo, acordada em terra firme, que a água salgada também é matéria viva como a chuva. Feita dos momentos que não seriam completos sem o seu oposto (aquele raio de sol refletido nas janelas de um hospital onde renascem e quase morrem pessoas). Feita de afogar e de limpar.
Ninguém nasceu sabendo explicar direito a fotossíntese, mas ninguém pode estar ou se sentir vivo sem antes aprender a conviver com todas as fases dos seus ciclos.
terça-feira, 10 de novembro de 2020
Pirâmides
segunda-feira, 19 de outubro de 2020
Chave, flauta e alicate
Naquele dia em que conversávamos sobre traumas e carência, um amigo me disse que vivia uma fase terrível de ferida viva na qual os portões pareciam ter-se aberto e os demônios iam saindo todos, um por um, sem que ele conseguisse fechar ou mesmo lidar com eles. A impressão tenebrosa sucedia um período no qual ele esteve absurdamente apaixonado. Ainda que não fosse, o raciocínio era perfeito. Dizia muito sobre nós, sobre o tempo que gastávamos tentando reprimir todas as nossas inseguranças sem encará-las, sobre a intensidade que sempre emprestamos e às vezes não nos devolveram. Dizia tudo sobre os esforços que fazíamos, às vezes juntos, para conter as duas bandas altas e velhas de madeira escura desse castelo antigo onde é aprisionada toda sorte de monstros com a qual preferíamos não ter que lidar. Daquele jeito em que logo se vê que o pedaço de madeira atravessado não vai suportar a pressão de dentro. O dilema - e se digo dilema é porque não encontro palavra melhor - é que viver é se relacionar. E cada pessoa que passa pode ter a chave de uma cela, o alicate de uma corrente, a flauta de um animal peçonhento que foi abafado ou pretensamente domesticado dentro da gente. Cada pessoa que nos acontece pode ser o início do furo que vai fazer estourar uma represa inteira que gostaríamos de esquecer que existe, feita dos nossos sentimentos mais feios, bem líquidos. E não nos é dado saber que custo vai se compensar em cada benefício. A cada trauma nasce em nós uma promessa de não deixá-lo se repetir, uma certeza de merecer mais, uma ansiedade de não errar de novo. Só que não existe a menor possibilidade de conseguirmos passar totalmente em branco pela vida daqui pra frente. Ou de nos fecharmos, feito prisões perpétuas, para que os demônios deixem de transitar livremente. Ou de enclausurarmos nossa disponibilidade toda nas masmorras dos nossos medos de falharem conosco. Não existe a menor possibilidade. E, se existir, espero que um lembre ao outro de que para nós o atrito entre as forças de dentro e de fora sempre ensinou muito mais do que um portão hermeticamente trancado. Porque é só pelos portões bem abertos que todo amor, euforia e reciprocidade podem entrar.