Passo a ponta do dedo no canto da boca pra lembrar que tenho boca, já que falar e beber ainda é mecânico. Vou atravessando uma extremidade à outra, sentindo o áspero de uma ponta de pele que mordi anteontem e agora está seca. Tenho procurado distrações dessa ordem. Individuais. Óbvias e um pouco inofensivas. Tenho estado distraída por necessidade, como os vigilantes dos filmes nos quais o mocinho precisa adulterar as câmeras de segurança num piscar de olhos, para completar o golpe de mestre. Eu tenho procurado me ocupar do mundo com ansiedade de consumir um pensamento inquisidor que me queime na fogueira. Tenho esquecido que não adianta mais ensaiar respostas. Nem ecoar gemidos. Procuro agora gritos de socorro pra atender, mas não faço nenhum barulho pra pedir ajuda. Não tomo iniciativa. Não reivindico os direitos da minha condição. Faço de conta que sou um livro aberto. Sendo as páginas como pernas que dão passos e se dobram, mas já não se abrem. A mão agora é minha. Evito pensar no atrito entre a minha maciez e a barba. Economizo imaginar tudo que ainda funcionaria de nós. Em tudo que se puxa, como gatilho. Em tudo que se testa da primeira vez. Na saliva amarga e molhada do início do dia e na ponta do polegar segurando o rosto pra que os outros dedos encontrem o pescoço. E depois a nuca. E depois um pouco de pressa. O sexo nunca devolveu as minhas respostas. Mas se eu jamais encontrá-las, perdê-lo é um desperdício.
terça-feira, 5 de maio de 2020
domingo, 3 de maio de 2020
Selfie
Abro a geladeira. Depois a caixa de ovos. Por que será que é tão mais fácil e fluido se amar inteira quando há alguém ao lado validando o fato de sermos amáveis? Por que será que agora sobra tanto tempo pra reparar nesse único pelo crescendo do dedão do pé esquerdo, nas coxas meio moles do lado de dentro, no formato torto da sobrancelha e do queixo, no quanto o meu joelho dói se cruzo as pernas sentada no sofá? E quando faço silêncio reparando em coisas similares sobre o meu lado de dentro, as pessoas estranham. Habituaram à versão que dá bom dia sorridente, bem resolvida e meio motivacional. Devem pensar que sou constante. Praticamente feita de plumas. Como se essa versão introspectiva não fosse eu o tempo todo, disputando lugar com aquela outra. Que me adiantaria que qualquer um notasse que é sempre um duelo conflituoso? Quebro um ovo dentro do liquidificador. Depois o outro. Fecho a geladeira. Do que foi mesmo que me esqueci estando acompanhada? Do que foi mesmo que eu nos protegi me afastando? Ah, lembrei. De mim. Dessa que sempre tumultua a cabeça alheia ou se entedia fácil. Agora um pedaço de cebola. A receita não diz qual o tamanho do pedaço. Talvez a receita não funcione pra mim. Sei o que sempre me acontece no capítulo dois. Qual foi, maluca!? This is not a rocket science. Corto uma beirada. Um terço de uma cebola média. Tiro a casca. Jogo junto com a mistura espessa de gemas e claras cruas. Respinga um pouco pelas bordas. A minha cabeça tenta, mas não descansa um segundo desse escrutínio de si mesma nem enquanto eu cozinho. Estou trabalhando agora numa análise minuciosa e cansativa do que eu fui e do que serei, a longo prazo, se continuar repetindo este comportamento de ir embora sem olhar pra trás. Existe nela um ruído constante como o deste eletrodoméstico à minha frente, que gira rápido as coisas se eu aperto o botão. Sendo o botão da minha cabeça qualquer fração de silêncio. Sei que eu não digeriria cada ingrediente separado, nem se eu quisesse. Colho a salsinha. Cebolinha não tem. Manjericão vai um ramo inteiro com talo, porque estou com preguiça de separar só as folhas. Talvez essa vontade que me veio de ser vista e curtida por dentro justifique, de algum modo, a recente superexposição. Mas quero ser vista assim por quem? Eu estou me contradizendo? No fundo espero ansiosa ser salva das minhas certezas? Talvez tenha a ver com a validação externa para enfrentar tanta autocrítica: procurar ajuda pra me convencer de que está tudo bem em ter essa cara e esse corpo e essa confusão. Sobretudo essa confusão. De novo o liquidificador aberto. Sal temperado. Depois o óleo. Imagino comer esse tanto às colheradas e me dá um pouco de náusea, mas vou azeitando a mistura até ganhar consistência. E pronto. Consegui. É possível que nunca encontre as grandes respostas da minha humanidade, mas pelo menos agora tenho um pouco de maionese caseira. É só o que está ao meu alcance pra que tudo não insosse.
terça-feira, 21 de abril de 2020
O gato no retrato
Não quero pedir desculpas
pela pressa
ou pela bagunça
Não quero me arrepender
de ter uma urgência de tudo
Não quero fingir
Que sinto pouco
Parcelado em vezes
Deus me livre encolher
ou ser mastigada
Eu exijo não ser
Um artifício
A serviço do orgulho
como é o gato
naquele retrato
Ando boa pessoa.
Pergunte à manicure
Ou à diarista
É como se a caridade em silêncio
(que me ensinou o meu pai)
Pudesse me redimir desta outra
Cínica
Que também sou eu
E que sabe fazer mais mal
Para si
Do que para os outros
Não tenho sorrido por baixo da máscara
Sequer tenho comido direito
Não tenho tanta certeza assim de que vá passar
E logo
tão logo organize o que dizer
Mando novas notícias
Por enquanto
Sei o que não quero
Não quero fingir
Que sinto pouco
pela pressa
ou pela bagunça
Não quero me arrepender
de ter uma urgência de tudo
Não quero fingir
Que sinto pouco
Parcelado em vezes
Deus me livre encolher
ou ser mastigada
Eu exijo não ser
Um artifício
A serviço do orgulho
como é o gato
naquele retrato
Ando boa pessoa.
Pergunte à manicure
Ou à diarista
É como se a caridade em silêncio
(que me ensinou o meu pai)
Pudesse me redimir desta outra
Cínica
Que também sou eu
E que sabe fazer mais mal
Para si
Do que para os outros
Sequer tenho comido direito
Não tenho tanta certeza assim de que vá passar
E logo
tão logo organize o que dizer
Mando novas notícias
Por enquanto
Sei o que não quero
Não quero fingir
Que sinto pouco
sexta-feira, 17 de abril de 2020
Para ser dito e sangrado
Sangrei. Sangrei como se sangra no início dos ciclos, sabendo que eles pressupõem o fim de uma possibilidade fecunda. Eu tenho agora só um silêncio mútuo, que vai abrindo espaço para tentar reorganizar a importância do que não foi dito pessoalmente e de tudo aquilo ao que a gente se apega sobre as falhas do outro, para tentar perdoar as próprias. Tenho uma dor calma e constante embrulhando a lembrança daquele toque leve da mão nas costas depois de acordar. Era carinho. Cuidado. O último suspiro. E também um adeus. Mas só eu suspeitava. Eu tenho guardada a impressão dos lábios parados recebendo um beijo que pretendia a normalidade. Como se a minha boca estivesse petrificada de uma certeza infinita de viver o fim. Como se eu tivesse absorvido um jeito de reagir que não era meu, com resignação, para comunicar a mensagem na língua adequada. Sangrei ali a tristeza de não corresponder às expectativas. Sangrei minha incapacidade de negar e de lutar contra o desespero crescente dentro do meu peito. Pensei coisas que, com razão, não pude dizer. Disse coisas que não completam o quebra-cabeça, porque me sobram peças. No fim, eu tenho a impressão de que sempre me sobraram. Há mais em mim para ser dito e sangrado do que qualquer idioma consegue alcançar.
quarta-feira, 25 de março de 2020
Profetas do apocalipse
Quando me perguntam hoje do que senti falta naqueles dias, digo que foi do toque de alguma mão que não estivesse asséptica por ordens médicas de depois do vírus, entregando algo no delivery com um olhar preocupado de quem preferia não estar ali. E do cafuné do meu namorado depois de dormir. E do beijo rápido nos meus pais quando chegava em casa. E do abraço da Leli ao perceber que eu estava prestes a desabar. E das madrugadas emaranhada com os meus melhores amigos no sofá da casa da Itoupava.
No início, nós confortávamos uns aos outros pensando no que diríamos quando as primeiras consequências viessem. Coisas como: bem feito, eu avisei. Era um jeito de ter algum consolo diante do desespero de ver uma porção grande das pessoas ao nosso redor que não enxergava o que pra nós era óbvio. Nós negligenciávamos, para o bem da própria sanidade, que não seriam só os conhecidos deles que sofreriam mais que antes, mas também os nossos. A gente ainda lembrava da época em que estivemos do lado de lá fazendo crítica e dizíamos que ninguém tinha procuração pra falar por nós. Nem pelos pobres.
Agora nós tampouco, mas sentíamos que fosse uma espécie de empatia não precisar ter os efeitos das crises batendo na porta, nem de perto, pra começar a pensar em quem tinha. Nós ainda não contávamos - e àquela altura nem poderíamos - com uma gripezinha que se alastrasse pelos continentes. Que cancelasse as missas, a patinação no gelo, a lei de acesso à informação e as Olimpíadas. Mas que não bastasse para fazê-los esquecer a ideia de que nós não devíamos acreditar nas informações técnicas e científicas porque elas chegavam também por determinado canal.
Aquela gripezinha faria com que cada um de nós se sentisse meio idoso, meio asmático, meio portador de neoplasia maligna em tratamento, meio um caso de risco. E depois meio descartável. Enquanto cada um deles se sentia mais patrão dos rumos da vida dos nossos pais e avós. E também das nossas, feito reféns. Aumentando a distância e profundidade do abismo que nos separava, cada um deles se sentia cada vez mais parte de um grupo poderoso, homogêneo e hermético de pessoas que têm muita razão. Será que tinha algo a ver com precisar se sentir protegido e confortado por uma figura de pai pra não surtar, igual o sentimento que movia os mais religiosos? Será que é porque havíamos acostumado com a ideia de que qualquer coletivo se prestava a isso mesmo, e eles não? Quem sabe fosse porque éramos mais previdentes que alguns deles. Ou porque as perdas pra nós devessem ter outra escala de prioridade. É possível que naquele momento ainda pudéssemos soar falsos moralistas. Profetas de um apocalipse que nunca chegaria, porque a opinião pública já estaria acostumada se ele eventualmente chegasse.
Melhor seria ter perdido a ternura. Às vezes lembro daqueles dias e, sozinha, volto a tremer e chorar. Já não é mais ódio ou indignação, porque aqueles tempos esgotaram de vez todos os nossos reflexos, mas um pesar profundo sobre ter despertado antes, sofrido por mais tempo e com maior intensidade. E mesmo assim não ter conseguido fazer muito. Quando me perguntam do que senti falta naqueles dias, digo que foi de toque humano. De voz humana. De consciência humana. Ou de qualquer gesto, mínimo que fosse, que pelo menos fingisse um restinho de alguma humanidade enquanto sequestravam as nossas.
segunda-feira, 23 de março de 2020
Quarentena
Tem um bicho lá fora. Gigante. E mesmo quando cada pessoa adormece, ele vive. Até três dias em superfícies metálicas. Nas notas de dinheiro. Por fora das luvas e máscaras. Dentro dos pulmões.
Eu gostaria de pertencer àquele grupo otimista e eleito para espalhar sublimação. Dos que escrevem ou republicam só mensagens motivacionais nestes tempos. Mensagens novas ou antigas passadas adiante, com uma demão de verniz. Vi coisa linda por aí. Brilhando encorajamento. Mas não estou conseguindo me distrair por completo. Meus pensamentos não são tão puros. Tenho oscilado bastante neste sentido. Até as mensagens mais bonitas que me tocam não me deixam esquecer essa dorzinha de garganta, um nó que vem não sei de onde. Que piora um pouco quando penso no que ainda vamos viver nos próximos meses. Porque tem um bicho lá fora. Sem tamanho. Invisível, menor que uma célula. Capaz de reavivar depressão, ansiedade, as piores teorias conspiratórias de todas. E muito medo também. Capaz de fazer morrer por muitos minutos no dia aquela parte da gente que consegue sentir o sol na pele e reacender pra animar uns aos outros. Pra cuidar uns dos outros. É muito mais difícil se distrair sem poder abraçar quem a gente ama. Sem poder rir o tempo todo, porque rolando o feed inevitavelmente esbarraremos nas estatísticas e projeções. Ou ficaremos ansiosos por elas. E fica ainda mais difícil sem ligar a TV. Sabendo que a novela vai ser suspensa. E os contratos de trabalho, também. Quanto desespero esse bicho trouxe, quanta fome ele pode trazer. Por que é que não nos contam tudo? Por que é que não nos contam as coisas mais devagar? Então quer dizer que o bicho entrou pelas frestas da nossa humanidade? Falhamos ou mostraremos só agora o nosso melhor? Que forte e assustador se dar conta de que cada um está reagindo o melhor que pode e que, no mais das vezes, não tem bastado. Não o tempo todo. Há sempre filhos longe dos pais, há sempre a beira da morte, há sempre a desigualdade de quem pode e quem não pode comprar álcool gel. Há sempre gente do alto escalão negociando com as vidas da gente. Pensando primeiro no lucro. Mas esse bicho nos joga todas estas verdades no colo de uma vez só. E faz com que tenhamos que lidar com elas. Dentro de casa. Dentro do peito. Tudo de uma vez. Ele não permite esquecê-las por um dia inteiro, quiçá sair pela porta afora para tomar um ar. Até no ar ele está. A gente abre as cortinas e, por trás das nossas janelas, existe uma ameaça tremenda. Eu só espero que todos estes sentimentos que nos põem alerta também acelerem nossos mecanismos de defesa. E se não pudermos sair ilesos, que haja conforto ao lembrar que sairemos um pouco mais imunes.
quinta-feira, 5 de março de 2020
Eco [16]
Desistir de você foi a causa de grande parte dos meus progressos na vida e o motivo de quase todas as minhas derrotas. Digo: você. Sem referências cruzadas ou meias palavras dessa vez. Porque você nunca vai saber. Das vezes que eu quis cortar o cabelo. Trocar de emprego. Emagrecer. Coisas mesmo impensáveis. Coisas incompreensíveis como o barulho que os vizinhos do apartamento de cima estão fazendo agora e não consigo identificar o que tanto arrastam ou onde estão batendo. Tenho, também eu, alguma dificuldade em descobrir onde você me bate. Se é no dedo do pé ou na consciência. Se é na boca do estômago. Acho agora que é no baço, aquele órgão que descobri outro dia que ajuda na imunidade da gente. Ou no apêndice? Vesícula? Pra que zelar pelo que não serve pra quase nada? Temo que nunca saberei. E que sempre sucumbirei à comparação da ideia que me ficou marcada de você na memória, como uma musa inspiradora dessas que os grandes artistas tinham. Tenho pra mim muito claro que nenhuma musa é, na prática, tão incrível assim quanto a ideia que conservamos dela. Mas se eu nem sei onde ainda me bate, não posso dizer o mesmo sobre onde ainda me dói. É uma dor mansinha, mas mnemônica. Associada a dores mais simples e acessíveis. Que só emerge quando estou incrivelmente só com essa sensação de não pertencer. Que faz lembrar que, apesar de agora ser muito depois, nunca mais eu viverei antes de você.
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