sexta-feira, 1 de junho de 2018

Para viver um pequeno amor

Antonio me esqueceu da gramática. Quando dei por mim ele já estava impregnado na memória e no idioma da cidade, enquanto eu ainda crescia os olhos sorridente com um encantamento inédito por cada ruazinha estreita e por cada sobrado florido. Foi assim que o contexto me deu o Antonio, com aquela camisa branca de sábado e não me olhando, definitivamente não me olhando num canto do bar, enquanto eu ria da minha capacidade de engendrar romances impossíveis.
As circunstâncias colidiram o meu caminho no de Antonio, presenteando-o com uma mulher que eu não lembrava que podia ser e, ao mesmo tempo, secretamente sentia falta de ser. Passeando deslumbrada de chapéu panamá pelas praças de um tempo antigo. Dançando salsa despreocupada a milhares de quilômetros de casa. Desafogada da rotina e da pressão de ser quem eu me acostumei.
O Antonio me descobriu uma mulher de vacaciones e cheia de vida. Nova e livre. Ele me desobrigou daquela necessidade ultrapassada de parecer moderna. Agora eu não estava à frente e não estava atrás: agora eu estava ali. Há muito calor e nenhum compromisso com a vanguarda no terceiro mundo acima da linha do Equador. E foi lá que Antonio me surpreendeu a retórica. Quando dei por mim olhava pra trás, coqueteando descaradamente para ter certeza de que ele me seguiria. E todo dia o Antonio ia desaprendendo os meus títulos acadêmicos e méritos, para aprender coisas mais importantes e interessantes sobre mim. Coisas que eu ignorava. Coisas que eu também não sabia. Deve ter sido assim que Antonio desapareceu a minha pretensa erudição: quando ele não se importou com os meus verbos mal conjugados e com as minhas frases pela metade mas, ao contrário, achou aquilo estranho e excêntrico. Una bonita casualidad. Enquanto repetia não ter nada a perder, o Antonio reinventou o significado de ganhar. Porque o Antonio me ganhou por uns dias. Tornou-se mais uma possibilidade onde eu pretendia que tudo fosse descrédito.
Eu levei a alma pra passear naquele destino sonhado e o Antonio ofereceu o braço e o peito tatuados para me fazer companhia. Agora, de volta à casa, eu me pergunto se o dialeto do Antonio comporta a palavra expectativa, porque isso me assustaria. Mas para viver um pequeno amor não é necessária a renúncia e o cansaço que exigem os grandes. Só é preciso estar distraído o suficiente.
Antonio me deu a impressão de que somente homens fugazes como ele serão capazes de me acompanhar, cambiante, nesta fase da vida, embora dizer isso em voz alta seja proporcionalmente emocionante e assustador. Se qualquer amor tiver de ser pequeno para que eu continue gigante, que seja. Mas que continue a arder de tempos em tempos, como o mistério da identificação com um estrangeiro, já que em alguma medida somos todos. Que a gente se reencontre pelos caminhos que seguir, sobretudo com a melhor versão do que deseja ser. E sempre com o assombro da primeira vez.
A inspiração é o melhor legado de un pasajero de vida a otro.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Eco [14]

A primeira vez em que eu fui abandonado mudou a minha vida decisivamente. A primeira vez em que me senti insuficiente, também. A sensação de rejeição nunca mais deixou de penar sobre a minha cabeça como um fantasma desalmado. Embora eu tenha tido milhares de bons e leves momentos depois, o inferno sempre vinha. Com aquele desespero próprio do abandono eu descobri o que era taquicardia, insônia e estômago embrulhado mesmo com a dieta em dia.
Nunca mais parei de me cobrar a perfeição como se ela fosse tangível. E sofri tanto, tanto, toda vez que percebi que falharia e machucaria quem eu só queria amar. Porque eu criei uma casca, um escudo, uma resistência. Não por mal, nem sempre eu tomaria dois litros de água por dia, escovaria os dentes antes de dormir e cumprimentaria o porteiro. Nem sempre eu seria uma boa pessoa. Eu não amaria direito e macio e em paz de forma perene. Aliás, quase nunca. Esta não era uma qualidade que eu poderia oferecer. Essa medida do quanto eu era falível me vinha com um medo de que ela me cortasse da vida em definitivo. Depois de me rejeitarem primeiro, nunca mais deixei de amar narciso, acreditando que só daria certo com um espelho. Com defeitos que eu já conhecesse em mim. Nunca encontrei uma pessoa-espelho. Fiquei sendo o fiscal das minhas fraquezas. E as projetava maiores do que poderiam ser, como quem prova uma roupa nova e, apesar de achar linda, mira duas vezes e não gosta do caimento nos ombros. Quem sabe em outro corpo o amor cairia bem.
Depois daquela primeira vez foi sempre como se eu fosse uma criança que dependesse de estar agarrado no seio de sua mãe para manter-se vivo. Para manter-se a salvo de sua própria miséria individual e solitária. Sendo o seio da mãe o ser amado e eu a face infantil da dependência. Que precisasse espernear para ter atenção, e que espernearia, de qualquer modo, mesmo que não precisasse. Atenção exclusiva, exclusivíssima, me jura e me prova, amor, pula daquele prédio, amor, põe aqui este cabresto, amor, senão já não me deixava mais seguro que chega, amor. Impus minhas vontades como soberanas. Ou me foi dado um cetro para que governasse aquele relacionamento? Dei muito show, que é pra ter certeza do público. Que mal imenso e injusto o abandono fez comigo. E com a Laura. Ora, ora, que grosseria abominável da vida um amor daquele acabar.
A primeira vez em que eu amei com unhas e dentes potencializou muitíssimo a sensação de abandono, porque ela vinha acompanhada da perda de uma energia vital. Com um choro soluçante de quem conhece bem a fórmula para ser acalmado, mas não está sendo. Precisa agora parar, sozinho. Secar sozinho as próprias lágrimas com o desejo de que alguém as sorvesse com a classe e delicadeza do chá das cinco. Como se não fosse esforço nenhum fazer a digestão de cacos de porcelana salgada.
A Laura foi a razão da minha ruína. Cortou minhas vísceras por dentro, enquanto eu fazia cara de paisagem para tentar engoli-la plenamente. Quando a perdi, perdi também minha integridade como homem e indivíduo. Perdi meu propósito mais imediato. Eu quis tanto não ter adormecido agarrado em sua camiseta manchada de desodorante. Quis gozar de boa saúde e não ter o corpo inteiro denunciando em coceira a falta que ela me fazia. Ajoelhar suplicando perdão por já ter sido abandonado um dia. E por ter medo. Por não conseguir deixar para lá. Por me fazer de vítima quando o abusivo era eu. Por me sentir deficiente. Por não oferecer a ela a compreensão de que ela precisava. Por ela esbanjar tudo que me faltava, e vice-versa. Mas nenhuma súplica apagaria nada. Porque o perdão, um sábio me disse um dia, não é amnésia. O desespero da Laura diante da vida continuaria sempre medindo forças com o meu. Que era tanto, depois do primeiro abandono. E só queríamos deitar em nossos travesseiros e dormir de novo tranquilos como antes de nos encontrarmos e abandonarmos. Mas nunca mais.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Eco [13]

Confesso que em alguns momentos eu pensei que houvesse aprendido, pelo amor, a amar a Laura de um jeito livre. A compreender que ela poderia beijar duas centenas de bocas, deitar-se com mais de uma dúzia de corpos, ou quem sabe um belo dia se apaixonar por outra pessoa e, ainda assim, no íntimo eu seria para ela tudo aquilo ou mais que ela havia sido para mim.
Em outros, pela dor, pensei que houvesse aprendido que o nosso amor não passava de um daqueles furos que conhecidos distantes, como fontes anônimas, dariam a jornalistas e escritores para a produção de biografias impróprias e não-autorizadas, quando alguém é acometido pela fama (para enriquecer a monotonia da minha vida, se o famoso fosse eu, ou para exagerar nos detalhes sórdidos da vida excêntrica que ela sempre levou, se a famosa fosse ela).

Mas não aprendi nada sobre nós. Decisivamente, ao menos, nada.
Queria que fosse linear, mas eu aprendo e desaprendo coisinhas miúdas todos os dias.

Devaneio insistente essas coisas porque, sabemos, sobram sempre muito mais perguntas do que respostas absolutas quando algo assim acaba. Escrevo, mesmo sabendo que nunca chegarei a uma conclusão definitiva, porque escrever me ajuda a especular o motivo para que ela tenha me deixado, ou expiar os bodes, ou simplesmente investigar as reais razões da nossa ruína.
Às vezes eu sinto e sentia que poderíamos ter insistido, noutras acreditava e acredito que estávamos perdendo tempo. O fato de que foi ela quem teve um ímpeto para consumar a decisão pela segunda opção foi um completo acaso, mas ele traz consigo um peso enorme para o ajuste das coisas nos atos seguintes deste teatro de superação pós-término: sendo eu a vítima, ela o algoz. Ela a bandida e eu o mocinho.
Para aliviar a consciência, Laura deve ter se convencido de que éramos incompatíveis. E nós éramos? Eu não sei se nós éramos. E ela também nunca mais vai saber, apenas lutar para se convencer disso, quando as perguntas que sobraram ao nosso respeito lhe pegarem desprevenida no meio do dia - se é que pegarão. A incompatibilidade é uma desculpa tão, tão, tão genérica e boa para evitar o enfrentamento dessas minúcias e mudanças todas que nós exigíamos na vida um do outro, que ela passa, impunemente, como uma grande verdade.
Teríamos nos amado para sempre, se eu fosse outro? Eu não fui outro. Quanto me custaria ser outro? Ela teria ficado, se eu estivesse mais disposto? Eu não estive mais disposto. A desistência se confunde um pouquinho com a covardia. A Laura desistiu. E tudo bem, ninguém pode culpá-la. Eu também fui presenteado com uma covardia ímpar para lutar contra os nãos que me deram e eu achei que mereci.
Sabia que a Laura seguiria em frente antes de mim. Digo, envolver-se romanticamente com outra pessoa. Eu só não sei se eu tinha essa certeza porque a considero carente e fraca, sangue frio e forte, carente e forte, sangue frio e fraca, ou carente e sangue frio. E, de novo, fosse como fosse, quem poderia culpá-la? A alma humana é cheia dessas complexidades e combinações inusitadas.
Eu só não cairia de novo na armadilha de demonstrar que achava que tinha perdido a corrida a que nos propusemos em direções opostas depois do fim. Porque eu tinha, é claro que eu tinha, mas ela não precisava saber. Quando a gente se dá conta, passou tempo suficiente para que não faça sentido dizer palavras cruéis advogando em defesa das nossas misérias. Mais tarde, não faz sentido exigir que a vida dê o troco ad eternum a alguém que nos feriu.

Laura e eu nunca seremos famosos. Ninguém se lembrará de nós. A opinião pública nunca será incitada a tomar partido, para decidir quem tinha razão. Nunca mais haverá gesto doce que restaure nela a fé na minha humanidade. E vice-versa. Os mistérios e chaves de como aquele relacionamento poderia ter funcionado continuarão sendo soterrados por montanhas de esquecimento, de minha parte lavados por rios de uma apatia forjada a muito custo.
A ferrugem do que jamais diremos em voz alta outra vez corroerá nossa última chance. O ácido do desencontro dissipará nossos ossos, até que nada nos sustente. Até que seja indolor. E nossas línguas, até que não seja mais dita nenhuma palavra a respeito. E nossa vontade de amar de novo, de um jeito honesto e novo.

Até que amemos outra vez.

Qualquer amor já é um pouquinho de saúde.

domingo, 24 de setembro de 2017

Eco [12]

Eu lembro da primeira ocasião em que demonstrei interesse pela Laura. Na minha cabeça, tudo que aconteceu era algo lógico, quase matemático: ela caiu matando, eu fiquei assustado, precisei raciocinar, pareci rejeitá-la, até que confiei que poderia mostrar a ela a minha versão mais frágil e, digamos, suscetível para o que estava acontecendo. Acontece que as mulheres não funcionam como os homens. Não importa o quanto você seja inseguro ou simplesmente não esteja a fim, coisa que também pode acontecer, as mulheres sempre acreditarão que o problema é com elas.
Mulheres como a Laura muitas vezes sabem, bem no fundo, que o problema não é com elas - ou que os problemas que são com elas são menores que os problemas que são conosco -, mas encaram tudo como um desafio particular. Determinadíssimas, elas querem ver a gente abrir a guarda para um soco de euforia com o sentimento que são capazes de provocar. Querem nos fazer provar de seu veneno como se fosse remédio. Como se fosse, não. Como de fato é. Quando surge na vida delas um cara como eu, é como se o Universo lhes tivesse brindado com o problemático da vez numa oportunidade ímpar de revirar sua condição humana, testando seus limites. Descortinando os grandes mistérios da humanidade.
Foi surpreendente vê-la vibrar, bruxa e santa, com o fato de que, naquele começo, vertiginosamente eu me derretia pela tempestuosidade macia da sua presença inusitada na minha vida. Foi revelador perceber que ela enxergava em mim tudo aquilo que eu me esforçava para não parecer ser (e achava que conseguia, porque ninguém mais parecia se importar). Vê-la sorrir de canto, finalmente entendendo que uma das minhas pequenas batalhas internas estava sendo vencida naquele instante, era como um gozo prolongado. Como quando se chega aos quatro minutos e dez de Shine on you crazy diamond pela primeira vez. E eu era o alvo de interesse da Laura. Logo eu, um desgraçado da cabeça. Ela sabia disso. Ela via. Para ela, era evidente. E, de maneira inexplicável, encarava meu desgraçamento no fundo dos olhos, feito um presente.
Laura sem dúvida concorda com Jodorowsky quando afirma que somos irresistivelmente atraídos por quem nos trará problemas necessários para nossa própria evolução. Ela evolui o tempo todo. Você jamais a verá apaixonada por alguém fácil. Jamais. Decididamente, a Laura nunca quis a sorte de um amor tranquilo. É como se o desejo dela só aparecesse diante de situações que se assemelham à resolução de uma equação de vigésimo grau. Acho que os desajustados provocam na Laura aquele sentimento de quebra-cabeças de trocentas peças que, feito criança pequena, ela quer ver montado, peça por peça. Até enjoar de brincar.
Comunista? Crente? Introspectivo? Mora longe? Tem fama de desapegado? Possui algum vício incurável? Se as respostas forem afirmativas, para estas ou outras perguntas de semelhante calibre, há grandes chances da Laura se interessar por você e lentamente virar sua vida do avesso. Ela chega sem saber que o brilho intenso que resplandece é capaz de iluminar de longe os momentos mais obscuros da sua existência, e vai embora sem notar que você já tem uma expectativa sincera de que ela continue lhe fazendo companhia pelo máximo de tempo possível.
A própria causa da perda de interesse da Laura é para mim um mistério. Se já fui capaz de identificar seu padrão de comportamento para que a atração nasça, não sei dizer a razão pela qual ela vai embora. Será que é um cansaço? Que ela exaure rápido a disposição para lidar com aqueles problemas específicos? Quem sabe ela tenha me largado porque já me ensinou o suficiente. Para se desafiar de outra forma, logo ali em frente. Será que ela não tem a força descomunal que se enxerga nela? Será que ela enjoa dos dilemas de quem fez os dilemas dela parecerem pequenos, lá no início?
Talvez só a psicanálise seja capaz de, um dia, desvendá-la. Talvez minha primeira demonstração de interesse tenha sido o começo do fim. Mas como é cruel pensar assim, prefiro crer que ela também não sabe a razão. Do que tenho certeza é que preferirá para sempre as águas mais profundas, porque absolutamente nada que é raso e superficial lhe detém. E emergirá de quando em quando num impulso, sorrindo numa plenitude solitária, tomando fôlego para o próximo mergulho.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Eco [11]

No dia em que a Laura partiu, meu peito parecia o trânsito da Índia. Os sentimentos se misturavam num caos apavorante. Numa confusão fenomenal. Havia lamentos pela partida indo e vindo de todas as direções, sem semáforo. Havia uma saudade antecipada buzinando impaciente em algum lugar, ensurdecedora. Uma tensão de não poder errar, descuidar, espirrar fechando os olhos ao fazer uma curva muito fechada. Os sinais amarelos exigindo atenção redobrada para não colidir com a minha vontade de gritar ao mundo que eu queria ela no banco do carona da minha vida para toda e qualquer viagem. E depois vermelhos, em um grande, sonoro e universal: não, não vá por aí, é melhor administrar este vaivém quando a cabeça estiver minimamente em ordem. E depois verdes, exigindo destreza para ir para onde eu queria chegar sem atrapalhar quem vinha vindo depois dela. Tinha também um óleo de gratidão, lubrificando as engrenagens.
E eu ali. Guiando o coração, um tuk-tuk precário no qual já couberam tantos passageiros ao mesmo tempo ou na sequência. Tentando reaprender a direção defensiva. Tentando assentar o pé esquerdo na embreagem, e o direito alternando entre o freio e o acelerador. Mirando o retrovisor de relance, pasmo com o fato de que o tráfego seguia, como a vida, absolutamente encadeado. Como se a desordem generalizada fosse, na verdade, a ordem natural das coisas, bastando compreender a dinâmica. Aceitar. Para sobreviver nem mais forte, nem mais inteligente, mas com a rapidez de adaptação atribuída a Charles Darwin. E portanto tocar adiante, da melhor forma que me parecesse possível.
No dia em que a Laura partiu, como é natural que me aconteça, romantizei os efeitos daquela paixão quando ela começou a surgir. Quando tudo parecia em perfeita sintonia. Quando os carros me davam passagem em dia de chuva, no engarrafamento, numa solidariedade insuspeitada. Numa conexão com o universo que só consegue compreender quem já esteve apaixonado. Eu intuía as lombadas das estradas pelas quais não costumo passar, e reduzia a velocidade no momento certo, como que por milagre. E chegava ao destino, maravilhado. Sortudo. Afortunado. Época em que descobri os faróis de milha, para iluminar o caminho adiante, muito mais longe. Ocasião em que eu aprendi a reclinar o banco do carro para a posição exata em que meus braços podiam envolvê-la sem desconforto algum. Romantizei desejando, tão fundo, que aquilo que vivemos tivesse durado um pouco mais. Quem sabe para sempre.
Tolice. Eu jamais poderia ter controle de nada. E a confusão de uma partida talvez seja, em resumo, muito semelhante à confusão de uma chegada. A necessidade de reorganizar a vida quando ela foi avassaladoramente e de súbito bagunçada é idêntica, tanto quando uma paixão começa, quanto quando o contato cessa.
Só muito mais tarde entendi como e por que o trânsito da Índia flui, apesar de tão caótico: cordialidade, compreensão e bom senso. Para a bagunça funcionar, é preciso respeitar a lógica instituída. É necessário haver um senso de cooperação mútua entre todos que participam da intrincada movimentação urbana. Senão, desanda. Porém ordem, ordem mesmo, tudo direitinho, só na monotonia. E eu sempre me recusei a estacionar. Por alguma razão, eu não queria ou seria capaz de enxergar a Laura, no início, durante ou depois dela partir, senão sob a ótica da baderna - desregrada, sacudindo tudo, deliciosa - que ela conseguiu trazer para a minha vida.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Você me desperdiça

Queimei o céu da boca com a parte rala da sopa da Elaini. Terminei a refeição e escovei os dentes cuidadosamente, mais por fora do que por dentro, para que as cerdas duras não me arrancassem desavisadamente a pele frágil e áspera - este fenômeno paradoxo que só as queimaduras conseguem produzir.
No enxágue, quase um gozo de alívio: a água gelada sorvida da mão esquerda para a boca, consolando a queimadura como quem a cura. A água na temperatura certa, quem diria, um analgésico poderoso, interrompendo as vias de transmissão nervosa entre o meu ferimento e o meu cérebro, tão viciado em sentir fogo (e, agora, também água) tão poderosamente.
Encarei o espelho do banheiro e sorri, enquanto abaixava a cabeça e cuspia. Era assim, então, que eu devia encarar o ocorrido. Com uma espécie de gratidão pelo instante de coragem louca para iniciar a escovação dos dentes, um ato que me pareceu absolutamente necessário e quase instintivo, apesar do perigo. Com uma certeza de que manter a água gelada na boca por mais tempo do que é costume faria dela fria e depois morna e depois quente como um fogo brando que me queimaria um pouco mais, ou pelo menos não faria diferença positivamente.
Confesso: eu me preparei para recebê-la. Ao contrário do que pretendo fazer crer - de que o bom mesmo é só o susto, e de que pensando com calma a vontade e a potência daquele alívio se esvaem - no fundo eu sei que não se engole a espuma da escovação de dentes a seco sem um certo desconforto. Então a água, em alguma medida, é necessária. A água é literalmente elementar para quem estou sendo depois de experimentá-la numa circunstância tão incomum.
E, no íntimo, eu desejei tê-la ali antes de saber que me estancaria a dor. Se afirmo que não se pode prolongar algo para além do que deve durar por uma questão de funcionalidade, na prática eu quis tê-la mais comigo. Bochechar. Gargarejar. Deixar escorrer pelo pescoço. Fazer com que o prazer durasse, exponenciado. Eu quis e eu quero, se me detiver no assunto, beber litros e litros de água ainda nesta semana. Até passar a língua no céu da boca recém aguado e sentir que tudo está como antes ou mais hidratado. Eu quis e eu quero que não fosse ou seja mais possível retroceder ou desperdiçar água nenhuma neste mundo.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Lamento sertanejo

Construí sobre a areia movediça uma tapera, e dela fiz uma mansão. Levantei parede, varri bem o chão. O pó eu tirava todo dia. Como eu amei a minha casinha de improviso! A minha casinha querida que me acolhia como se fosse um palácio de um rei importante. Eu ia chegando e a porta abria, a tramela velha girava inteira pra minha vontade de morar no que fosse meu, no que ninguém mais pudesse destrancar que não eu. O sol entrava manso na fresta da janela fim de tarde. Eu botava a cadeira de palha na varanda e olhava longe, tudo tranquilo, e numa hora dessa tudo ficava tão lindo que a vista não alcançava fim praquele susto de felicidade que a minha casinha me dava. Nos cafundós de uma terra onde não se podia plantar quase nada, num sertão onde só chovia depois de muita reza, eu rezava. E daí dava goteira, que quando chove casa de pobre é assim mesmo. Tratava de me conformar. O chão batido inundava todo, lá ia eu com o rodo. A chuva lavou, tá novo. E punha as roupas pra secar. E punha a alma, calejada, pra quarar. É aqui, e ninguém mais, que eu escolhi morar, é aqui que a chuva vai chover e eu vou regar. Feito árvore sem semeadura, criei raiz e fui ficando. Flori um verão. Depois mais outro. No frio comprei coberta, que em casa minha, calor é que não ia faltar.
Foi ali naquela moradinha pequena que planejei um filho só, que não cheguei a ter, que nunca dei à luz talvez por falta de sorte, talvez por sobra, que nessa época a parteira ainda nem tava por chegar. Eu decorei tudo como manda o figurino, pra bem de esperar o tempo certo se aprumar. Comprei estante de madeira, e até queria ter um sofá. Quando a noite chegava, a lâmpada comprida e branca demorava um pouco, ligava e acendia fazendo barulho pra danar, mas não fazia mal, alumiando é o que conta. Panela também tinha. Comprei vermelha, como era moda. E barata. Barata tinha de monte. Que me importava? A casa da gente é a casa da gente. Dá gosto de ver a luz na casa da gente, a água saindo da torneira, o cheiro de comida impregnando a cama do conjugado. Era uma alegria humilde, mas eu gostava muito de levar a vida na minha tapera porque a minha tapera era minha. Ou eu achava que era. Aquela ideia de ter teto tava pronta e acabada.
Até que um dia a natureza buscou de volta a casa toda de uma vez. Não sobrou madeira nem sapê nem nada pra contar história. Até o pano de louça de inicial bordada, presente da madrinha, junto com o resto do enxoval, foi pro brejo. A terra me engoliu o cofrinho de moeda, a cama mole, o ventilador mequetrefe, o travesseiro velho, o espelhão redondo do banheiro, meu único luxo. Até o globo terrestre que ficava em cima do bidê - onde eu não achava, no mundo inteiro, lugar melhor que a minha casinha, a terra engoliu. Sem deixar rastro. Sem chance de reclamo ou apelo. O chão puxou pela última ponta a raiz daquela planta que reguei dia e noite pra ver se vingava, tão ligeiro que parecia feitiço. A luz foi se apagando por baixo da terra como se nunca tivesse tido luz. Direto pro inferno, de certo. Nunca mais minha casinha. Fui tão feliz que quase que me esqueço da areia movediça sobre a qual eu levantei a fortaleza. Não fosse essa peça que o destino me pregou, tinha esquecido mesmo. Mas agora já não podia. A mão na cabeça, tremendo que nem vara verde de um apavoro feito o que bate com notícia de morte de parente, eu reparei que fingi tempo demais que não via que a minha casinha já foi levantada caindo aos pedaços. Eu fui feliz e não me avisaram de novo que areia movediça engole casa. O desaviso me custou uma nota de coisa que, cê deve de saber, não há dinheiro que pague. Perdi a minha ignorância, de sopetão, feito um tiro que tira a vida de quem não honra a conta da venda na mão do Setembrino. Defendo a honra, mas nem preciso, chorando na frente da ruína da minha tapera. Com esse lamento sertanejo que vai a São Paulo e volta. E não dá mais conta de esquecer que sem chão firme não há casa que fique de pé.