Sim, conheço os cardinais há mais tempo do que conheço as letras. Claro, depois do um vem o dois. Intuitivo como andar pra frente. Mas como eu posso entender a ordem exata destas baias tão altas e abertas, semi-circulares, se há pouco já dei o melhor de mim conseguindo pedir a ajuda do recepcionista, quarenta e tantos anos, nem tão velho mas engomado dentro de um uniforme branco de poliéster com o nome da rede do patrão bordado em vermelho no peito, me dá dor física ter que pedir um favor destes presumindo dele uma má vontade, se bem que acho natural trabalhando com isto nesta idade, será que tem idade para ser bom um trabalho operacional, vermelho é maragato ou ximango, pelo menos não fazem este cristão trabalhar de lenço como fazem com os comissários de bordo, trabalhar fantasiado deveria significar ser artista, penso essas coisas rindo depois eu me censuro, lá vou eu de novo mear a culpa, esse daí até agorinha queria era tudo menos ter que receber o meu lanche, que pelo menos então ele me espie pela porta do hotel depois do check-out de quem nem ficou pra dormir e ele não entendeu nada, eu disse Mas só se o senhor não achar muito abuso, eu sei que não é parte do seu trabalho, é que fiquei um pouco impactada pelos crackudos da rua ali do lado, queria ter dito Eu sou apenas uma camponesa só pro pedido ficar mais lúdico, ou Eu sou uma matuta lá da roça e lá não tem disso aí a gente se impressiona, de preferência me guarda com olhos de polícia e um giroflex ligado aqui na porta pelo menos até eu tirar o último pé da última listra da faixa de pedestres para cruzar a avenida dupla aí da frente além desta grade que pelo mapa nem parecia que tinha, se não eu até tinha me precavido mentalmente e melhor, tão mais fácil seria ter feito o trajeto em linha reta sem pedir arrego pra ninguém, e como são largas estas duas ruas, dali pra frente eu sei que é só eu e Deus, vou até escrever com maiúscula para ser respeitosa, só até ali o Seu olhar me guardaria, o seu olhar me guardaria, por obséquio, nem vou ter coragem de olhar pra trás para lhe agradecer com um aceno que é para não parecer ainda mais vulnerável, espero estarmos entendidos desde já, falta um pouco de educação porque também falta um pouco de jeito e sobra leitura de noticiário, e olha que até agora ainda nem sabia que as luzes das lanchonetes vão se apagando aos poucos a essas horas, Porto Alegre não era pra ser grande e alegre que chega para ser viva as vinte e quatro? Se bem que já está tarde. Ah, então estão numeradas as plataformas. Como pode ter tanta gente perto do um e ninguém ali pela dez, tem um mendigo deitado no banco acho que na altura do quinze ou será que é só um passageiro regular esta incerteza mata a gente por dentro mas que mal teria ser uma pessoa em situação de rua, hoje já não se diz mais mendigo, o problema talvez seja só se ele estiver sob o efeito de drogas mas quais porque álcool também é droga e eu não me acanho de beber o segredo é estar de estômago cheio. Depois do um vem o dois. Tenho que atravessar quarenta, uma depois da outra, será que vou por baixo ou pela passarela de cima, onde seria mais difícil armar uma emboscada. Depois da meia-lua de concreto vem o desconhecido, vai ter gente ou vai estar ermo do lado de lá, eu vou ter que ir até lá para saber, seria muita canalhice da minha parte vir até aqui só pra perder o bonde agora. Sacar o celular de dentro do cós da calça para checar a hora é menos pior ou pior que tirá-lo depois de girar o fecho dourado da bolsa marrom que imita o couro das alpargatas caricatas com que imagino toda esta gente bebendo um mate olhando pro campo e dizendo bah amanhã de manhã quando acordar para me distrair de ter medo agora que ainda é de noite? É que tem o da rodoviária e o terminal tur, mas o que é que custava eu ter descoberto isso um pouco antes de chamar aquela moça da uber, que bom que pelo menos era uma moça, precisava ter uma história tão mirabolante com separação e adoção para me contar, é sempre esta ideia frustrada de prosperidade que levou a uma conjunção de fatores, será que esta lógica também se aplicará a mim um dia, eu estou aqui fazendo isto mas estive bem perto de não precisar, e que seguro de vida me protegeria de caminhar com essa mala em sol a pino de um ponto a outro entre estes dois hotéis expresses que eu nem sabia que eram dois, as mulheres hoje em dia andam sendo violentadas e esquartejadas por muito menos, pior é que eu é que errei o ponto de chegada e agora uber nenhum vai aceitar uma corrida de duzentos metros o jeito é enfrentá-los pé por pé. E que secura na garganta me dá ter tanta coragem de só ir andando entre o hotel errado e o certo, entre a porta vigiada e a noite escura, mais quarenta plataformas rodoviária adentro, por dentro, adentro não, afora, o movimento de uma flor que desabrocha com cheirinho de diesel e a poeira velha do asfalto, as janelas coladas que não abrem para sentir brisa nenhuma, afora depois de adentrar, fora estou eu, só se for da casinha, estou bem longe da minha casinha mesmo, Porto Alegre é longe como avisou aquela bandinha, ouço as rodinhas do pensamento saltitarem apressadas assim nem parece que eu ainda vou ter que esperar por hora e meia até dar a minha de embarcar. Santana do Livramento, plataforma quarenta e dois. Cama-leito, poltrona seis. Prefixo zero meia dois três. Nove horas depois das onze mas onze não era até ontem um cardinal que vem depois do nove, ah não, são nove de viagem e o onze é de ser pontual, acho que às vezes os números se embaralham de propósito só para me ver catá-los e recompô-los no pulso desse relógio parado que eu uso só pra bonito, como é que estes motoristas fazem para viajar a noite inteira sem adormecer eu acho que prefiro não saber, eles também fazem isso meio fantasiados. Faz um pouco de frio mas não o suficiente para este casaco que trouxe amarrado na cintura, nem para me cobrir com esta manta que veio dentro do saquinho de plástico, que mimo este travesseiro, parece de criança pequena, vou me cobrir assim mesmo porque aconchega, e além do mais em breve este ar condicionado talvez nos dê lufadas de ar denso que não circula direito e uma atmosfera de frigorífico. Quem é este cavalo de homem que comprou a poltrona da janela de última hora e agora fechou a cortininha, se ele tirar os tênis eu tiro também, é claro que ele vai tirar, quem tem pudor com chulé com estranho não tendo no uso à vista de um cabelinho liso e engordurado destes, devo fazer amizade ou fazer a misteriosa, devo ser solícita ou solicitada, certamente a misteriosa e apenas solicitada, nunca se sabe quem está aqui pela muamba e se a muamba é animada ou inanimada, será que cogitar que me retalhariam por um rim no mercado negro é ter autoestima demais ou meus rins em muita alta conta se bem que ultimamente eu até tenho bebido bastante água, quanto é que se paga por um rim meio hidratado, nestas próximas horas não vou tomar quase nada para não ter que usar um banheiro em movimento, eu não quero saber de mais nada porque vai dar tudo certo, de algum modo confio que esta cream cracker em farelos que me foi gentilmente entregue pelas mãos do funcionário da viação ouro e prata há de me salvar, como um amuleto, imagina dar o nome de um filho de Vespasiano, vou dar um jeito de dormir agora e de manhã eu ligo de novo o cérebro e o contador.